A Contrapsicologia do Concurseiro ou Por uma contracultura dos concursos públicos.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

a Paul Goodman e suas obras

“Growing Up Absurd” e “Compulsory miseducation”:

profecias da deseducação na contemporaneidade.


Acabo de ser convocado a ocupar um cargo após ser classificado em um concurso público. Após mais de um ano de espera, surgiu uma vaga para cadastro reserva. Enquanto eu esperava, realizei outros concursos públicos, sendo classificado em outros, e continuei tocando minha vida, realizando outras atividades profissionais, acadêmicas e pessoais. EU NÃO PAREI MINHA VIDA PARA ESTUDAR PARA CONCURSO PÚBLICO.

Como psicólogo clínico, atendo todo tipo de caso que chega até mim. Uma das questões que estão mais recorrentes na clínica é a questão do desemprego. Já atendi pessoas que foram demitidas e estavam a um ano desempregadas, o que repercutia na vida amorosa e na relação familiar. Já atendi recém formados que estavam atuando na iniciativa privada com medo da instabilidade de ser demitido a qualquer momento, e que tinha um companheiro que estava desempregado, o que afetava sua vida pessoal e afetiva. Atendi pessoas que estão desempregadas a 5 anos, que tinha escolhido cuidar da família, e se dedicar a concurso público visando maior estabilidade financeira, ficando na dependência de parentes que, por estarei sustentando, exigiam coisas em troca. Já atendi donas de casa casadas a quase 30 anos, que não tinham expectativa nenhuma de mudança e permanecia em um relacionamento arruinado por não ter como se sustentar economicamente. Já atendi pessoas que, por ter um diagnóstico psiquiátrico (questionável, no meu ponto de vista), acreditava ser incapaz de trabalhar.
Todos esses casos, com suas particularidades, trazem a questão econômica como elemento que interfere na dinâmica relacional e na auto-estima. Estar desempregado traz uma condição de dependência muitas vezes paralisante, quando não regressiva, do desenvolvimento natural. O desenvolvimento natural do ser humano é ir em busca de sua auto-realização. Parte desse processo implica no CAMINHAR COM AS PRÓPRIAS PERNAS, desenvolver o auto-suporte, ir atrás de seus objetivos e satisfazer suas necessidades.
Segundo Abraham Maslow, teórico humanista, clássico da Psicologia que trata de processos motivacionais, somos todos guiados por necessidades que envolvem: 1) necessidades básicas de alimentação, sexo e segurança – que visam a manutenção do indivíduo e da espécie humana; 2) necessidades sociais de reconhecimento e afeto, de ser valorizado pelo trabalho e ações que desenvolvemos na relação com o outro e 3) necessidade de auto-realização, o que inclui a realização de projetos pessoais, que por vezes envolve uma dimensão transcendente que inclui o desenvolvimento cultural, artístico e/ou espiritual.
Na clínica, no caso de pessoas desempregadas, e, em especial, no caso dos concurseiros, me deparo com pessoas que estão presas às necessidades básicas. Desempregadas, tem incerta a garantia do auto-suporte, por lha faltar condições de suprir suas necessidades fundamentais de sobrevivência. Dependem do outro para comer, ter uma casa para morar, ou se submetem a formas insuficientes de relação, por ainda ter um pouco de sexo, que lhes dão a sensação de ser amado/a.
(Essa questão do sexo como necessidade primária ou segundária é polêmica e creio que não dá para discutir aqui, pois envolve questões mais amplas que transcendem a sobrevivência da espécie e perpassa a dimensão do afeto).
Referindo-me especificamente ao concurseiro, tema desse breve artigo, percebo que sua vida está presa a uma armadilha perversa, em que cai sem se dar conta.
Vivemos numa sociedade capitalista em que o desemprego constitui um elemento estrutural NECESSÁRIO À MANUTENÇÃO DO SISTEMA.
Desde os pensadores clássicos da sociologia, em especial o Karl Marx, sabemos da importância da existência do exército de reserva, da existência de mão-de-obra desempregada. Esse exército de desempregados equilibra a balança das relações capitalista-proletário, empregador-empregado, em favor, é claro, do capitalista. Havendo profissionais qualificados desempregados, mais mão de obra do que ofertas de emprego, o empregador tem maior poder de manipulação e controle sobre seus empregados pois se um empregado se insurgir contra ele, haverão pelo menos uns 10 para substituí-lo. Assim, salários baixos e contratos precários se tornaram um elemento comum nos modos de relação de trabalho submetidos ao modelo econômico neoliberal. A livre negociação na verdade fala do livre pechinchar do empregador em relação ao valor do trabalho do empregado. Quem não se submete a isso fica desempregado.
Quando leio matérias de “especialistas” em concursos, eles sempre falar que o concurseiro deve se dedicar com afinco aos estudos, submeter-se a uma rotina rigorosa de leituras e treinamentos de provas de concursos anteriores, para se acostumar com o ritmo de uma prova de concurso. O concurseiro praticamente tem que viver para o estudo, pois esse sacrifício irá levá-lo à vitória e ao objetivo almejado: um bom salário e um emprego público com estabilidade para toda a vida.
Não vou negar que eu fico com medo, quando o salário e a estabilidade se colocam como meta de vida. O concurseiro, na maioria das vezes, coloca o concurso público como meta, e se aliena de outras dimensões de sua vida, deixa de olhar para outras necessidades fundamentais, por ter cristalizado como foco esse objetivo – que para mim me parece como que um arricar na roleta da sorte de um cacino ou fazer a fezinha na MEGA-SENA. É um jogo de sorte ou azar, e as possibilidades de ficar milionário não são tão grandes.
Folheando uma revista de grande circulação nacional que trazia como tema a febre dos concursos públicos, li uma matéria que falava da importância de manter a persistência nesse objetivo, estabelecer um foco, escolher um concurso específico e estudar para ele mesmo que ainda não tenha sido aberto o edital, criar rotinas e estratégias de estudo. Pessoas que passam 5, 7, 10 anos estudando em cursinhos de concurso. Enquanto isso, o que fazem com da vida?
Estudar para concurso não é um modo de vida natural. Poderíamos questionar o que é esse “natural” de que eu falo e repito. E eu digo: natural é respirar, comer, desejar, amar, viver, sentir, ter prazer e dor, seguir o fluxo da vida aproveitando cada momento e cada oportunidade de ser feliz com intensidade. Tudo isso que parece tão poético e utópico, faz parte da vida e acontece a cada momento, se nos damos conta de quem somos, de quais as nossas REAIS NECESSIDADES e de como podemos interagir com o mundo para satisfazê-las. Mergulhados em objetos cristalizados ficamos bitolados, obsessivos com uma meta artificial que, quando alcançada, a conquista perde todo o sentido.
Muitos concurseiros fazem concursos buscando uma estabilidade que não existe. A vida, em si, segue um fluxo contrário à estailidade. A vida é instabilidade e desequilíbrio, e isso nos movimenta, isso dá sentido a nossa existência. Parar a vida para perseguir um objetivo é cristalizar o movimento dinâmico de nossa existência, se estabilizar num movimento obsessivo, repetitivo, pouco criativo, é seguir regras e modos ditados por especialistas que, muitas vezes, não praticam o que pregam e ensinam. “Façam o que eu digo, mas não o que eu faço”.
Os especialistas em concurso público estão lucrando com o sonho de estabilidade de concurseiro. Vendem seus livros de auto-ajuda, suas metodologias de estudo e suas estratégias de como vencer. Vendem, e com toda a razão! Eles conseguem manipular o sistema capitalista a seu favor. Conseguem extrair do sistema perverso o seu ganha pão e sua fortuna, explorando a miséria alheia. E não estão errados! Estão certíssimos pois isso é o esperado e é o necessário para que o sistema continue funcionando sob suas próprias leis de exploração, submissão e tirania.
Nós, psicólogos, também nos valemos desse sistema. Nossos consultórios se enchem de pessoas frustradas com a própria vida, por estarem desempregados, por estarem lutando por um sonho, por estarem submetidos ao outro que lhe dá o sustento e o submete ao controle, e às vezes, à humilhação. Nós lucramos também com a miséria do outro e podemos alimentar os sonhos ou podemos ajudar a despertar do véu de Maia, da fantasia e da ilusão. Mas às vezes o concurseiro está tão adaptado ao “ser concurseiro”, tão bitolado às engrenagem da máquina capitalista, tão conformado a esse papel e esse lugar no mundo, que a tarefa torna-se quase impossível.
Nós, psicólogos, temos uma função de agir na contramão. Somos do contra, pois nossa função é resgatar a humanidade do homem submetido à alienação. Precisamos frustrar os sonhos para criar outros, mais naturais e autênticos. Precisamos desmistificar o que está dado, para que a realidade se mostre em sua riqueza de possibilidades. Precisamos ensinar o outro a acreditar em suas potencialidades e em sua capacidade de transformar sua realidade de forma ativa.
Estar na posição de concurseiro e esperar que a solução de seus problemas venham com a aprovação de um concurso público. Esperam a estabilidade antinatural da vida, a riqueza que proporciona a solução de todos os problemas, a via para conquistar o futuro. O futuro, no entanto, se dá a cada momento, nesse aqui-agora em que a vida é vivida, ou desperdiçada.
Não é raro que pessoas passem em concursos públicos aplicando o mínimo de esforço. Algum esforço é necessário, mas não precisa ser o esforço que leva à exaustão. Deparo-me com clientes que já não tem força para estudar, tamanho é o estresse e a pressão que aplica sobre si mesmo. O mesmo eu vi colegas meus que perderam nos exames de vestibular, por estudarem até o choro. Tamanho sofrimento não traz resultados positivos, só reduz a confiança em si mesmo, em sua capacidade de conquistar seus sonhos, abalando sua auto-imagem e auto-estima. Pra que isso tudo?
Não desmereço o sonho da estabilidade e do concurso público como uma via para alcançar esse fim, entretanto ele NÃO É A ÚNICA VIA. Durante o tempo em que eu fiz concurso público me dediquei a outras atividades paralelas. Essas atividades são portas que me permitiam ter um retorno financeiro mínimo necessário, manter contatos com outras pessoas, ampliar meu conhecimento e minha rede de relações sociais – o que os especialistas chamam de “networking”. Essas vias outras me permitiram reduzir a ansiedade para fazer o concurso público e me permitiu olhar de forma ampla para o mundo a minha volta. SE FIXAMOS UM ÚNICO FOCO, DEIXAMOS DE OLHAR PARA AS OUTRAS POSSIBILIDADES QUE EXISTEM A NOSSA VOLTA.
A lógica atual nos convoca a ser profissional ecléticos, versáteis, polivalentes. Por um lado há algo de perverso nisso, que nos obriga a ser pau pra toda obra. Por outro lado nos convoca a ter uma visão do todo, ampla, a servos flexíveis e dinâmicos. A estabilidade aspirada no concurso público nos convoca para o caminho oposto. Nos convoca para a estagnação, a rigidez, o conformismo, a acomodação. A lógica da polivalência é perversa e é a radicalização da proposta neoliberal, no entanto dá margem para escolhermos caminhos múltiplos que podem nos levar à auto-realização. O modelo do serviço público nos convoca ao entrincheiramento, ao estreitamento das nossas potencialidades.
É claro que ter estabilidade e ter um rendimento fixo garantido todo o mês nos permite realizar outras coisas, concretizar sonhos e alcançar nossa realização a médio e longo prazo. Para quem não se entrincheira e vê o emprego como meio para se alcançar um fim, isso funciona como impulsionador. Entretanto, o que venho observando com freqüência é o concurso público convertido em fim em si mesmo. Estudar copiosamente tendo como fim passar no concurso público. As posições, a meu ver, se invertem em escala de valores.
Não desmereço os esforços dos concurseiros, mas proponho uma reflexão crítica sobre essa posição, esse lugar no mundo. Passar num concurso não deve ser o fim, mas o meio. E nesse meio, outros caminhos podem ser trilhados em paralelo, concomitantemente. E, nessas trilhas, se pode encontrar outros caminhos que levem ao mesmo fim, a auto-realização, ao empreender a própria vida com mais liberdade, flexibilidade e autonomia.
Em tempos de crise tendemos a radicalizar posições e criar fórmulas mágicas que nos dão uma certa estabilidade em relação ao mundo. Se busca a estabilidade no que é instável, fluido e incerto. A lógica do concurso público segue essa perspectiva. Se tornar funcionário público, no entanto, não é sinônimo de realização de todos os problemas, nem a garantia de estabilidade para a vida inteira. Trata-se de um mito, uma ficção, um delírio, com uma dimensão concreta de realidade, mas também cheia de fantasias.
Precisamos aprender a lidar com o tempo das pequenas construções, das pequenas coisas e dos pequenos encantamentos da vida. A vida não para de caminhar em seu ritmo. E seu ritmo é lento. Nós, no entanto, nos agoniamos e agonizamos no desejo de concretizar todos os nossos sonhos em um curto espaço de tempo, esperando que as coisas se dêem a nós.
A vida também caminha numa velocidade frenética, passa por nós e, quando menos pensamos, já perdemos toda a nossa vida, que poderia ter sido vivida com intensidade, com prazer e alegria de viver. Nos damos conta disso quando acordamos de um sonho, quando despertamos para o tempo perdido por persistirmos num caminho em círculos que não leva a lugar nenhum.
Precisamos aprender a estar a caminho sempre andando, e nos arriscarmos um pouco, seguindo nossa intuição ou nossos desejos. O caminho não precisa ser penoso, como um calvário, nem precisa ser “a insustentável leveza do ser”. O caminho do meio, como diz os orientais, talvez seja o caminho. O caminho que vê todas as possibilidades e segue seu ritmo natural de realização.
Sempre tenha um plano A, B, C, D, E… e sempre esteja aberto ao novo que emerge a cada momento enquanto possibilidade que se abre. Não se fixe numa única meta, num fim em si mesmo. Encontre o seu caminho nos vários meios e vários fins, e preste atenção para os caminhos, trilhas e atalhos que a vida te apresenta.
Para os concurseiros jovens, não tenham pressa. Para os mais velhos, não percam as esperanças e não creiam que já não resta outra alternativa. Sempre haverá alternativas. Sempre haverá possibilidades de escolher diferente. Para os donos de cursinhos e “especialistas”, cuidado com os paraísos artificiais que constroem, e cuidado com os caminhos pedregosos que apontam como via. Há vias possíveis de ser caminhadas sem se destruir no percurso.

É isso. Não me considero nem me considerei em momento nenhum “concurseiro”. Para mim, ser concurseiro não é uma ocupação, nem se deve contentar com esse modo de estar no mundo, mesmo que provisoriamente. Não parei minha vida, e busquei caminhos alternativos. Abrir mão desses caminhos, hoje, se constitue um dilema muito grande. Não abro mão, no entanto, de meus sonhos e de minha liberdade. Posso escolher entre todas as possibilidades que se mostram para mim, incluindo o serviço público como uma dessas possibilidades, sem coloca-la acima ou como melhor que as outras.
Fazer escolhas é exercer minha liberdade. Sou responsável pelas minhas decisões, e isso me faz uma pessoa que caminha com as próprias pernas. Se eu cair, me levanto. Se eu me perder, me encontro. E nesse caminho me construo diariamente, em meu caminhar.
Boa sorte a todos os que lutam por seus sonhos com os pés no chão, conscientes de si, de sua realidade e de suas necessidades. Sabendo sempre que a vida é um movimento que não deve parar.

O Caminho do pensamento

O CAMINHO DO PENSAMENTO:
DO PENSAR ORIGINÁRIO À ERA DA TÉCNICA

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Resumo: O presente artigo trata do caminho do pensamento de Heidegger, que parte do diálogo com os pensadores originários até a compreensão do destino histórico da filosofia, que culmina na era da técnica. Busca-se compreender a diferença entre o pensamento originário e o pensamento filosófico e o exercício de pensar de Heidegger, no diálogo com os primeiros pensadores, pensando as possibilidades – e impossibilidades – do pensamento na atualidade. Ao refletir sobre ainda não pensarmos, Heidegger traz a questão do mundo da técnica e suas repercussões na ciência, que não pensa, segundo o modo de pensar essencial.
Palavras-chave: Heidegger, Pensamento, Técnica, Ciência.

