A questão da traição e o sentido da vida

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Não tenho dúvidas de que um dos principais conflitos existentes em um relacionamento amoroso é o medo da traição. Recentemente, no encontro com um amigo que não via a mais de dois anos, discutimos sobre esse assunto. Éramos um grupo de cinco pessoas, que tinham diferentes pontos de vista e diferentes experiências.
Para o meu amigo, a questão da traição estava relacionada à questão de sentir ou não desejo por outra pessoa que não o parceiro, considerando que o desejo é algo que faz parte do humano, nas que precisava ser “racionalizado”, não sendo conveniente relatar esse desejo ao parceiro, mesmo que não tenha sido realizado, efetivado na relação sexual. Ele acreditava que a traição faz parte da relação e não deve ser revelada. Mantêm-se então uma ficção de relacionamento monogâmico e com fiel.
Para mim, o contar para o outro sobre o desejo e a necessidade de realiza-lo é um ato de respeito à liberdade do outro, de aceitar ou não permanecer num relacionamento em que há a possibilidade de práticas sexuais extra-conjugais. Minha opinião não é nem de defesa da poligamia nem da monogamia, mas do respeito pelo outro, pela consciência das próprias necessidades e da liberdade de escolha. Acredito que somos responsáveis tanto pelo exercício de nossa liberdade quanto por permitir ao outro o exercício de escolha e da sua própria liberdade.
Meu amigo que falou da idéia sartreana do “amor necessário” e do “amor contingente”. O amor necessário é a relação de companheirismo e de parceria, em que ambos se nutrem nesse processo, crescer e ajudam o outro a crescer. Pode tanto ser um casamento, quanto uma amizade. A presença da pessoa é necessária para que eu me sinta bem e possa me realizar como pessoa. O amor contingente, por sua vez, diz respeito à necessidade de apaixonar-se, à excitação sexual e à satisfação da necessidade de experimentar um encontro intenso e intimo de entrega. Do amor contingente pode emergir o amor necessário. E no amor necessário, a paixão pode ser redescoberta.
Amores contingentes podem reacender a paixão nas relação de amor necessário. Relações extra-conjugais podem reacender a chama da relação estável e necessária, mas nem sempre. A busca por amores contingentes pode se tornar compulsiva quando falta no amor necessário a percepção e vivência da cumplicidade, do crescimento. O amor necessário não é sinônimo de relação monogâmica, nem o amor contingente é o remédio para o tédio.
O tédio vem da ausência de encanto no objeto de desejo. Quando esse objeto deixa de ser interessante e, mesmo assim, persistimos nele, fixados no ideal do amor eterno, numa forma abstrata de amar que só existe em nossa fantasia.
O amor real é mutável, passa por fases de expansão e contração, de aproximação e afastamento, de apaixonamento e de desapego. O amor necessário é o amor real que matem a energia dinâmica da conservação pela constante transformação. A paixão é o consumir da energia num impulso, é explosão, é delírio, é entrega em profundidade. O amor é a constância, é a conservação, é a construção cotidiana do exercício dialético da alteridade.
Para quem vive relacionamento monogâmicos, é necessário a consciência das necessidades e dos limites de si e do outro, o respeito pelo desejo do outro e a tentativa constante de estabelecer uma relação de nutrição mutua, em que ambos são vistos e confirmados, são percebidos e apoiados em seus projetos existenciais.
Para quem vive relacionamentos abertos, não monogâmicos, vale a mesma sugestão, e um cuidado maior pelo respeito aos limites do outro e uma reflexão constante do quanto a relação conjugal tem de necessária, e do quanto a busca por outras relações contingentes, tem de necessidade e não de compulsão.
Meu amigo trouxe a constatação de nascemos e morremos sós. Ele questionava o sentido da própria vida. Também acredito na nossa solidão no nascer e morrer, experiências únicas, intransferíveis. Mas o nascer e morrer são os limites extremos de nosso existir enquanto pessoas. Ao longo de todo o resto da vida, estamos em contato com outras pessoas, podendo desse contato nos nutrir e crescer, amar de forma necessária ou contingente, sentir e dar sentido a cada experiência e momento vivido. O sentido da vida é dado a cada momento, na relação que estabelecemos com o mundo e com nós mesmos. Não é anterior a nenhuma experiência. É contingente. É transcendente. Só o teremos no fim de nossa vida, quando finalizarmos nosso projeto existencial.
O amor e a traição também fazem parte desse sentido. O amor, quando nos sentimos e nos realizamos a cada momento, conscientes de nós mesmos, de nossos desejos e necessidades. A traição, quando fazemos o oposto, quando desconhecemos a nós mesmos e agimos na má-fé, quando racionalizamos e idealizamos um projeto de vida que sabemos que não podemos realizar, por ser contrario a quem realmente somos. Quando queremos ser algo diferente ao que realmente somos e queremos que o outro seja de acordo com nossas expectativas.

Manifesto Expressionista e Gestalt Terapia, o(s) Vazio(s), o(s) Nada(s) e o Poeta*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior.

Escrevo esse breve artigo (se é que se trata de um artigo, ou não um relato pessoal) como primeiro produto, ainda prematuro, do nosso grupo de estudos em Gestalt-Terapia. Creio que os pontos tratados por mim, neste momento, serão mais impressões pessoais sobre temas diversos, que propriamente sobre a abordagem de Perls. Assim, não busco, ao menos agora, me aprofundar muito nos pressupostos ou na introdução do nosso objeto de estudo, mas tecer comentários paralelos, que talvez venham a coincidir ou difira de todo do olhar gestaltico. Em todo o caso, vamos lá.
No nossa primeira reunião, realizada dia 13 de julho, trouxe para o grupo o manifesto expressionista alemão de Kasimir Edschmid, de 1918, que tinha como título “Expressionismo na Poesia”. Seus dois primeiros parágrafos, que foram os que mais me chamou atenção, eu reproduzo abaixo:

A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal modo que ela chegue a nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; ao contrário, a imagem do mundo tem que ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos.
Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doença, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles. (…)(1) [grifos meus]

O motivo que me levou a trazer esse texto, foi a palestra proferida no dia 25 de maio, pelo gestalt-terapeuta Afonso Henrique da Fonseca, sobre “Atualidade da Gestalt-Terapia”, em que ele trazia os principais fundamentos da abordagem de Perls, incluindo a o expressionismo alemão, tendo em vista tratar-se do movimento intelectual e boêmia do qual Fritz tomou parte após a 1ª Guerra Mundial.
Afonso, na referida palestra, caracterizou Expressionismo pela “valorização da subjetividade do indivíduo, não voltada para a representação da realidade, mas a vivência da criatividade, da inspiração e da expressão”(2). Ele também qualificou a Gestalt-Terapia como uma abordagem expressiva e experimental, não no sentido do experimentalismo científico dos primórdios da Psicologia, mas no de “expressão voltada para o novo”.
Na época da palestra ainda não tínhamos entrado muito a fundo nos conceitos nem nas perspectivas da prática gestalt-terapeutica, mas a possibilidade de conciliar psicologia e arte, como uma forma de inovar, de criar e vivenciar uma realidade subjetiva, numa prática que fosse além de aplicação de uma teoria pré-estabelecida e modeladora, verdadeiramente me encantou e deu novo incentivo para eu permanecer no curso de Psicologia, tendo em vista minha grande inclinação para Letras.
Bem, voltando ao manisfesto expressionista de Kasimir Edschmid, podemos ver termos como essência, significação, percepção (percebe), acumulo de vivências e estrutura (gestalted). Eles remetem a conceitos principalmente da fenomenologia (essência, significação) e da Psicologia da Gestalt (percepção, estrutura), mas contextualizados, nas víceras do textos, percebemos que vai muito além da simples apropriação de conceitos.
Quando lemos no manifesto, por exemplo, que “Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida.”, nos deparamos com a realidade como fruto da relação entre o sujeito e o mundo, uma relação sensório-afetiva, vivencial, em que a realidade é a realidade para uma consciência, que a experimenta e a significa, tal qual propõe a fenomenologia. Da mesma forma como ao dizer que “Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted)”, podemos inferir, eu acho, uma relação com a Psicologia da Gestalt, sobre o processo de percepção através da vivência e da experiência da realidade, que se estrutura na boa forma, através de diversos mecanismos como o de figura-fundo, em que o mundo não é reproduzido, mas é estruturado pelo sujeito, e vivenciado por ele, no campo da consciência, em sua subjetividade-objetiva.
Bem, não vou me estender muito em terreno que não domino. O que mais me impressionou, como já disse, foi a possibilidade de conexão entre a arte e a psicologia, entre um tratado estético e conceitos científicos da psicologia e da filosofia. Mas, antes de tudo, a idéia de vivência e experimentação, em que “Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles.” Em que a realidade do sujeito só é alcançada por ele mesmo, no momento em que vivencia sua realidade, e vai além do mundo objetivo, em que significa e ressignifica, em que “Ele não colhe, ele procura” respostas, caminhos e significados, no mundo do agora, do aqui, e do sensível.
Creio ser importante trazer essa possível ligação entre o Expressionismo e a Gestalt-terapia, por tratar-se de um registro no mínimo interessante o fato de um tratado estético ter antecedido, embora seja contemporâneo à outras influências diretas na vida de Perls, o ideal de vivência e experimentação da subjetividade, proposta muitas décadas depois pela abordagem da Gestalt-terapia.

Outro ponto que gostaria de comentar, agora já me distanciando do possível elo Gestalt-Terapia — Expressionismo, foi em relação a um dos pressupostos apresentados no livro E a Gestalt emerge, em que a autora, Ana Maria Kiyan, traça a ligação entre a Gestalt-terapia de Perls e a filosofia oriental, em especial no que diz respeito à idéia existencial de nada e vazio. Em fragmento do texto, a autora diz que:

(…) Segundo a Gestalt-terapia, “o nada é um lugar” psíquico fundamental para se estar, dependendo do momento; é nele que o indivíduo pode entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que é. É esse ponto zero que acontece o momento de criação, em que qualquer coisa é possível.
Perls freqüentemente referia-se a dois tipos de vazio: o estéril e o fértil, sendo esse segundo tão vazio quanto o primeiro porém configurando-se como terreno fértil para novas possibilidades.(3)

Durante a nossa primeira reunião ficamos em dúvida sobre o que viria a ser esse nada, se a mesma noção apresentada pela tradição oriental seria a de Perls, e qual o significado para ambos. Tivemos três opiniões:
Bruno, meu colega de semestre e um dos organizadores do nosso grupo de estudos, acreditava (espero não estar distorcendo suas idéias) que o nada teria o sentido de harmonia e equilíbrio, expresso pela tradição oriental zen-budista. Esse lugar talvez fosse o da totalidade, em que não há pensamento racional, mas fusão com o universo. Lugar de silêncio (?), eu imagino, e de serenidade.
Particularmente eu não consigo compreender bem como, ao se alcançar esse estado de vazio, de harmonia, esse ponto zero, haveria a criação. Pergunto-me inclusive qual, ou como, seria essa criação. Eu tenho que admitir minha dificuldade de romper com alguns de meus paradigmas. Terei de me abrir a essa nova perspectiva.
Outra possibilidade para o nada seria quanto à relação vivencial eu-tu, enquanto processo no qual se estabeleceria uma totalidade, onde o nada seria a própria relação, que quando vivência é desprovida de racionalidade, é pura experiência, fenômeno imediato, no aqui e no agora, sendo só possível sua racionalização a posteriori, quando paramos para refletir e dar significação a este momento vivido. A essa possibilidade de interpretação sobre o sentido do vazio e do nada, todos, ou quase todos, de alguma forma compreenderam e concordaram.
A minha opinião, expressa antes do vazio na relação eu-tu, que creio ter sido levantada por Amanda (não sei bem se ela se chamava assim, pois sou péssimo em gravar nomes), estudante do 7º semestre e que faz formação em Gestalt-Terapia com Afonso, é de todo diversa. Geralmente tenho essa “qualidade” de divergir dos outros, mas tudo bem.
A minha interpretação sobre o nada diz respeito ao nada vivido pelo escritor, pelo poeta, trazendo assim o termo para minha realidade. Esse vazio seria o que geralmente se chama de ¿vazio do artista¿, aquele momento de tensão que antecede o momento da concepção, da criação poética, ou seu oposto, o momento após a criação, equivalente, para alguns, ao momento de morte.
Quando penso na vazio antecedente à escrita (ou a qualquer outra expressão artística), me refiro ao instante em que a poesia se faz necessidade, tensão e angústia, marcado principalmente pela faz de palavras, ou de idéias, para expressar um sentimento qualquer, uma emoção enlouquecida, um desejo de vida. Creio tratar-se, não do momento de equilíbrio, mas de seu antônimo, quando o poeta se vê mergulhado numa esterilidade desesperadora, numa ânsia violenta de vida e de concretude, mas é frustrado.
Às vezes, a própria esterilidade torna-se matéria poética, algo que observamos na literatura contemporânea, quando o poeta ou o escritor relata sua impossibilidade de significar o mundo a sua volta, de criar, de viver, meio ao deserto das palavras ou ao caos de mundo e da existência. Particularmente é essa a sensação de vazio que sinto, enquanto poeta, principalmente por achar que a poesia, assim como a terapia, religião, política, etc, para outras pessoas, é o momento meu de encontrar minha existência, de significar minha subjetividade, de sentir-me vivo, de ser e existir como consciência.
Nesta perspectiva, o vazio não é nem o momento de harmonia ou de equilíbrio, nem fruto da relação eu-tu, a não ser que o tu seja o eu, ou a poesia, as palavras, ou a folha de papel, mas, em todo o caso, a sensação é mais de fragmentação que de totalidade.
O outro vazio, seria o período seguinte à concepção poética, quando tudo o que poderia (e não o que se queria) ser dito se tranforma em linhas, letras, palavras, em sentimos a sensação de morte, de anulação, às vezes até de perda, que, paradoxalmente se opõe e se equivale à tensão do vazio estéril antecedente à escrita. Este momento, também, não é o momento de criação, mas de reflexão, de julgamento estético do próprio autor sobre a criação, sobre o poema, o texto.
Talvez, e nisso eu acredito, o momento verdadeiramente de equilíbrio, ou de equilibração, de tornar-se vivente e consciente da sua existência, seja o momento em si, o tempo e o lugar da concepção, o agora em que o caos ganha forma, torna-se sensível, é expresso e significado pelo eu que se descobre e se propõe como narrador ou eu-lírico. Creio que é no momento da escrita, seja por inspiração (ou insight), seja por persistência para quebrar o vazio de esterilidade, que eu, poeta e criatura, posso “entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que sou”.
Assim, não concluo nada, apenas levanto minhas primeiras impressões e idéias, e, talvez, lanço mão de uma possibilidade a mais de discussão. De meu nada, meu vazio, ou de meus nadas e vazios, pouco sei, em correlação com o da Gestalt-Terapia de Perls. O equilíbrio do nada zen é para mim estranho, embora sinta interesse verdadeiro em conhecer como filosofia e fundamento do objeto que me proponho, no grupo de estudo, a compreender e aprimorar.
Aqui fico, nesse artigo-relato um pouco maior do que eu queria que fosse, mas sou verborrágico e caótico por excelência.
Espero sinceramente que nosso grupo de estudos se estabeleça e tenhamos bons frutos.