Heidegger é um pensador que nos convida a pensar a tradição e a modernidade. Ao pensar a filosofia, Heidegger nos mostra seu surgimento, que apontar para esquecimento do pensamento que pensa essencialmente, do pensamento originário dos primeiros pensadores gregos, que pensam em correspondência com o Logos. Pensar em correspondência com o Logos é pensar a totalidade, Pánta tà ónta, “Tudo é Um”. Esse modo de pensar pensa a integração entre a tensão de opostos, pensa o vigente em sua vigência, pensar o ser-sendo, a correspondência intima entre essência e existência.
Esse pensamento que pensa a totalidade, não parte de dicotomias, mas da visão que integra as diferenças e as compreende como uma unidade de relação e interdependência, unidade que integra tudo em sua diversidade, o claro e o escuro, o dia e a noite, o céu e a terra, os mortais e os deuses, nas várias possibilidades de manifestação do ser que é, como partes interconectadas de um todo, como múltiplas dimensões do acontecer do fenômeno em seu acontecimento. Esse pensamento pensa o extraordinário no ordinário, através da espera do inesperado, da revelação do mistério.
Essa forma de pensamento originário foi esquecida ao longo da história o Ocidente, que se inicia com o surgimento da filosofia, fundada com Sócrates e Platão, a partir da de-cisão de pensar por meio do questionamento Ti to on – “que é o ente?”. Esse modo de pensar filosofico surge do espanto, do espanto se distancia, enquanto condição fundamental, ao longo de seu curso historial, recaindo sobre a busca pela verdade como certeza que visa o asseguramento do mundo pelo homem, na vigência da técnica e do método que visa conhecer e controlar o mundo, reduzido este a um mundo de objetos. A partir destino historial da filosofia, Heidegger pensa a modernidade.
O questionamento que funda a filosofia instala a diferença entre ser e ente, e converte o pensamento em metafísica. O desenvolvimento da filosofia, como metafísica, levou ao esquecimento do pensamento do ser, dirigido-se ao questionamento sobre o ente. Essa forma de pensar que separa ser e ente e que não pensa a identidade no seio da diferença, rejeita o pensamento dos primeiros pensadores, colocando-o na obscuridade, à margem da História e da tradição filosófica. Assim, o pensamento é obscurecido em seu brilho originário, ofuscado pela vigência da razão, da luz da racionalidade que tudo ilumina e tudo encobre.
O modo de pensar filosófico pensa o ente substantivado, que se distância do ser-sendo, do devir e do vir-a-ser, que é o mistério da vida, a Physis enquanto manifestação, e busca eliminar a incerteza, através da razão que a tudo converte em objeto passível de ser analisado e explicado, que tudo sabe, que tudo ordena e controla. Nessa perspectiva, a filosofia se converte na tirania da razão sobre o pensamento.
No pensamento originário se pensa a Physis, a vida em sua vitalidade, Universo em seu vigor de totalidade que diz – Tudo é Um. A obscuridade que hoje envolve o pensamento originário, que pensa essa totalidade, se dá pelo silenciar da Linguagem que tudo une. O estranhamento atual que o pensamento originário desperta se dá pela distância, não meramente cronológica, mas pelo esquecimento, como destino dessa conjuntura vigente que vigora desde os gregos. Esse destino diz também da insensibilização do homem atual ao apelo do Logos, da perda do sentido capaz de ouvir e ver o mistério que se manifesta na simplicidade, e diz também da alienação do homem em relação a sua própria humanidade .
A linguagem do Logos fala do vigor do nascimento como mistério. O mistério fala do simples, do singelo, das coisas que estão próximas, da vida em sua manifestação a cada momento. O simples que tudo engloba e que tudo é. Na era da técnica e do metafísica, o nascimento se torna fato banal, cotidiano e corriqueiro, controlado pelos aparatos tecnológicos e pelo saber que mede, explica e planeja, calcados na linguagem da ciência.
Os poucos fragmentos que nos restam dos primeiros pensadores nos chega na obscuridade, pois o vigor de seu pensamento se retraiu para dar lugar ao modo de pensar da metafísica, que se desdobra em múltiplos caminhos, na religião, na arte e na ciência, na vida cotidiana e no senso comum, criando um mundo em que os deuses se retiraram e o homem é colocado como centro. A ciência, talvez a máxima expressão do destino da filosofia enquanto metafísica, não compreende o pensamento dos primeiros pensadores, pois na luz de seu modo de vigência, não há lugar para o mistério que pensa a totalidade. A ciência substitui a linguagem do Logos pela linguagem do metafísica, substitui a medida divina, entre céu e terra, pela medida da régua e esquadro, pelo cálculo que converte a terra em matéria-prima de suas realizações.
O surgimento da filosofia se dá na decadência do pensamento. Com a decadência do pensamento que pensa em correspondência com o Logos, já não mais pensamos, filosofamos, reproduzimos um modo de pensar que se funda nos alicerces da metafísica, no edifício das categorias explicativas que buscam apreender a realidade nos fatos, cristalizando-os, quantificando-os e criamos sistemas.
O pensamento que pensa em correspondência com o Logos, não é o pensamento de um homem, do pensador, mas é pensamento enquanto caminho do ser, o pensamento que pensa de forma essencial, que pensa o fundamento e a verdade a partir da ausculta, da visão e da vivência, da experiência. A de-cisão pela filosofia foi uma de-cisão contra o pensamento, embora o filosofar não tenha abandonado de todo o pensar, optando pelo caminho da metafísica. O pensamento originário apenas se recolhe, nas sombras da vigência da conjuntura da metafísica.
Pensar originário é recolhimento, é colheita, é pensamento que conserva o brilho originário das coisas, que permanece, embora mudo, como fundo e moldura da atual conjuntura, como potência latente que se encobre e recobre. O descobrir da ciência encobre a essência vigorante no pensamento originário.
O que nos chega dos pensadores originários, em fragmentos, frases e palavras, nos chega como mensagem cifrada, como linguagem cujo sentido se retraiu, como sentença oracular, que, no entanto, não perdeu o seu vigor. Essa linguagem fala do mistério de modo essencial, como Logos, Physis, Aletheia, fala pelas palavras fundamentais que tudo recolhem e a tudo se dirige, que tudo cobre e ilumina, e nunca se deita. Tais palavras não são mera expressão do arbítrio do homem, mas falam do que é duradouro, do que é vigência, do que é eterno. Falam da eternidade do homem e dos deuses, do céu e da terra. Essa fala adquire sentido como apelo ao homem. Esse homem, no entanto, não é o autor desse pensar. Essa fala é a fala do Logos, que atravessa o homem e o envolve. É também fala do recolhimento, do retraimento de um modo de vigência que já vigorou e hoje se recolhe, embora continue a perdurar em seu modo de realizar-se. A mensagem cifrada dos primeiros pensadores vem como manifestação do Logos, no encontro do pensador com a Linguagem, através da abertura ao dizer essencial.
A mensagem do Logos, as palavras fundamentais dos pensadores, não se dá a compreender de forma imediata, numa tradução literal. O pensador que se põe a caminho do pensamento, carece de um esforço hermenêutico de inter-pretação, que é, em si, um pensar de um encontro que se dá no “entre”, nos dês-velamentos e desdobramentos de cada palavra em seus múltiplos sentidos, num modo de caminhar rigoroso, tentando tocar o pensamento que não tem leis, mas segue o modo de ser essencial, o ordenamento cósmico, no movimento Universo da totalidade. Esse “entre” se dá num ir e vir, de aproximação e distanciamento, requer um tempo de espera, um exercício de reflexão que só vem no demorar-se junto às coisas, com atenção que acompanha o ciclo de plantil e colheita, que cultiva e resguarda. Esse pensar é um pensar paciente, que acompanha o encobrir e o descobrir, o velar e o desvelar, o movimento que traz e afasta, que busca o igual no diverso.
Heidegger nos convida a refletir sobre o vigor desse pensamento que é Linguagem, e que traz em si uma atualidade que nos dá sinais de nosso caminho historial, marcado pelo esquecimento. Esquecimento do que há de essencial na relação do homem no mundo, em sua morada, em seu modo de ser que constrói e habita poeticamente. O que nos chega do pensamento originário, como mensagem, no mistério que nos faz estranhamento, e na distância do tempo, nos remete ao próximo e familiar, apontando para um vigor do que ainda vigora, mas que não nos damos conta, por estarmos dispersos, imersos numa conjuntura que nos chama para o imediato e para o útil, que busca o asseguramento da verdade enquanto certeza, sustenta na técnica, no método, na razão analítica que tudo separa.
O pensamento originário pensa o céu, a lua e as estrelas num mesmo firmamento, no vigor que perduram a muito mais de dois mil e quinhentos anos, mantendo o enquadre de nossa existência na Terra. O pensamento originário fala do ciclo da vida, do nascimento à da morte, ciclo que continua a vigorar no homem, nos animais, nas plantas e em tudo o que é vivo – Physis. O pensamento originário fala das sucessões das estações, do plantil e da colheita, do tempo de semear e do tempo da espera, que até hoje segue seu caminho na mão do camponês. O pensamento originário nos diz da vida vivida em sua vitalidade, nos fala da mortalidade dos mortais, da divindade dos deuses, da temporalidade do tempo, que envolve a apropriação do acontecimento em seu acontecer, do som dos sinos, que marca a permanência e a impermanência.
No resguardo que traz o sentido originário do Logos, a verdade do pensamento é verdade como Alétheia, como velamento e desvelamento que se enuncia no que se dá. Esse pensar integra, em sua verdade, o ser do homem no mundo, compreendendo-o em seu habitar sobre a terra, como parte conectada com o todo, em conexão intima com o sagrado, com a terra e o céu, na quadratura que só vigora na presença dos quatro elementos. Esse homem, no vigor do pensamento originário, é homologein, está em consonância com a verdade do logos, é receptáculo da mensagem e sinal que aponta o sentido do pensar as coisas em seu vigor de manifestação. O homem como sinal é, se move no movimento do velar e desvelar, quando se abre ou se fecha para o ver e ouvir a voz do Logos. O homem, em seu caminhar, está sempre a caminho. Vigora em seu movimento, envolve a terra com o olhar e por ela é envolvido. Imerso na metafísica, no entanto, tem seus olhos e ouvidos turvos pelo barulho e pela fumaça dos conceitos e das certezas, pelas máquinas que medem e consomem a terra, construindo paisagens artificiais.
Heidegger nos aponta para o esquecimento do ser e desse modo originário de ser do homem, em correspondência com o Logos. O que nos chega hoje com estranhamento, dos fragmentos do pensamento originário, nos chega a partir de nosso modo de ver as coisas a partir de esquemas, dentro do modo de pensar da metafísica, que não pensa a unidade e o pertencimento, mas a dicotomia e a diferença que nos separa do mundo e das coisas, que nos apreende em conceitos e categorias. Esse modo de pensar congela e retrai o vigor e o brilho do pensamento originário, que nos fala através de palavras fundamentais, que longe de se configurarem como definições e conceitos, são aberturas para o pensar que pensar em conjunto, em conexão, que agrega e congrega, que fala da comunidade do homem com a terra, os astros e as divindades. Cada palavra fundamental traz conexões que dizem da essência do ser. Esquecidos desse modo de pensar, essas palavras, frases e fragmentos, nos chegam na obscuridade do que, sendo brilho luminoso, se retraiu, na cegueira de nosso tempo, que não vislumbra o extraordinário no ordinário, que sempre anseia pelo novo, para o interessante que é descartável, que não perdura, que é fugidio.
O mundo da técnica segue o ritmo dos relógios, das auto-estradas, da moda, do efêmero. Seu ritmo faz do homem um coração-máquina, que pulsa sob o ritmo da racionalidade mecânica, que tudo enquadra na conjuntura de um modo de compreender as coisas através de conexões causais lineares. O mundo da técnica converte o homem em um autômato, que não pensa, calcula, que não sonha, esquematiza, que não sente a vida em sua vitalidade e mistério, mergulhando no tédio do previsível.
O pensamento dos primeiros pensadores, nos faz pensar nossa própria conjuntura e o modo de ser do homem atual que vive o mundo na era da técnica. Pensar com os pensadores originários é entrar em diálogo com um modo de pensar que nos dá a pensar, embora esse pensar se manifeste como uma questão em si mesma. Pensar o pensamento nos mostra o caminho de nossa história enquanto civilização, chegando até o modo de ser do homem atual que ainda não pensa. O modo de ser do homem atual, regido pela vigência da metafísica, da técnica, não pensa o pensamento. O homem desaprendeu a pensar, por ter abortado o pensamento em seu princípio, por ter se esquecido dos princípios do pensamento originário, que se dá na escuta e correspondência com o Logos, na proximidade com as coisas, na atitude de interesse que reúne e acolhe o vigente em sua vigencia.
Educado numa forma de relação marcada pela distância das coisas, num modo de pensar que pensa através de dicotomias, que separado o homem do mundo, colocando-o como sujeito diante de um mundo objetivado, convertido em objeto, a fim de dele se apoderar, controlar e destruir, o homem não pensa. Sua relação não é mais a de correspondência, mas de diferenciação que busca se afastar da Terra, reduzindo-a a matéria-prima, substrato sobre a qual exerce controle e busca assegurar e assenhorar-se. Esse modo de pensar se dirige para o controle, para a exploração, para a transformação predatória do mundo, visando retirar o máximo de seu potencial, que visa acumular excedente, e nesse sentido é um pensar que não pensa, que se volta para a repetição e reprodução compulsiva. Nesse modo de vigorar, o homem moderno não se move pela necessidade, mas pelo excesso, pelo acúmulo, pela desmesura, na hybris. O que antes era visto pelo homem grego como algo a se pensar e cultivar, a justa medida, a constância, tendo como medida a sua relação com céu, terra e imortais, hoje encontra-se eclipsado pela cegueira do homem que vê a si como medida das coisas e perde a noção de seus limites. Esse modo de ser fala do vigorar de nosso tempo atual, e aponta para o destino do homem.
Esse homem que tudo quer e controla, que segue segundo uma racionalidade objetivante, na ânsia de asseguramente, perde o enquadre de sua própria identidade. Submete a si mesmo, ao próprio homem à medida da obsjetividade objetivadora, perdendo o próprio movimento de vir a ser, negando sua mortalidade, tentando se eternizar em suas realizações. Busca a imortalidade dos deuses, não vive a vida com vitalidade. O homem se vê escravo de sua própria racionalidade, alheio a si e ao mundo que constrói, convertido em mais um objeto. O pensamento originário, ao pensar de modo integrador, resguarda o lugar do homem, como parte do todo e como totalidade. Resguarda a humanidade do homem ao resguardar a vigência de cada vigente e sua identidade na diferença. Resguarda a incerteza, e com ela a liberdade de toda possibilidade.
É importante compreender que a atual conjuntura, regida pela técnica e pela ciência, regida pela tradição metafísica, não anula a dimensão originária do pensamento dos primeiros pensadores. Ambos coexistem em um processo de velamento-desvelamento, de encobrimento que descobre, de descobrimento que enconbre. Nesse movimento, o pensamento originário se faz presente enquanto mensagem e abertura para o emergir do um modo essencial de pensar o ser no mundo. Ao se por a caminho do o pensamento originário, hoje, no vigor da era da técnica, é possível resgatar, senão o sentido original da mensagem, ao menos um modo que nos faz pensar o ontem, o hoje e o amanhã. Olhando para a tradição e para o destino do homem desde os gregos, partindo de um vigorar mais próximo do vigor essencial, podemos intuir nossa própria época e nosso destino. Vislumbrando o destino de tempo, do vigor da metafísica e da técnica, podemos, nos pondo a caminho do pensamento, desvelar outras possibilidades de ser homem no mundo. Partindo do desvelamento do velado, podemos zelar pelo que perdura, acolher o que se oferece, e cuidar.
Ao olhar e ouvir o vigor do pensamento dos gregos, auscultando a mensagem do Logos, podemos nos encontrar no Universal. Esse encontro pode nos ajudar a pensar nossa época e nosso ser, despertando para o estranhamento do que nos parece banal e cotiadiano, nos levando a pensar o momento atual e visar uma nova compreensão do homem e do mundo, a partir de uma perspectiva que resguarda a identidade na diferença. É a tensão hermenêutica que torna possível ver a atualidade do pensamento originário, em seu vigor, ainda vigorando, e que nos conecta, em nosso modo de vigência atual, à tradição. Assim, o que estava esquecido e encoberto, posto a margem da história, nos escritos dos primeiros pensandores, que nos chegam como mensagem oracular, nos pode falar com intimidade, por des-velar nosso destino, nos reconectando ao tempo e à história, que não é constituída apenas por fatos, mas pelo destino de um pensamento des-encobridor.
No pôr-se a caminho do pensamento, sem leis e sem objetivos traçados a priori, nos abrimos para o caminho do essencial que nos envolve e nos direciona o destino. Heidegger nos fala do caminho do campo que se abre em trilhas pela mata. Seu pensar a partir do pensamento do pensadores originários já é, em si mesmo, um caminho a se pensar, um caminho de pensamento. O pensamento como esse, é caminho que se dá envolvido pelo vigor do Logos, da unidade do tudo, atento, paciente, silencioso. Nos caminhos desse pensar, é possível encontrar o homem que somos, e pensar caminho, sendo nós mesmos um caminho e um destino a se realizar. Esse caminho do pensamento é um destinar-se, e se abre no exercício cotidiano do pensamento, no voltar-se para as coisas com atenção, deixando que elas vigorem em seu acontecer, permitindo que a vida seja acontecimento no experienciar. É caminhar deixando o caminho se fazer no caminhar.
Voltando-se ao pensamento originário, é possível olhar com maior lucidez para o momento presente, para nossa época, para o modo de viver do homem, para nossa conexão com o mundo. Nessa lucidez, podemos perder as esperanças ao nos defrontarmos com uma história da humanidade que aparentemente se deu na desconexão do homem com o mundo, num movimento de destruição e reificação de tudo e todos. É possível, no entanto, compreender que esse destino foi o caminho possível que se realizou, nas realizações do homem em sua forma de relacionar-se com o mundo, na sua forma possível de correspondência com seu destino.
Diante da luz da lua, em sua luminescência, o homem se pôs a desejar as alturas, a ansiar por outros mundos, projetou-se para fora de si, cobrindo o real com seus projetos, realizando seu salto no espaço. Contemplando uma paisagem, pôde planejar e construir cidades, utilizando-se da ciência, dos cálculos, das medidas, construindo o modo de viver em comunidade, criando cultura, transmitindo a tradição e transformando a physis através da técnica. Esse servir-se da terra, em seu modo de vigorar, foi um cultivo, uma construção, uma criação, um habitar. Através da metafísica o homem pode sair de si e projetar-se, imortalizar-se em suas obras. Através dos instrumentos da técnica o homem construiu seus projetos e realizou-se nas obras. Com o pensamento, o homem traça os caminhos do destinar-se, integrando céu e terra, mortais e imortais, passado-presente-futuro. A metafísica, a técnica e o pensamento não são, em si, deliberação do homem, mas destino da humanidade e o pensamento originário traz o gérmen desse destino, seja como mensagem orácular, seja presságio, seja como apercepção do óbvio que ninguém se põe a observar.
Heidegger, ao pensar o pensamento originário, a tradição e a modernidade, integra, em seu caminhar que reflete, um olhar e uma escuta conectando esses três elementos como destino da humanidade. Humanidade pensada de forma essencial, vige no não pensar, embora atravessada pelo ser-sendo em sua vigência. A História da humanidade traz a história do esquecimento da questão do ser, mas o ser continua a se dar nas realizações, no acontecer, que segue seu caminho mesmo na cegueira, nas sombras, no encobrimento. Heidegger põe o esquecimento do ser como questão, que é a própria questão do ser do homem, um ser-sendo que se realiza nas realizações, no trabalho, no construir e habitar, como ente entre os entes, como ser a caminho. Sua posição como pensador que pensa a essência é a de um pensamento que integra presente-passado-futuro, o homem atual e o homem grego, no que lhes há de comum – o destino do ser da humanidade. Heidegger se mantem fiel à questão do ser, desdobrando seu pensamento em suas múltiplas possibilidades de compreensão, abrindo trilhas que se interconectam, não sendo possível dissociar um texto do outro, o que permite ao leitor adentrar cada vez mais no caminho de seu pensar, que tende à abertura e à ampliação da clareira do pensamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CONSULTADAS:

HEIDEGGER, M. (2005) Que é isto – a filosofia? In: HEIDEGGER, M. (2005). Conferências e escritos filosóficos. São Paulo: Editora Nova Cultural Ltda. (Coleção OS PENSADORES)

HEIDEGGER, M. (1953). A questão da técnica. In: HEIDEGGER, M. (2008). Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia Sá Cavalcante Schuback. 5. Ed. Petropolis: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco.

HEIDEGGER, M. (1951). Construir, habitar, pensar. In: HEIDEGGER, M. (2008). Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia Sá Cavalcante Schuback. 5. Ed. Petropolis: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco.

HEIDEGGER, M. (1951). …Poeticamente o homem habita…. In: HEIDEGGER, M. (2008). Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia Sá Cavalcante Schuback. 5. Ed. Petropolis: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco.

HEIDEGGER, M. (1950). A coisa. In: HEIDEGGER, M. (2008). Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia Sá Cavalcante Schuback. 5. Ed. Petropolis: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco.

HEIDEGGER, M. (1952). O que quer dizer pensar? In: HEIDEGGER, M. (2008). Ensaios e conferências. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Marcia Sá Cavalcante Schuback. 5. Ed. Petropolis: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco.

HEIDEGGER, M (1977). A morada do homem. Trad. Emmanuel carneiro Leão. In: Revista de Cultura Vozes, Petropolis. Vol. LXXI, nº 4, 43-54, maio, 1977.

LEÃO, Emmanuel Carneiro (1991). Introdução. In: ANAXIMANDRO (1991). Os pensadores originários: Anaximandro, Parmenides, Heráclito. Petrópolis, RJ: Vozes.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. (2000). A técnica e o mundo do Pensamento da Terra. In: LEÃO, Emmanuel Carneiro (2000). Aprendendo a pensar. Vol II. Petropolis: Editora Vozes.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. (2000). Uma leitura órfica de uma sentença grega. In: LEÃO, Emmanuel Carneiro (2000). Aprendendo a pensar. Vol II. Petropolis: Editora Vozes.

LEÃO, Emmanuel Carneiro. (2000). Heidegger e a Modernidade: a correlação de sujeito e objeto. In: LEÃO, Emmanuel Carneiro (2000). Aprendendo a pensar. Vol II. Petropolis: Editora Vozes.
FOGEL, Gilvan. (1999). Do “coração máquina” – Ensaio de aproximação à questão da tecnologia. In: FOGEL, Gilvan. (1999) Da solidão perfeita. Petropolis, RJ: Editora Vozes.

SCHUBACK, Maria Sá Cavalcanti (2000). Em busca de uma hermenêutica imaginativa. In: SCHUBACK, Maria Sá Cavalcanti. (2000). Para ler os medievais; ensaio de hermenêutica imaginativa. Petropolis, RJ: Editora Vozes.

UNGER, Nancy Mangabeira (2000). A tiranização do real na civilização contemporânea. In: UNGER, Nancy Mangabeira (2000). O Encantamento do humano, ecologia e espiritualidade. São Paulo: Edições Loyola.

Breve consideração sobre as cores

[BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE AS CORES: Um gestalt-terapeuta falando para um estudante de propaganda]

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Fui convidado responder um questionário para um trabalho de um aluno de Publicidade e Propaganda, da UCSal. Um verdadeiro desafio, pensar sobre a questão das cores, dentro de uma visão técnica e utilitária, que ainda vê as cores como um estímulo fragmentado, ou eliciador de comportamento reações e comportamentos. Isso me lembrou os primórdios da Psicologia, com os primeiros trabalhos de percepção, os primórdios da Psicologia da Gestalt e a revolução de uma perspectiva fenomenológica e de campo, do relativismo que inclui a dimensão subjetiva e a cultura, como fatores que desconstroem a prioris e abrem as portas da percepção para o campo da possibilidade e do aqui-agora a cada momento.
Bem, sem me estender, lá vão as respostas que me deram muito prazer em responder, e me fizeram pensar um bocado. Me coloco aqui na posição de um verdadeiro ignorante sobre o tema, um leigo, porém arrisco considerações gestaltica e fenomenológica. Penso no quanto ainda desejo aprender sobre tudo, o curto-longo tempo de uma vida, para me encantar com as descobertas da Psicologia, das psicoterapias, e do mundo que se manifesta pra nós a cada instante, prenhe de possibilidades, e muito distante das leis, causalidades e generalizações.

• Quais as principais cores que causam efeitos psicológicos ao ser humano? Como e Por quê?

As cores, como estímulo ou sensação, interfere diferentemente em cada pessoa, em cada contexto ou situação em que ela se encontra. Não dá para definir a priori o efeito de uma cor sobre uma determinada pessoa, sem levar em consideração o contexto dessa cor, se é a cor da parede de um ambiente, se num quadro, se num objeto, se na roupa que é usada, etc. Estamos o tempo inteiro envolvido por cores que são elementos de um configuração – gestalt – específica. Há estudos (científicos ou não) que descreve, o efeito de cores específicas, associando-as a sensações ou emoções dela decorrentes, por exemplo: “tons quentes” (laranja, vermelho, amarelo) ligados a excitação ou estimulação (para sexo, para comer, para a inteligência, etc) e “cores frias” (azul, lilas, etc) para tranquilidade, equilíbrio, harmonia, espiritualidade. Esses significados atribuidos às cores, no entanto, não podem ser generalizados, variando para cada sujeito e tendo diferentes efeitos. Dentro de uma perspectiva gestaltica e fenomenológica, “realidade é realidade para uma consciência” e “o todo é diferente da soma das partes”, de modo que não podemos estabelecer a priori o efeito de um estímulo sem considerar seu contexto e o sujeito – com sua subjetividade – nesse inserido.

• Por que em hospitais e instituições de saúde, predominam em seu ambiente a cor branca? Esta correta a utilização dessa cor ou deveria ser substituída por alguma outra?

Creio que a predominância da cor branca seja em função da higiene do ambiente (para melhor percepção da sujeira) – mas desconfio que o seu uso seja, talvez, pelo menor custo da tinta branca. (Hehehehehe). Na minha experiência em contexto hospitalar, seja como usuário, seja trabalhando inclusiva em UTI, me deparo com ambientes clínicos e hospitalares das mais diversas cores (brancos, amarelos, verdes, rosas, etc). No hospital em que estagiei, por exemplo, houve todo um estudo realizado para que se construísse a UTI. Usou-se cor amarela nas paredes, se priorizou o uso de janelas junto aos leitos, para trazer a iluminação natural, a fim de orientar o paciente no tempo-espaço e propiciar um ambiente tranqüilo e acolhedor. Como disse na resposta anterior é uma questão de contexto e a combinação do todo do ambiente que estabelece um impacto sobre o sujeito, e esse impacto é específico para cada um, variando, por exemplo, entre um paciente acamado numa UTI e um cliente num ambulatório/consultório. Tive um cliente de psicoterapia, por exemplo, que disse que ficava angustiado com o meu antigo consultório, que era amarelo.

Existe alguma técnica, na área da Psicologia, que é utilizada para orientações da correta utilização das cores?

Não sei lhe responder com precisão sobre a existência de uma técnica – ou teoria – que oriente o uso de cores; Certamente há muitos estudos sobre as cores, desde os primórdios da Psicologia, na Filosofia, e em especial às abordagens experimentais que se dedicaram aos processos psicológicos básicos (Atenção, Memória, Inteligência, Motivação, Emoção, etc), em destaque, cito a Psicologia da Gestalt, que se dedicou ao estudo da percepção visual (por exemplo, o Rudolf Arnhein). Há usos no campo do design, da arquitetura e da comunicação, que se utilizam do conhecimento desenvolvido pela Psicologia da Gestalt e seus desdobramentos no campo das neurociências e da Psicologia Cognitiva, quando tratam da percepção de imagens subliminares ou imagens ambíguas, de noções de perspectivas, de profundidade, etc. Atualmente, creio que o uso das cores ainda se restringe ao campo da pesquisa experimental, que mantém a tradição de pesquisa de processos psicológicos básicos, mas se expande para campos da Psicologia Ambiental, Psicologia do transito, etc, que trabalham justamente com a construção dos espaços e seu impacto sobre o sujeito, com as mais diversas funções. Há certamente também alguma referencia ao uso e percepção de cores, provavelmente, com fins psicodiagnósticos, em testes ou técnicas psicológicas projetivos, entretanto, suas interpretações podem ser questionadas, se não embasadas por estudos atualizados e culturalmente contextualizados, bem como ao cuidado com o sentido e a realidade de cada sujeito específico, em sua forma de relacionar-se com o mundo.

Quanto às percepções cromáticas. Qual(is) o(s) efeito(s) gerado(s) às pessoas?

Acho que a minha resposta à pergunta 1 responde essa pergunta. Não creio que seja possível prever, a priori, o efeito de uma cor ou combinação de cores. Pode-se até encontrar certas respostas em comum, às cores, mas o sentido e o impacto vai variar de pessoa para pessoa, de acordo com a experiência atual, as experiências passadas e o repertório simbólico da pessoa e da cultura em que ela está envolvida. As cores para um paulistano são diferentes para um baiano, como para um inglês ou um esquimó.

Sabemos que as cores exercem efeitos às pessoas. Podem influenciar de maneira positiva ou negativa. Partindo desse princípio, o que a gestalterapia ou cromoterapia pode falar sobre essa afirmação?

Não sei lhe responder sobre a cromoterapia – que até onde eu saiba, não é um campo da Psicologia, mas sim uma abordagem terapêutica alternativa. Na condição de gestalt-terapeuta, como explicitado anteriormente, os efeitos positivos ou negativos das cores vão depender da configuração e do campo (contexto) de relação da pessoa com esse meio. Não há uma influencia específica, e a percepção – consciente ou inconsciente – vai variar em múltiplos aspectos, levando-se em consideração as múltiplas dimensões da pessoa (social, cultural, física, emocional, etc). As cores, em si, como feixe de luz, como estímulo visual, não exerce uma influência a priori. Sua configuração em todos, em objetos, no ambiente, na situação de interação pessoa-mundo, aí sim tem efeitos sobre a pessoa. Esse efeito, não é, em si, positivo ou negativo, mas pode ser positivo e negativo a depender da significação dada pela pessoa, em diferentes situações, de acordo com sua história de vida, de aprendizados, de relações, com a realidade que a cerca.

Quando um relacionamento chega ao fim

Luiz Fernando Calaça

O fim de um relacionamento, em geral, não é uma coisa fácil. Creio que é importante compreender o processo enquanto processo, considerando os fatores diversos que levaram a esse desfecho. Quando vemos um casal se separar, ficamos constrangidos, surpresos, desorientados, não nos dando conta de que este talvez seja a melhor maneira de se recomeçar uma nova história e seguir em frente aberto a novas possibilidades de ser feliz.

Ao longo de minha não muito longa experiência clínica, me deparo com a predominância de pessoas que vêm para a psicoterapia em função de conflitos no relacionamento. A postura adotada por elas, em geral, é de queixa em relação ao outro e pouca percepção de si, como co-responsável pelo bem estar da relação. O outro está sempre errado e eu sou sempre a vítima. Eu deixei de fazer coisas por ele ou ela, e não sou reconhecido. Eu me anulei por ele/ela.

Há conflitos ainda na fase de namoro, quando se percebe uma “incompatibilidade” de gostos, e uma dificuldade de aceitar que o outro é diferente e não corresponde a nossas expectativas, de que, na verdade, ele ou ela não me completa. Esperar que o outro me complete é a pior miséria que pode acontecer numa relação. Eu sou eu e o outro é o outro. Somos diferentes, e que bom que somos diferentes, pois assim descobrimos o novo.

Pessoas perfeccionistas se irritam com a bagunça do outro. Pessoas comunicativas se incomodam com o silencio e a pouca comunicação do outro. Pessoas monogâmicas se incomodam com a poligamia do outro. Sempre nos incomodamos com o que o outro nos trás de diferente daquilo que consideramos como nossas qualidades, não nos dando conta de que, aquilo que no outro apontamos como defeito, é justamente o que nos falta, a polaridade que não percebemos como constituinte de nós mesmos, nossa sombra, nosso eu alienado.

O outro nos mostra o que não queremos ver em nós mesmos, nossos pontos cegos. E, por não ver, nós nos batemos, entramos em conflito, nos desgastamos no atrito da tentativa de concertar o outro e transforma-lo em um alguém mais parecido com nós mesmos. Puro narcisismo!

Creio que, em geral, esse é o principal fator que leva a separação: a tentativa de transformar o outro em algo que ele não é, ou a tentativa de nos transformarmos em algo que acreditamos que o outro queira que sejamos. A existência autentica de nós mesmos e do outro, e as expectativas frustradas, por na podermos ser quem somos nem deixar o outro ser quem é.

Quanto ao próprio processo de separação, já acompanhei diversas fases desse processo, desde 1) as brigas preliminares, que envolvem a tentativa de adequação um do outro, às vezes perdendo a medida e indo para ofensas mutuas, cada um apontando o defeito do outro, uma coisa horrorosa que envolve muita mágoa e agressão; 2) as separações de corpos, em que o casal se separa e deixa de manter vínculos sexuais, podendo permanecer coabitando, tentando não se envolver diretamente um na vida do outro – o que quase nunca acontece, e sempre há algum tipo de desconforto, principalmente quando há a possibilidade de estabelecimento de novos relacionamentos; 3) a separação legal, quando há os conflitos com a partilha de bens, guarda de filhos, etc. Essas três fases – creio que talvez hajam mais – se enquadram principalmente no caso de relacionamentos no formato de casamento, em que se constrói um patrimônio, em que se divide uma vida a dois.

Tanto nos namoros como nos casamentos, há uma esperança última de se manter a relação até às ultimas conseqüências. Às vezes pelo simples desejo que permanecer numa relação, mesmo que insatisfatória, às vezes por ciúme e possessão, por não querer ver o outro livre e preferir viver um inferno a dois.

Às vezes, quando há filhos envolvidos, ou quando um dos parceiros depende financeiramente do outro, há uma tendência a se conformar com a relação insatisfatória, tendo em vista certos ganhos secundários, como a manutenção do padrão de vida, a presença dos pais na vida dos filhos e medo de os filhos ficarem “traumatizados”, etc. Assim a relação fica estagnada, numa dinâmica de prazer-desprazer, conforto-desconforto, em que algumas necessidades são satisfeitas e outras negligenciadas. O crescimento de um ou dois dos membros do casal é prejudicado, levando a um estado de infelicidade que pode durar décadas.

Qual a solução para essa situação? Às vezes é a separação. Toda separação envolve perdas e ganhos, compreende uma fase de ruptura e crise, mas se abre como uma oportunidade de abertura para novas possibilidades de auto-realização, de recomeço e de busca por ser feliz. Nem sempre – pra não dizer nunca – se sai ileso do processo, mas é importante ter a clareza do aprendizado que advém da experiência.

Se pode aprender sobre o viver e conviver com a diferença, com as expectativas que criamos acerca de uma relação e do outro, que nem sempre serão satisfeitas, das possibilidades de se aprender a negociar espaços de partilha e individualidade, de construção e co-construção de projetos. O importante, em todo o caso se separação. A meu ver, é tentar aprender a olhar os dois lados da moeda, as perspectivas das duas pessoas envolvidas na relação, a responsabilidade compartilhada por ambos nos rumos da relação e, principalmente, o respeito.

(…)

Olhando em perspectiva, não vejo o processo de separação nem como positivo, nem negativo, mas como necessário. Quando já não há mais possibilidades de se encontrar um estado de harmonia mínima na relação, que permita o crescimento dos pares e da família, em suas individualidades e inter-subjetividades, creio que a separação é o caminho do recomeço, do voltar a respirar e do apropriar-se de suas responsabilidades para com a própria vida.

Separar é, muitas vezes, o desfecho necessário, de formas simbióticas, confluentes e, às vezes, psicóticas, de relacionamento, que embotam o potencial individual, em favor de uma ilusão de felicidade que aliena o desejo, os projetos e a humanidade do outro.

Namorar, casar e conviver ainda são, no entanto, formas saudáveis de conhecer a si e ao outro, de construir e criar, de realizar-se com um outro como parceiro de viagem na vida. Aprender a fazer isso só é possível fazendo no viver. Aprendendo com os erros, errando e buscando soluções criativas para questões cotidianas. Experimentar amar é sempre uma aventura.

Um caminhar dentro-fora da Gestalt

Luiz Fernando Calaça

Desde 2005 eu me dedico ao estudo da Gestalt Terapia. Desde o segundo semestre da graduação em Psicologia na UFBa, me envolvi em grupos de estudo sobre Gestalt Terapia e Fenomenologia, buscando me aprofundar na abordagem que, para mim, respondia e responde a meus questionamentos, apontando alternativas para uma prática e vivência profissional ética e humana. Sempre fui muito interessado em história, e, como não poderia deixar de ser, à história da Psicologia da Gestalt, da Gestalt Terapia e das bases filosóficas e teóricas humanista-fenomenológico-existenciais.
Quando fui apresentado à GT, por Lika Queiroz, com quem fiz meu curso de formação, a perspectiva que ela nos dava era de que havia ainda pouca produção teórica na abordagem aqui no Brasil. Isso era em 2005. Freqüentei os dois últimos congressos nacionais de Gestalt Terapia, e já em 2007 já me deparava com uma oferta muito grande de obras de gestalt terapeutas brasileiros, sendo quase impossível ter uma biblioteca completa com as obras de GT. Comprador compulsivo de livros e freqüentador de sebos físicos e virtuais, fico louco quando vejo a imensidade de títulos que surgem a cada ano, tanto em português como em espanhol e inglês. E estou certo que o Brasil é, provavelmente um dos paises em que a abordagem mais cresce e se desenvolve em produções acadêmicas e, consequentemente, em obras publicadas.
Uma coisa me preocupa, no entanto: se essa produção toda mantêm-se fiel aos princípios da Gestalt Terapia, tal como concebido em suas origens, ou se tem se transformado. Creio que as transformações, ao longo 60 anos de abordagem e cerca de 40 no Brasil, sejam inevitáveis. Muito se avançou principalmente no sentido de uma maior fundamentação teórico-filosófica da abordagem, repensou-se a questão do uso das técnicas, e se ampliou a atuação para outros campos além da clínica clássica, como a psicoterapia de crianças, o contexto hospitalar e educacional, a área sócio-comunitária, etc.
Quando me pergunto sobre se a Gestalt Terapia mantêm-se fiel aos seus princípios, questiono se, nessa tentativa de dar legitimidade à abordagem, não se perdeu muito de seu espírito originário, contracultural e revolucionário que vigorou nos anos 50 a 70, nos primeiros institutos de Gestalt Terapia nos EUA, em Nova York, Cleveland e Esalen. E, principalmente, me pergunto se os gestalt terapeutas realmente tem se apropriado da Gestalt Terapia a partir de seus fundadores, da leitura minunciosa dos livros do Fritz Perls, e os artigos diversos contidos nos primeiros livros de Gestalt Terapia.
Essas obras, a meu ver, embora escritas de forma fluida e muitas vezes impessoal, pouco preocupada com uma forma acadêmica e com uma aparente consistência teórica, trazem os fundamentos da Gestalt Terapia tal como ela era vivida. Ao meu ver a GT, antes de uma abordagem psicoterapeutica é uma ética, uma filosofia de vida, uma visão de mundo e de homem voltada para a construção prática de uma utopia, de um mundo melhor, em que cada pessoa é responsável e implicado em sua existência individual, social e planetária.
Sinto-me muitas vezes saudosista, por não ter vivido os “anos de ouro” da Gestalt, do espírito comunitário, do processo de construção coletiva que respeitava a individualidade, valorizando o potencial de cada um, sem preconceitos. Hoje me preocupa a sensação meio explicita e meio velada de uma fragmentação da Gestalt Terapia em diferentes abordagens gestálticas, em que diferentes focos adotados por diferentes teóricos ou terapeutas são vistos, por um lado, como “esotéricos”, e por outro como uma “Gestalt Terapia embasada cientificamente”.
Fico me perguntando o quanto realmente conhecemos e vivenciamos praticamente a Gestalt Terapia em suas raízes, em seus fundamentos. O quanto se mantém vivo o pensamento e o espírito transgressor do velho Fritz, ou o quanto estamos nos ajustando ao status quo, em busca de atingir uma demanda do mercado das psicoterapias, ainda dominado pela psicanálise, e em crescente expansão das terapias cognitivo-comportamentais, que se mantém em acordo com o modelo médico e psiquiátrico. Se lermos com atenção para os escritos do Perls, nos defrontaremos justamente com uma proposta que rema contra essa maré, que se opõe – ou pelo menos busca ser uma alternativa divergente – a esse modelo medico-científico.
Discutimos muito sobre psicodiagnóstico, e sobre a necessidade ou não se seguir os CIDs e DSMs, para mantermos um diálogo com outros profissionais de saúde, ou para embasarmos melhor nosso diagnóstico processual. Esse ponto, sempre polêmico, levanta posicionamentos diversos, e alimenta discussões acaloradas. Como isso se configura nas obras originais? Certamente que, lendo atentamente as obras do Fritz encontramos ora passagens que apontam para estruturas, ora para processos, na compreensão do funcionamento do self, como id, ego e personalidade. Lacunas que foram deixadas em aberto e que tentamos preencher e fechar, com o risco, a meu ver, de deformar e perder o dinamismo e o devir, o fundamento do homem como processo de contato organismo-meio, pessoa-pessoa e pessoa-mundo.
Talvez não devamos buscar preencher as lacunas, mas deixa-las abertas, para que possa circular ar e energia, para que possa se expandir, e não se condensar, se cristalizar numa esfera compacta. Gestalt é uma qualidade de configuração dinâmica, e não uma estrutura rígida. Seu movimento é orgânico, e, ao menos para mim, não sistemático, mecânico, encapsulado.
Olho para mim mesmo e me vejo ainda engatinhando nesse campo fértil e grávido de possibilidades. Vejo na Gestalt Terapia uma abordagem aberta, que acolhe várias possibilidades de pensar e atuar sobre o mundo, construindo e ressignificando realidades. Podemos trabalhar de forma artística, corporal, transpessoal, educacional. Podemos olhar o olhem em suas múltiplas dimensões, sem se restringir a uma apenas, podendo transitar pelas diversas possibilidades que o humano nos traz. Somos ricos de possibilidades, e cada possibilidade pode ser acessada, intensionalizada, atentada, abrindo-se sempre novos campos de possibilidade de construção e criação. Nossa visão é expandida, ampliada, múltipla, pois nossos fundamentos não são pilares sólidos, mas raízes que enveredam por vários campos e solos, buscando nutrientes para nosso fazer terapêutico poético.
Podemos transitar por outras abordagens, flertar com elas, sem nos perder, pois somos flexíveis e podemos fazer sempre novos arranjos e combinações, sempre mantendo nossa visão de homem e de mundo, nossa ética do cuidado, nosso fazer preocupado com o outro e com a relação que construímos no processo. Somos ecléticos pois sabemos que nenhuma teoria é completa, mas todo conhecimento é valioso, quando disposto de maneira consciente, voltada para o bem da humanidade.
Fico pensando no quando ainda sou um gurí na família gestáltica, no quanto ainda tenho que aprender, e no quando já aprendi, vivi, construí, refleti, experimentei. Sonho em poder contribuir em muito para essa abordagem que para mim é uma fé, uma confiança no potencial humano de reescrever a si e a sua história, de forma criativa e transformadora. Cada encontro pessoa-pessoa é um encontro comigo mesmo, e cada reflexão é uma partilha, um aprendizado, uma descoberta do extraordinário que somos todos nós, humanos.
Penso no quanto precisamos voltar a nossas origens para chegar mais próximo do chão que nos sustenta, de onde retiramos os nutrientes de nossas práticas e somos acolhidos. Eu acredito imensamente na importância do estudo, nas leituras e na reflexão, não tendo como foco a consistência de um conceito ou a eficácia de uma técnica, mas na riqueza potencial de uma idéia, de um pensamento, de um fragmento que pode abrir portas para um modo novo de pensar nossa própria existência, e nos fazer acordar para formas de existir mais autenticas e conscientes. Devemos entrar e sair da Gestalt, fazer um movimento de mergulho e emersão, ir nas profundezas e respirar o ar da superfície, do textos, de nós, das que nos procuram e se entregam para uma viagem sem caminho pré-estabelecido, mas com múltiplas possibilidades de caminhar.

Suicídio: um olhar em multiplas perspectivas*

Allan Maia

Emanuele

Leandro

Luiz Fernando Calaça


“Ainda são inúmeras as correntes que abordam o suicídio como um ato isolado e individual, apesar dos avanços teóricos que mostram o suicídio de um modo mais abrangente englobando a pessoa em todas as suas condições existenciais.” (Angerami-Camon, 1986)

Começamos este trabalho com uma provocação. Nos propomos neste texto abrir perspectivas diversas sobre o tema do suicídio, saindo do espaço restrito da psicologia e apontando para outras possibilidades de compreensão deste fenômeno. Admitindo nossa limitação, pelo espaço que nos é dirigido, e por nossas limitações da apreensão dessas várias abordagens, pretendemos situar panoramicamente este tema, abarcando aspectos históricos, filosóficos, sociológicos, e psicanalísticos, para posteriormente adentrarmos nos aspectos referentes à epidemiologia, ao suicídio no contexto psicoterápico e, por fim, no contexto hospitalar – foco desta disciplina. Por fim, faremos um breve esboço sobre as discussões sobre o direito ao suicídio.

PANORAMA

VISÃO HISTÓRICA

Casos de suicídio são relatados desde a Antiguidade. O primeiro suicídio registrado 2500 a.c. Cidade de Ur, na Mesopotânia, relacionado a um suicídio grupal. No Egito também se registra suicídios coletivos, entre os servos acompanham o Faraó no momento da sua morte.
Na Grécia Antiga o suicídio se realizava sob consentimento do Estado, como punição aos cidadãos que de alguma forma ferissem a ordem social na polis democrática. Um exemplo clássica é o suicídio de Sócrates, por envenenamento por cicuta. Na Roma a condenação era feita em situações específicas, como forma de punição.
A partir da Idade Média Cristã há a condenação teológica e do Estado ao suicida, não sendo permitido, por exemplo, o enterro dos corpos dos suicidas, além de se dar o confisco das propriedades da família.

VISÃO FILOSÓFICA

Segundo Santos, Baladi e Ponzio (1984), alguns teólogos da antiguidade consideravam o suicídio como “ato de deliberação”, um ato puro, sem contaminação psíquica, ou seja, irracional.
Na Grécia, as perspectivas sobre o cuidídio eram diversas. Aristóteles condena o ato suicida, por considerar a vida como função e omissão social. Para ele ninguém deveriae furta-se com o dever da continuidade, que estava relacionado diretamente à manutenção do estado democrático.
Para as correntes do estoicismo e do epicurismo, ainda na Grécia, há legitimação do suicídio. Para o Estoicismo viver é obedecer a leis da natureza. Se não se pode viver de acordo com a natureza, é melhor suicidar-se. Matar-se configura-se como um direito da existência humana. Para o Epicurismo a vida deve servir a um prazer espiritual e intelectual. A ausência de prazer daria significado a escolha da morte, quando outras escolhas não tivessem mais sentido.
Na Filosofia Cristã temos dois filósofos de destaque: Santo Agostinho e São Thomas de Aquino. Para Santo Agostinho ninguém sabe o que é a morte, pois não há experiência da morte. Para ele, o homem veio para purificar a existência, sendo a dor um desafio que ele tem que aceitar. Não há legitimação do suicídio, pois este é considerado um ato de pecado. São Thomás de Aquino condena o suicídio alegando ser ele contrario à natureza. Para ela, há um instinto de viver e matar-se seria furtar-se à participação social
Na Filosofia moderna temos opiniões diversas e contrastantes. Voltaire se contrapõe à perspectiva cristã ao considerar que não há sentido em falar para quem se mata que está desobedecendo um desígnio de Deus.
David Waman considera o suicídio é uma expressão de liberdade do indivíduo. Comte, num enfoque mais sociológico, por sua vez, se contrapõe a Waman ao afirmar que o homem não é apenas um indivíduo, é toda uma unidade moral, onde cada um tem sua personalidade. Segundo ele, aquele que se mata destrói sua personalidade. No suicídio, o indivíduo material que se rebela contra a pessoa.
Para Schopenhauer, aproximando-se um pouco de São Thomas de Aquino, a vida do homem é vista como sujeita ao sofrimento porque é dotado de desejar e querer. Matar-se não resolveria nada, porque não põe fim à vontade transcendental. Para ele, quem se mata está a serviço da vontade, não havendo então liberdade na realização desse ato.
Para as Filosofias existenciais, nossa existência depende de nossa decisão, nossa existência como espécie. Não é somente o destino de um homem, mas de um grupo, de uma humanidade. Sobreviver está relacionado e dependente de variáveis externas do indivíduo, o que põe o homem, desta forma, como responsável por seus atos e pelos impactos destes sobre o seu meio social.
Kierkgaard, em seu livro “Desespero Humano”, afirma que o desespero é uma doença mortal, pois significa o defronta-se do homem com sua condição de finitude. Para ele, um dos grandes dilemas da existência é a negação de sua essência, a negação do si mesmo, e o desejo de querer ser outro. Para ele, a intensidade do desespero aumenta com a consciência. Suicídio se configura como ato de desesperoprincipalmente para o homem que volta-se para si mesmo e defronta-se intimamente com a impossibilidade de escapar à morte – suicídio do “hermético”.
Albert Camus, em seu livro “O mito de Sísifo”, nos apresenta o homem absurdo, aquele que se depara com a impossibilidade da razão e da compreensão do mundo através de abstrações conceituais. Ele afirma o “suicídio filosófico” como atitude existencial, considerando qualquer tentativa de racionalização da realidade absurda. Para ele, o pensamento que nega a si mesmo e tende a superar-se.