Salvador, 17/07/2005

NOTAS:

1. TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos prefácios e conferencias vanguardistas, de 1857 a 1972. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 111.

2. Minhas anotações da palestra de Afonso Henrique, em 25 de maio de 2005.

3. KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 146.

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* Artigo escrito durante meus primeiros estudos em Gestalt Terapia, num grupo de estudos auto-didata montado com colegas, em 2005, no início da minha graduação de Psicologia.

Retomo algumas dessas idéias no artigo sobre “Gestalt,  Literatura e literatura gestaltica”, publicado na revista eletrônica IGT na Rede, e nesse site.

A liberdade em Gestalt Terapia, o Existencialismo, o Absurdo e o Suicídio*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Neste momento me proponho a fazer um levantamento de idéias, sob um olhar bem particular, sobre a questão da liberdade, influenciada pelo pensamento existencialista, na Gestalt-Terapia. Para tal fim, tomarei como ponto de partida as discussões travadas durante nossa segunda reunião no grupo de estudos, bem como algumas leituras minhas, que creio, podem ser pertinentes ao assunto.
Ao longo de nossa reunião, debatemos, dentre outros pontos, as diferenças entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica (ortodoxa) e behaviorista (metodológico), tendo como base as distinções traçadas por Hugo Elidio, em seu livro “Introdução à Gestalt-terapia”, bem como os pressupostos esboçados em “E a Gestalt emerge”, de Ana Maria Kiyan. A diferença estabelecida por Elidio se daria principalmente no tipo de paradigma e concepção filosófica por trás dessas abordagens, bem como na relação terapeuta-paciente. Segundo ele, tanto a psicanálise quanto o behaviorismo, com suas devidas singularidades, apresentariam um modelo explicativo, baseado em relações causais, que determinariam segundo um olhar mecanicista de homem, a construção do indivíduo e a manifestação de quadros patológicos.
A Gestalt-terapia se distinguiria dessas abordagens principalmente por apresentar um método de análise descritiva, tendo como base o modelo fenomenológico-existencial, valorando não apenas os fatores influenciadores em um deternimado sintoma ou situação apresentada. Ela Enfatiza, então, a importância da relação e vínculo terapeuta-paciente, como um processo dialógico, sendo lançado um olhar do sujeito como ser dinâmico, mutável e integral, primando-se principalmente pela afirmação da liberdade do sujeito, por sua autonomia e capacidade de auto-regulação e valorização de suas potencialidades.
Para que essas qualidades do sujeito fossem compreendidas, no entanto, seria necessário que se estimulasse a consciência de liberdade do sujeito, que não implica simplesmente na possibilidade de livre ação e expressão, mas na compreensão de que a liberdade implica em responsabilidade sobre si e sobre o mundo. Creio ser esta a idéia apresentada pelo texto, no que diz respeito à questão da liberdade segundo o existencialismo. Vejo, no entanto, a nossa necessidade de aprofundarmos um pouco mais neste ponto, em nossos estudos e discussões, tendo em vista que essa noção é ponto de crítica fundamental das outras abordagens em relação às abordagens humanistas em geral, da qual a Gestalt-terapia também faz parte.
Um dos pontos cruciais talvez no que diz respeito à visão existencial do sujeito seria o fato de trazer para ele a responsabilidade sobre sua própria vida, de sua própria existências, sobre seus atos e as conseqüências deles sobre si e o meio à sua volta. Essa perspectiva aumentaria o caráter de autonomia e auto-gestão do sujeito, que creio ser fundamental, e que vai de encontro à concepção de homem subordinada e dependente a esquemas de controle ou mecanismos inconscientes.
A Gestalt-terapia, acredito eu, não nega a existência desse controle ou dos conteúdos inconscientes, mas apresenta em relação a eles uma visão distinta. Sua concepção de homem prima, fundamentalmente, pela compreensão do sujeito como um todo coerente e relacional, tendo essa relação um caráter dinâmico, seguindo uma ordenação de campo. Segundo esse olhar, as relações se dão sob um modelo dialógico eu-isso ou eu-tu, de mutua significação e de caráter construtivo, em que o contato implicaria em troca de experiências, sem que com isso se perdesse a autonomia do sujeito.
Quanto à questão da liberdade, o tema que proponho como central nesta reflexão, a Gestalt-terapia traz uma concepção própria do existencialismo, segundo a qual a liberdade implica em consciência acerca da responsabilidade sobre si mesmo. Segundo essa visão filosófica, o indivíduo é responsável por sua própria existência no mundo, pela condução de sua vida e pelo caminho por ele percorrido. Daí a importância do papel da escolha. Escolha essa que implica inclusive na ida ou não à terapia e no compromisso de se integrar à relação terapêutica.
Segundo essa visão existencial, o homem não teria mais a ilusão de um suporte ou autoridade, que poderia ser representada por Deus, da sociedade ou do mundo ou das “contingências”, que personificados, determinariam e seriam os “culpados” pelos rumos de sua vida. Assim, na impossibilidade de direcionar para um outro as responsabilidades, o homem seria convocado a se posicionar existencialmente, no momento vivencial do agora, não se permitindo evadir-se para o passado ou futuro, como forma de criar ou idealizar perspectivas falsas, ilusões.
Esse olhar existencial traz consigo uma carga e um peso muito grande, para não dizer insuportável, sobre o homem moderno, criando um sentimento de inevitabilidade que me remete, neste momento, aos personagens do escritor tcheco do início do século, Franz Kafka.
Em suas histórias, classificadas por alguns como realismo fantástico, observa-se a construção de personagens condenados a existências transtornadas, imersos em situações labirínticas, sem alternativas aparentes, em que o ser em questão não consegue se desprender de suas prisões, não conseguem fugir de seu destino, o que imprime ao leitor uma sensação de angústia imensa. De modo geral, trata-se de personagens solitárias, em muito desumanizadas, ou zoomorfisadas, imersa numa atmosfera de irrealidade.
A nós, envolvidos em nossos laços sociais e emocionais, entre familiares, amigos e colegas, essa perspectiva existencial ganha tons caricatos, numa configuração verdadeiramente “fantástica”, senão absurda.
Percebemos, no entanto, que esse sentimento como que se perpetua na literatura e nas artes ocidental do século XX, quando me remeto, por exemplo, às peças teatrais e narrativas de Samuel Beckett. Nelas, de forma análoga a Kafka, os personagens são imersos na incomunicabilidade, em relações estéreis, marcadas por um forte traço de dependência, umas às outras, perdidas numa linguagem de fluxo verborrágico e caótico (onde se perde a possibilidade de significação), de idéias entrecortadas por longos vazios desesperadores, num tempo-espaço inexistente e imutável.
Em ambos os casos, diante da inevitabilidade, da repetição e da esterilidade da vida, o sentimento, que muitas vezes se manifesta após a leitura desta literatura, e que pessoalmente me desperta atenção, é a de morte. A morte, que em situações de tão poucas, ou nenhuma, perspectivas, ganha um sentido mais alentador neste mundo de desassossego, mais certo e definitivo, em contraste ao caos e incerteza.
O que me faz remeter a estes escritores é, não apenas a perspectiva fatalista da existência que, de algum modo a filosofia existencialista desperta, mas um dado levantado durante as discussões do grupo de estudo.
Enquanto discutíamos sobre a questão da liberdade e do existencialismo, meio a tantos outros pontos de texto do texto de Elidio, Andréa, que estava presente, comentou haver em Salvador um grande índice de suicídio, fato este que seria sufocado pela imprensa, provavelmente para evitar que se desfaça a imagem construída de “terra da felicidade, da alegria e do Carnaval”. Pensando sobre isso, fiz essa conexão, não apenas com os autores mencionados, que expressam o sentimento de vazio e angústia próprio da (pós-)modernidade, mas também a do filósofo Albert Camus, autor do qual li apenas o seu livro de estréia “O Avesso e o Direito”, mas que desde esta obra traz justamente esse sentimento de contradição, ao retratar a pobreza social em oposição às manhãs ensolaradas na Argélia e, principalmente, ao enfocar sobre a inevitabilidade da morte.
Neste ponto, observamos a morte constituída como a única certeza, o único elemento imutável, o ponto absoluto da existência humana, embora impossível de ser determinado precisamente em sua temporalidade. Nesta óptica, a morte representaria o limite da vida, a fronteiras da existência e o seu foco possível no tempo agora, imprimindo a necessidade do estabelecimento do sujeito no momento vivencial, como única possibilidade aparente de fazer-se significativo.
Agora, aonde configura a questão do suicídio? Creio que justamente como forma de, diante das incertezas, do caos e do absurdo, se alcançar uma certeza objetiva, uma segurança e clareza da própria existência através de seu ponto ápice e final. Levanto isso sob um olhar absolutamente particular, numa leitura que creio ser possível, sobre a questão do existencialismo, mas tenho consciência da necessidade de me aprofundar através de outras leituras mais objetivas. Este artigo-relato tem, no entanto, apenas a pretensão de levantar pontos de vista e interpretações pessoais.
Uma visão explicativa sobre a questão do suicídio buscaria levantar algumas causas que seriam responsáveis pelo ato em si, talvez o sentimento de vazio, talvez a incomunicabilidade, a perda de entes queridos, do emprego, ou ainda um quadro psicopatológico que, por si só, já teriam causas diversas. Vejo no entanto o suicídio como um posicionamento existencial, uma forma de posicionar-se diante da vida, do mundo e da própria existência. Não digo isso no sentido de pregar uma apologia ao suicídio, mas concebo tratar-se de uma posição existencial tanto quanto a ida ao terapeuta a fim de buscar uma compreensão desse sentimento de angústia e morte. A própria fuga, como podemos encarar às vezes, de fora, o suicídio, é um escolha existencial, o uso da liberdade sobre a própria vida. A alienação, de certo modo, tende a ser uma posição existencial, consciente ou não, mas coerente, creio eu ao próprio estagio existencial de cada indivíduo.
No caso da terapia, em destaque a Gestalt-terapia, está teria como fogo despertar justamente esse olhar vivencial, essa consciência e essa coerência no indivíduo, possibilitando vivenciar suas emoções, significar seu mundo e posicionar-se. Se diante da idéia do suicídio, creio que buscaria fazer o eu em questão significar esse desejo, trazer os elementos que se manifestam como necessidade, reconectar o individuo ao mundo, às suas relações afetivas, possibilitando que este abra o leque de possibilidades, de experiências e expressões possíveis.
Creio ser vital a abertura que a abordagem gestáltica possibilita ao indivíduo, ao abarcá-lo como totalidade e como consciência de si mesmo, como ser de experiência e expressão, capaz de escolhas e, principalmente, construção de si mesmo, de sua vida, que eternamente é uma perspectiva, um vir-a-ser. Tenho que admitir meu desconforto pessoal em relação à idéia de ser resultado ou expressão unicamente de um mundo externo ou de um inconsciente psíquico. Acredito na minha posição de integrante um uma sociedade, de uma cultura, de um todo maior, mas também me vejo como agente nessa construção pessoal, mesmo que sem ter um projeto pré-estabelecido (mesmo porque essa projeção seria uma ilusão), mas como um complexo processo de escolhas, de pequenos passos, de diálogos com os outros, com as palavras, com os sentimentos e com minhas próprias limitações.
Admito aqui não sentir-me livre nem autônomo, mas ao menos essa perspectiva já traz uma visão menos pessimista que, de modo geral tenho da vida. Aqui como que faço uma confidência. Sinto que ainda estou muito distante de alcançar o olhar pleno e existencial, de exaltação e afirmação das potencialidades do indivíduo, mas o simples fato de fazer parte desse grupo representa para mim uma escolha existencial, um primeiro passo, que espero possa mobilizar muitos outros, para além do labirinto, do silêncio e do absurdo.

Salvador, 21/07/2005.

PS.: Gostaria de ter abordado muitos outros pontos, mais as idéias tralharam um rumo imprevisível. Mas convenhamos dizer, a previsibilidade é absolutamente frustrante.

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* Artigo escrito durante meus primeiros estudos em Gestalt Terapia, num grupo de estudos auto-didata montado com colegas, em 2005, no início da minha graduação de Psicologia.