VISÃO SOCIOLÓGICA

Durkheim, principal expoente dos estudos sociológicos sobre o tema, considera o Suicídio como um fato social. Para ele, “todo caso de morte que resulta directa ou indirectamente de acto positivo ou negativo praticado pela própria vítima, acto que a vítima sabia dever produzir esse resultado” (pág. 10)
Durkheim , em seu estudo sobre suicídio, classifica vários tipos de Suicídio: o suicídio egoísta, o suicídio altruísta e o suicídio anômico.
O conceito “anomia”, cunhado por ele, denuncia as transformações sócio-econômicas ocorridas na Modernidade. Segundo ele, viveríamos num Estado de desregramento, que seria um mal que ameaça a sociedade moderna, ao romper com os limites e as normas sociais que garantem o ordenamento da sociedade.
Para Fernandes(1997), a anomia tornou-se um diagnóstico do estado das paixões humanas. Um estado apaixonado caracterizado pela dissolução ou relaxamento, dos freios da consciência coletiva, dando passagem às ambições, as cobiças e às aspirações.
Para ela, é no social, como ordem normativa internalizada, em que as regras coletivas fazem laço social, na medida em que tornam-se internas e subjetivas, o sujeito pode se identificar com estas. Quando a sociedade está perturbada, a ordem social é incapaz de exercer o poder da lei.
Para Durkheim (1977), a sociedade é também um poder que regula. Existe uma relação entre a maneira como se exerce esta acção reguladora e a taxa social dos suicídio.
Em situações como desastres econômicos, ou seu oposto, aumento brusco de poder e fortuna, as forças sociais não encontrariam equilíbrio e não haveria qualquer tipo de regulamentação. Qualquer ruptura de equilíbrio, até as que resultam em bem- estar maior e vitalidade geral, incitaria a morte voluntária.
É posssível fazer um paralelo entre a visão de Durkheim e a Psicanálise, no que tange à importância atribuída por ele à lei. Para ele, a atividade humana não pode ser completamente livre (…) O caracteriza o homem é que o obstáculo que se lhe depara não é físico mas moral, isto é, social. Aceita a lei vinda não de um meio material que se lhe impõe brutalmente, mas de uma consciência superior à dele e cuja superioridade reconhece.
Assim, Durkheim afirma a importância da “disciplina das paixões”, sendo o Outro aquele que faz laço social: Se é o Outro( conjunto de regras normativas) que faz laço social, a anomia tornou-se sintoma mal- estar decorrente do enfraquecimento ou degradação da encarnação psíquica do Outro) ( Fernandes, 1997)
Desta forma, as leis sociais se manifestam como um legado do Outro, sendo possível uma correlação entre o pacto edípico psicanalítico e o pacto social sociológico.

SUICÍDIO NA PERSPECTIVA PSICANALITICA

O humano experimenta incisiva ação conflituosa das pulsões de morte e vida. A pulsão de morte (Tânatos) caracteriza-se por seu conteúdo auto-destrutivo, enquanto a pulsão de vida (Eros) é a potente organizadora do homem em sociedade, é a força integrativa (Freud,1930). A problemática do suicídio denota-se pela extrapolação das forças destrutivas sobre as aglutinadoras no lócus da experiência. Essa exacerbação de Tânatos no conflito promove de modo dilacerante atos de extermínio contra o próprio sujeito (Cassorla, 1984).
Esta circunstância auto-agressora indica a melancolia, que se define por dada perda na vida pulsional do sujeito. A melancolia traduz-se como uma perda enigmática, que antes objetal (luto) se modifica em perda do ego, de conteúdo narcísico de suposta auto-suficiência e que carrega em seu bojo ações de destrutividade e sentimento de culpa (Freud, 1917). Esta culpa que ao se elevar a níveis deveras patológicos de autoflagelação suscita o irromper de idéias suicidas, que mais podem surgir como um modo de matar a vivência dolorosa.
Interpreta-se, dessa forma, que o suicídio parece se afirmar como a fuga de uma premente angústia para um lugar desconhecido, posto que desconheça a morte. Não é a morte que o suicida procura, mas outra vida que se fantasia como um elixir capaz de arrefecer a sua angústia (Cassorla, 1984).
A angústia é um afeto que se articula nos registros do Real, do Simbólico e do Imaginário a se transparecer pelas veredas do vazio, da falta constitutiva, das ações efervescidas do desejo e dos repetitivos modos de gozo. O imperativo pungente assinala-se no corpo como uma “dor de existir” que elege a morte como um lugar apaziguador. Assim, o ato suicida se precipita quando há um transbordamento que faz emergir a dimensão do Real no Imaginário (Carvalho, 2006).
Com efeito, a temática do suicídio suscita questões amplas que escapam da módica terminologia de ser a morte de si mesmo. Diante disso, para fins elucidativos é possível tipificar o suicídio em consciente e inconsciente; parcial e total. Ele é consciente quando torna evidente o ato auto-agressivo, é emitido de modo deliberado; caracteriza-se como inconsciente nas diversas práticas humanas que tacitamente demonstram a lógica mortífera (por exemplo: do piloto de corrida automobilística, do fumar de forma inveterada, da drogadição etc.). O suicídio parcial é caracterizado quando o sujeito mata uma parte de se mesmo seja de modo consciente (automutilações) ou inconsciente (doenças, frigidez, impotência sexual); no total, há a morte “deliberada” por si mesmo. (Cassorla, 1984).

DADOS EPIDEMIOLÓGICOS DO SUICÍDIO NO BRASIL

Os dados epidemiológicos sobre o suicídio são por demais incertos e questionáveis, levando em consideração apenas os casos que são registrados quando há entrada do paciente em sistemas de saúde. Ao que se consta, 75% dos casos registrados entre jovens, se dão com menores de 27 anos, sendo a 6ª causa de morte na faixa etária de 15 a 24 anos nas regiões metropolitanas (dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade/MS, 1979-1995). As capitais com maior incidência seriam: Porto Alegre , Curitiba, Belém, Recife, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Rio de Janeiro, Salvador
Haveria uma diferenciação, na avaliação epidemiológica, entre o ato suicida (tentativa) e suicídio concretizado, estando computados entre 7% a 33% dos casos, respectivamente. Ao que tudo indica, meninas e adolescentes apresentariam maior número de tentativas.

SUICIDIO E PSICOTERAPIA

Fukumitsu (2005), em seu livro “Suicídio e Psicoterapia”, adota uma perspectiva fenomenológico-existencial na compreensão do fenômeno do suicídio e no possível esboço de uma proposta de intervenção.
Segundo essa perspectiva, o ser humano é tido responsável por suas escolhas e é influenciado por suas relações consigo e com os outros. O suicídio configura-se, muitas vezes, como última alternativa de suas vidas. Pelo ato suicida, a pessoa desnudaria o tamanho de seu desespero humano e não se daria mais a oportunidade de buscar seu próprio sentido de vida.
A autora questiona como seria possível para um psicoterapeuta realizar uma análise compreensiva do potencial suicida e intrumentalizar-se, tendo em vista a falta de formação dos terapeutas para lidar com cliente suicida em potencial.
Para ela, os psicoterapeutas são facilitadores, isto é, ajudam o cliente a desvelar seu interesse pela vida, a fim de que se torne consciente não somente de suas necessidades, mas de suas responsabilidades de estar vivo.”
Nessa perspectiva, o suicídio é compreendido como mensagem existencial, diferenciando o ato suicida e das tentativas de suicídio, sendo o primeiro a última escolha de vida empreendida pelo sujeito, e a tentativa um alerta para se pensar o modo de estar do mundo desse sujeito, sendo neste momento, sendo importante, quando possível, a atuação do psicoterapeuta no sentido de buscar dar suporte a esse sujeito, ajudando-o a ressignificar sua existência.
Fukumitsu aponta para alguns fatores de risco que precisariam ser atentados pelo psicoterapeuta como possíveis sinais (The World Health Organization, 2000). Tais sinais seriam a ambivalência, a impulsividade e a rigidez, nas formas do sujeito funcionar nas suas relações com o mundo e consigo mesmo.
Patterson & Patterson (1983, apud Fukumitsu, 2005), apontam pra 10 fatores que precisam ser levados em conta: sexo, idade, histórico de depressão, tentativas anteriores de suicídio, álcool, perda do raciocínio lógico, falta de suporte social, plano de suicídio organizado, ausência de parceiro ou parceira e doença.
Wise & Rundell (1988) distrubui esses fatores em três categorias: 1) Psiquiátricos: depressão, dependência alcoólica, dependência química, disfunções de personalidade (compulsivo e boderline), esquizofrenia, psicose orgânica, histórico passado, histórico familiar, saúde renal rebaixada; 2) Psicológicos: Histórico de perdas recentes, perda de pais na infância, datas importantes, comemorativas, feriados, instabilidade familiar, isolamento social e 3) Sociais: Sexo (+ homens), Idade (acima de 45 anos), Religião (protestantes e ateus), Geografia (áreas urbanas), Estado civil (divorciado>solteiro>viúvo>casado), Situação socioeconomica (ricos e pobres, aposentados e desempregados)
Fukumitsu, tendo como parametro esses dados e sua própria atuação clínica, esboça uma proposta terapeutica de prevenção, que envolveria: 1) a inclusão no contrato terapêutico do item sigilo, 2) atenção a possíveis sinais de intencionalidade e letalidade, 3) exploração do fenômeno suicídio e tentativa, 4) ampliação do sistema de apoio em situações de tentativa suicida. Em casos de tentativa de suicídio, ela propõe: 1) agir rápido, 2) não deixar pessoa sozinha e 3) comunicar médico e hospital.

SUICÍDIO E CONTEXTO HOSPITALAR

Quando se fala em suicídio no contexto hospitalar, cria-se um entrave, no que diz respeito à postura médica, e um dilema para o psicólogo. O médico, por sua formação, tende a tratar do organismo, do corpo humano em seu adoecimento, sendo norteado pela luta contra a doença e contra a morte. É inconcebível, dentro dessa lógica, que alguém deseje matar-se. O suicídio se configura como a antítese da lógica médica, havendo uma tendência a “diagnosticação” do paciente suicida, dentro de categorias psiquiátricas.
O dilema da atuação do psicólogo no Contexto Hospitalar, se dá principalmente na adaptação das equipes à entrada do psicólogo, que tende a trazer uma nova lógica, que tem como urgência lidar com os sentimentos do paciente.
A atuação junto ao paciente suicida tende a ter o formato de um atendimento catártico, havendo uma tentativa de estabelecimento de vínculo e “ajuda”. Em geral se dá apenas um único atendimento, que tem sua qualidade prejudicada pela interrupção de outros profissionais, voltados para as demandas do organismo. Quando o paciente permanece mais tempo hospitalizado, há a possibilidade de oferecimento de continuidade de atendimento ou encaminhamento.
É importante que psicólogo compreenda de forma ampla as várias motivações que podem estar por trás da tentativa de suicídio, tais como: miséria, opressão social, desestrutura familiar, desemprego, relacionamentos precários, caracterização do momento da tentativa, desespero frente a falta de perspectivas de vida.

O DIREITO AO SUICÍDIO

Na década de 80, se deu um movimento internacional de afirmação do Direito ao Suicídio, a partir de uma perspectiva que questiona a ordem social vigente, sob uma perspectiva anarquista; tendo como ponto chave a consideração de que nada impede os suicidas de se suicidarem.
Guillon e Bonnice (1984) , critica a idéia de uma pseudoliberdade social ao denunciar que o o suicídio deixado de lado, como tema relevante de reflexão, havendo uma transferência de controle social, que submete o suicida a um estigma, sem que se leve em consideração seu desejo e sua condição existencial real.
Tal perspectiva sustenta que, de fato, “a morte nos pertence, se quisermos”, pois nada impede que o sujeito ponha fim a sua própria vida. O que acontece é que há um silenciamento sobre o tema, não havendo medidas efetivas de informação à sociedade sobre as repercussões que uma tentativa de suicídio traz efetivamente para o sujeito.
Cria-se, então, a Associação pelo Direito de Morrer com Dignidade – ADMD, tendo como representante a figura de Michel Lee Landa. É escrito um “Guia de Auto-eliminação”, que traz reflexões sobre o direito de se dar a morte, argumentos contra “suicídios impulsivos” e uma lista de medicamentos e precauções que poderiam ser utilizadas para que houvesse uma morte sem sofrimento e sem risco de ter a tentativa frustrada. Tal iniciativa, longe de ser um incentivo ao suicídio, visava informar os possíveis suicidas em potenciais, dando visibilidade sobre o tema, no sentido de propor uma reflexão aberta sobre esse tema tabu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANGERAMI- CAMON (1996) o doente, a psicologia e o Hospital. São Paulo: Pioneira
ANGERAMI- CAMON (1999) Solidão: a ausência do outro. São Paulo: Pioneira
ANGERAMI- CAMON (1984) Psicologia Hospitalar: a atuação do psicólogo no contexto hospitalar. Pioneira, São Paulo
CAMUS, Albert. (2004). O mito de Sísifo. Rio de Janeiro e São Paulo: Record.
CASSORLA. R. M. S. (2005). O que é suicídio. São Paulo: Brasiliense. (Coleção primeiros passos; 127)
CARVALHO, S. A angústia da morte. In: Freitas, I. (org.) Angústia. 1. Ed. Salvador: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2006.
DURKHEIM, Emile. O suicídio/ Estudo sociológico. Ed Martins Fontes, 1977
FERNANDES, Heloísa Rodrigues. Um século à espera de regras. Tempo Social; Rev Social. USP, S. Paulo, 8(1) 71-83
FREUD, S. (1930) O mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XXI.
FREUD, S. (1917) Luto e Melancolia. In: Edição Standard Brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud.Rio de Janeiro: Imago, 1969, v.XIV.
FUKUMITSU, Karina Okajima (2005). Suicídio e psicoterapia: uma visão gestaltica. Livro Pleno.
GUILLON e BONNIEC (1984). Suicído: modo de usar. São Paulo: EMW Editores.
KIERKGAARD, Soren. (2001). O desespero humano. São Paulo: Martin Claret.
MEIRELES, Marilucia Melo. Anomia: Ruptura Civilizatória e sofrimento psíquico. Ed: Casa do Psicólogo, 2004
NUNES, Everardo Duarte. O Suicídio reavaliando um clássico da literatura sociológica do século XIX. Cad. Saúde Pública vol. 14 n. 1. Rio de Janeiro Jan/ Mar. 1998

__________________
*Artigo referente ao seminário sobre Suicídio apresentado na disciplina Psicologia Hospitalar, sobre a orientação da professora Sheyna Vasconcelos, UFBa, 2008.1.

Avaliação da eficácia das terapias psicológicas*

Allan Maia
Luiz Fernando Calaça
Pâmela Pitágoras
Renata Moreira

RESUMO

A psicoterapia é uma das mais tradicionais e corriqueiras práticas dos psicólogos. A fim de investigar como fazer para conhecer os reais benefícios da psicoterapia, e de promover uma melhoria na forma como é emprega, pretendemos, nesse trabalho problematizar a questão das terapias psicológicas, se cumprem ou não com suas finalidades de produzir melhora naqueles que demandam sua intervenção.
Essa preocupação se justifica pelo fato de que a psicoterapia, como um dos instrumentos de atuação dos psicólogos, pouco sofre avaliações ou questionamentos por parte daqueles que a exercem. Por essa deficiência, é importante conhecer o panorama atual das pesquisas de eficácia bem como os esforços para qualificar e otimizar o uso terapêutico desse recurso técnico do psicólogo. No presente trabalho realizamos uma revisão de literatura de estudos clássicos e atuais sobre avaliação de eficácia em psicoterapia em diversas abordagens, apontando para questões teóricas e técnicas, bem como éticas da prática da psicoterapia.

Palavras-chave: Psicoterapia, Eficácia, Validade, Ética.

II – Introdução

Este trabalho sobre a avaliação da eficácia das terapias psicológicas ocorre em um momento de feliz coincidência com a eleição, pelo Sistema de Conselhos de Psicologia, do ano de 2009 para fomentar o debate sobre a psicoterapia. Dessa forma tivemos uma grande oportunidade de aproveitar esse momento para uma maior aproximação com as produções do nosso Conselho. A exemplo da reflexão proposta por Carlos Roberto Drawin em seu texto “Psicoterapia: elementos para uma reflexão filosófica” publicado no site Psicologia Online (www.pol.org.br).
A problemática da associação entre psicologia e ciência é, dessa forma, atualizada e correlacionada com a possibilidade de avaliação sistemática dos resultados produzidos pelas intervenções psicoterápicas.
Algumas pontuações propostas pelo Drawin foram aqui incluídas, dada a sua importância para a temática aqui tratada.

“A psicologia clínica, comprometida com o cuidado, com a cura do ser humano, encontra-se exilada do “logos”, da razão em sua concepção moderna.” (p. 25)
“(…) abre-se um abismo entre a teoria e a prática, entre a Ciência e a Ética, um abismo que deve ser transposto pela faculdade de julgar como aquela que interroga acerca do fim ou acerca do sentido da vida humana no mundo. Por isso, as três questões que regem o pensamento crítico – “Que posso saber?”, “O que devo fazer?”, “O que me é permitido esperar?” – são articuladas, como bem viu Heidegger, numa profunda retomada da questão antropológica fundamental: O que é o homem? Kant foi um pensador da modernidade e, portanto, a pergunta pelo ser humano expressa a demanda de sentido como exigência de se passar da subjetividade transcendental, instância de fundamentação da ciência, ao plano da experiência histórica e existencial na qual o sentido se expressa e se realiza.” (p.28)
“As psicoterapias possuem um caráter sapiencial que as aproxima dos antigos exercícios espirituais e sua riqueza consiste não só em preservar o lugar antes ocupado pela sabedoria antiga.” (p.29)

O primeiro passo para o estudo da avaliação da eficácia das psicoterapias é o aprofundamento do conceito de psicoterapia.

2.1. Definição de Psicoterapia

Definir o que é psicoterapia em poucas palavras não é uma tarefa fácil. Segundo Porchat (1989) “A terapia é um processo de crescimento pessoal, de desenvolvimento de potencialidades, de aprofundamento do próprio conhecer-se”; ainda de acordo com ele “Procura-se um terapeuta quase sempre pelo mesmo motivo: problemas. Problemas de várias ordens que têm em comum o fato de terem se tornado insolúveis e angustiantes para as pessoas que os vivenciam”.
Quando uma pessoa se submete a um procedimento psicoterapêutico, ela procura uma resposta para questões que lhe causam sofrimento, ansiedade, tristeza, desespero, angústia.

III. Conceitos de Eficácia e Eficiência

Segundo Batista (1999), o empenho na avaliação da eficácia dos tratamentos psicológicos está longe de ser partilhado pelos diversos modelos e escolas de psicoterapia, tendo sido criadas organizações com a finalidade de estudar a eficácia dos tratamentos e as melhores condições para a sua aplicação em diversos paises do mundo, como Austrália, Nova Zelândia (The Quality Assurance Project, 1983, 1984, 1985), Reino Unido (Serviço Nacional de Saúde) e Estados Unidos Agency for Health Care Policy and Research – 1989; Associação Psicológica Americana, 1993, 1995). O objetivo principal dessas organizações era o de corrigir a enorme variabilidade nos tratamentos oferecidos pela qual os pacientes podem receber tratamentos ineficazes ou sem eficácia comprovada pela determinada perturbação, apesar de exigirem tratamentos eficazes. Elas têm produzido recomendações para a prática clínica que deverão ser entendidas pelos clínicos e associações profissionais como códigos de conduta profissional.
A APA tem desenvolvido um esforço considerável nesta área para desenvolver modelos de avaliação de procedimentos psicológicos de intervenção na saúde mental e física, modelada a partir do Standards for Educational and Psychological Testing (APA, 1985), que foi construído tendo como base a avaliação de dois eixos: a eficácia e a eficiência, ou utilidade clínica das intervenções. A eficácia refere-se à avaliação sistemática dos resultados produzidos pelas intervenções em ensaios controlados, enquanto que a eficiência ou utilidade clínica se baseia na aplicabilidade das intervenções aos locais ou serviços a que se destina, isto é, a generalização dos resultados obtidos nos centros de investigação aos centros públicos ou privados existentes na comunidade e na sua aceitação pelos possíveis usuários.
De acordo com critérios pré-estabelecidos as intervenções psicológicas foram classificadas em três categorias: tratamentos bem estabelecidos, tratamento provavelmente eficazes e tratamentos experimentais.
Uma intervenção é classificada como bem estabelecida se forem seguidos os seguintes critérios: 1) pelo menos dois ensaios clínicos experimentais conduzidos por diferentes investigadores, que demonstrem a eficácia do tratamento; o tratamento tem que ser ou equivalente a um tratamento já estabelecido ou superior a um placebo psicológico / médico ou a outro tratamento; ou 2) uma grande série de estudos de desenho de caso único (n>9) que demonstrem a eficácia do tratamento. Para além disso, o tratamento tem que estar especificado num manual de tratamento e as características dos usuários a quem se destina estar claramente especificadas.
Para ser classificado como tratamento provavelmente eficaz, deve existir 1) dois ensaios clínicos em que o tratamento mostrou ser superior a um grupo de controle em lista de espera ou um mais ensaios clínicos em que foram preenchidos os critérios para tratamento bem estabelecido com a exceção de terem sido efetuados por investigadores independentes ou 2), uma pequena série de estudos de desenho de caso único (n > 3) que demonstrem a eficácia do tratamento.
A demonstração que determinada intervenção é eficaz num centro de investigação ou numa clínica universitária, apesar de existirem réplicas dos resultados em dois centros independentes, como é o caso dos critérios para os tratamentos bem estabelecidos de terapias empiricamente validadas, não responde à questão fundamental da eficácia destas intervenções nos centros de rotina destinados à comunidade. Nos centros de investigação existem condições próximas das ideais para a efetuação de intervenções, como manuais estruturados, supervisão de procedimentos e seleção de sujeitos. Essas condições são muito diferentes ou pouca relação tem com as condições de trabalho dos centros de tratamento de rotina. Nestes existe principalmente uma grande pressão para o desempenho, em termos de números de pacientes a tratar, comorbidades entre várias perturbações e é habitual que haja uma maior flexibilidade de procedimentos, quer no sentido de adequar o tipo de intervenção ao perfil da perturbação, que de ir alterando a intervenção de acondo cm a resposta que vai ocorrendo, não se prolongando numa intervenção que não produz resultados.
Variáveis relacionadas a características dos pacientes, as características dos terapeutas, como competência e experiência, a forma mais ou menos estruturada da intervenção, podem estar associadas com a eficácia das intervenções. Tais relações podem não ser as mas óbvias, havendo resultados de investigações que indicam que a experiência do terapeuta está inversamente relacionada com os resultados obtidos, e que as intervenções estão mais relacionados com o conhecimento da técnica e dos procedimentos a efetuar com que com a experiência do terapeuta. Outro fator relevante é a aderência aos protocolos de tratamento. O resultado do tratamento, assim como a estabilidade ao longo do tempo, estão associados com a qualidade com que o mesmo tratamento é efetuado.
Outro aspecto apontado por Batista (1999), é a questão da acessibilidade e disseminação dos tratamentos empiricamente validados, considerando a importância de que estes procedimentos estejam disponíveis para poderem ser aprendidos e que exista oportunidade de formação, treino e supervisão. Há, no entanto, segundo a APA (1983), poucos programas que ensinam estas intervenções. Da relação de tratamentos empiricamente validados, apenas 10 de 18 tratamentos seriam ensinados nos cursos, e apenas metade teriam supervisão clínica. A existência de técnicos preparados para executar estes procedimentos, deveriam estar a disposição dos usuários nos serviços de saúde privados ou públicos, devendo ser efetuados de modo adequado.

IV – Histórico das Pesquisas em Avaliação de Eficácia das Psicoterapias

Através da crescente expansão da Psicologia, e de sua larga atuação, principalmente pela psicoterapia, fez com que os pesquisadores da ciência psicológica passassem a se interessar e questionar se de fato as psicoterapias alcançavam os resultados prometidos. Segundo Atkinson (2002), a psicoterapia é considerada efetiva se a melhora do cliente, após a terapia, é maior do que qualquer melhora que ocorra sem a terapia, durante o mesmo período. As primeiras pesquisas sobre avaliação de eficácia das psicoterapias começam com pouco mais de 50 anos da construção de parâmetros para delimitar uma ciência psicológica, datando do início da década de 30 do século passado, mas que ainda não apresentavam um rigor dos meios de proceder tal avaliação.
Podemos destacar alguns pioneiros dessa pesquisa de eficácia nas terapias psicológicas. Na terapia comportamental, alguns nomes como de Landis (1937); Knight (1941); Wilder (1945); Eysenck (1952); Wolpe (1958); Paul (1965); Moore (1965); Strupp (1972) aparecem com destaque. A tendência que esses autores mostram no princípio da pesquisa de eficácia na abordagem comportamentalista é a apresentar números de melhora dos pacientes, desenvolver critérios e métodos para validar a efetividade da psicoterapia, além comparar abordagens e técnicas diferentes com a comportamental.
Para Jung (2006), a Psicanálise teria em Freud o percussor da avaliação de eficácia, ao questionar o processo terapêutico desenrolado no caso Ana O. Entretanto, existem poucos relatos dessa preocupação nas pesquisas de eficácia no cerne da teoria psicanalítica, configurando-se mais nas investigações que se preocupavam em utilizá-la a fim de comparação com demais teorias. Todavia, esse panorama passa a mudar a partir da década de 80 do século passado, em que a necessidade dos profissionais em validar seus métodos e técnicas, aproxima mais a teoria de uma preocupação criteriosa e empírica.
A realização de pesquisas comparativas entre teorias e técnicas sempre foi uma tendência representativa. Nomes como de Sloane et Al. (1975); Bergin & Lambert (1978); Shapiro & Shapiro (1980); Stiles, Shapiro & Elliott (1986); Orlinsky & Howard (1987), apresentam pesquisas que vão além do simples paralelismo entre os arcabouços, mas também abordando temas como remissão espontânea e relação terapeuta e cliente.
Podemos perceber que os avanços das pesquisas sobre eficácia das psicoterapias foram mais intensos nas décadas de 70/80 do século XX, e que tendiam a uma avaliação de eficiência das abordagens para saber qual era a melhor, alimentando a briga entre escolas. Depois da mudança desses direcionamentos, as pesquisas passaram a tomar como norteamento avaliar quais técnicas era mais eficientes/ eficazes que outras e voltadas para quadros clínicos específicos. Aumenta-se a inclinação para identificar qual psicoterapia poderia ser mais eficaz em determinados tipos de transtorno, como depressão, síndrome do pânico, transtorno bipolar, transtorno obsessivo compulsivo, obesidade, entre outros. (Carvalho, Nardi & Range, 2008; Cordioli, 2009; Duchesne et al. 2007; Knapp & Isolan, 2009; Schestatsky & Fleck, 2009).
Outra direção dessas pesquisas fora de demarcar os métodos principalmente no uso de grupo controle, ou seja, reservar um grupo que não seria submetido a nenhum tipo de psicoterapia, além de pesquisas utilizando o modelo naturalista e estudo de caso.
É importante frisar que ao longo desse percurso histórico das pesquisas em avaliação da eficácia das psicoterapias, alguns critérios ganharam destaque. O tempo de duração da psicoterapia é substancial para delimitar a eficácia, pois procedimentos ademais demorados podem evidenciar uma possível ineficácia de proporcionar solução dos problemas ao cliente, conseqüentemente, ineficácia da terapia. Outro item importante é a relação estabelecida entre terapeuta e cliente, assim como experiência do profissional, sua formação e tempo de prática clínica, pois qualquer impasse nesse vínculo inviabiliza a continuidade dos procedimentos. Fatores como custo, duração dos resultados obtidos também ganham relevância. Atualmente, já é possível contar com instrumentos padronizados como o questionário de efetividade (The Consumer Report Study) (Jung et al, 2007), que tenta padronizar a obtenção da eficácia das psicoterapias.
Hoje, a investigação da eficácia das psicoterapias ganha cada vez mais relevância, e há uma crescente divulgação de pesquisas nessa área. Outra grande tendência na atualidade está no deslocamento do foco das pesquisas de comparação entre as teorias, voltando agora para validação das técnicas dentro das práticas psicoterapêuticas, a fim de consolidar o arcabouço teórico e a prática clínica. Esse processo pode ser exemplificado pela Psicanálise, que passou a volta-se para uma averiguação de métodos, uso de escalas, na tentativa de avaliações mais científicas.

V – Terapias Psicológicas: Objetivos, Técnicas e Avaliação

5.1. Psicanálise e Psicoterapias Psicodinâmicas

A psicanálise é uma das abordagens mais antigas e tradicionais no campo da psicoterapia. Suas técnicas evoluíram da hipnose de Charcot, ao método catártico de Breuer, que por fim veio a ser modificado por Freud, que instituiu o recurso da associação livre. A pedra de toque do manejo técnico da psicanálise é a questão da transferência e dos processos de resistência.
Uma das principais formas de alaviação da psicanálise foi a prática dos registros de casos clínicos, que se tornou clássico na psicanálise desde Freud (Caso Dora, Caso Schreber, Caso do Homem dos Ratos, Caso do Homem dos Lobos, etc), que se faz presente na maior parte das obras psicanalíticas e servem como paradigmáticos na formação teórica dos psicanalistas.
Ao longo do desenvolvimento da abordagem houve várias rupturas entre os teóricos e a constituição de abordagens de base psicanalítica que divergiam de algum modo da teoria ou da técnica psicanalítica clássica. Dentre os psicanalistas dissidentes mais conhecidos temos Jung, Reich, Adler, Ferenczi e Otto Rank, havendo também divergências teóricas entre Anna Freud e Melanie Klein, quanto à técnica e teoria da psicanálise com crianças.
Há também distinção entre a psicanálise propriamente dita e as chamadas psicoterapias psicodinâmicas, tanto no manejo técnico quanto nos objetivos a que se propõem.
Durante muito tempo, nem os pressupostos psicanaliticos em que se baseiam os seus procedimentos terapêuticos, nem estes procedimentos, foram submetidos a testes empíricos para avaliação de seu poder preditivo, na compreensão da experiência humana, ou da sua eficácia terapêutica, embora a psicanálise e outras técnicas psicoterapeuticas dela derivadas sejam de grande popularidade na opinião pública e nos meios de comunicação. (Batista, 1999).
Wallerstein (2005, apud Jung, Fillippon, Nunes e Eizirik, 2006), no entanto, apontam para a existencia de 4 cíclos de pesquisas (2 deles desenvolvidos em paralelo) de eficácia da psicanálise, que teriam características diferentes:
1) 1917 – anos 60: caracterizaria-se por contagens estatísticas de resultados em diferentes categorias de pacientes;
2) 1950-anos 80: caracterizaria-se pela construção de medidas, escalas para avaliação antes e depois do tratamento e preditores para os resultados;
3) 1950-anos 80: adiciona o processo terapêutico às medidas de resultado e os estudos de seguimento na fase pós-tratamento;
4) 1980 – atual: envolve novas medidas de resultados para a avaliação da estrutura psicológica, da mudança estrutural e do processo terapêutico.

A tendência predominante dos estudos em psicanálise, e o uso de delineamento naturalístico, que tende a avaliar mais o aspecto da efetividade que necessariamente a eficácia, utilizando-se como metodologia de análise de dados a análise de conteúdo.
As perspectivas atuais apontam para uma maior democratização dos conhecimento científico e de possibilidades de trocas de pesquisadores de todo o mundo, embora traga uma política para a uniformidade, através da qual as peculiaridades locias, a cultura e a tradição ficam menos valorizadas, trazendo o mesmo perigo para uma tentativa de unificar a comunidade de pesquisa psicanalítica (Bohleber & Burgin, 2003, apud Jung, Fillippon, Nunes e Eizirik, 2006).
Wallerstein assinala para uma tendência atual em transcender o pluralismo teórico compartimentando a psicanálise, o que poderia se estender para a psicoterapia psicanalítica e suas diversas metodologias, em direção à convergência em pontos em comum. Por outro lado, Bernardi entende que não é possível pretender um consenso a que as disciplinas cientificas chegam com suas metodologias replicáveis, considerando que o consenso na psicanálise seria o consenso de artistas, que podem chegar a um acordo de que algo é uma obra de arte, ainda que cada um a realize se modo diferente.
Em contraste com a idéia de unificação, o que foi apresentado até agora em pesquisas de resultados da psicoterapia psicanalítica, apesar do predomínio de delineamento naturalístico, foi a diversidade de técnicas metodológicas e no uso de instrumentos de medidas de resultados em diferentes sociedades e culturas, trazendo a idéia de pluralismo. As investigações dosprocessos e resultados de tratamentos estariam tomando duas direções principais: 1) tentativa de convergência de estudos de resultados com os estudos de processo analítico, e 2) preocupação mais clínica com os valores, caracterizando-se por investgações que resultam mais diretamente na prática realizada nos consultórios.
Os estudos da quarta geração, prometem não apenas integrar s vários estudos de processos psicanalíticos realizados pelos vários grupos de pesquisa como também dos estudps de processo com os de resultado. Em relação às linhas de pesquisa, permanece atual a discussão entre pesquisadores que estudam os fatores específicos e os que investiga,, os fatores comuns à psicoterapia. Os primeiros se preocupam em responder indagações como quais os efeitos que a psicoterapia produz, qual o melhor e mais efetivo tratamento, para determinada patologia e quais intervenções são mais adequadas para o paciente, considerando o momento atual de vida e a cultura que está inserido; ou seja, defendem a utilização de técnicas e terapêuticas diferenciadas nas diferentes patologias. O segundo grupo (fatores comuns), acreditam que o resultado do tratamento não depende da abordagem, mas de fatores compartilhados por todas as psicoterapias como alinaça terapêutica, empatia, intervenções mais ou menos diretivas e o invertimento e as capacidades do próprio paciente.
A maioria dos estudos psicanalíticos são para o modelo de efetividade. Leichsenring propõe o uso de estudos prospectivos quase experimentias, de alta representatividade clínica, como o padrão ouro dos estudos naturalísticos, caracteridaos por não randomização da amostra, equiparação ou estratificação dos grupos, descrição clara e precisa do tratamento, dos pacientes e sua seleção, uso de medidas de resultado e procedimentos diagnósticos validos e confiáveis, uso de elementos adicionais ao delineamento (como estudo preliminar detalhado e grupos adicionais de comparação), informe sobre as perdas, pré e pós-avaliação, estudo de seguimento e informe de dados estatísticos de relevância.
Alianda a eficácia e efetividadem a pesquisa centrada no cliente surge como o terceiro paradigma de avaliação das psicoterapias, com a retomada os estudos de caso, porém com uma metodologia mais rigorosa e refinada.
O estudo naturalístico, o controlado randomizado e as investigações chamadas “microanalíticas” caracterizariam, então, o panorama atual em pesquisa de psicoterapia psicanalítica.
Outra tendência é o desenvolvimento de estudos prospectivos, cuja principal vantagem é ter pontos diferentes de medida (in loco) antes, durante e após o tratamento, produzindo resultados mais acurados do que a reconstrução de dados passados. Entretanto traz a desvantagem do alto custo, duração loonga e influencia da pesquisa no processo analítico. Já a pesquisa retrospectiva tem a vantagem de não influenciar o processo da psicoterapia e demandar menores recursos financeiros e tempo dedicado à pesquisa, tendo como desvantagens a avaliação retrospectiva dos pacientes, o controle limitado do pesquisador de como delinear a estratégia de amostragem da população e sobre os dados existentes, que podem não incluir informações relevates e acuradas para a pesquisa.
Em síntese, no entanto, é evidente um movimento atual no sentido da realização de pesquisas de investigação das psicoterapias psicanalíticas, prinicpalmente nos cursos de pós-graduação das universidades, embora com poucas pesquisas de longa duração ocorrendo na América Latina e no Brasil.

5.2. Behaviorismo Radical: Análise funcional, Eficácia, Eficiência e Validade interna

Ulian, em sua tese de doutorado, levanta pontos importantes sobre a sistematização de uma prática terapeutica analítico-comportamental, problematizando o tema da análise funcional que podem ser transpostas para o estudo de eficácia da psicoterapia como um todo. Aponta para a importância de se conhecer das bases filosóficas, teóricas, metodológicas e tecnológicas da psicologia no desenvolvimento da prática profissional do psicólogo, apontando para o fato de que, segundo Skinner (1953) as “práticas devem representar uma posição teórica bem definida” e de que as “teorias afetam a prética”, concluindo que “confusão na teoria significa confusão na prática”. Diante disso defente a importância de uma formação teórica sólida como uma forma de preencher o hiato entre o pesquisador e o prático.
Remetendo-se à história da Psicologia como ciência, Ulian (2007) refere-se ao método experimental utilizado com sujeito único ou com poucos sujeitos, como método que permitiu à psicologia entrar no rol das ciências naturais. Esse método de pesquisa mudaria na década de 30, com o uso de métodos de pesquisa com grandes amostras, grupos de cntrole e análise estatística, que apresentariam métodos regras básicas que tornavam os resultados das pesquisas mais claros, com o delineamento de comparação entre grupos como o paradigma para a pesquisa em psicologia. Ulian aponta, no entanto, para o afastamento dos clínicos da pesquisa, pela orientação nomotética falar de um homem médio que não correspondia com os problemas da clínica, que lida com dados individuais e não médios (Barlow, Hayes & Nelson, 1984, apud Ulian, 2007).
Allport, na década de 60, recomendava o estudo intensivo do indivíduo, a partir de uma abordagem idiográfica, como forma de suplementar o estudo de grupo, o que veio a levar às primeiras preocupações com o controle experimental no estudo de caso único (Kazdim, 1982, apud Ulian, 2007). O delineamento experimental de Skinner para caso único (A-B-A), seria um método que poderia auxiliar na avaliação dos resultados dos tratamentos utilizados, como modelo de sistematização de uma prática até então sem delineamento de controle definido, sem demonstração de eficácia ou de efetividade.
Os conceitos de eficácia e eficiencia são importantes na avaliação das técnicas psicoterapeuticas. A APA (1985, apud Ulian, 2007) realizou um trabalho em 1995 com objetivo de desenvolver recomentações para um guia de prática baseada em evidências, definindo eficácia como mudanças produzidas por um tratamento em uma sindrome-alvo, e efetividade como a transposição dessa mesma intervenção numa situação do “mundo real” (APA, 1985). O conceito de prática baseada em evidência”, no entanto, ainda não estava bem compreendido (Chorpita, 2003, apud Ulian, 2007), sugerindo, porém, que a base de evidência deveria advir de quatro tipos de pesquisa, sendo uma de eficácia e três de efetividade, com diferentes graus de controle:
Tipo 1: Pesquisa de eficácia: parte de elementos da prática, passa pelo laboratório, com o objetivo de testas hipóteses, com controle de variáveis e alcança resultados positivos, observando-se os efeitos da VI sobre a VD.
Tipo 2: Pesquisa de transportabilidade: perde um pouco do controle sobre as variáveis, pois não exigiria que alguma variável pudesse influenciar o procedimento, transporta o trabalho para mais perto do “mundo real”, mas continua o controle sobre os terapeutas e supervisores, e aponta para o quão promissor é o trabalho realizado.
Tipo 3: Pesquisa de disseminação: o controle se mantem sobre uma ou poucas variáveis, permanecendo apenas sobre os supervisores, aproximando mais ainda do mundo real.
Tipo 4: Pesquisa de avaliação sistêmica: o investigador observa o que acontece no mundo real sem qualquer controle ou interferência, sem o controle de terapeutas e supervisores, sendo que, observando-se que o o procedimento foi promissir, teria-se desenvolvido um procedimento eficaz e efetivo, tendo partido da pesquisa de eficácia para fora do laboratório, mostrando sua efetividade.
O delineamento experimental A-B-A caracterizaria-se por um procedimento de eficácia, e sua análise funcional deveria ser necessariamente experimental, obedecendo critérios de controle e manipulação de variáveis, o que traria para a Psicologia Clínica segurança em relação aos procedimentos utilizados.
Um outro aspecto, no entanto, a ser levado em consideração é a eficiência, que está associada aos menores custos das ações ou à boa utilização dos recursos financeiros e humanos (Silva e Formigli, 1994; Marinho e Façanha, 2001, apud Ulian, 2007). Sendo que a manutenção de um modelo de análise funcional , restrita à manipulação experimental de variáveis demonstrando relações causais entre si, mostraria-se pouco eficiente, posto que seu custo seria muito alto para o benefício alcançado desse tipo de experimento.
O delineamento A-B-A, também não seria a melhor solução para a pesquisa em Psicologia Clínica, por questões éticas. Um delineamento que considera o “sujeito como seu próprio controle”, tomando-se a linha de base do comportamento problema, aplicando-se um procedimento (tratamento) e, depois, retirando-se esse tratamento, voltaria-se às condições de linha de base, se tratando de um procedimento de reversão. Entretanto, na prática mais importante que a pesquisa é o próprio bem estar do cliente, não sendo aconselhável retirar um procedimento cuja manipulação envolvida foi responsável pela melhora observada. Além do fato de que, mesmo realizada a reversão em situação clínica, esta lidaria com a irreversibilidade de muitas das condições que determinam o comportamento, não sendo possível reverter um processo de aprendizagem, para se testar ou comparar a eficácia de outro método com o mesmo indivíduo.
Diante dessa dificuldadem outros delineamentos foram desenvolvidos, para se mater algum controle sobre as variáveis de tratamento e atender às necessidades da situação clínica, chamados de caso único quase experientais, tomando-se a medida do comportamento antes do tratamento e outra (ou outras) depois, mas sem o uso da reversão.
No delineamento da linha de base múltipla, algumas respostas (pessoais ou situações comparáveis) são identificadas e as medidas adequadas são tomadas por um determinado tempo, produzindo-se linhas de base. Introduz-se uma variável independente sobre as respostas (pessoas ou situações) e se observa qual e quanto de mudança foi produzida nela e nas demais. Quando esta resposta (pessoa ou situação) apresentar estabilidade, introduz-se a VI à próxima resposta (pessoa ou situação) e observa-se a respectiva mudança, mantendo-se o procedimento em seqüência, até que a VI tenha sido aplicada a todos os eventos selecionados (Hersen & Barlow, 1984, apud, Ulian, 2007).
Um outro delineamento é o do critério móvel, onde a medida do comportamento em questão é tomada como linha de base e, a partir dela, observam-se as mudanças do comportamento, com a introdução de exigências (mudanças de critério de desempenho) cada vez mais próximas de um comportamento final desejado (Poling et al, 1995, apud Ulian, 2007).
Há ainda o delineamento conhecido como estudo de caso tipo A-B, que ficou seno o mais usado na clínica. Nesses tipos de estudo, A representa a fase de observação e medida do comportamento, sem nenhuma intervenção, e B é a fase de tratamento. Tem-se assim, um ponto de referência (fase A), e B é a fase de tratamento. Tem-se, assim, um ponto de referência (fase a) a partir da qual o efeito da variável tratamento pode ser avaliado (fase B), o que ermite alguma possibilidade de relacionar o procedimento utilizado com as mudanças comportamentais.
Entretanto, o controle sobre a VI (tratamento utilizado) no estudo de caso A-B é precário, sendo possível que se levante suspeitas sobre variáveis estranhas que podem interferir no processo, ameaçando assim a validade interna do estudo. Validade interna corresponde ao quanto a intervenção (e não influencias estranhas) pode ser considerada explicativa dos resultados (Kazdin, 1993, apud Ulian, 2007).
Kazdin (1982, 1993, apud Ulian, 2007) fez um levantamento de variáveis que poderiam influenciar os resultados de proceimento e os chamou de “ameaças à validade interna”, que dizem respeito ao delineamento do caso único. São elas a história do cliente ao longo do processo, os processos de maturação, o efeito do teste, por avaliação repetida, a instrumentação de medida ou procedimentos de avaliação, e a regressão estatística, com reversão de escores em direção à média.
Com o objetivo de avaliar a influencia dessas ameaças à validade interna num estudo de caso, Kazdin elaborou um processo decisório pelo qual classifica os estudos em tipo I, II ou III, de acordo com as possibilidades de eliminação dessas cinco ameaças. As características levantadas por Kazdin podem ser transformadas nas perguntas:

1) Os dados são observáveis?;
2) Houve avaliação continua das respostas?;
3) Os efeitos da intervenção são imediatos e acentuados?
4) É possível observar estabilidade do problema apresentado?
5) Há múltiplos casos?