Atenção e memória na atuação clínica em Gestalt Terapia: articulações com a Psicologia Cognitiva

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Este artigo se propõe a delinear uma breve relação entre conceitos da psicologia cognitiva ligados aos processos de memória e atenção e a abordagem clínica da Gestalt-Terapia. Pretendo não me ater à definições sistemáticas dos conceitos trazidos por Robert J. Sternberg em seu livro Psicologia Cognitiva (2000), buscando fazer uma correlação mais objetiva quanto às propostas e posicionamentos expressos pela Gestalt-Terapia enquanto prática em psicoterapia.

Qual a relação entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva? Aparentemente nenhuma, tendo em vista que a primeira se caracteriza fundamentalmente como uma abordagem em psicoterapia e a outra como uma linha de investigação científica da psicologia. Ambas, no entanto, sofrem influência direta da Psicologia da Gestalt, sistema teórico da psicologia caracterizada principalmente por suas contribuições na investigação de processos psicológicos ligados à percepção, memória e aprendizado.
Afora essa semelhança quanto à fundamentação teórica, é difícil entrever uma relação mais profunda entre essas duas vertentes de conhecimento e prática da psicologia. Podemos constatar, no entanto, que processos como o de atenção, percepção e memória, detidamente trabalhados pela Psicologia Cognitiva tem sua aplicabilidade constatada, mesmo que indiretamente e de forma subliminar na prática clinica da Gestalt-Terapia.
A Gestalt-Terapia é uma abordagem criada por Frederick Salomon Perls, conjuntamente com Laura Perls e Paul Goodman, inicialmente como uma técnica psicoterápica. Influenciada não apenas pela Psicologia da Gestalt, a Gestalt-Terapia nasce fundamentada também pela teoria de campo de Hurt Lewin, pela teoria organísmica de Goldenstein e pela holística de Smuts, como fundamentos teóricos, além do movimento humanista, da fenomenologia, do existencialismo e da filosofia dialógica de Martin Buber, sem contar com as influencias orientais do Zen-budismo, como bases filosóficas (Kiyan, 2001).
Essa abordagem baseia-se numa concepção de homem sadio, em constante reação de contato em variados campos, no psicoemocional e sócio-ambiental (Ribeiro, 1997), numa dinâmica voltada para a realização de suas necessidades e desenvolvimento do sujeito.
A concepção de saúde da Gestalt-Terapia envolve uma idéia de homem em constante interação com o mundo, envolvida num ciclo de relações fundamentais norteadas por uma dinâmica dialética de contato e fuga, tendo como finalidade principal alcançar e equilíbrio – homeostase – do organismo. Quando há interrupção deste ciclo – o ciclo de contato – e as tensões e necessidades não encontram uma forma de satisfação, estabelece-se um processo de desequilíbrio que representa as interrupções neuróticas do contato.
Através de uma abordagem centrada no sujeito e voltada para o restabelecimento deste ciclo e de sua dinâmica, o terapeuta busca, através de uma perspectiva vivencial e expressiva, munida por técnicas diversas, possibilitar no sujeito o seu retorno no ciclo contato, à uma interação saudável com o mundo em suas diversas dimensões interativas. Em termos gerais, o gestalt-terapueta objetiva possibilitar ao cliente uma tomada de consciência – awareness – de sua realidade existencial e de sua condição ativa sobre o mundo e sua vida.
Para se estabelecer essa tomada de consciência, utilizam-se métodos que possibilitam um encontro vivencial do sujeito com sua própria realidade, através de técnicas psicodramáticas ou formas de expressão do sujeito por si mesmo, mediado pelo terapeuta, que facilita seu encontro e seu processo de auto-descoberta.
Sim, mas de que forma a atenção e a memória entra neste processo?
Para iniciar efetivamente essa correlação, proposta no início deste texto, utilizarei-me da citação de William James, trazida por Sternberg, na introdução do seu capítulo sobre Atenção e Consciência (p.78):

[Atenção ] é a tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis… Implica o abandono de algumas coisas, a fim de ocupar-se efetivamente de outras. – William James, Principles of Psycology.

Segundo esta citação, a atenção é concebida como uma função ativa da mente, com o sentido de direcionar o indivíduo a entrar em contato com estímulos do meio ou pensamentos, mobilizando-o num ato de intencional sobre si e sobre o mundo. De acordo com essa interpretação, a atenção constitui-se um processo fundamental e indispensável na prática terapêutica da Gestalt-Terapia, tendo em vista que a tomada de consciência – awereness – nada mais é do que a possibilidade de o sujeito entrar em contato direto com seus pensamentos, suas emoções e aflições, bem, como atentar-se para os vínculos e relações desempenhadas por ele no mundo no qual ele se encontra inserido como ser existencial e ativo.
Sternberg, em seu capítulo sobre Atenção e Consciência busca estabelecer uma diferenciação inicial entre estes dois conceitos. Ele relata que os psicólogos costumavam confundir atenção com consciência, sendo esta última caracterizada como “o fenômeno pelo qual não apenas processamos ativamente a informação, mas também estamos conscientes disso”, enfatizando a tendência atual de se conceber um processamento ativo da atenção sem necessariamente o envolvimento de nosso conhecimento consciente. Desta forma ele introduz a concepção de um processamento pré-conciente da atenção, envolvido principalmente em fenômenos como a percepção subliminar, o priming e os processos automáticos.
Os processos automáticos, em particular, são considerados como recurso cognitivo importante, que envolve a economia de energia para a realização de atividades do sujeito, possibilitando um maior dinamismo em sua interação com o mundo.
Em sua obra Gestalt-Terapia, Perls, juntamente com Goodman e Hefferline expõe a existência de três propriedades do Self, o Ego, o Id e a Personalidade, que compreenderiam mecanismos constituintes da dinâmica de interação e contato do sujeito com o meio à sua volta. Ao Id, caberia os aspectos mais primários e básicos do contato, e envolveria um gasto mínimo de energia por parte do organismo. Perls salienta, entretanto, o caráter de intencionalidade da relação, que envolveria, em certa medida, o papel da consciência, exercido pelo Ego, é fundamental para a realização de um contato pleno.
A Gestalt-Terapia valoriza imensamente esse caráter da consciência no processo de interação do sujeito com o mundo, a ponto de constituir um de seus objetivos maiores enquanto prática psicoterápica, possibilitar o restabelecimento dessa intencionalidade, bem como a formação de uma responsabilidade existencial do sujeito sobre sua própria vida.
Na introdução de seu livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, Perls salienta a sua crítica à avassaladora rotina da vida moderna, norteada por automatismos que acabam por impedir que o homem entre em contato direto com o mundo e consigo mesmo. Qualifica, pois, essa rotina como o responsável pela dessensibilização do homem para com sua própria vida e saúde, por aliena-lo dos prazeres e das experiências a cada momento possíveis e indispensáveis para se alcançar um estado de auto-realização.
Em todo o caso, a própria concepção de consciência da Gestalt-terapia é distinta da defendida pela Psicologia Cognitiva, envolvendo uma dimensão além do pensamento consciente e racional, e envolvendo uma dimensão integrativa do sujeito em seus diversos campos de interação.
O que aproxima ambas abordagens é a idéia da atenção consciente quanto aos seus objetivos, expressos de forma precisa por Sternberg:

(…) a atenção consciente satisfaz outros três objetivos: (1) monitorar nossas interações com o ambiente, mantendo nossa consciência de quão bem estamos nos adaptando à situação na qual nos encontramos; (2) ligar nosso passado (memórias) e nosso presente (sensações) para dar-nos um sentido de continuidade da experiência, que pode até servir como a base para a identidade pessoal; e (3) controlar e planejar nossas futuras ações, com base na informação da monitorização e das ligações entre as memórias e as sensações presentes. 4

A partir dessa citação, podemos estreitar a relação possível entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva, no que diz respeito à atenção e à memória. A pratica da Gestalt-Terapia vem justamente no sentido de buscar possibilitar no cliente esta consciência de suas interações com o mundo, buscando uma adaptação mais efetiva do sujeito aos eventos à sua volta, adaptação esta que não implica em ato passivo, mas em admissão de uma atitude consciente e responsável sobre seus atos e suas conseqüências sobre o mundo e sobre sua própria vida.
A ausência de uma postura consciente e engajada, segundo a Gestalt-Terapia, é que leva a um processo de adoecimento do sujeito, equivalente à interrupção do contato deste com o mundo, se prendendo a velhas formas de contato, a repetições e introjeções de emoções e sentimentos que acabam por desestabilizá-lo em todos os seus campos de relação.
As técnicas psicoterápicas dessa abordagem são realizadas no sentido de possibilitar essa tomada de consciência para todos os aspectos que constituem o sujeito enquanto totalidade, fazendo-o vivenciar no momento imediato do aqui-agora as questões que emergem como necessidades ou pendências que por ventura tragam sofrimento a ele. Para tanto, o terapeuta busca trabalhar no cliente uma atenção seletiva, tentando centrar suas queixas nas questões – figuras ou gestalten incompletas, segundo o jargão gestáltico da dinâmica perceptual figura-fundo – mais significativas e emergentes que surgem no encontro terapêutico.
Ao próprio terapeuta cabe o papel de manter, no momento do encontro com o cliente, uma vigilância constante, a fim de que possa captar os elementos significativos que por ventura surjam no discurso do cliente, em seu comportamento observável, em suas reações a intromissões por ele realizadas, mantendo a todo instante um contato intencional, realizando intervenções pertinentes e adequadas à cada situação. É claro que há sempre a possibilidade de a “vigilância terapêutica” direcioná-lo a respostas equivalentes às da teoria da detecção de sinal (TDS), da Psicologia Cognitiva:

Segundo a teoria da detecção de sinal, há quatro conseqüências possíveis de uma tentativa para detectar um sinal: acertos (também chamados “corretos positivos”), nos quais identificamos corretamente a presença de um sinal; alarmes falsos (também denominados “falsos positivos”), nos quais identificamos corretamente erroneamente a presença de um sinal que é realmente ausente; erros (também chamados “falsos negativos”), nos quais deixamos erroneamente de observar a presença de um sinal; e rejeições corretas (também denominadas “corretos negativos”), nos quais identificamos corretamente a ausência de um sinal.

De forma bem evidente, é possível evidenciarmos esses possíveis caminhos (acertos, alarmes falsos, erros ou rejeições) defrontados pelo terapeuta durante os instantes em que interage com o cliente e busca, de forma vigilante, perceber cada detalhe que por ventura o paciente expressa sobre suas aflições. A maioria das vezes, os conteúdos trazidos pelo cliente se de forma não consciente, em suas diversas manifestações, seja, como já disse, pelo discurso, seja por outros recursos, como os gestos, a interpretação de situações vivenciadas, ou por expressões artísticas.
No que diz respeito à interpretação de situações vivenciadas, e angústias decorrente de situações inacabadas, remeto ao papel da memória, que juntamente com a atenção e a consciência, tem participação fundamental na definição do psicodiagnóstico dos casos e no andamento do trabalho terapêutico.
Muito dos conteúdos apresentados no encontro terapêutico vêm de experiências vividas pelo sujeito e que retornam constantemente à consciência do paciente, causando-lhe angústia, por não sentir-se capaz de, sozinho, conseguir superá-las. Esse processo de recuperação das informações armazenadas na memória, a maioria das vezes requer lembranças associadas à memória de evocação, de idéias já conhecidas, de fatos já vivenciados e que muitas vezes emergem sem uma ordem exata (evocação livre), seguindo o fluxo das ideais que vão se associando ao longo da fala do cliente. Muitas vezes, no entanto, esse processo pode se dar de forma implícita, sem que o cliente se dê conta exatamente dos elementos que agem em sua vida, influenciando em seu estado de ansiedade, mas que se manifesta e persiste em seus comportamentos presentes, em suas resistências e rejeições quanto a contato consigo e com seus campos de interação.
Cabe ao terapeuta mobilizar recursos para que o cliente possa entrar em contato com essas memórias e vivencie de forma atenta cada sensação envolvida naquela experiência ou sentimento evocado. Ao trazer para a consciência elementos mnemônicos, o terapeuta mobiliza o cliente a tomar consciência de elementos presentes em sua memória de longo prazo que dão uma idéia do sujeito enquanto uma integralidade, um processo contínuo de experiências vivenciadas, atentando para cada aspectos, cada comportamento experienciado ou idealizado, de modo a fazer com que mobilize energias a fim de que possa posicionar-se de forma ativa e existencial sobre sua própria realidade.
Muitas vezes, o terapeuta faz com que o cliente repita frases que ele mesmo havia expressado e que podem vir impregnada de significações, e que muitas vezes não perceptíveis. Essa repetição possibilita que o cliente mantenha por mais tempo uma determinada informação como figura emergente no campo perceptual, possibilitando que ele tome consciência de alguns aspectos de sua fala ou de traços de seu próprio comportamento, tom de voz, etc, e os ressignifique. A partir dessa ressignificação, através da vivencia enquanto possibilidade ou expressão existencial, é possível o armazenando de uma nova experiência, de novos (auto-)conceitos, revistos e reelaborados, em sua memória, de modo a retroagir positivamente em seu comportamento futuro.
Desta forma, novamente, a atenção e a memória se associam e interagem juntamente com os processos de auto-percepção do cliente, na prática terapêutica, em destaque na Gestalt-Terapia, possibilitando que ele tome consciência existencial de si-mesmo, e possa vivenciar o aqui-agora, elaborando projetos mais coerentes e integrados para o futuro, aberto à perspectiva do contato e da relação consigo e com o mundo à sua volta.