Se apenas a primeira questão for respondida, o estudo de caso seria classificado como Tipo I, pois o único cuidado tmado seria a medida objetiva antes da introdução do tratamento e outra depois, não sendo possível afastar nenhuma variável estranha, impedindo concluir se tratamento produziu mudança de A para B.
Se puder responder mais duas perguntas, então poderia ser classificado de Tipo II. Se puder responder às questões 1,2,4 e 5, ele pode ser considerado como Tipo III.
Tendo avaliação continua, com medidas repetidas tomadas antes da intervenção, mudanças devidas à forma de avaliação já seria bservada antes da introdução do tratamento. Observando-se efeitos imediatos e acentuados quando a intervenção é iniciada, pode-se dizer com bastante segurança que tais efeitos foram devidos ao tratamento.
Observar os efeitos imediatos e acentuados permite afastar as variáveis relativas à história e à maturação, mas não completamente, pois alguns problemas mudam por si só, e assim, uma mudança drástica pode não ser devida ao tratamento. Algo inevitável e inexperado pode acontecer na vida do cliente e ocasionar também uma mudança abrupta de no seu desempenho, que também não será devida ao tratamento, de modo que responder sobre a estabilidade do problema é imprescindível para que um caso seja classificado como tpo III, pois se o problema for estável, pode-se prever sua continuidade no tempo e será possível afirmar que qualquer mudança ocorrida com a introdução do procedimento dói, de fato, devida a ele. Sendo que tal resposta só poderá ser obtida quando é feita avaliação continua.
O delineamento de estudo de caso A-B com os cuidados apresentados por Kazdin (1982) parece ser a solução para auxiliar o clínico, analista de comportamento, a ter um controle sobre o tratamento, embora, conforme salienta Ulian (2007), não permita estabelecer de fato uma relação funcional, que prove que o tratamento levou ao resultado.

5.3. Abordagem de aprendizagem de Holmes

Dentro das abordagens de aprendizagem, Holmes organizou os seus estudos delimitando e descrevendo as técnicas utilizadas pelos profissionais de tal grupo e propôs colocá-las a prova.
Inicialmente, ele compreende a ansiedade como principal foco de atuação dessas abordagens, geralmente como resultado de um condicionamento inapropriado de uma resposta de medo. Neste sentido, a atuação profissional envolveria a correção desse condicionamento. Para tanto, o foco de trabalho estaria voltado para os aspectos fisiológicos. Através da redução da tensão fisiológica, se chegaria a uma conseqüente redução da ansiedade.
Holmes, então, enumera três possibilidades de atuação para a abordagem de aprendizado: a extinção a inibição e o que ele nomeou de “aprender a relaxar”.
Na Extinção, o princípio básico seria a apresentação do estímulo temido em uma situação que não houvesse razão para se temer. Tal apresentação, neste contexto, pode ocorrer com a utilização do estímulo real, ou ainda com a imaginação do estímulo. Num primeiro momento o sujeito pode ser tomado pela ansiedade. Esta situação é conhecida como inundação.
Através de uma pesquisa, Holmes expôs os resultados de quão eficaz essa técnica pode ser. Essa pesquisa aconteceu com participantes que apresentavam agorafobia. Eles foram separados em quatro grupos e experimentaram tratamentos diferentes em cada um. O primeiro experimentou a exposição a lugares abertos; o segundo grupo foi tratado com medicação; o terceiro através de uma combinação de exposição e medicação; o quarto se reuniu para uma discussão dos seus problemas.
Os resultados foram medidos através de observação de quantos comportamentos relacionados ao medo o sujeito poderia desempenhar antes e após os seus tratamentos. Finalmente, obteve-se que os três primeiros grupos tiveram bons resultados e foram igualmente eficazes, sendo que tiveram uma melhor resposta melhor que a do quarto grupo.
Com a Inibição, é apresentada a idéia de dessensibilização sistemática. Este processo acontece em três etapas, da seguinte maneira: ensina-se o sujeito a relaxar através de técnicas apropriadas; em seguida, listam-se os estímulos causadores de ansiedade, do menos temido ao mais temido; enfim, relaxa-se e entra-se em contato com o estímulo menos temido, sucedendo até chegar ao estímulo maior.
Pesquisas voltadas pra esse procedimento sugerem que o mesmo tem bastante eficácia para a redução de medos e fobias. Entretanto, alguns pesquisadores questionam se não seria a exposição a tais estímulos temidos a real produtora dos efeitos de redução.
Finalmente, outra possibilidade de utilização dessa abordagem ocorre através do ensino de técnicas de relaxamento ao cliente para que possam ser utilizadas por ele sempre que se sentir ansioso. Holmes se refere a essa forma de atuação como “Aprender a Relaxar”.
As pesquisas ao redor desta técnica concluíram que, de fato, a seu uso reduz a estimulação fisiológica. Complementam ainda afirmando que alguns indivíduos passam a usar a técnica em outras situações de ansiedade. Entretanto, questionam a sua eficácia supondo que o relaxamento poderia produzir um sentimento de melhor habilidade de enfrentamento. Sendo que isso, de fato, teria produzido a mudança.

5.4. Abordagens Cognitivas

As abordagens cognitivas também encaram a ansiedade como sua área de trabalho. Entretanto, é possível perceber que existem formas diferentes de encarar o mesmo conceito.
Para o cognitivismo, a ansiedade pode ser surgir à partir de algumas situações: quando o sujeito está seletivamente atento para estímulos que provocam ansiedade; quando seletivamente recorda pensamentos ansiogênicos; quando interpreta mal estímulos neutros como provocadores de ansiedade ou quando espera erroneamente que situações sejam ameaçadoras.
A atuação dessas abordagens, portanto, aconteceria através da modificação de crenças do sujeito, ou então da distração dos pensamentos mal-adaptados. Dentro do contexto de modificação de crenças, existem dois tipos de crenças podem ser mudadas: as crenças sobre a situação e as crenças sobre a habilidade de enfrentar a situação.
Como possível forma de atuação se tem a Terapia Cognitiva. Essa forma de terapia busca oferecer declarações para o cliente a fim de corrigir erros e mal entendidos. Neste processo, essas afirmativas são dadas como hipóteses a fim de serem testadas e comprovadas pelo sujeito. Outra possibilidade é a Terapia Racional – Emotiva, que tem como objetivo interrogar o sujeito, desafiando assim as suas crenças, proporcionando a ele a capacidade de reexaminá-las.
As pesquisas que se ocuparam de medir a eficácia das abordagens cognitivas encontraram bons índices de eficácias em todas as técnicas apresentadas, principalmente para o tratamento de fobias. Porém, permanece o questionamento de que a recuperação dos clientes tenha sido obtida por fatores comportamentais e não, de fato, cognitivos. Como uma crítica feita ao processo de Terapia Cognitiva onde, ao testar as hipóteses sugeridas pelo terapeuta, o cliente estaria se recuperando por estar sendo exposto ao estímulo, e não por uma reestruturação cognitiva.

5.5. Psicoterapias Humanistas (ACP e Gestalt Terapia)

Dentre as abordagens humanistas, talvez as mais disseminadas no Brasil sejam a ACP – Abordagem Centrada na Pessoa e a Gestalt Terapia. Ambas se fundamentam na fenomenologia e no existencialismo dialógico, como bases filosóficas que sustentam sua visão de homem e de mundo, e afirmam como principal recurso da prática terapêutica o estabelecimento do vinculo da relação pessoa-pessoa, buscando evitar a dicotomia sujeito-objeto, no qual o cliente estaria na posição de objeto subordinado ao conhecimento do psicoterapeuta.
As abordagens humanistas se baseiam também na compreensão de que o organismo tende à auto-regulação, ao equilíbrio homeostático e tem uma tendência atualizante, um movimento em direção à realização do seu projeto existencial e do desenvolvimento de suas potencialidades.
A ACP e a Gestalt Terapia apresentam diferenças em relação ao manejo técnico da relação terapêutica. A ACP baseia-se na compreensão empática, no olhar positivo incondicional e na congruência. Esses três pressupostos derivam do processo de evolução da abordagem, inicialmente como Terapia não diretiva (década de 30), passando pelo período da Terapia reflexiva ou centrada no cliente (décadas de 40 e 50), até a Terapia experiencial (década de 50), havendo nesse percurso uma mudança de atitude do terapeuta, da não diretividade a uma postura mais reflexiva (Boainain Jr. 1998). Posteriormente, Carls Rogers espandiu seu trabalho a atuação junto a grupos, desenvolvendo a metodologia dos grupos de encontro, que ampliaria a aplicabilidade dos pressupostos da ACP a contextos mais amplos.
O desenvolvimento da ACP por Rogers é registrado de forma sistemática em seus livros Psicoterapia e Consulta Psicológica (1942), Terapia Centrada no Cliente (1951) e Grupos de Encontro (1970), utilizando-se de análises de transcrições de sessões terapêuticas, com reflexões sobre a postura terapêutica e depoimentos de clientes submetidos aos trabalhos individuais e de grupo, sendo desenvolvida e reformulada a partir das experiências clínicas de Rogers e de seus colaboradores.
Já a Gestalt Terapia tem seu desenvolvimento marcado por dois momentos: antes e depois de Perls. Seu desenvolvimento inicial se deu entre as décadas de 50 e 70, empreendidos em movimentos distintos: o novayorkino e o caloforniano. O grupo novayorkino, liderado pela Laura Perls, Paul Goodman e Isadore From tinha uma preocupação maior na fundamentação teórico-filosófica da abordagem, e adotava uma postura terapêutica mais dialógica, sendo essa postura a que garantiria o sucesso do processo terapêutico. Já a vertente californiana, representada pelo Perls, se valia de experimentos e técnicas psicodramáticas que, realizadas em modelos de workshops de fins de semana, propunha a cura imediata a partir de vivências catárticas. Num primeiro momento, a Gestalt Terapia foi associada apenas a esses experimentos e técnicas desenvolvidos por Perls, que fazem parte da primeira parte do Gestalt Therapy (1951), nas transcrições dos workshops de Perls no Gestalt Terapia Explicada (1969) e da obra Tornar-se presente, do John Stevens (1971).
Ao longo dos últimos 30 anos, posteriores à morte de Perls, a Gestalt Terapia buscou um movimento de maior consistência teórico-filosófica e técnica, se aproximando de uma atitude terapêutica mais dialógica semelhante à adotada pela ACP, embora mantendo uma postura terapêutica mais ativa e não descartando completamente o uso de experimentos. A entrada de gestalt terapeutas no contexto acadêmico também contribuiu para uma maior sistematização da abordagem em termos técnicos e teóricos, refletindo sobre metodologias diversas, como em trabalhos de grupo (Tellegen, 1984), com sonhos (Lima Filho, 2002), e mais atualmente sobre o processo psicodiagnóstico (Pimentel, 2003), psicoterapia infantil (Aguiar, 2005) e psicoterapia de curta duração (Brito, 2009).

VI. Avaliação da Melhora pelas Psicoterapias

Para se estabelecer alguns parâmetros que possam direcionar uma avaliação mais segura da melhoria do cliente, alguns pontos devem ser levados em consideração. Quando uma pessoa se submete a um procedimento psicoterapêuticos, ela procura mudar aquilo que está lhe causando sofrimento ou ansiedade. Muitas vezes, a demanda pelos métodos terapêuticos é para modificar alguns ou uma série de comportamentos e melhorar ou progredir em suas relações interpessoais.
De forma geral, a melhora expressa por aqueles que passam por psicoterapia devem refletir numa melhora sintomática, em maior ou retomada da produtividade no trabalho, ajustamento e prazer aumentados no sexo, melhora nos relacionamentos interpessoais e habilidades aumentadas para cuidar de conflitos psicológicos. Esses critérios foram primeiro desenvolvidos por Knight em 1941(Wolpe, 1980), entretanto, já ultrapassado por uma visão mais contemporânea. De fato, o trabalho de Knight foi de suma importância e deve ser referenciado por ser uma das primeiras tentativas de estabelecer alguns pontos criteriosos a serem seguidos apara avaliar se o cliente está de fato melhor com a psicoterapia.
Evidente que esses critérios passaram por uma evolução (Atkinson, 2002). Atualmente, é importante avaliar se de fato houve mudanças no comportamento-alvo e melhoras nas relações interpessoais do cliente. Esse processo de avaliação deve ser levado em conta pelo cliente que se submete ao procedimento, pelo terapeuta que acompanha o caso e por um terceiro membro não incluído na psicoterapia, mas que possuem vínculo com a pessoa que está sendo atendida. Dessa forma, será considerando uma maior quantidade de fatores e elementos para avaliação da melhora do cliente. O que existe de comum nesses critérios, e que não se perdeu durante sua evolução são os processos de mudança do cliente, desde comportamento ou queixa que o levou a procurar o serviço de um profissional e se ocorreram alterações benéficas no seu ciclo social.

VII . Dificuldades na Avaliação da Eficácia

Na história das pesquisas de avaliação da eficácia, nem sempre seus procedimentos e objetivos foram alcançados ou claros. Há inúmeras variáveis que podem interferir no processo psicoterapêutico, e também na avaliação de eficácia. Um desses fatores é o da remissão espontânea, que nada mais é do que a melhora da pessoa sem se submeter a nenhum processo terapêutico. Esse evento não ocorre de maneira voluntária, mas com alguns fatores, que pode ser desde a mudança de comportamento, ambiente ou hábitos da pessoa, até a procura de apoio de amigos, grupo religioso, entre outros. A remissão espontânea coloca em xeque a questão de delimitação de até onde realmente a melhora vem de um procedimento técnico do profissional de Psicologia, ou de uma mudança que ocorreria de qualquer forma, com o passar do tempo.
Outro problema que se aponta quando se investiga a eficácia das psicoterapias está na forma como ocorre a medição dos resultados (Atkinson, 2002; Eysenck 1978), pois ainda não existe um conjunto de critérios consistentes que permitam com segurança indicar a real eficácia de um procedimento terapêutico para a melhora do quadro de um cliente. Essa fraca delimitação das características esperadas para concluir a eficácia da psicoterapia é um ponto ainda em debate e que não se tem expectativa de uma solução imediata.
Alguns fenômenos também se apresentam como um ponto de dificuldade na avaliação da eficácia das psicoterapias. O primeiro deles que se destaca é o efeito conhecido como “Olá-Adeus”, que é descrito por Atkinson, (2002, p. 540) como:

No início da terapia (o olá), as pessoas tendem a exagerar sua infelicidade e seus problemas, para convencerem o terapeuta de que realmente precisam de ajuda. Ao final da terapia (o adeus), elas tendem a exagerar seu bem – estar, para expressarem apreciação pelos esforços do terapeuta ou para convencerem a si mesmas que seu tempo e dinheiro não foram desperdiçados.

Esse tipo de fenômeno é mais comum do que realmente muitos profissionais conseguem identificá-lo, e pode interferir diretamente na avaliação sobre o procedimento realizado. Outro fenômeno reconhecido pelos pesquisadores da área de avaliação de eficácia é o denominado “veredicto do pássaro Dodô”, utilizado como metáfora retirada da história “Alice no país das maravilhas”, em que se é questionada se de fato existe alguma diferença significativa entre a eficácia das diversas abordagens e técnicas terapêuticas.
Não se pode deixar de ressaltar o papel desempenhado pelo terapeuta em fornecer dados para uma avaliação objetiva dos casos submetidos à psicoterapia. Segundo diversos autores (Atkinson, 2002; Jung, 2006, 2007), o terapeuta influencia diretamente para os resultados na avaliação da eficácia por ser muito rigoroso ao examinar o resultado dos casos acompanhados por esse, ou seja, pelo interesse de declarar a melhora do cliente. Para se evitar esses erros, Atkinson (2002) sugere que a avaliação do processo terapêutico deve ser feito em tríplice, ou seja, pelo próprio cliente, pelo terapeuta que o acompanha e por mais uma terceira pessoa que não esteja envolvida no processo, a fim de garantir a possível neutralidade dos resultados.
Outro grande problema que se aponta no campo da avaliação das psicoterapias está relacionado aos procedimentos empregados quando o público alvo possui comprometimentos de ordem psicopatológicos graves, como transtorno bipolar ou esquizofrenia. Nesses casos, há uma baixíssima eficácia de qualquer procedimento psicoterapêutico, o que nos faz questionar até que ponto os métodos da psicoterapia são capazes de proporcionar benefícios a todos.
Entretanto, os desafios e dificuldades na avaliação de eficácia das psicoterapias estão longe de ter um resultado conciliador devido aos inúmeros elementos que estão intrínsecos ao processo terapêutico.

VIII . Resultados de Pesquisas sobre Eficácia das Psicoterapias

Uma perspectiva diversa daquelas até então discutidas pode ser encontrada nas idéias de Ernest Poser. O autor, em um dos seus artigos, expõe uma pesquisa realizada com o objetivo de medir a eficácia de tratamentos de profissionais dotados de experiência, em comparação a pessoas destreinadas para exercer a posição de terapeuta. Neste sentido, o que se propõem encontrar é qual o “ingrediente ativo” que estaria presente na relação terapeuta-paciente. Se estaria na vivência e na sofisticação teórica ou seria melhor influenciada por fatores não específicos, como reações placebo, por exemplo.
Nesta pesquisa, realizou-se um experimento com 343 pacientes esquizofrênicos. Os mesmos foram distribuídos em grupos e cada grupo seguiria por um destes três caminhos: seriam atendidos por profissionais treinados para isso – como psiquiatras, terapeutas ocupacionais – ou seriam atendidos por “terapeutas” não treinados, neste caso representados por estudantes universitários sem qualquer conexão com a Psicologia ou a saúde mental. Por fim, outros grupos não receberam qualquer espécie de tratamento.
Uma bateria de testes – contendo provas de reação visual, fluência verbal, conflito cor-palavra, entre outros – foi aplicada antes e após que o trabalho realizado nestes grupos tenha sido realizado. É importante ressaltar que todos os terapeutas, treinados ou não treinados, tinham completa liberdade para conduzir as suas sessões de terapia dentro dos grupos, sem qualquer preparação ou sugestão. Agrega-se a isso o fato de que todos os pacientes imaginavam estar sendo tratados por profissionais que atuam na área de saúde mental.
Como resultado deste processo, foi possível perceber que os grupos tratados por terapeutas leigos obtiveram resultados melhores do que os grupos que não receberam tratamento. Os grupos tratados por terapeutas treinados também foi superior ao grupo em que não houve tratamento, porém de forma inferior ao grupo leigo.
Numa comparação direta, os grupos dos terapeutas leigos obtiveram resultados significativamente superiores aos grupos dos terapeutas treinados. Podemos considerar, porém, que o desvio padrão entre os pacientes foi menos nos grupos dos terapeutas treinados.
Poser afirma, em sua discussão, que o motivo para os terapeutas leigos terem sido mais bem sucedidos provavelmente aconteça pelo fato de que o “entusiasmo ingênuo” vindo desses terapeutas terem sido eficazes para compreender e suportar as flutuações de humor dos pacientes em questão, fugindo dos padrões estereotipados de tratamento de alguns grupos profissionais. Neste sentido, a discussão caminha para um questionamento que incide sobre a forma como os profissionais que buscam lidar com tais aspectos subjetivos vem sendo preparados e de que forma a teoria é assumida por eles, como um apoio que possibilite o acesso às questões e inquietações do outro, ou algo que se coloca como uma barreira entre o terapeuta e seu cliente, protegendo o primeiro e colocando o segundo numa posição passiva frente o próprio processo de tratamento.

IX. Relação Profissional e Ética

Um dos elementos que interfere de forma crucial para a avaliação da psicoterapia recai sobre os profissionais e as questões éticas envolvidas. O profissional deve lidar com inúmeras responsabilidades, que vão desde sua formação, até nas preocupações de suas condutas, que devem ser de acordo com as questões de fórum ético. Segundo o Código de Ética do Profissional do Psicólogo (2005), é vedado: “art. 2º: Prolongar, desnecessariamente, a prestação de serviços profissionais”. Ou seja, a avaliação da eficácia dos seus procedimentos é importante para evitar uma falha ética do profissional. Vale ressaltar que nessa celeuma, ainda está em evidencia a dualidade estabelecida entre o Abandono X “Alta”, já que ambas são levantadas por ponto de vistas diferentes. Segundo Jung (2006; 2007) essa discrepância decorre justamente da relação entre terapeuta e cliente, e das falhas ao se estabelecer critérios rigorosos de avaliação do término do procedimento terapêutico. Do ponto de vista da melhora do comportamento alvo, para alguns terapeutas, aquilo que o cliente considera como melhora, “alta”, ele interpreta como abandono, mostrando a insuficiência de se considerar apenas um lado da relação para avaliar o processo terapêutico.
Outro ponto que também incidi sobre a psicoterapia está na questão da bioética, ou seja, na utilização de humanos para pesquisa e de como isso pode afetar os participantes:

“Seria interessante considerar como poderia ser levada a efeito uma pesquisa mais adequada. Em primeiro lugar e com primazia, naturalmente, devemos insistir na necessidade de um grupo de controle, isto é, de um grupo selecionado sob a mesma base dos submetidos à psicoterapia, mas deixando sem tratamento durante certo período. É uma exigência básica, mas que muitas vezes provoca objeções fundadas em princípios éticos. Pode-se justificar a recusa de terapêutica – por inseguras que sejam as suas bases e por pouco que se saiba a propósito de seus efeitos – a uma pessoa que esteja, no momento, realmente sofrendo? Cria-se, assim, um verdadeiro dilema. (…)” (Eysenck, 1978, p. 170).

Autores como Eysenck (1978) e Atkinson (2002) apontam nessa direção e problematizam se é possível permitir que alguém, quando submetido a uma pesquisa no campo da eficácia da psicoterapia, permaneça sem tratamento. De fato, um outro desafio para pesquisas na área de eficácia.

X – Considerações Finais
Vimos então que a psicoterapia, de acordo com Atkinson (2002), é considerada efetiva se a melhora do cliente, após a terapia, é maior do que qualquer melhora que ocorra sem a terapia durante o mesmo período. E que existem critérios de eficácia de uma psicoterapia, tais quais: a duração, a relação terapeuta-paciente e o impacto da mesma nas relações interpessoais do cliente. É bem verdade que ainda não existe um conjunto de critérios consistentes que permitam com segurança indicar a real eficácia de um procedimento terapêutico para a melhora do quadro de um cliente.
Podemos, entretanto, situar alguns fatores comuns às psicoterapias e que produzem melhoras: Wolpe (1980); Atkinson(2002);

• Calor Humano;
• Relação interpessoal terapeuta-cliente;
• Conforto, apoio, confiança;
• Falta de julgamento;
• Impacto emocional do terapeuta;
• Experiência do terapeuta;
• Expectativa do cliente;

Como uma tentativa de aprimoramento das tecnologias capazes de dar uma resposta para a angústia e para o desamparo humanos, concluimos esse trabalho cientes de que esse é apenas o começo de um longo percurso de reflexões, crises e aprimoramentos profissionais de cada um de nós, afim de nos tornarmos competentes enquanto psicólogos e psicoterapeutas.

XI – Referências Bibliográficas

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* Artigo elaborado para a disciplina Teorias e Técnicas Psicoterápicas II, sob a orientação do Prof. Iodenor Mascarenhas Cerqueira, em 2009.1

MENINO PRESENTE: Fragmentos de infância e aspectos do desenvolvimento na poética memorialista de Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade. *

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Resenhar uma livro de poesias para uma disciplina de Psicologia do Desenvolvimento é uma aventura, para não dizer um desafio. Essa aventura se torna ainda maior por se tratar de um livro de Carlos Drummond de Andrade, pela responsabilidade que acabo por assumir na compreensão e interpretação de seus muitos poemas, temendo dar ênfase a uns, desmerecendo outros, ricos de imagens e sensibilidade, no retorno memorialista que o autor faz, através do verso, a infância, às lembranças da Minas Gerais itabirana, com seus costumes de província e seus sentimentos universais. Assim me encontro, diante dos 420 poemas de Boi Tempo, que versam sobre temáticas diversas, abordando desde questionamentos políticos, hábitos locais, até a imersão no mundo da criança, do “menino” que brinca, que briga, que tem sonhos e pesadelos, que respeita e teme a figura paterna e vê a mãe sob uma aura singular de sensibilidade e carinho, que começa a amar sem saber o que é o amor, que deseja e sente o despertar da sexualidade ou se descobre nas páginas dos primeiros livros, na solidão do internato.

Dividido em 3 volumes, Boi Tempo compreende uma coletânea de 420 poemas, que são subdivididos por títulos (ou “livros”) temáticos. Destes, foi possível selecionar um total de 83 poemas que tratam direta ou indiretamente de aspectos da infância, agrupados em sua maior parte no livro O pequeno e os grandes, de Boi Tempo II – Menino Antigo, e nos livros Fazenda dos 12 vintens ou do Pontal e Terras em redor, O menino e os grandes, Repertório Urbano, Primeiro colégio e Fria Friburgo, contidos em Boi Tempo III – Esquecer para lembrar. De Boi Tempo I encontrei apenas dois poemas, “O Banho” e “A Puta”, fazendo referência à aspectos da infância.

Para compreender esse retorno de Drummond à infância, utilizo-me do poema “Intimação” (p. 696) que serve como abertura do Boi Tempo III:

Intimação

- Você deve calar urgentemente

as lembranças bobocas de menino.

- Impossível. Eu conto o meu presente.

Com volúpia voltei a ser menino.

Nesse poema, Drummond traz uma dupla perspectiva sobre a infância: o descrédito atribuído pelo adulto à criança e o saudosismo deste mesmo adulto, que busca, através da memória, revivê-la. O primeiro aspecto se dá através da representação da infância como um momento sem importância, desprezado na maior parte das vezes pela perspectiva de uma racionalidade adultocêntrica, que desqualifica as lembranças – “bobocas” – da criança, colocando-a como desprovida de uma razão própria e desmerecendo a sua forma de percepção e representação da realidade. Essa perspectiva segue o viés da representação social da criança como um “não ainda”, um “não lugar” (CASAS, 1998), em que ela está subordinada ao arbítrio do adulto.

Em contraposição a esse desprezo aparente, há o desejo de retorno ao passado, uma evasão e um saudosismo que se dá na maturidade do poeta-homem, que busca o passado no presente das memórias, revivendo o olhar inocente sobre o mundo, as brincadeiras, os cenas cotidianas, os amores e a tristeza, a liberdade perdida pela imersão no mundo das normas e padrões de conduta, que a vida adulta impõe através das suas muitas responsabilidades. Esse retorno do poeta se dá, no entanto, já com a maturidade da vida percorrida, numa relação de revisitação e reflexão que se delineia em cada verso dotado de um sentimento particular e de um olhar universal.

A idéia do não lugar da criança, ou a infância como fase de indefinição da identidade, em que ela ainda não é considerada como sujeito, é trazida por Drummond em sua reflexão nos poemas “Verbo ser” (Boi Tempo II) e “Aquele córrego” (Boi Tepo III).

Verbo ser

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas! Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer. (p. 664)

Neste poema em prosa, Drummond levanta os questionamentos sobre o “tempo de ser”, que seria a idade adulta, estando a criança circunscrita como um “não ser”, um algo ainda por se tornar. Delineada numa única pergunta central e cotidiana, – o “Que vou ser quando crescer?” -, lançada com freqüência à criança, busca-se uma resposta definidora, um conceito, uma suposta solidez que despreza a infância e a própria vida como um processo de desenvolvimento contínuo, de vir-a-ser, mutável e dinâmico. Diante da ausência de uma resposta objetiva, o eu-lírico abre mão de respostas e busca simplesmente viver, “crescer assim mesmo”, sem uma definição, seguindo a vida em seu fluxo. Essa indefinição e esse questionamento levantado em “Verbo ser” é retomada em “Aquele córrego” no trecho a seguir:

Aquele córrego

(…)

Que nome ele tem? Não tem

nome nenhum, tão muidinho

ele é. Pois é, qual riacho

qual nada. Ele é mesmo corgo

ou nem isso. É meu desejo

de água que não me afogue

e onde eu veja minha imagem

me descobrindo, indagando:

que menino é esse aí?

Que menino é este aqui?

Não sei como responder.

(…) (p. 703)

Em “Aquele córrego”, além de retratar esse não lugar da criança, ele aprofunda uma reflexão existencial sobre a própria identidade, refletida no menino da infância, da lembrança e memória do passado – o “menino aí” – e o menino revivido no presente, ele mesmo, através da poesia, do eu-lírico que se constrói no agora – o “menino aqui”. Retornar a infância torna-se, então, um processo de auto-descoberta.

Ainda tratando sobre a representação da criança, temos, no poema “Fim da casa paterna”, contido no livro Primeiro Colégio, de Boi tempo III, a imagem da criança como “objeto de família”, seguindo a compreensão da criança como uma questão de ordem familiar, circunscrito sob as “leis” domésticas e a ela subordinada no espaço privado (ARÌES, 1981; CASAS, 1998). Nesse poema, o autor retrata o desespero da criança em ter de sair do núcleo familiar para adentrar a sociedade, através da escola – o colégio interno – caminho a ser trilhado para a suposta liberdade advinda com a educação. Abaixo, segue o fragmento que retrata essa questão:

Primeiro colégio

(…)

Vou dobrar-me

à regra nova de viver.

ser outro que não eu, até agora

musicalmente agasalhado

na voz de minha mãe, que cura doenças

escorado

no bronze de meu pai, que afasta os raios.

Ou vou ser – talvez isso – apenas eu

unicamente eu, a revelar-me

na sozinha aventura em terra estranha?

Agora me retalha

o canivete desta descoberta:

eu não quero ser eu, prefiro continuar

objeto de família. (p. 776)

Nesse fragmento temos retratado também um aspecto interessante e que diz respeito à idealização da criança em relação às figuras paterna e materna, estando a mãe representada como uma imagem de doçura e bálsamo e o pai, uma figura de força, mantenedor e protetor da família, representações estas ligadas diretamente à configuração típica da família patriarcal.

Além dessa reflexão, podemos perceber outros aspectos da infância, que são retomados. A memória de fatos do cotidiano, como as brincadeiras de criança, as brigas, os rituais religiosos, o contato com a escola e o processo de socialização, são recorrentes em diversos de seus poemas.

Em “Higiene corporal” (Boi Tempo III, p. 718), por exemplo, é retratada a cena de asseio da criança pequena, feita por um cuidador. Esse poema reflete a importância, nos primeiros anos de vida da criança, de uma atenção especial voltada para a criança, a fim de garantir seu bem-estar e desenvolvimento saudável, com progressiva aquisição de independência, à medida em que vai adquirindo habilidades próprias (COLE & COLE, 2004). Esse processo de progressivo desenvolvimento da criança representa mudanças significativas tanto para ela, apresentado de forma metafórica pela mudança da forma de asseio – dos “panos de limpar cu” para os “pedaços de jornal” –, como na dinâmica social em seu entorno, nos papéis estabelecidos pelas outras pessoas em suas relações diádicas (GAUY & COSTA JR., 2005).

Higiene corporal

Junto à latrina, o caixote

de panos de limpar cu

de menino.

Sá Maria é quem limpa o cu

e lava o pano.

Cresce o menino.

Assume a responsabilidade

de limpar seu próprio cu

com pedaços de jornal.

Sá Maria é chamada a outros deveres.

Em “O Banho de Bacia”, contido em Boi Tempo II (p. 663), vemos a contraposição entre a criança e as normas sociais que são impostas a ela, para que esta adentre, progressivamente, a vida dos adultos – “Se não tomar banho não vai passear”. Para o eu-lírico, o banho não representa apenas um momento de asseio, um hábito de higiene, necessário para a saúde, mas uma “condenação”, uma limitação para sua atuação mundo. Essa experiência, no entanto, inicialmente violenta, para a criança do poeta, ganha novo sentido, o das possíveis e múltiplas sensações que o mundo oferece em seu processo de descoberta e exploração criativa e individualizada, configurada no ambiente do quarto de banho. Esse olhar sensível, esse vivência sensorial, novamente se contrapõe às prescrições dos adultos, e é representada como uma revolta da criança, e do próprio poeta, ao dever que submete sua criatividade. Podemos perceber esses elementos no trecho a seguir:

O Banho de Bacia

(…)

O mundo é estreito. Uma prisão de água

envolve o ser, uma prisão redonda.

Então me faço prisioneiro livre.

Livre de estar preso. Que ninguém me solte

deste círculo de água, na distancia

de tudo mais. O quarto. O banho. O só.

O morno. O ensaboado. O toda-vida.

Podem reclamar,

podem arrombar

a porta. Não me entrego

ao dia e seu dever.

Um outro sentido atribuído ao banho, pelo poeta, é o de purificação espiritual e, paradoxalmente, o despertar da sexualidade na criança, através da progressiva descoberta e erotisação do corpo, o que é retratado no poema “O banho”, contido em Boi Tempo I.

O banho

Banheiro de meninos, a Água Santa

lava nossos pecados infantis

ou lembra que pecado não existe?

Água de duas fontes entrançadas,

uma aquece, outra esfria surdo anseio

de apalpar e na laguna a perna, o seio

a forma irrevelada que buscamos

quando, antes de amar, confusamente amamos.

A tarde não cai na Água Santa

Ela pousa na sombra da gameleira,

fica vendo meninos se banharem.

Esse processo de descoberta e erotisação do corpo, pela criança, é, no entanto, foco de forte repressão moral, por parte da cultura e da religião cristã, em especial, por esta considerá-la impureza e submetendo a criança ao peso de um suposto pecado, o que é representado não apenas no poema “O Banho”, na “Água Santa (que) lava nossos pecados infantis” como em outros tantos, e que destaco no trechos a seguir, dos poema “Sentimento de pecado” (p. 751-752) e em “Ele” (p. 752-753), ambos contidos em Boi Tempo III.

Sentimento de pecado

Pecar, eu peco todo santo dia.

Às vezes mais. Outras nem tanto.

Mas sempre a sombra, na consciência,

visão do inferno, crepitante,

subimpressa nos atos, nos lugares.

sei todos os pecados e cometo-os.

Todos os arrependimentos.

Todas as prosternadas confissões,

previstas penitências (…)

Como pode durar o ano inteiro

este jogo de deus e de diabo

em peito de menino?

(…)

***

Ele

(…)

O que faço de errado,

principalmente o que faço

de gostoso,

tudo lhe merece

a mesma indiferença

enquanto vou fazendo.

Tarde é que mostra sua

condenação.

Interrogo-me, sinto

que dói dentro de mim.

Não devia ter feito.

Como poderia evitar de fazer?

Só agora percebo

que condenado fui

a pazer e provar a pena interior.

Seu nome (e termo) é Deus do catecismo.

Esses poemas retratam a repercussão que o contato com certas experiências culturais, como o estabelecido com os dogmas da religião católica, ou com papéis sociais de autoridade repercutem sobre o imaginário da criança. Assim como nos poemas acima citados, em que o pecado e o temos a Deus é retratado, outras figuras ganham dimensões e forte impressão sobre a criança, como a do padre, como autoridade religiosa, e do pai, que representa a autoridade dentro do seio da família nuclear e patriarcal, que constituem as memórias de infância do eu-lírico. Um certo temor acaba por ser construído e configurado no ato da “benção”, que perde muito de seu sentido no ambiente familiar urbano, mas que ainda tem representatividade em ambientes rurais, e é retratado também nos trechos dos poemas O padre passa na rua (p. 680) e O beijo (p. 656), abaixo transcritos:

O padre passa na rua

Beijo a mão do padre

a mão de Deus

a mão do céu

beijo a mão do medo

de ir para o inferno

o perdão

de meus pecados passados e futuros

a garantia de salvação

(…)

***

O beijo

Mandamento: beijar a mão do Pai

às 7 da manhã, antes do café

e pedir a benção

e tornar a pedir

na hora de dormir.

(…)

Olha o caso do Nô.

Cresce demais, vira estudante

de altas letras, no Rio de outras normas.

Volta, não beija o Pai

na mão. A mão procura

a boca, dá-lhe um tapa,

maneira dura de beijar

o filho que não beija a mão sequiosa

de carinho, gravado

nas tábuas da lei mineira de família.

A definição de papéis, através do contato da criança com a dinâmica social, na família, primeiramente, possibilita, à criança, a diferenciação na forma de representar, por exemplo, a figura paterna da figura materna, como é retratado, no poema “Distinção”, de Boi Tempo II (p. 649):

Distinção

O Pai se escreve sempre com P grande

em letras de respeito e temor

se é Pai da gente. E Mãe, com M grande.

O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.

Com ela sim me entendo bem melhor:

Mãe é muito mais fácil de enganar.

(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

Nesse poema percebemos não apenas uma distinção de nível de autoridade atribuído ao pai, em superioridade à da mãe, justificada pelo contexto predominante da família patriarcal, no início do século XX, como a maior relação de afetividade entre a criança e a mãe, relacionada ao maior cuidado, dirigido, na maioria das vezes, por ela ao filho. Esse cuidado deve-se aos papéis sociais atribuidos à mulher ao longo da história recente da humanidade, em que cabia a ela a condição de cuidadora da criança, estabelecendo-se supostamente um maior vínculo de apego e laços afetivos.

Nos poemas “Revolta” (p. 686) e “Fuga” (p. 686-8), nos deparamos com duas questões bastante curiosas que povoam a infância: o castigo, dirigido pelo adulto como forma de punição, – às vezes por meio de violência física, como retratado também no poema “O maior Pavor” (p. 787) -, por mau comportamento ou desobediência, e as reações emocionais de raiva da criança, que se sente injustiçada, e pensa em fugir de casa. Esses mesmos sentimentos são retratados nos poemas em que o autor rememora as cenas no internato, como no poema “A norma e o domingo” (p. 783).

Enfocando um outro aspecto levantado por Drummond em seus poemas, temos a questão das brincadeiras de criança, que estão retratados em poemas como “Os grandes” (p. 663), “Matar” (p.664), “Fruta furto” (p. 666), “Achado” (p. 667) e “Quinta-feira” (p. 668-9), contidos em Boi Tempo II, e os poemas “Estojo de costura” (p. 714), “Açoita-cavalo” (p. 714), de Boi-Tempo III.

Em Os grandes observamos a contraposição entre os valores das crianças e os dos adultos, em que Drummond expõe a riqueza do mundo infantil em oposição à vida do adulto, imersa em relações de negócios. Essa própria forma de brincar, com objetos ordinários – pedrinhas – do dia-a-dia, irrelevante para a maioria dos adultos, demonstraria uma potencialidade criativa da criança em sua atividade de exploração e significação do mundo, de forma evidentemente distinta da do adulto. Esse paradoxo é explicitado no fragmento abaixo:

Os grandes

(…)

Incessantemente falam de negócio.

Contos contos contos de réis saem das bocas

circulam pela sala em revoada,

forram as paredes, turvam o céu claro,

perturbando meu brinquedo de pedrinhas

que vale muito mais.

Outro aspecto digno de nota diz respeiro às inúmeras brincadeiras coletivas de criança, trazidas no poema “A separação das casas” (p. 756-760), que retrata a importância dessa atividade para o processo de socialização, estabelecida no contato com outras crianças, possibilitando estabelecer formas embrionárias de interação e definição de papéis. Essas formas primeiras de relação, criança-criança, sofreriam, no entanto, progressiva intervenção de valores sociais e de classe, de grupos, que desvirtuariam o tipo de vinculação primária e não preconceituosa de uma criança em relação a outra. Essa questão é apresentada no trecho a seguir:

A separação das casas

Crianças das duas casas

unidas num só brinquedo

de chicotinho queimado,

carniça, gata-parida,

e marija, roda cantigas

lusamente brasileiras,

ou melhor universais.

té se fez de mentirinha,

casamento de meninos

(…)

Eis de súbito alterado

o panorama gentil

de tão grata convivência. (p. 759)

Essa intervenção social, oriunda do mundo dos adultos ao infantil, é retratado como uma forma de imposição e violência ao mundo infantil, construído sob a fantasia da liberdade. Em “Brincar na rua” (p. 739), por exemplo, essa liberdade é censurada através da imposição de limites, de convenções como o tempo, definidas socialmente, mas que nem sempre são compreendidas pelas crianças que buscam o prazer da brincadeira.

Brincas na rua

Tarde?

O dia dura menos que um dia.

O corpo ainda não parou de brincar

e já estão chamando da janela:

É tarde.

Ouço sempre este som: é tarde, tarde.

A noite chega de manhã?

Só existe a noite e seu sereno?

O mundo não é mais, depois das cinco?

É tarde.

A sombra me proibe.

Amanhã, mesma coisa.

Sempre tarde antes de ser tarde.

Nos poemas “Iniciação Literária” (p. 671), “Assinantes” (p. 671), “Primeiro jornal” (p. 671) e “Biblioteca verde” (p. 672-3), percebemos nos poemas de Drummond a introdução de um outro elemento no mundo da criança em suas fantasias e brincadeiras, a literatura. Nesses poemas, não apenas são retratadas as primeiras experiências do menino-poeta com a literatura, os livros e as histórias de faz-de-conta, como também possibilita à própria criança a condição de autor e ativa nesse processo de criação, aprofundando sua relação com a linguagem e com formas mais complexas de representação do mundo, caracterizada por fortes expectativas e desejos da criança.

Como último aspecto percebido, que considero de relevância, entre as diversas cenas remetidas nos poemas de Boi-Tempo, temos a questão do despertar do amor e da sexualidade, na criança. Retratado no poema “A puta” (p. 598), de Boi Tempo I, onde o eu-lírico descreve o desejo idealizado do “menino” pela figura da prostituta (imagem recorrente como iniciadora da sexualidade dos meninos) da cidade.

A Puta

Quero conhecer a puta.

A puta da cidade. a única.

A fornecedora.

Na Rua de Baixo

onde é proibido passar.

(…)

É preciso crescer

esta noite a noite inteira sem parar

de crescer e querer

a puta que não sabe

o gosto do desejo do menino

o gosto do menino

que nem o menino

sabe, e quer saber, querendo a puta.

O amor e o sexo constitui-se temática recorrente em poemas como “Os tios e os primos” (p. 656-7), “Beija-flor” (p. 674), “Indagação” (p. 675), “As pernas” (p. 675) e “Le voyeur” (p. 676-7), de Boi Tempo II e em “Febril” (p. 748), Boi Tempo III, que constroem a atmosfera de curiosidade do menino que inicia-se na puberdade, com suas fantasias sexuais e brincadeiras de sedução. Em “Tentativa” (p. 677), Drummond retrata a primeira experiência sexual de um menino.

Em oposição a esse despertar da sexualidade, no entanto, se contrapõe o rigor moral e religioso, que, imbutido da idéia de pecado – o “onde é proibido passar”, do poema “A puta”, dotado de moralismo -, censura e condena a criança nessa fase de novas descobertas e transição para a puberdade. Essa realidade ambígua e ambivalente, vivida pelo “menino”, é expressada no poema “Inventor” (p. 796-7), em que se ensaia, de forma satírica, a idéia da masturbação.

Inventor

Entre Deus, que comanda,

e guris, que obedecem,

entre aulas a dar

o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade

(…)

e sob a esperança do Paraíso,

o padre português, no confessionário,

antes que o pecador

debulhe seus pecados

indaga:

“Quantas vezes mexeste no pirolito?”

Finda a obrigação,

recolhe-se ao quarto ascético,

dedica-se ao aperfeiçoamento

de sua invenção, o ovoscópio

(…)

Concluir essa leitura acaba se tornando uma experiência de crise, por estar ciente de que diversos pontos curiosos e relevantes deixaram de ser aprofundados. Nessa leitura encontro em Boi-Tempo, nos poemas de infância revisitada pelo poeta já maduro, uma representação de infância onde a criança tem seu lugar, transitando por experiências diversas, às vezes marcadas por tristezas e ressentimentos, na lembrança, às vezes relembradas e revividas com um sabor saudosista.

Nestes poemas, a criança é vista como um ser dotado de uma consciência particular sobre o mundo, uma percepção sensível e distinta da do adulto, voltada à apreensão das pequenas coisas, pequenos detalhes, prazeres e sensações. Antes de tudo, e seguindo a própria dinâmica dos poemas, em suas temáticas que extrapolam a infância e invadem outras fases da vida e maturidade do poeta, há uma preocupação notada do desenvolvimento como processo ininterrupto, fluxo progressivo, potencial realizador e possibilidade. O próprio passado deixa de ser passado, se torna presente, no momento e na lembrança, ao leitor que se encontra na universalidade das imagens de infância-memória.

E, utilizando-me de apenas mais um verso, em seu poema “Memória prévia” (p. 663), descobrimos que “Viver é saudade prévia”, pois nos projetamos no futuro presentificado e recordado. Poesia, memória e vivência.