Creio ter me detido um pouco mais sobre a questão da atenção, mas considero que esta é fundamental tanto no processamento de aquisição quanto de evocação de memória, seja de curto, seja de longo prazo. Como deixei claro, no início do artigo, pretendo relacionar esses dois conceitos, de atenção e memória à prática da Gestalt-Terapia. Por tratar-se de um artigo curto, não foi possível explanar melhor sobre alguns conceitos, tanto dessa abordagem como da Psicologia Cognitiva. Espero, no entanto, poder ter atrelado, ao menos de forma panorâmica, algumas idéias fundamentais de ambas abordagens e teorizações da psicologia.
Concluo afirmando que tanto a atenção quanto a memória são elementos indispensáveis para a manutenção e operacionalização do ser humano, possibilitando sua interação com o mundo, viabilizando processos de percepção da realidade e formação de autoconceitos. Assim, a possibilidade de relacionar idéias e conceitos das mais diversas linhas de pensamento, como tencionado aqui, neste breve artigo, só demonstra a riqueza e as possibilidades de construção de um saber, cada vez mais amplo sobre o homem, em seu processo de construção e auto-descoberta, seja através de estudos científicos, como os da Psicologia Cognitiva, seja por meio de práticas voltadas para a compreensão do homem em interação consigo e com o outro, no mundo ou em um encontro terapêutico.

Salavdor, 11/12/2005

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. – São Paulo: Editora Altana, 2001. (Coleção Indentidades)

PERLS, Frederick., HEFFERLINE, Ralph., GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. – São Paulo: Summus, 1997

PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e Testemunha ocular da terapia. – Rio de Janeiro: LTC Editora, 1988.

RIBEIRO, Jorge Ponciano. O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. – São Paulo: Summus, 1997.

RODRIGUES, Hugo Elídio. Introdução à Gestalt-Terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

STERNBERG, Robert J. Psicologia cognitiva. – Porto Alegre: Artes Medicas Sul, 2000.

A Experiência Homossexual (Resenha)

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

A leitura do livro “A experiência homossexual” traz uma perspectiva ampla do fenômeno da homossexualidade, tanto como objeto de estudo de diversos campos das ciências humanas e naturais, quanto como vivência pessoal e social, como construção histórica e cultural. Discute temas importantes como a questão da identidade homossexual e sua relação com os gêneros masculino e feminino, os “critérios” arbitrários para se definir que é ou não homossexual, que variam em cada cultura, as mudanças (e permanências) históricas de significação da homossexualidade desde as práticas legitimadas na Antiguidade, passando pela endemonização pelo cristianismo na Idade Média, a criminalização pelo Estado, a patologização e medicalização no século XIX, até o movimento de liberação sexual da década de 60, a partir do qual se emergiu uma comunidade GLBT, com cultura e linguagem próprios, num movimento de progressiva luta por direitos e pelo respeito à diferença.

Ao tratar da questão de gênero se aprofunda as diferenças na construção social da sexualidade, desde a infância, em que as crianças são submetidas a um processo de educação que distingue os papéis de homens e mulheres, tanto sociais como sexuais, interferindo sobre os sentimentos e afetos, sobre a expressão ou contenção dos desejos, sobre a descoberta e experimentação do corpo. Tal questão interfere e ajuda a compreender tanto a dinâmica dos relacionamentos heterossexuais, quando as relação homossexuais masculinas e femininas, que apresentam, em si, diferentes características e conformações.

A adolescência é trazida como a fase que talvez seja mais importante para o desenvolvimento social e psicossexual do indivíduo homossexual, seja por constituir uma fase de experimentação e descoberta da sexualidade, seja pela não vivência dessa, por repressão ou não consciência dos desejos. Essas diferentes vivencias podem interferir de forma importante no desenvolvimento afetivo e emocional do homossexual, sendo uma fase em que a diferenciação em relação ao grupo se torna presente e marcante, podendo levar a um progressivo movimento de isolamento e de solidão. As elevadas taxas de suicídio ou tentativa de suicídio nessa fase da vida do homossexual, demonstraria a relevância desse período de desenvolvimento do sujeito, de sua personalidade, requerendo atenção de pais e educadores para detectar possíveis sinais de isolamento e esquiva social.

A autora trata também o fenômeno da “saída do armário”, que envolve desde uma progressiva construção de uma identidade homossexual individual, desde a percepção e descoberta do desejo, a vivência dos contatos sexuais com pessoas do mesmo sexo, até o movimento progressivo de externalizar essa identidade, assumindo-a nos diversos contextos como a família, o bairro, até dimensões mais amplas da sociedade. Na adolescência esse “sair do armário” manifestasse como uma escolha ou um posicionamento que pode trazer riscos integridade física e psicológica do jovem homossexual, devido à imprevisibilidade das reações dos pais, amigos e outros contextos de interação, sendo necessário um planejamento e ensaios, cautela para escolher o momento certo e a tentativa de organização de uma rede de apoio sem a qual o adolescente pode se ver desamparado.

O sair do armário não se constituí um imperativo na vida do homossexual, que pode transitar pelos vários contextos encenando uma performance heterossexual, porém traz repercussões importantes do ponto de vista psicológico e relacional, em especial a questão da homofobia internalizada, que repercute em um conflito interno, numa dissonância cognitiva, entre o que foi socialmente aprendido como “normal” e a vivência pessoal. Pode interferir também nos diversos relacionamentos, em especial nas relações de casal, onde o “estar no armário” restringe a vivência da intimidade, restringindo as possibilidade de legitimação do relacionamento.

Um aspecto importante, e creio eu, também polêmico, é a opinião da autora sobre o terapeuta que trabalha com pacientes homossexuais e cujo foco de intervenção é, e “deve ser”, a homossexualidade. Ela traz duas questões que considero importantes de consideração: 1) que, preferencialmente, o terapeuta de um homossexual deveria também ser homossexual e 2) o atendimento terapêutico deve necessariamente envolver e aprofundar a vivência da homossexualidade.

O primeiro ponto ela justifica associando à importância de que o terapeuta homossexual tem um conhecimento maior com a elementos da cultura gay, e partilha de vivências comuns a quase todos os homossexuais, desde a “diferenciação” na infância e adolescência das outras pessoas heterossexuais, até as primeiras experiências de descoberta do desejo e vivência da relação. Considero parcialmente esse argumento como válido, mas ser o terapeuta também homossexual não garante que este não incorra também em riscos comuns a qualquer terapeuta, heterossexual, posto que não está imune à pré-conceitos e estereótipos sobre as diversas e possíveis vivências homossexuais, ou até uma ideologia específica que pode interferir no processo, deixando-se de levar em consideração a vivencia particular do cliente, em favor de um discurso ou de um ideal “emancipador” (caso o terapeuta tenha uma postura militante) ou “repressor” (em decorrência talvez de uma homofobia internalizada ou de estereótipos) do terapeuta.

A autora intui ainda alguns possíveis problemas relativos a questão da neutralidade e da necessidade ou não de o terapeuta homossexual “se assumir” para o cliente. Embora considere que a questão técnica não garanta uma condução adequada do tema, creio que, adotar uma postura humana (ou humanista) como técnica possa sim ser uma alternativa, independente da orientação sexual do terapeuta ou do cliente

O segundo ponto, que diz respeito à quase obrigatoriedade de que se trabalhe em torno da questão da homossexualidade, me parece uma escolha arbitrária. É evidente que não podemos negligenciar esse aspecto da existência do cliente, e as possíveis repercussões sobre a forma como ele está no mundo, porém não se pode definir, a priori, o foco dos atendimentos ou induzir os encaminhamentos dos atendimentos nessa direção. A terapia precisa, a meu ver, ser construída o tempo todo com o cliente e é ele quem define os pontos que considera mais relevante de serem trabalhados. “Especializar” o atendimento pode ter ganhos, porém pode também restringir as possibilidades de intervenção em outras dimensões da existência do cliente que não necessariamente está diretamente associada à questão da sexualidade.

A autora trabalha em três capítulos do livro, o tema do casal homossexual, partindo de uma perspectiva mais ampla para depois discorrer sobre as especificidades do casal lésbico e do casal gay. As descrições sobre as relações de casal são bastante minunciosas e mostra a diversidade de fatores envolvidos, que vão desde a questão de gênero, os papéis sexuais esperados segundo um modelo heteronormativo, características psicológicas e comportamentais de homens e mulheres nas relações, jogos de poder e práticas sexuais homoeróticas. A autora tenta desconstruir estereótipos sobre a idéia do senso comum de que sempre haveria um passivo e um ativo na relação, e mostra o caráter transgressor da sexualidade homossexual, que traz sua marca na cultura a parir da revolução sexual da década de 60. Segundo ela, a sociedade mudou, e com ela os modelos de casal, de casamento, e dos papéis sexuais. Com a emancipação feminina e com novas configurações do masculino, a sexualidade já não é vivida de forma padronizada e a homossexualidade estaria no vanguarda desse movimento de evolução sexual.

Aprofundando as singularidades que caracterizam os casais lésbicos e gays, é enfatizada diferença de gênero e o papel do aprendizado da sexualidade por homens e mulheres, sendo os primeiros estimulados à exploração do corpo, à não expressão de afeto, a não vinculação, enquanto caberia às mulheres a vivência mais intensa do afeto, o apaixonamento, a busca por estabilidade e uma vivencia sexual menos intensa. Tais características influenciariam o fato de comumente se ver casais lésbicos mais dependentes, às vezes simbióticos e marcados pela emoção intensamente expressada casais gays com vivencia mais “aberta”, com a valorização da autonomia, com menos intimidade, competitividade e pouco duradouros. Essa caracterização acaba por reproduzir certos estereótipos ou representações que não necessariamente são generalizáveis, nem irreais, porém um retrato possível. Também nos casais homossexuais pode haver uma tendência à convenções e institucionalizações de papeis, embora a negociação desses papeis e a possibilidade de reformulação seja mais possível de se dar, por não haver, a priori, um modelo único ou tradicional de relacionamento a ser seguido.

Um dos últimos pontos a ser trabalhado pela autora é a questão da bissexualidade, que se apresenta como um tema polêmico dentro do meio GLBT, por se apresentar como um entre-lugar nas identidades dicotomizadas heterossexual versus homossexual. A bissexualidade se mostra como um calcanhar de Aquiles, das políticas identitárias, embora aponte para uma dimensão ampla de escolhas e possibilidades. Podendo ser vivida como uma fase de transição entre vivências e identidades – um “limbo” -, ou como uma nova identidade escolhida e assumida política e ideologicamente, a bissexualidade desnaturaliza as categorias convencionais, desconstrói discursos afirmativos excludentes e aponta para novos arranjos sexuais e afetivos. Entre o apego e a autonomia, entre a experimentação e o prazer, pode ser vista tanto como um sintoma de uma sociedade narcísica, ou como um sinal de que as fronteiras da o sexualidade são um campo aberto ainda a ser explorado.

Por fim, a autora conclui descrevendo a existência de uma comunidade global homossexual, que se organizou ao longo dos últimos 30 anos, desde os movimentos de liberação gay, do feminismo, com o ápice no surgimento da AIDS, que pôs em foco a importância de os homossexuais se ajudarem mutuamente no combate ao preconceito e na luta por direitos civis e humanos. A autora aponta para a diferença entre o movimento gay militante e o atual panorama, em que as lutas, longe de serem emancipatórias e de transformação radical das instituições sociais, se dirigem à assimilação e garantia de ingresso do homossexual na ordem e no modelo de vida heterossexual, regido pelo consumo e pela lógica do capital. A autora lança críticas sobre essa descaracterização do movimento GLBT, por considerar que a “assimilação” e a aceitação “condicional” da homossexualidade mascara atitudes de preconceito ainda vividas intensamente na sociedade e descaracteriza e despotencializa o poder transformador e revolucionário da homossexualidade.

Independente disse “perda” política, é evidente que no momento atual, a cultura ocidental pode incluir a homossexualidade dentro de seu quadro de referências, mesmo que ainda restrita a um contexto limitado, a uma cultura burguesa urbana. As diversidades continuam existindo, as diferenças e seus respectivos preconceitos permanecem nas relações sociais e na sociedade como um todo. É inegável as mudanças dos tempos, as transformações vividas pelas últimas gerações, embora se mantenham limites e barreiras entre o respeito e a “tolerância”, entre a aceitação real e a aparente.

Marina Castañeda conclui seu livro com a clareza de sua parcialidade e de sua limitação histórica, considerando um cenário em transformação constante, antevendo seu lugar na história como um retrato de época. Sua descrição da “experiência homossexual”, ou das múltiplas dimensões possíveis desse fenêmeno complexo, é atual e circunscrita no tempo presente. Tempo mutável que, a cada momento, se reinscreve.

HxH: Homossexualidade e Homoerotismo

Luiz Fernando Calaça

Não sou gay! Sou homem que gosta de homens“. Já ouvi essa frase algumas vezes. Frase que me causou um certo estranhamento, para não dizer desconforto. Algo que, de início, me pareceu incoerente. Muitos são os homens que praticam sexo com outros homens e não se consideram homossexuais. Eles estão no armário? São gays com homofobia internalizada? São bissexuais que não admitem sua homossexualidade? São “indecisos”?

Recentemente participei de uma discussão em grupo que culminou, num determinado ponto, quando falava-se na questão do assumir-se gay, no tema da “omissão”. Na ocasião eu pensava na omissão como uma forma o homossexual vivenciar sua sexualidade sem, necessariamente, se defrontar diretamente com conflitos familiares. A omissão, embora não pareça a melhor alternativa, às vezes pode ser um ajuste temporário, principalmente para o jovem que inicia sua vivencia homossexual ainda cheia de medos e incertezas. Nem todos são obrigados a “sair do armário” e “se assumir para todos”, embora, a meu ver, seja fundamental “se assumir para si mesmo”.

Em todo o caso, a discussão enveredou para o tema dos “HxH” – homens que vivenciam praticas homossexuais em paralelo a relacionamentos heterossexuais, de forma velada, às vezes esporádica e impessoal. São, creio eu, os caras que fazem “pegação” em saunas e banheiros, longe do olhar recriminador da sociedade e que, depois, retornam para seus lares, ocupam seus lugares de homens-machos-pais-de-família. Tais práticas, e sua omissão, por muitas vezes, pode causar sérios prejuízos, quando realizada de forma inconseqüente. Muitas são as mulheres que são contaminadas por parceiros que dão suas “quebradas de asa” sem se preocupar com o uso da camisinha, contraindo diversas doenças sexualmente transmissíveis , inclusive a AIDS.