REFERÊNCIAS:

* ANDRADE, C. D. de. (1987). Nova Reunião: 19 livros de poesia. – 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio.

* ARIÈS, P. (1981). Historia social da criança e da família. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S/A.

* CASAS, F. (1998). Infância: perspectivas psicosociales. Barcelona: Paidós.

* COLE, M. & COLE, S. R. (2004). O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto Alegre: ArtMed.

* DESSEN, M. A. & COSTA JR., A. L. (2005). A ciência do desenvolvimento humano. Tendências atuais e perspectivas futuras. porto Alegre: ArtMed.

____________
* Artigo escrito como atividade de avaliação para a disciplina Psicologia do Desenvolvimento I, em 2006, no início de meu curso de graduação em Psicologia, pela UFBa. Posteriormente o texto foi revisado e apresentado no comgresso da Sociedade Brasileira de Psicologia, ocorrido em Salvador-BA, no mesmo ano.

Nascer não é igual para todos

NASCER NÃO É IGUAL PARA TODOS: A EXPERIÊNCIA DE PARTO DE MULHERES DE DIFERENTES GERAÇÕES E CLASSES SOCIAIS FRENTE A SERVIÇOS DE SAÚDE.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Ana Cecília de Sousa Bastos
(Universidade Federal da Bahia – UFBA)

INTRODUÇÃO

Transições podem ser definidas, conforme Cowan (1991) como “processos que resultam em uma reorganização qualitativa da vida interna e do comportamento externo”, envolvendo uma perspectiva “de dentro” (um inside looking out – como o indivíduo compreende e sente o próprio self e o mundo) e uma perspectiva “de fora” (um outside looking in – referente a uma dimensão da identidade social, ocorrendo a reorganização do nível de competência pessoal do indivíduo ou da família, papéis e relacionamentos com outros significativos). A trajetória de vida de mulheres, na família, é marcada por transições, normativas ou não normativas, as quais, por sua vez, acarretam diferentes situações e momentos de enfrentamento da vida. Um dos eventos de transição mais marcantes é, certamente, a experiência do parto, que abre novas formas de experienciar a si e ao mundo através da maternidade, com a emergência de novos papéis e formas de relação que se definem a partir de significados que advém da maternidade.

Segundo Wang e Brockmeier (2002), a memória autobiográfica pode ser considerada como uma prática cultural que articula memória, self e cultura. Na mesma direção, Gone, Miller e Rappaport (1999), já chamavam a atenção para a característica que tem o evento narrativo, por si só, como ponto de convergência entre autor individual (que narra), engajado em atividade significativa e as práticas constitutivas de identidade ou do self, abraçadas por uma comunidade cultural. Brockmeier faz uma distinção entre eventos narrados e eventos narrativos, sendo os primeiros situados claramente no passado e os últimos envolvendo o próprio ato de narrar e o posicionamento do autor (Silva, 2003).

Para Gone, Miller, & Rappaport (1999), o estudo da narrativa pessoal sobre a história passada justifica-se pelo fato de narrativas podem ser uma oportunidade singular que as pessoas têm para representar o self na construção de significado; pela capacidade singular da narrativa de representar a natureza temporal da experiência humana em curso e, assim, sua capacidade resultante de capturar o self em desenvolvimento e pela centralidade da história de vida para a construção da identidade individual e pela afinidade entre narrativa e self, sendo as narrativas definidas como “construções sociais, produzidas pelo intercâmbio social, nas quais eventos relevantes para o self são articulados em seqüência temporal em um esforço para estabelecer coerência significativa para um número de propósitos instrumentais na interação.

A análise de narrativas, enquanto estudo da identidade cultural, tende a focalizar uma convergência entre autor individual, envolvido numa atividade significativa, e as práticas constitutivas do self, culturalmente estruturadas. Para compreender os diversos posicionamento de mulheres no contexto de transições para a maternidade, justifica-se empreender análise de narrativas, assumindo que é no contexto comunicativo, especialmente no da construção de narrativas, que se dá a construção do Self. A análise de conversação, permitida através da realização de entrevistas com duas gerações de mães, oferece importante potencial de análise de significações emergentes.

Tomando o parto como um evento significativo na vida das mulheres, este trabalho propõe-se discutir a forma como mulheres de gerações e classes sociais diferentes vivem essa experiência. Conduziu-se, então, um estudo de 8 casos transgeracionais, por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas em um contexto conversacional com mulheres de 28 a 87 anos, entre mães e avós, de origens e classes sociais diferentes. Buscou-se compreender diferentes significados emergentes dessa experiência, em especial no momento do parto e nas relações estabelecidas com os profissionais de saúde com participação ativa no processo de acompanhamento pré-natal, assistência ao parto e nos primeiros cuidados com mãe e bebê pós-parto.

Os resultados parciais apontam para questões ligadas a diferenças de geração, permitindo comparações entre as formas de parto domiciliar (realizados por parteiras) e institucionalizado (por médicos e enfermeiras) e evidenciam tensões entre tradição e modernidade, quanto aos procedimentos de realização do parto, e do acesso a recursos tecnológicos e à informação. Quanto ao parto institucionalizado, observam-se distinções principalmente na forma de atendimento à mulher verificado nos serviços privados e públicos, envolvendo diferenças quanto à qualidade do cuidado, ao acesso a recursos básicos como exames pré-natais, disponibilidade de assistência profissional, recursos básicos durante o parto como uso ou não de anestesia, opção pelo tipo de parto (natural ou cesariana), bem como no que diz respeito à saúde materna e à atenção dirigida aos aspectos subjetivos da mulher, como suas sensações, emoções e expectativas em relação à gravidez, ao parto e à experiência de se tornar mãe.

A experiência do parto revela-se única e singular, significada distintamente por cada mulher, que constrói, através das narrativas, uma versão de suas experiências, num processo dialógico e interativo com o contexto socioeconômico e cultural na qual se inserem e, principalmente, com os agentes que participam do processo de acompanhamento pré-natal e parto. As diferentes formas de relação estabelecida com os profissionais de saúde definem as diferentes posições do self, determinando possibilidades diversas de escolha antes e durante a gravidez e no parto, com maior ou menor protagonismo da mulher na própria experiência, o que, por sua vez, desenha modos diversos de enfrentamento das relações de poder no âmbito dos serviços de saúde.

O presente estudo de transições familiares supõe uma ênfase sobre o papel das narrativas na construção de significados pessoais e culturais em torno de transições familiares experienciadas. Explora-se a memória autobiográfica de mães de duas gerações e de diferentes classes sociais em torno do parto e transição para a maternidade e sua articulação com narrativa, self e identidade, situada tanto no nível macro do sistema cultural amplo como no micro do ambiente narrativo imediato.

As narrativas reproduzem a natureza temporal da experiência humana em curso, sendo esta marcada por rupturas com o canônico (Bruner, 1995), os significados tradicionalmente associados à idéia de gravidez e parto. Assume-se, neste estudo, que a produção de narrativas em uma situação aberta de conversação envolvendo mães multíparas de diferentes gerações, oriundas de classes sociais diferentes, representa um canal privilegiado de acesso ao contexto multivocal e polissêmico no qual se desenvolvem processos de construção da maternidade, envolvendo a articulação dialógica da identidade pessoal e coletiva. Como Wang e Brockmeier (2002), ao propor análises interculturais da memória autobiográfica, assumimos que, “sendo o agente ativo dessa construção, e não um experienciador passivo ou o veículo de algum destino incontrolável, o self é o pivô construtivo da organização narrativa”.

Objetivos

O estudo visou a analisar as múltiplas direções que a construção cultural da maternidade assume a partir de uma situação aberta de conversação em família, focalizando particularmente suas experiências junto a serviços e profissionais de saúde.

Metodologia

Sujeitos

A pesquisa envolveu 8 casos, compreendendo o relato de 16 mulheres entre 28 a 87 anos, entre mães e avós de origem (urbana ou do interior) e de classes sociais diferentes. A variação entre as idades possibilitou definir 3 grupos de mães: 1) mães jovens entre 20 aos 40 anos, 2) mães de meia idade ou avós jovens, dos 40 aos 60 e 3) avós, dos 60 em diante.

Coleta de dados

Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com mães e avós, em contexto de conversação. As entrevistas duraram em torno de uma hora e cinqüenta minutos e foram transcritas integralmente.

Análise de dados

As entrevistas realizadas foram transcritas e submetidas a análise de conteúdo, identificando-se três eixos de categorias conforme 1) núcleos temáticos, 2) forma narrativa e 3) tensões.

As categorias analisadas para o presente trabalho dizem respeito ao eixo temático, tais como: o tipo de parto realizado e justificativas para a sua escolha, acesso a informações sobre o parto, composição e funções da rede de apoio, relacionamento com o sistema de saúde e acesso a recursos e assistência profissional ; articuladas às tensões envolvendo diferenças quanto às práticas de cuidado tradicionais e tecnológicas, vividas no tempo passado e presente, e nos contextos urbano ou do interior.

Resultados e Discussão

As 6 mulheres com mais de 60 anos, tanto da cidade quanto do interior, relataram com freqüência:

• a realização de partos naturais por parteiras, em domicílio;
• a presença da mãe, parentes do sexo feminino (mãe, tias solteiras, etc) ou vizinhas, como principais referências quanto ao cuidado com o corpo e com o bebê;
• a parteira ocupando o papel de principal referência como profissional de saúde;
• predominância de crenças e práticas populares que envolvem desde a alimentação, cuidados com o corpo grávido, até métodos de se prever o sexo da criança;
• há uma familiaridade entre parteira e a família da gestante, havendo casos desta ter realizado o parto de mais de uma geração de mulheres na mesma família;
• acesso a acompanhamento médico, geralmente se restringindo a poucas consultas voltadas a saúde da mãe;
• quando se referiu ao médico como profissional de saúde envolvido no parto, denunciou-se práticas cirúrgicas que causaram complicações no corpo da mulher ou demora e sofrimento no momento do parto normal;
• comparações no sentido de conceber as práticas do passado como mais atrasadas e em relação ao acesso aos profissionais de saúde e à informação.

No grupo de 8 mulheres compreendidas na faixa entre os 40 e 60 anos, houve variações em relação à origem cidade/interior e à classe social. Observou-se que:

• as mulheres do interior migravam para cidades maiores em busca de serviços médicos de acompanhamento pré-natal e ficavam junto às mães no período do parto e pós-parto;
• variaram as formas de parto, havendo, no entanto maior valorização do parto cesariano , por ser programado, causar menos dor e contar com maior apoio profissional de médicos e enfermeiras;
• o ambiente domiciliar é substituído pelo hospitalar, sendo demarcados os momentos de tensão do pré-operatório, parto e pós-parto, envolvendo diferentes atores sociais e cenários em cada um desses momentos;
• as diferenças de classe social são evidenciadas no tipo de parto: há maior incidência de cesarianas entre mulheres de classe média, e de parto normal entre mulheres de baixa renda (sem o uso de anestesia, havendo inclusive entre estas um caso de parto por parteira);
• há grande incidência de cirurgias de esterilização por laqueadura de trompas;
• a definição pelo tipo de parto é realizada pelo médico, havendo pouca possibilidade de escolha tanto para a mulher de classe média quanto de baixa renda;
• a parteira perde lugar para os médicos e o saber científico é valorizado, substituindo as crenças e práticas populares;
• a avaliação em relação aos profissionais de saúde tende a ser positivo, apesar de serem apontadas críticas quanto às formas de tratamento (como em relação à pouca tolerância dos médicos diante das manifestações de choro e grito das gestantes);
• há um maior vínculo entre profissionais de saúde e gestante, havendo inclusive casos de parentesco.

O grupo composto por mulheres de 20 a 40 anos envolveu apenas 2 mães, sendo que uma delas era primípara de gêmeos, ambas de baixa renda. Os seus relatos sinalizaram que:

• há uma intensificação da influência do saber médico;
• há uma maior preocupação quanto ao uso de métodos contraceptivos e o desejo de realizar a laqueadura de trompas, a fim de evitar novas gestações;
• o acesso a exames pré-natais pelo SUS é dificultado;
• os partos foram realizados sem programação prévia, não havendo contato anterior entre profissional de saúde e a gestante.

Considerações Finais

Um estudo transgeracional possibilita explicitar aspectos do movimento de medicalização e tecnologização da maternidade, em seu processo empreendido ao longo do século XX, com a progressiva substituição do saber popular pelo científico e perda da autonomia da mulher diante da autoridade dos profissionais de saúde. Isto repercute na mudança de atores e cenários envolvidos ao longo da transição para a maternidade.

Homossexualidade e Cura

Luiz Fernando Calaça*

Recentemente tem havido um movimento no meio GLBT pela punição da psicóloga Rozângela Alves Justino, que afirmava ter realizado curas de homossexuais, associando a homossexualidade a doença, posição que vai de encontro ao código de ética do Psicólogo e a Resolução do Conselho Federal de Psicologia, de 1999. Esse acontecimento me faz pensar sobre alguns aspectos que me parecem relevantes para discussão:

1) A vinculação da homossexualidade ainda como doença;
2) A definição de cura;
3) A crença na onipotência do psicólogo.

Sobre o primeiro ponto, considero que já é mais do que sabida a posição da Psicologia atual sobre o fenômeno. Numa perspectiva fenomenológico-existencial, a homossexualidade não se configura nem como “doença”, nem de “escolha” ou “opção”, mas como condição existencial. A pessoal não é nem homossexual nem heterossexual, pois ser algo implicaria em conceber que isso faz parte da essência da pessoa, e por isso, inato e imutável.
Particularmente não acredito em nada que seja tão sólido e cristalizado que não possa ser flexibilizado ou transformado. A homossexualidade é um estado de existência, uma das muitas formas de ser no mundo, uma dimensão do todo da existência de uma pessoa. Não é doença pois não pode ser contraída, não é uma anomalia genética, nem social, nem cultural. É algo que existe, está aí, sempre existiu e sempre existirá, pois é do humano, faz parte de sua condição existência.
Homossexual pode ser um comportamento, uma atitude, uma manifestação de expressão de afeto. Pode ser um ato de amor e uma forma de se satisfazer afetiva e sexualmente. A homossexualidade pode ser um meio pelo qual realizamos um fim, o meio que encontramos para sermos felizes, vivenciarmos nossa sexualidade, construir uma parceria, estabelecer laços de afeto. A homossexualidade não é uma essência, mas uma manifestação da existência. Não podemos precisar quando ou como se manifesta pela primeira vez, não tem causa, nem é conseqüência. Se desenvolve ao longo da vida, pode se configurar de diversas formas – ações, pensamentos, fantasias, emoções, sentimentos – e pode ser vivida em diferentes graus de consciência e aceitação.
Quando trago esses dois últimos termos – consciência e aceitação – penso no ser humano como um todo. Consciência de si e aceitação de si. Consciência de si com o outro e aceitação do outro como outro. O adoecimento talvez venha justamente da não consciência e da não aceitação – de si e/ou do outro. Diante da não consciência e não aceitação, surge o sofrimento, pela tentativa de ser diferente do que se é, ou pela tentativa de transformar o outro em outra coisa, ou ainda, de tentar fazer o outro aceitar aquilo que você acredita ser.
Havendo sofrimento, abre-se espaço para a atuação da psicologia como “promessa de cura”. Digo promessa por acreditar que a cura de um sofrimento emerge do próprio sujeito, do seu processo de consciência e aceitação de si mesmo. A psicologia, tendo a psicoterapia como recurso técnico, é apenas um meio pelo qual se pode tentar alcançar um fim. O fim, geralmente é aceitar quem se é, ou tomar consciência de formas de ser que, por muito tempo deixaram de ser funcionais e passaram a causar sofrimento – individual, social, corporal, existencial, espiritual… Nesse processo, o terapeuta é apenas companheiro de viagem, é um Sancho Pança que acompanha o Dom Quixote em sua jornada.
Nessa jornada, pode-se fazer descobertas sobre si que muitas vezes são dolorosas, prazerosas, pode-se rever crenças e expectativas introjetadas a partir dos outros ou criadas por si mesmo, crendo que se trata de algo que foi dito por outra pessoa “poderosa e opressora”. Muitas vezes nos deparamos com nossos fantasmas e com monstros imaginários que nós mesmos criamos. No caso da homossexualidade, essas “pessoas poderosas”, esses “monstros” e “fantasmas” são pessoas de carne e osso – nossos pais e amigos, nossos colegas de trabalho, dos quais tememos sofrer preconceito e violência. E às vezes realmente sofremos, mas nem sempre.
Às vezes, no entanto, esses monstros são nós mesmos, nosso medo de sermos nós mesmos, de nos aceitarmos, por não conseguirmos dar conta das sensações e sentimentos que emergem em nosso corpo, em nosso pensamento e que chamamos desejo. Às vezes somos nossos próprios algozes, nos martirizamos tentando dominar nossos “instintos”, nos punindo e suplicando de Deus a absolvição de nossos pecados. Sofremos como nosso próprio preconceito, com nossos julgamentos – projeções que antes dirigidas ao outro se voltam sobre nós mesmos – , com nossa homofobia internalizada.
Diante de tamanho sofrimento buscamos a cura, criamos a ilusão de que poderemos ser salvos por médicos, padres, pastores, e, por fim, por psicólogos. Muitas vezes vamos ao consultório de um psicólogo desejando ser curados de algo que nos atormenta – nós mesmos. A cura entendida como o silenciar do corpo, do desejo, o controlar os instintos, o submeter-se à privação, o deixar de ser o que se é. Empoderamos o psicólogo – assim como a todos os outros “curadores” – de um falso poder que não existe realmente e, mais cedo ou mais tarde, nos daremos conta de que realmente não existe e que, o máximo que se pode fazer é aceitar quem se é, ou melhor, quem se está sendo.
Um homem (ou mulher) “heterossexual” casado, com filhos, com desejos homoeróticos, pode se tornar “homossexual”, separar-se da esposa, e iniciar relacionamento com um outro homem. Um jovem, que teve namoradas e até foi noivo, também pode. Uma mulher, lésbica, pode ter filhos, pelas vias naturais ou por inseminação artificial. Um homem gay também pode ser pai e engravidar uma mulher – é biologicamente saudável e nada, fisiologicamente, o impede. Um homem gay, assumido, pode, um dia, aparecer para a família e mostrar uma noiva, mulher com quem quer, a partir de agora, compartilhar sua vida.
Em nenhum desses casos houve doença ou cura. Qualquer um desses casos pode ter envolvido algum nível de sofrimento individual ou social. Não necessariamente o movimento heterossexual <–> homossexual  é, em si, saudável ou patológico, se pensarmos não em termos de essências, mas em formas de ser no mundo.
Desejar uma pessoa do mesmo sexo, vivendo socialmente – e afetivamente – uma posição ou papel heterossexual, pode ser extremamente ansiogênico e causar sofrimento, se não puder aceitar seu desejo e vivenciá-lo. Se a pessoa “escolher” transitar nesses dois lugares – por exemplo, exercendo a bissexualidade -, tendo relacionamentos tanto homossexuais como heterossexuais, pode encontrar uma posição de saúde por conseguir satisfazer suas necessidades sexuais e afetivas. Em algum momento, no entanto, talvez precise se “definir” socialmente. Essa definição, por pressão social ou pessoal, para atender a expectativas “externas” ou “internas”, pode, então, gerar um novo impasse, retomando o sofrimento. Ele pode se definir por uma coisa ou outra – ser heterossexual ou homossexual – mas, qualquer definição que der, é sempre provisória. Mesmo após um longo processo de consciência e aceitação de si mesmo, nunca poderemos ter certeza de que somos algo e não outra coisa. A outra coisa é sempre uma possibilidade que deixamos de escolher experienciar.
Socialmente buscamos nos orientar de acordo com expectativas e papéis definidos a priori – homem-mulher, heterossexual-homossexual, ativo-passivo, dominador-dominado, vítima-algoz, etc. No momento atual de evolução ou transformação histórica e cultural de nossa sociedade, estamos cada vez mais vivendo processos de questionamento, relativização e flexibilização desses pares dicotômicos. Hoje podemos ser homem e mulher, heterossexual e homossexual, ativo e passivo, dominador e dominado, vítima e algoz, e muito mais!
Um homem, dito “homossexual”, pode ir a um consultório psicológico e, ao longo do processo, “descobrir” que quer ser pai e ter uma esposa, que quer fazer sexo com mulheres e/ou com homens, ter um relacionamento aberto, experimentar outras formas de amar num lugar de fronteira – nem lá, nem cá. Um lugar que é um AQUI, num momento AGORA, que pode se estender por um DEPOIS.
Um dia, um homem “heterossexual” pode ir a um consultório psicológico e, ao longo do processo, “descobrir” que sente desejo por homens, que não suporta mais viver uma “farsa”, sustentar uma “ficção”, e passar a se dizer “homossexual convicto”. Se ele renegar completamente sua vivência anterior, opor-se à heterossexualidade que existia nele, adotar uma postura reativa contra os heterossexuais, pode ainda estar em sofrimento, não estar “curado”, viver em desequilíbrio com sigo e com o mundo, por não ter consciência e não aceitar a si mesmo, o que foi, e o que escolheu ser antes de ser e estar sendo algo diferente.
O psicólogo, no final das contas, é uma testemunha desse processo de tomada de consciência e de aceitação, do que foi, do que é, e do que pode vir-a-ser. As “identidades” são rótulos e expectativas sociais e pessoais sob os quais nos agarramos para ter uma sensação mínima de segurança. São também uma ficção, uma farsa, uma verdade provisória. Há pessoas que experimentam as várias dimensões do existir, da sexualidade, sem se apegar a nada em definitivo, sem que isso, necessariamente significa saúde ou doença, sofrimento ou cura. Há pessoas que vivem muito bem suas identidades, não manifestam desejo nem necessidade de experimentar estar sendo algo diferente. No final do caminho não há uma forma única, nem melhor, nem mais bem adaptada, nem mais saudável. Existe sim, a forma melhor, mais adaptada e saudável para cada pessoa, em cada ponto – momento – da linha de sua vida. A estrada da vida, e da sexualidade, nem sempre é em via de mão única.

Salvador, 03 de agosto de 2009

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* Psicologo formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), Gestalt-terapeuta. Aluno especial do mestrado em Filosofia Contemporânea da UFBa.

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