Entretanto, não podemos adotar uma visão maniqueísta dessas pessoas. Não são simplesmente “monstros” egocêntricos e narcisistas. Muitos podem sofrer conflitos internos intensos, por se verem numa posição incoerente com o que se espera socialmente de um homem heterossexual, por saberem que estão fazendo uma “coisa errada”, embora sintam e precisem vivenciar o prazer de estar com outro homem num contato sexual. Outros aprenderam socialmente que homossexuais são os gays efeminados, as “bichas” e “viados”, e não se vêem identificados com eles. Não se identificam como homossexuais, não tem internalizada essa “identidade” como parte de si.

A homossexualidade é uma construção histórica e cultural recente, que remete aos últimos dois séculos. A “identidade homossexual” é uma construção, uma ficção, uma criação. Existe e sempre existiu sim, as práticas homossexuais, desde a Antiguidade, como a iniciação dos jovens gregos através da prática sexual com seus professores e diversos outros rituais de iniciação. O sexo com outros homens fazia parte dos rituais e práticas socialmente aceitas e contextualizadas. O homoerotismo sempre existiu, o desejo, o prazer e o amor entre iguais sempre existiu, de forma variada, a depender das culturas. Praticar sexo com outro homem era, inclusive, visto em algumas culturas como um sinal de masculinidade, de virilidade e igualdade. Sua endemonização só se deu efetivamente a partir do advento do cristianismo, com o processo de controle e moralização da sexualidade, com sua associação com o pecado. E, mais recentemente, no idos dos séculos XVIII e XIX, foi criminalizada e patologizada.

A construção da identidade homossexuale a ressignificação da homossexualidade – dá-se apenas no século XX, tendo seu ápice nas décadas de 60 e 70, com o Movimento de Liberação Gay, quando os homossexuais passaram a se organizar em “comunidade” a fim de reivindicar seus direitos como cidadãos, lutando contra a violência e a homofobia. Porém, a assimilação dessa nova identidade não se deu de forma imediata e ainda hoje muitos sequer sabem ao certo o que quer dizer a palavra “homossexual“.

A vivência da sexualidade às vezes se dá de forma diversa da construção de uma identidade. Ainda se cultiva muitos preconceitos e estereótipos em torno do que seria considerado “homossexual“, e, muitas vezes, a prática do ato sexual não está, necessariamente, associada a essa representação. Muitos homens aprenderam e assimilaram uma identidade heterossexuais que é normativa, esperada socialmente como padrão. O homem macho, que ocupa a posição ativa na vida e no sexo, que se sobrepõe ao feminino, que desbrava o mundo, que abre passagens, que conquista, constrói e destrói. Constituídos como homem, sob as prescrições de uma cultura heteronormativa – não se vêem desviando de seu papel de “homem”, e como homem, se pressupõe heterossexual.

Não sei qual o caminho para se resolver esse dilema. Talvez aos poucos, em cada um, comece a emergir dúvidas, e das dúvidas – ou do sofrimento pela ausência de respostas – uma maior consciência de si, um movimento de interiorização que possibilite a mobilização para o questionamento e a ressignificação de si enquanto homem. Talvez a omissão se dê por ignorância das reais necessidades, ou, na consciência dessas, do medo de admiti-las e sustentá-las socialmente, como escolha existencial, como desvelamento para o outro, saindo da satisfação individual para a negociação em comunidade.

A sexualidade até hoje é tabu. Suas múltiplas facetas e manifestações são amplas e diversas demais, e não se restringem a um rótulo, a uma categoria, a um ideal identitário. Muitos são os fatores que constituem o homem em seu jogo de papéis sociais, sexuais, em sua consciência de existência no mundo. É do homem, é mistério! Como mistério, emerge na forma de fenômeno. Como fenômeno, carece de compreensão.

Salvador, 29/01/2009

O Enamoramento pelo analista

O ENAMORAMENTO PELO ANALISTA:
Considerações freudianas sobre os dilemas vividos pelo jovem analista diante de uma paciente histérica apaixonada, …e algumas considerações pessoais.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Em seu texto Observações sobre o amor transferencial, de 1915, Freud dirigi-se ao jovem analista, buscando esclarecer pontos da teoria psicanalítica no que diz respeito da ética profissional do analista, ao fenômeno do amor de transferência e a suas formas de manejá-lo, em especial no caso das mulheres histéricas. Trata-se de um artigo escrito já tendo a psicanálise mais de 20 anos de existência, que traz elementos técnicos importantes, advindos da experiência de Freud no tratamento das histéricas, e nas trocas estabelecidas com outros analistas que se deparavam com esses fenômenos nas análises por eles empreendidas.
Inicialmente, Freud contrapõe as dificuldades de um analista iniciante em interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimito, à dificuldade no manejo da transferência, em especial quando a paciente se enamora pelo analista, considerando esse último fenômeno de maior relevância. Freud salienta que o amor de transferência traz situações que apresentam aspectos aflitivos, cômicos e sérios, determinados por fatores inúmeros e complicados, às vezes de difícil esclarecimento, mas que demandam maiores esclarecimentos relativos às questões da técnica psicanalítica.
Um dos pontos ressaltados por Freud desde o início do artigo é a exigência social da discrição profissional, que considera, no entanto, inútil na psicanálise, tendo em vista a circulação livre das publicações psicanalíticas na Viena do início do século XX. Essa afirmação pode ser melhor compreendida se considerarmos que a maior parte dos que se valiam da análise eram membros da elite vienense, e de, apesar de ser uma metrópole, tinha ainda uma vida social que poderia ser vista como provinciana.
Freud salienta que a situação transferencial retardou o desenvolvimento da terapia psicanalítica durante sua primeira década, se referindo provavelmente a situações de transferência amorosa do caso Ana O. de Breuer, ou da transferência que levou ao abandono de sua paciente Dora, que posteriormente ele viria a considerar, em notas de rodapé, como decorrente da resistência à análise, não tendo ele manejado adequadamente a transferência.
Levantando o tema do amor, Freud traz que, para um leigo instruído, os comportamentos relacionados ao amor seriam entendidas como “incomensuráveis”, tratando-se de uma situação atípica, que não seria tolerada se não no contexto do apaixonamento. Afirma que para esse mesmo leigo, o enamoramento de uma paciente pelo médico (analista) pareceria ter apenas dois desfechos: o casamento ou a separação, com o abandono do trabalho. Aponta também para um terceiro desfecho que talvez favorecesse a continuação do tratamento, que seria o de iniciar um relacionamento amoroso ilícito, sabendo-se que não teria longa duração. Esse terceiro caminho, no entanto, encontraria como obstáculo a “moralidade convencional e os padrões profissionais” da época.
Freud afirma que, abandonando o tratamento com o terapeuta, em função do enamoramento da paciente por ele, esta seria obrigada a retomar o tratamento com outro analista, repetindo-se novamente o apaixonamento pelo analista, criando assim uma cadeia interminável de rupturas e recomeços. A compreensão desse fenômeno faria parte dos fundamentos da teoria psicanalítica, devendo este ser considerado sob dois pontos de vista: o do analista e o do cliente.
Para o analista, a compreensão do amor de transferência ajudaria a evitar a contratransferência, que pode acontecer no analista, devendo ele ter a lucidez de que o amor se trata de algo que não deriva de seus encantos pessoais, mas sim da própria situação analítica.
Para a paciente, haveria duas alternativas: abandonar o tratamento psicanalítico ou aceitar o inevitável enamoramento pelo analista. Diante desse impasse, paciente e familiares optariam pelo abandono da análise, mas Freud enfatiza que o analista deve sustentar a permanência da paciente em análise, não devendo permitir que a decisão fique aos cuidados dos parentes, considerando que apenas o bem estar da paciente deveria ser a pedra de toque dessa decisão. Tal posição se justificaria pelo fato de que a interrupção do tratamento manteria a neurose e impediria o desenvolvimento de outras formas de amar mais funcionais.
Freud considera um equívoco a mudança na forma de tratamento para uma outra não-analítica, considerando que isso não evitaria o enamoramento da paciente pelo médico. A insistência na análise e a compreensão desse amor de transferência no próprio contexto analítico é que favoreceria o reestabelecimento da paciente.
Freud critica também a postura de certos analistas que antecipariam as pacientes sobre o possível surgimento da transferência erótica ou que as insistam a ir em frente no enamorar-se pelo analista, tendo em vista o prosseguimento da análise, considerando tal procedimento insensato por retirar-lhe o elemento da espontaneidade, criando para si obstáculos futuros.
Quando Freud refere-se a esses “obstáculos futuros” não deixa claro seu sentido, se ligado estritamente ao manejo técnico da transferência ou se indicando riscos para a imagem pública do analista no que diz respeito à sua conduta ética, que poderia denegrir a sua imagem perante a sociedade.
Freud aponta para o fato de que o enamoramento na transferência não pareceria ser, num primeiro momento, algo que pudesse ser vantajoso para o tratamento, pois faria com que a paciente perdesse a compreensão e o interesse pelo tratamento, deslocando o foco para a questão do amor, abandonando os sintomas ou não dando atenção a eles, declarando-se curada. Freud afirma que com o amor haveria uma interrupção do “fingimento histérico”, para a irrupção da realidade. Tal remissão dos sintomas poderia levar um analista inexperiente a perder o controle sob a situação do tratamento analítico.
Segundo Freud, a emergência do amor de transferência seria uma forma de expressão da resistência, por interferir na continuidade do tratamento. Uma paciente que faz uma transferência afetuosa com o analista, e que num primeiro momento mostrava-se dócil, aceitando as explicações analíticas e manifestando compreensão e inteligência elevados, com o apaixonamento, perde inteiramente a capacidade de ter insights, estando completamente absorvida pelo amor. Esta resistência estaria ligada também ao momento em que o analista estaria tentando leva-la a admitir ou recordar algum fragmento aflitivo e reprimido de sua história. O amor pelo terapeuta antes latente, se manifestaria para sabotar o tratamento.
(É interessante salientar que nesse momento da teoria psicanalítica desenvolvida por Freud, a postura adotada pelo analista era iminentemente interpretativa – como ele mesmo enuncia no início do artigo, ao referir-se “dificuldades de um analista iniciante em interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimito” -, adotando ma com a atuação ativa do analista buscando trazer significados às fantasias e processos inconscientes das pacientes. Esse próprio processo de interpretação pelo analista, em si, poderia já fazer emergir o processo da resistência, quando não levasse em consideração a realidade tal como significada pelo próprio sujeito.)
Freud associa o amor de transferência a diversos fatores, sendo alguns associados ao próprio enamoramento e à resistência. O primeiro seria o esforço da paciente em provar sua irresistibilidade, buscando destruir a autoridade do analista, rebaixando-o ao nível de amante. Referente à resistência, seria a tentativa de colocar à prova a severidade do analista, de modo a faze-lo demonstrar sinais de complacência e ser repreendido por ela. Ainda sobre a resistência, Freud afirma que ela agiria como uma agente provocador , que intensificaria i estado de apaixonamento, com exagero nas manifestações sexuais da paciente, apontando para os perigos da “licenciosidade”. Freud afirma que esses motivos não são presentes em todos os casos, mas que foram registrados por Adler.
Diante dessa fenomenologia do amor de transferência, Freud levanta possíveis formas de manejo. Ele rejeita a adoção de uma postura moralista de rejeitar os afetos da paciente ou de exigir que esta se comporte segundo a moralidade social, renunciando aos desejos e dominando os instintos. Nesse ponto do artigo ele afirma recomendações são de base técnica, não dirigidas às pacientes, mas para os médicos que não sabem lidar com a situação do amor de transferência.
Ele afirma que o analista não deve instigar a paciente a suprimir a pulsão no momento em que ela emerge e admite a transferência erótica, pois isso seria o mesmo que mandar de volta às profundezas o que se buscou trazer do inconsciente, reprimindo novamente o reprimido. Afirma que diante disso, a paciente sentiria uma grande humilhação e o afeto se converteria em desejo de vingar-se.
Freud também não concorda com um caminho intermediário de retribuir os sentimentos amorosos pela paciente, sem qualquer complementação física de afeição, afirmando que o tratamento analítico baseia-se na sinceridade, de modo que discorda do uso de mentiras ou fingimentos. Considera que se exigimos sinceridade dos pacientes, não dizer a verdade seria por em risco a autoridade do analista. Afirma também sobre risco de deixar-se levar por sentimentos ternos pelas paciente, aconselhando que não se abandone a neutralidade com o paciente, adquirida com o controle da contratransferência.
Freud reafirma, então, que a técnica do analista recomenda ao analista a negação, à paciente, da satisfação do amor que ela lhe exige, devendo o tratamento analítico ser conduzido em abstinência. Assim, o manejo do amor de transferência seria o de manter a necessidade e anseio da paciente a fim de alimentar as forças de mudança, apaziguando as forças do amor por meio de substitutos, tendo em vista a sua incapacidade de alcançar a satisfação real.
Freud também pondera sobre a impossibilidade de se sustentar uma relação analítica em completa abstinência, refletindo sobre o que aconteceria se retribuísse o amor da paciente e acalmasse sua necessidade de afeição. Afirma tratar-se tal atitude de uma crença de que alimentar o amor transferencial aumenta o domínio sobre a paciente, influenciando-a a realizar tarefas exigidas e liberando-a da neurose. Sustentando essa crença, o analista teria fracassado e a paciente teria alcançado seu objetivo, posto que a retribuição do amor pelo analista significaria a derrota para o tratamento, posto que o que se realizaria seria o acting out, a atuação, a repetição do material psíquico, a expressão de inibições e reações patológicas da vida erótica da paciente.
A relação amorosa entre analista e paciente destruiria a susceptibilidade da paciente à influencia do tratamento analítico, restando-lhe apenas o remorso, sendo fortalecido o processo da repressão. O manejo adequado seria o de não aceitar e não suprimir o anseio da paciente por amor, tomando cuidado para não se afastar do amor transferencial, repelindo-o ou criando na paciente um sentimento de desagrado, porém mantendo a postura de recusa a qualquer forma de retribuição. Assim, o analista deveria manter o domínio do amor transferencial, tratando-o, no entanto, como irreal.
Essa situação deveria ser atravessada no tratamento, buscando-se remontar às origens inconscientes, visando ajudar a trazer o conteúdo oculto na vida erótica da paciente. Essa paciente, cuja repressão sexual não foi removida, se permitiria a vivenciar o amor, as fantasias e desejos sexuais a partir de sua emergência na relação terapêutica, abrindo o caminho para as raízes infantis do seu amor.
Haveria no entanto, aquelas pacientes, que ele descreve como “uma mulher desesperada” que não aceitaria a vivência psíquica no lugar do material, da concretização do amor com o terapeuta, convertendo o amor em inimizado por ele. Nessa situação, segundo Freud, não há como salvaguardar os interesses do tratamento, e a alternativa é abandonar o tratamento, cabendo ao analista refletir sobre a ligação entre a neurose e o amor.
Contrapondo-se à crença do analista jovem no amor genuíno e de que a mulher enamorada por ele se tornaria dócil e entraria na conclusão do tratamento, preparando-se para a vida real, dirigindo para um lugar adequado o sentimento de amor, Freud contrapõe o espírito teimoso e rebelde da mulher histérica, que abandonaria seu interesse pelo tratamento e perderia o respeito pelo analista, o que evidencia a dimensão da resistência disfarçada pelo enamoramento. Diante da recusa do amor pelo analista, essa mulher encarnaria o papel da mulher desesperada e se afastaria dos esforços terapêuticos por vingança e ressentimento.
Outro argumento trazido por Freud contrário à idéia do amor genuíno, é a de que o amor transferencial não se origina de uma situação nova e atual, mas é constituído de repetições e cópias de reações anteriores, infantis, que emergem a partir de análise detalhada do comportamento amoroso da paciente. Havendo a possibilidade de dar continuidade ao trabalho analítico, seria possível desvendar a escolha objetal infantil da paciente e as fantasias a ela ligadas.
Examinando os argumentos por ele mesmo levantados, Freud pondera sobre a veracidade ou não do enamoramento no tratamento analítico, e se ao apresentar a questão à paciente, não se estaria jogando com ocultamentos e distorções do fenômeno. Freud afirma que o analista diz a verdade à paciente, porém não totalmente, por considerar inquestionável o papel desempenhado pela resistência sob o processo, embora pondere que a resistência em si não é a causa do amor, mas se utiliza dele agravando suas manifestações.
Freud associa as causas do amor transferencial às adições de antigas características e repetições de reações infantis, sendo esse estado amoroso reprodução de protótipos da infância, por seu caráter compulsivo que beira ao patológico. Essa dependência do padrão infantil torna o amor menos adaptável e capaz de modificação, sendo por isso o amor transferencial menos livre que o amor comum.
Freud questiona o critério de genuinidade do amor, considerando o amor de transferência como um amor genuíno, pois não ficaria devendo em nada aos outros tipos de amor, no que diz respeito ao objetivo de alcançar seu objeto de satisfação. O enamoramento, em si, na vida comum, Freud associa mais ais fenômenos mentais anormais que aos normais. O que distinguiria o amor transferencial do amor comum seria apenas o fato de ser provocado pela situação analítica, de ser intensificado pela resistência, e pela falta de consideração com a realidade, pela insensatez, inconseqüência e por haver mais ego em sua avaliação da pessoa amada, e conclui que é justamente o afastamento da norma o que caracteriza o enamoramento.
Retomando o papel do analista, Freud afirma que o analista evoca o amor a fim de instituir o tratamento para curar a neurose, mas com isso não deve tirar nenhuma vantagem pessoal disso. A paciente não teria se preparado com nenhum outro mecanismo de cura, tendo apenas a fantasia antecipatória de que, se se comportasse bem, seria recompensada com a afeição do analista.
Freud enfatiza a associação entre motivos éticos e técnicos que barram o amor do analista à paciente, apontando para o risco de perder de vista o processo terapêutico, o que não significa dizer que para o analista seja fácil permanecer dentro dos limites estabelecidos pela técnica.
Sobre o amor sexual, Freud afirma tratar-se de uma das principais coisas da vida, e que só a ciência não admiti sua importância, por considerar-se refinada demais. Nesse ponto Freud inicia uma crítica à ciência, em seu paradigma médico biologicista, que desconsidera a influencia da dimensão sexual sobre o psíquico, e critica a psicanálise.
Ele afirma a dificuldade de um analista rejeitar e recusar o amor de uma mulher de princípios elevados, constituindo-se uma verdadeira tentação para o analista, porém afirma ser impossível ao analista ceder, posto que sua tarefa é de ajudar a paciente a passar por esse estágio de sua vida, superar o princípio de prazer e voltar-se para a realidade, adquirindo a liberdade de discernimento entre a atividade mental consciente da inconsciente.
Assim, caberia ao analista enfrentar uma tripla batalha: enfrentar as forças da resistência que procuram arrastá-lo para abaixo do nível analítico; opor-se aos cientistas que são constrários ao uso das forças pulsionais na técnica psicanalítica e ir de encontro às pacientes, que valorizam a vida sexual em sua materialização.
Freud finaliza o artigo lançando uma crítica aos leigos e aos cientistas contrários à psicanálise, que consideram o amor de transferência como um risco da técnica psicanalítica. Freud afirma que o analista trabalha com formas altamente explosivas, a pulsão. Considerando a psicanálise uma atividade médica que deve buscar para si a liberdade de atuação. Ele critica o uso de remédios inócuos, que subestimam os distúrbios quanto à origem e importância prática, limitando os tratamentos ao uso de remédios. Considerando que a psicanálise exercida com força, não temeria em manejar os impulsos mentais, buscando estabelecer sobre eles o domínio, em benefício do paciente.

Aqui finalizo as considerações sobre o texto freudiano.

Aqui começo minhas extrapolações:

Tomando o artigo Observações sobre o amor transferencial em perspectiva, é possível compreender sua importância técnica tanto para a psicanálise quanto para outras abordagens psicoterapêuticas, tendo em vista que o fenômeno da transferência faz-se presente em toda psicoterapia, seja como atualização de fantasias infantis, seja nas projeções e expectativas sobre o terapeuta. É importante, no entanto, sempre levar em consideração o contexto sócio-histórico-cultural no qual a psicanálise emergiu, o modo de vida da mulher vienense, a predominância, na clínica freudiana, de casos de histeria e os fracassos do próprio Freud no manejo de seus casos clínicos. O texto freudiano mostra uma preocupação grande em orientar o analista a “manter sob controle” a condução da análise, seja por sua postura interpretativa, seja por sua crença, que traz consigo uma fantasia de onipotência, de que seria o analista aquele que poderia curar a paciente de sua neurose.
Atualmente, dentro e fora da psicanálise, se valoriza a verdade do sujeito, sua significação dos fenômenos e construção de sentido de suas experiências. O analista deixa de ocupar um lugar ativo interpretativo, e ocupa a posição de escuta paciente, aberta e atenta. As histéricas de ontem, surgem hoje com outros sintomas, embora o amor continue a emergir, seja com conteúdos eróticos, seja na forma de admiração, seja por carência, diante da ausência de amor em outros contextos de sua vida. Nesses casos, a função de suplência, de encontrar substitutos desse amor, continua sendo o caminho, para que o amor restrito ao setting terapêutico, possa ser vivido na vida cotidiana.
As pontuações éticas trazidas por Freud sobre o manejo do amor de transferência permanecem vivas e são valiosas. Ele problematiza a questão da concretização do ato sexual entre analista e paciente, mas podemos transpor e expandir essa preocupação ética, tendo em vista outras formas de exploração possíveis de serem empreendidas sob uma pessoa carente e demandante de amor. Assim, não basta a ética exigida pela técnica, mas é de importância maior que o analista preste atenção a suas próprias demandas de afeto, de reconhecimento, suas necessidades ou caprichos narcísicos, para que os clientes não sejam meros objetos de satisfação de suas fantasias de onipotência.
A contratranferência – que Freud o tempo inteiro aponta como algo que deve ser evitado, utilizando-se do recurso da neutralidade analítica – pode ser um recurso, e não apenas um obstáculo no processo analítico. Da mesma forma que o amor de transferência, a contratransferência não surge da pura e simplesmente resistência, ou por ela é justificada. Transferência e contratransferência são fenômenos que se dão na relação terapêutica, das projeções e pré-julgamentos, que às vezes podem ser mascarados por racionalizações, ou podem ser enclausuradores dos sujeitos, reduzindo-o à condição de objeto. Podem ter bases em fantasias infantis, mas também tem elementos do encontro real e atual entre pessoas. Ao analista talvez seja preciso a humildade de ver-se realmente como apenas “suposto saber”, como um “douto saber”, que nada sabe, no entanto, do outro, que vem ao consultório revelar-se.
Quando Freud escreveu esse artigo, ele buscava afirmar a psicanálise dentre as práticas médicas e científicas, pleiteando a independência de objeto, autonomia e eficácia técnica. Hoje, a psicanálise se expandiu por todo o mundo, já não é mais uma, mas múltiplas, e divide o espaço das práticas psicoterapêuticas com centenas de outras abordagens, derivadas ou divergentes dela. Já não tem mais o lugar de uma macroteoria, embora, ainda viva seu status, misturando-se com os múltiplos discursos da cultura. Permanece, no entanto, sempre precisando ser atualizada e refletida em seu saber, e para isso precisa estar sensível ao do seu tempo, para integrar e integrar-se, dialogar com outras abordagens e outras ciências, para não se perder no dogmatismo que o próprio Freud criticava, ao defrontar-se com a ciência de sua época.
Olhando do fora, como um “não” aspirante a psicanalista, sinto uma relação ambígua e ambivalente em relação à psicanálise, sem saber definir ao certo o que me fascina e o que me causa aversão. No entanto, a lucidez de Freud em seu exercício cientifico de reflexão e busca por um rigor técnico é sem duvida algo digno de admiração.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Freud, Sigmund (1915). Observações sobre o amor transferencial (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III) . In: Freud, Sigmund. Edição eletrônica das Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

Homossexualismo e homossexualidade: o politicamente correto e o sentido do dizer

Luiz Fernando Calaça

Do ponto de vista político, a mudança do termo homossexualismo para homossexualidade tem um sentido, tanto histórico quanto ideológico e político, de ressignificar a homossexualidade, dissociando da idéia de doença e trazendo para o campo da diversidade e da construção de identidade.

Pessoalmente, no entanto, acho que pode haver nisso um excesso, uma atitude “politicamente correta”, que pode se esvaziar ou ser estereotipada. Tipo: toda vez que você houve o termo, você automaticamente corrige, por considerá-lo inapropriado.

O “toda vez”, ao meu ver, deixa de levar em consideração o “cada caso”, e caímos numa padronização que não condiz, a meu ver, com a idéia de diversidade, multiplicidade e imprevisibilidades constituinte de nossas relações sociais reais, no contato pessoa-pessoa no mundo.

Em uma das reuniões que tivemos no UNISEX, por exemplo, um dos participante da discussão trouxe uma ideia de que ao invés de “homossexualidade”, o termo “homoafetividade” seria mais adequado, por dissociar a homossexualidade da idéia de sexo, associando a afetividade, para assim tentar separar do estigma da promiscuidade sexual e de todo o imaginário associado aos gays. Eu, pessoalmente, acho um exageiro, embora saiba que essa expressão já é utilizada tanto nos meios acadêmicos, quanto em espaços culturais alternativos e “esclarecidos”.

Eu acredito que, independente do termo que se utilize, o que importa realmente é o contexto em que ele é empregado e a sua dimensão semântica – o sentido empregado ao termo.

O “-ismo” não se relaciona apenas ao sentido de patológico.

Por exemplo:

Muitos (senão todos) movimentos estéticos na literatura e na arte vieram vinculados ao sufixo “-ismo”: surrealismo, dadaismo, romantismo, etc etc.

Se pensamos nessa perspectiva o Homossexualismo poderia ser um movimento estético, um estilo artístico vanguardista.

Da mesma forma o sufixo -ismo é associado a certas religiões: islamismo, catolicismo, budismo, hinduímo, taoismo.

Então o Homossexualismo poderia ser também uma religião, uma filosofia de vida, uma doutrina ou uma vocação espiritual.

A origem histórica do homossexualismo associado a doença é inegável, não questiono isso, mas a mudança do nome necessariamente não muda sua semântica, nem o peso do preconceito, nem as práticas discriminatórias – e às vezes auto-discriminatórias. Talvez essa atitude adotada dentro do movimento GLBT, de trocar um termo pelo outro, tenha tido um sentido politico importante, num contexto específico que estamos sempre reatualizando, mas considero importante olhar para o momento presente e ver se esse sentido ainda faz sentido.

O que podemos fazer, ao meu ver, olhando para o contexto atual, é possibilitar a emergência de novas formas de ressignificação do olhar sobre esse fenômeno, é educar as pessoas próximas a nós sobre a homossexualidade, tentando dissociá-la dos estereotipos e dos sentidos negativos, a partir de nossa propria vivência, por nossos próprios modelos, pela nossa forma de estar no mundo.

Não tenho dúvidas de que muitos GLBTs, em suas práticas cotidianas reafirmam estereotipos ou confirmam preconceitos, e nisso retroalimentam o preconceito, por estarem presos e fixados a velhos sentidos e formas de estar no mundo – embora essas formas, em si, não devam deixar de existir, mas possam ser também elas ressignificadas.

Não sou hipocrita nem moralista, e não acho que devemos ser prescritivos sobre “como um GLBT deve se comportar corretamente”, mas creio que devemos, ao menos, tentar ser coerentes entre o que dizemos e fazemos, e para isso é necessário um exercício cotidiano de auto-análise, de reflexão sobre si mesmo, de consciência de si, de postura ética (= cuidadosa).

Às vezes eu sinto que tudo isso se perde no meio do caminho, tanto nas tentativas de construção identitária, como na práxis da militância e, principalmente, nas nossas formas de relação interpessoal, onde, sem perceber, podemos ser agressivos e desrespeitosos, quando não olhamos o outro a quem nos dirigimos, mas apenas as nossas projeções que nele fazemos.

O “dizer a homossexualidade”, a meu ver, implica em várias questões difícieis de serem percebidas, mas de fundamental importância, para o desenvolvimento da auto-consciência e do nosso posicionar-se politicamente.

E, o mais importante, a meu ver, é a coerência entre

o que dizemos,
o como dizemos,
o quando dizemos,
o onde dizemos,
o para que dizemos,
o para quem dizemos,
o que sentimos ao dizê-lo,
o sentido que desejamos transmitir ao outro, quando dizemos,
o que o outro sente quando eu digo.

E, ao ouvir o outro, precisamos prestar bastante atenção em:

o que o outro diz,
o como ele diz,
o quando ele diz,
o onde ele diz,
o que ele quer dizer quando diz,
o efeito que ele deseja estabelecer sobre mim ao dizer,
o que eu sinto quando ele diz.

Olhando para tudo isso, as palavras não se perdem na simples arte da retórica, mas se faz prenhe de sentido, viva, em nossas relações cotidianas, em nossas ações sobre o mundo, em nosso posicionamento político efetivo, em nossa tentantiva de construção e reconstrução da sexualidade.

Paul Goodman e os outros caminhos da Gestalt*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Neste trabalho trato da importância dada à obra de Paul Goodman dentro do contexto da Gestalt Terapia. Ocupando uma posição geralmente associada apenas como um marco histórico – sua contribuição como co-autor do Gestalt Therapy (1951) -, Paul Goodman tem suas obras antecedentes e posteriores pouco conhecidas e discutidas dentro da literatura gestáltica brasileira. A partir de um olhar para a importância “histórica” do todo da obra de Paul Goodman, sinalizo para os diversos caminhos possíveis de interlocução desta com a Gestalt Terapia, para além das formulações sobre a Teoria do Self, tema de sua obra mais trabalhado até o momento. Paul Goodman, ao longo de mais cerca de 40 anos de produção artística e intelectual, transitou por vários campos do conhecimento, que vai desde a crítica literária, passado pelo planejamento urbano, pela psicologia e psicanálise, até a crítica social, política e pedagógica, finalizando sua obra retomando reflexões sobre a linguagem e a literatura e a existência. Tais campos de conhecimento percorridos por Goodman, de forma transdisciplinar, podem ser compreendidos como situados nas “fronteiras de contato” da Gestalt Terapia, apontando para possíveis caminhos de ampliação, amplificação e atualização da abordagem gestáltica.

Palavras-chave: Paul Goodman, Gestalt Terapia, história, crítica biográfica.

This work deals with the importance given to the work of Paul Goodman in the context of Gestalt Therapy. Occupying a position usually associated only as a milestone – his contribution as co-author of Gestalt Therapy (1951) -, Paul Goodman has his work history and little known and discussed later in the Brazilian literature gestalt. From a glance at the important “historical” of all the works of Paul Goodman, signaling for the various possible ways of interaction of the Gestalt Therapy, in addition to the formulations on the Theory of the Self, the subject of his work more worked up the moment. Paul Goodman, over around 40 years of intellectual and artistic production moved to different fields of knowledge, which ranges from the literary criticism, past the urban planning, the psychology and psychoanalysis, to the critical social, political and pedagogical, ending resuming his reflections on language, literature and existence. These fields of knowledge covered by Goodman on a cross, can be understood as located in the “frontier of contact” of Gestalt therapy, pointing to possible paths of expansion, amplifying and updating the gestalt approach.

Keywords: Paul Goodman, Gestalt Therapy, history, critical biography.

INTRODUCÃO

Nesse trabalho, pretendo dar visibilidade ao lugar ocupado pela obra de Paul Goodman dentro da literatura gestáltica, até então pouco conhecida e explorada, principalmente no contexto de desenvolvimento da abordagem gestáltica no Brasil. Pretendo sinalizar para outros “caminhos” empreendidos por Goodman ao longo de sua trajetória como intelectual da contemporaneidade, admitindo que sua contribuição para a Gestalt Terapia extrapola ou amplia os limites das formulações sobre a Teoria do Self, tema de sua obra que é mais trabalhado até o momento.

Inicialmente, traçarei um panorâmica da vida e obra do autor, pontuando marcos importantes de sua obra, tende em vista a forte relação entre os momentos de sua vida e o desenvolvimento de seu pensamento, não me atendo, no entanto, a dados da vida intima do autor – embora considere que tenham sua importância para a compreensão do percursos da sua obra como um todo e sobre seus desdobramentos. Posteriormente, apontarei para os caminhos já percorridos pelos críticos da obra de Paul Goodman e por teóricos de outras áreas, apontando também para caminhos ainda pouco trabalhados.

I. A obra de Paul Goodman

Natural da cidade de Nova York, filho de família de comerciantes judeus, Paul Goodman graduou-se em Letras pelo The City College of New York, em 1932, e completou seu PhD pela Universidade de Chicago entre 1939 e 1940, com a dissertação “The Formal analysis of Poems”, que posteriormente seria publicada sob o título The Structure of Literature (1954).

Após finalizar seus estudos, dedicou-se na década de 30 à docência, em escolas tidas como liberais, sendo expulso mais de uma vez dessas instituições, acusado de seduzir seus alunos – e por defender o seu direito de fazê-lo. Sua experiência como professor, posteriormente, influenciaria seu olhar sobre o sistema educacional americano e sobre a juventude, temas ao qual se dedica principalmente na década de 60.

Antes de inserir-se no movimento de criação da Gestalt Terapia, no final da década de 40, Paul Goodman já havia trilhado um longo caminho no campo da literatura, como poeta, novelista e crítico literário, já tendo publicado quase uma dezena de livros[1], porém sem grande notoriedade ou aceitação da crítica, pelo seu estilo vanguardista e por sua vinculação política ao anarquismo, adotando uma postura pacifista, contrária ao movimento armamentista dos EUA, no período da Guerra Fria.

Goodman também havia publicado, em 1947, o livro sobre planejamento urbano intitulado Communitas, em co-autoria com seu irmão Percival Goodman. Em função da sua habilidade na escrita, e da capacidade de articular e desenvolver idéias em co-autoria, por indicação de um amigo, Goodman foi convidado por Fritz Perls, a realizar um trabalho pago, de editoração dos seus manuscritos, daquilo que seria o livro marco de formação de um nova abordagem psicoterapêutica, a Gestalt Terapia.

Por sua profunda erudição e conhecimento em filosofia (fenomenologia, existencialismo, pragmatismo e taoísmo), psicologia e psicanálise – tendo escrito textos críticos sobre Freud e Reich nos anos 40 -, Goodman acabou sendo o principal responsável pela fundamentação teórica da nova abordagem, redigindo quase que integralmente a segunda parte do Gestalt Therapy, intitulada “Novelty, excitement and growth” (Novidade, excitamento e crescimento).

Paul Goodman, após essa participação em co-autoria com o Fritz Perls, engajou-se no grupo criador do Instituto de Gestalt Terapia de New York, proferindo seminários e atuando como terapeuta por um período de cerca de 10 anos. Na década de 60, impossibilitado de continuar suas atividades como psicoterapeuta devido a instituição de restrições no exercício da psicoterapia por não psicólogos, Paul Goodman passou a se dedicar principalmente à produção de obras de crítica social e política e sobre educação, ministrando palestras e cursos em universidades.

Sua fama e notoriedade acadêmica e como intelectual se dá somente nesse período, com a publicação do livro Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1960), obra em que aborda principalmente o tema da educação e da juventude – retomando sua experiência como professor na década de 30, e seu contato com jovens de rua da cidade de NY. Nesta obra, também feita sob encomenda, devendo inicialmente discorrer sobre a questão da delinqüência juvenil, ele acaba por desenvolver uma análise crítica ao sistema político-educacional norte-americano, refletindo sobre a condição do jovem formado compulsoriamente em um modelo educacional focado em conteúdos curriculares e sistemas disciplinares, com poucas possibilidades de ocupação e sem uma formação como cidadão para viver em comunidade.

A partir dessa obra, Goodman passa a configurar-se como um dos principais “gurus” do movimento de Contracultura, atuando junto ao movimento jovem estudantil, no Movimento Libertário da Nova Esquerda. Escreve ensaios de caráter pacifista contra a Guerra Fria, adotando uma postura de crítica ao movimento armamentista e à Guerra do Vietnã, além de refletir sobre conflitos sociais envolvendo grupos minoritários, como negros e homossexuais, adotando às vezes posturas polêmicas.

Em muitos de seus escritos literários, abordou direta ou indiretamente a questão da homossexualidade, tema emergente de sua própria vivência bissexual – o que o coloca dentro do quadro de referência dos escritores e intelectuais que “saíram do armário” e colocaram a questão da identidade gay – ou queer – em foco. Foi, então, um dos precursores do Movimento de Liberação Sexual, que se desenvolveu na década de 70, após o conflito de Stonewall, embora ele mesmo tivesse críticas sobre a postura adotada pelos militantes gays[2].

Olhando para as fases que compõem a trajetória da Goodman, primeiro como escritor e crítico literário, depois como psicoterapeuta e, por fim, como crítico social, político e educacional, é possível intuir que sua participação no movimento da Gestalt Terapia, se deu como um divisor de águas em sua construção como um intelectual da contemporaneidade.

A inserção de Goodman na Gestalt Terapia se deu como desdobramento de um longo período de “auto-análise”, que se manifestou tanto no caráter projetivo de sua obra literária, de ficção e ensaística, produzida na década de 40 – fortemente influenciada por suas incursões na psicanálise -, quanto pela auto-aplicação das técnicas de vegetoterapia aprendidas nos seis meses de terapia iniciado com Lowen. Após um período de práticas corporais e associações livres, Goodman passou por um período de elaboração em terapia individual com a Laura Perls, que deu continuidade em seus diários pessoas escritos entre 1955 e 1960, que posteriormente seriam publicados sob o título Five Years (1966,1969).

O momento em que se volta para a crítica social e pedagogia é decorrente da profunda reflexão e elaboração de sua carreira e de sua trajetória de vida, ocorrendo após um período de imenso descontentamento e descrença com a própria carreira como artista e “homem das letras” – modo como costumava se qualificar. Essa nova fase não se trata de um momento absolutamente novo, porém de um posicionar-se diante dos fenômenos psicológicos, sociais e pedagógicos, de forma mais engajada, implicada, não alienada.

Incorporando pressupostos da abordagem gestáltica, Goodman olha para os fenômenos sociais e políticos a partir de um referencial terapêutico, de uma “socio-terapia”, podendo essa fase de sua obra ser compreendida como um desdobramento e uma amplificação dos pressupostos da Gestalt Terapia, já ensaiados no Gestalt Therapy, nas teorizações sobre o self como contato, sobre a constituição dinâmica da personalidade como função da interações organismo-meio.

No final de sua vida, nos fins de década de 60 e início de 70, após a morte do filho num acidente de alpinismo e da morte de vários parceiros como o Paul Weizs e o próprio Fritz Perls, Goodman sofre uma sucessão de infartos. Prevendo a aproximação de sua própria morte, Goodman retoma pontos de reflexão de sua carreira, a partir de um tom de confissão autobiográfica, justificando seus posicionamentos – às vezes por demais polêmicos – ao longo sua trajetória como “homem das letras”, como crítico político e social, como bissexual. Esses escritos são os ensaios “Memoirs of an Ancient Activist” (posteriormente publicado como “The politics of being queer”), de 1969, e os reunidos na obra póstuma Little Prayers and Finite experience (1972), reeditada sob o título Crazy hope and finite experience (1994).

Sua ultima obra publicada em vida, Speaking and language (1971), retoma seu momento como crítico literário, trazendo reflexões sobre a linguagem e a literatura, desenvolvendo pontos importantes enunciados principamente no capítulo 7 do Gestalt Therapy, o “Verbalizing and Poetry” e nos workshops ministrados no Instituto de Gestalt Terapia de New York, na década de 50, sobre o título “The Pathology of Speech and Writing”. Nessa obra ele tece críticas a lingüistas contemporâneos e ao modo positivista de fazer ciência e compreender a linguagem, propondo um olhar sobre a experiência poética e o dinamismo da linguagem enquanto criação.

II. Paul Goodman e os “outros caminhos” da Gestalt

Utilizo esse breve – e incompleto – panorama, da obra de Paul Goodman, apenas como argumento que sinaliza uma justificativa do porquê se estudar mais a fundo a sua obra, compreendendo-a em sua totalidade. Ao longo de uma carreira de cerca de 40 anos, com uma média de publicação de uma obra/ano, Goodman deixou um legado extenso e diversificado, discorrendo sobre diversos temas, contemporâneos a ele e ainda hoje atuais, percorrendo um caminho intelectual singular, adotando uma postura transdisciplinar – tão propaganda atualmente nos meios acadêmicos, porém tão pouco exercida na prática – que expande a Gestalt-Terapia para além das fronteiras da Psicologia, e, em especial, do contexto clínico, mantendo, porém, uma constante interlocução com ela, articulando saberes diversos, da psicanálise, filosofia existencialista e pragmatista, da crítica social, educacional e política e da literatura.

A passagem de Goodman pela Gestalt-Terapia, dentro do desenvolvimento da abordagem gestaltica no Brasil, e na maioria das obras de Gestalt-Terapia traduzidas, é muitas vezes reduzida à mera condição de marco histórico, pela sua contribuição na autoria do Gestalt Therapy. É citando como um seu principal formulador e sistematizador teórico, porém pouco se tem discutindo ou aprofundando sobre as reais implicações de sua obra, não se vislumbrando os possíveis  desdobramentos dela derivados, para o desenvolvimento da abordagem gestáltica para além do enquadre clínico. Diante dessa restrição atual sobre o olhar para o todo de sua obra, faz-se necessário abrir o campo para novas perspectivas que se encontram latentes, ainda a ser melhor  exploradas e desenvolvidas.

Creio que o conhecimento mais a fundo da obra do Paul Goodman serviria como uma fonte teórica importante para se compreender fenômenos políticos, sociais, pedagógicos e estéticos que, diante de uma escassa formulação teórica  dentro das produções da literatura gestáltica, senão na própria obra desse autor, se faria pela busca de fontes externas nem sempre compatíveis com o referencial gestáltico.

Recentemente, Walter Ribeiro (2007) trouxe em seu artigo sobre a história da Gestalt Terapia, a importância de rever essa História – com letra maiúscula -, concebendo-a como o “fundo do qual emergem as noções que temos sobre a nossa identidade e que, portanto, quanto mais elucidada, mais clareza teremos do que somos e do que pretendemos”.  Nesse artigo ele traz a importância do resgate da contribuição dos pioneiros da abordagem gestáltica, dando um destaque especial a alguns membros do Grupo dos Sete – Fritz e Laura Perls, Paul Goodman, Paul Weizs e Isadore From.

Sobre Paul Goodman, Ribeiro retoma considerações da própria Laura Perls, que o aponta como um dos principais sistematizadores das primeiras teorizações da Gestalt Terapia, ao afirmar que “a influência de Paul Goodman era muito importante e penso que sem ele não haveria absolutamente uma teoria coerente de Gestalt Terapia” e ao descrevê-lo como

um homem do Renascimento, um dos raros feitos na América. Aqui as pessoas usualmente não têm a educação e base para conhecimento de línguas, e filosofia, e modos diferentes de pensamento, e arte, e antropologia, e música. Paul possuía tudo isso em funcionamento integrado.[3] (s/p. na edição eletrônica)

Robine (2005), em seu artigo que discute o paradigma pós-moderno da Gestalt-Terapia, em muito desenvolvido a partir das contribuições do Paul Goodman, discorre sobre a ignorância quase generalizada que se tem sobre a importância desse autor, ao recordar-se ele mesmo de sua própria formação como gestalt-terapeuta:

No início dos anos 80, após minha formação e um tempo de prática em Gestalt-Terapia – em um primeiro momento de modo “perlsiano” (do período de Esalen) e depois modificada pela contribuição do Instituto de Cleveland (em particular dos Polsters), – eu tive a oportunidade de trabalhar por vários anos com Isadore From, um membro do grupo fundador da Gestalt-Terapia. Este repensar doloroso e radical levou-me a dar as costas firmemente a certas práticas, certas noções teóricas e certos preceitos éticos, em prol de outro enfoque, que eu já então percebia como sendo mais exigente (e eu ainda estava longe de medir todas as conseqüências). Tratava-se do enfoque de Goodman e Isadore From. Aliás, era difícil para mim distinguir a contribuição de From daquela de Goodman, pois ao longo de minhas duas formações anteriores em gestalt, nunca havia ouvido falar em nenhum dos dois.  (…) Do mesmo modo, tenho a impressão agora, depois de 15-17 anos, de ainda não ter feito o tour completo pelo modelo proposto por Goodman. (…) Ao mesmo tempo, eu estou longe de considerar que o modelo trazido por Goodman seja perfeito! Eu quero apenas dizer que novos caminhos foram abertos e que nos cabe identifica-los e explorá-los.[4] (p. 103)

Dos “novos caminhos” referidos por Robine, abertos pela contribuição de Paul Goodman, tem sido enfatizado principalmente as contribuições dele no que tange às construções sobre a Teoria do Self, baseada na compreensão de campo e de contato, na articulação organismo-meio, numa perspectiva interacionista do desenvolvimento humano. Vários autores (Ribeiro, 1997, Robine, 2006, Muller-Granzotto, 2007) têm se preocupado em desenvolver e refinar melhor esses conceitos, aprofundando as leituras do Gestalt-Therapy e articulando com outras concepções contemporâneas. Robine, em especial, vem trabalhado na crítica e resgate desses conceitos, apontando as contradições entre as “bases modernistas” da Gestalt terapia – com sua compreensão estrutural de self, herdeira das idéias Freudianas e Reicheanas, a partir da noção de “auto-suporte” de Perls – , e o “paradigma pós-moderno” que advém da noção de self enquanto contato, pela ênfase dada por Goodman na compreensão de “suporte ambiental”[5].

Sobre esse ponto teórico, específico e atual nas discussões e teorizações da Gestalt Terapia, não pretendo me aprofundar, no presente trabalho, apenas me referindo a ele como sendo o que considero o caminho mais “canônico” de compreensão da obra do Paul Goodman e desenvolvido dentro do campo da abordagem gestáltica.

Ao visar o todo da obra de Paul Goodman, desde a fase literária, até o engajamento na crítica social e educacional, é possível perceber os vários campos abertos por ele e desenvolvidos de forma paralela e, às vezes, em interlocuções ou abordando temas diversos, transversalmente.

Cada um desses “eixos” ou “trilhas” se interconectam ao longo de toda a obra de Goodman, sendo possível imaginá-la talvez sob a forma de uma mandala, ou de uma esfera constituída por “pontos” interconectados, pontos cuja conexão pode se organizar como “planos” temáticos, para fins de articulação, como planos de trabalho.

Esses vários “eixos temáticos” ou “trilhas” – ainda pouco visados da obra de Paul Goodman, poderiam – e deveriam – ser melhor explorados. Abaixo, tento agrupar alguns possíveis planos de trabalho, agrupando algumas dessas áreas e apontando para suas principais obras de referência, que podem ser combinados em vários outras articulações:

1) o caminho literário-estético-filosófico, referente à visão estética e literária de Paul Goodman,  correspondente ao período em que se dedicou à crítica literária e teoria da literatura, ao zen-budismo e ao existencialismo. Vai desde as primeiras reflexões formalistas sobre a poesia, do período do doutoramento na Universidade de Chicago, passando por ensaios psicanalíticos da década de 40, por escritos sobre a arte de vanguarda e o teatro, durante a década de 50 – quando do contato com o Living Theatre -, e retomada nos fins das décadas de 60 e 70, quando dos últimos escritos referentes a sua reflexão existencial e às discussões sobre linguagem e literatura. Desse período se situam as obras: Art and Social Nature (1946), Kafka’s Prayer (1947, 1976), as passagens sobre o artista contidos no Gestalt Therapy (1951), o The Structure of Literature (1954), Utopian Essays and Practical Proposals (1962), Five Years (1966) e Speaking and language: defence of poetry (1971), além de alguns artigos compilados nas obras póstumas Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator Spirit Come! The literary essays of Paul Goodman (1977, 1979).

2) o caminho psicológico-psicanalítica-gestáltico, que envolve o periodo das décadas de 40 e 50, que vai do período antecedente à incursão pela Gestalt-Terapia, através dos ensaios sobre a psicanálise freudiana e reicheana, e toda a década de 50. Está presente na leitura psicanalítica da obra de crítica literária Kafka’s Prayer (1944); no Gestalt Therapy (1951), em fragmentos sobre a psicologia presentes no Five Years (1966) e nos ensaios reunidos na obra Nature Heals: Psychological Essays (1977). O período compreendido de crítica social a partir da publicação do Growing up Absurd (1960) também pode ser incluído, no que tange às reflexões sobre as relações de campo organismo-meio, e sobre psicologia social ou “socio-terapia”.

3) o caminho da crítica social e política, referente a escritos pacifistas da década de 40, o The May Pamphet (1945) e aos artigos de Goodman em revistas de esquerda como Liberation, Politics, Alternative, Resistence, Dissent, etc, e principalmente às obras produzida nas décadas de 60 e início de 70, que caracteriza-se pela sua visão anarquista, de critica ao “sistema”, à organização social e política do Pós-Guerra com sua propostas utópicas e comunitárias, ao movimento pacifista contra a Guerra do Vietnã, que serviram como pano de fundo para o desenvolvimento do movimento de Contracultura. Tal plano se manifesta presente em obras como: Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1960), Utopian Essays and Practical Proposals (1962), Drawing the Line (1962), The Society I Live In Is Mine (1962), Seeds of Liberation (1964), People or Personnel (1965), The Moral Ambiguity of America [(1966); publicado como Like a Conquered Province: The Moral Ambiguity of America, 1967)], New Reformation: Notes of a Neolithic Conservative (1970) e as obras póstumas Little Prayers and Finite Experience (1972), e retomado nas coletâneas Crazy hope and finite experience: final essays of Paul Goodman (1979), The Writings of Paul Goodman (1976), Drawing the Line: Political Essays (1977) Decentralizing Power: Paul Goodman’s Social Criticism (1994) e Format and Anxiety: Paul Goodman Critiques the Media (1995), organizadas por Taylor Stoehr.

4) o caminho pedagógico, da década de 60, referente às obras em que critica o modelo de educação compulsória, e propõe uma educação vivencial e comunitária, com inspiração em Dewey, voltada para o desenvolvimento integral do humano, diretamente relacionado ao eixo de crítica social e política e contidos nas obras: Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1961), The Community of Scholars (1962), Compulsory Miseducation (1964) e People or personnel and Like a conquered province (1968).

5) o caminho da análise autobiográfica, que envolve as décadas de 40 a 70, e atravessa os 4 eixos anteriores, em que Goodman sintetiza essas diversas dimensões de sua obra articulando à sua própria vida, num movimento de auto-análise, implicado na tecitura de seu próprio discurso teórico-crítico-filosófico-literário. Presente no livro de memórias Five Year (1966), e em ensaios e poemas contidos nas obras póstumas Little Prayers and Finite Experience (1972) Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator Spirit Come! The literary essays of Paul Goodman (1977, 1979), pode ser percebido também em obras literárias de Goodman, principalmente nos textos que problematizam o tema da alienação – The Empire City (1959), sobre a homossexualidade Parents’ Day(1951), Our Visit to Niagara (1960), Makjing do (1963) e em poemas, como o North Percy (1968), que trata da morte de seu filho Mathew.

O olhar para a dimensão autobiográfica da obra de Paul Goodman nos favorece a compreensão dos desdobramentos de seu pensamento intelectual e as formulações sobre alguns temas ligados às sua própria existência. As elaborações, por exemplo, sobre a Psicologia do autor, sobre o processo criativo e o ajustamento criativo e sobre a sexualidade, em muito sofre interferência das vivências de Goodman, trazendo exemplos de sua própria vida e de seu movimento de auto-conhecimento.

Esses diversos pontos temáticos da obra de Goodman, constituem caminhos situados nas “fronteiras de contato” da Gestalt-Terapia, que em muito podem favorecer a um processo de ampliação da abordagem gestaltica para outros campos além do enfoque clínico, ao menos no que tange às possibilidades de articulação insinuados como contribuição de Goodman para a Gestalt terapia.

III. Alguns caminhos já percorridos

Fazendo uma revisão da fortuna crítica sobre Paul Goodman, a partir de fontes acessíveis em artigos da internet e obras impressas que fazem referência ao pensamento do Paul Goodman, foi possível evidenciar uma grande incidência de referencias sobre ele no campo de sociologia, da política e da pedagogia, principalmente em discussões referentes ao movimento anarquista, à sua contribuição na Contracultura da década de 60-70 (Roszak,1972), e ao movimento de desescolarização, esta última em articulações principalmente com o pensamento de Ivan Illitch. São artigos datados principalmente das décadas de 60 e 70 (Thompson , 1967; Vaughan , 1974; Swartz, 1979), havendo referências mais atuais, em revisões que incluem o autor na história do desenvolvimento da pedagogia contemporânea (Friedenberg, 1994,1999; Spring, 2006) .

Sobre o pensamento político de Goodman, a obra de Bernard Vincent (1976) e a coletânea organizada por Parisi (1986), talvez sejam as referências mais consistentes de fortuna crítica, embora haja também artigos de diversos outros autores que abordam a importância de Paul Goodman como intelectual anarquista e crítico político e social do pós-guerra.

Há referência à importância de Paul Goodman também no que ficou denominado como ecopsicologia (Knapp, s/ data), a partir dos seus escritos sobre planejamento urbano, em parceria com seu irmão Percival Goodman e nas articulações do Gestalt Therapy e de obras posteriores sobre a relação do organismo-meio ambiente. Tal articulação indica um caminho de possível de articulação da Gestalt Terapia com a Geografia e, numa aproximação nossa, com o campo emergente da Psicologia ambiental.

Entre as publicações sobre a contribuição de Goodman para a Psicologia, em especial para a Gestalt-Terapia, encontrei poucos artigos, porém que trazem contribuições importantes para a compreensão da obre de Goodma. Um artigo mais antigo, de Winter (1962, 2007), sistematiza os principais pontos teóricos trazidos por Goodman para a da Gestalt Terapia. Na década de 90, Ayward (1999) trata da questão do campo e dos ajustamentos neuróticos, numa perspectiva que busca amplificar e expandir as discussões clínicas da GT, refletindo sobre as implicações dos distúrbios de fronteira no campo clínico, social e político.

Ayward (1999) aponta para uma compreensão que possibilite “uma expansão da consciência para a dinâmica das fronteiras, incluindo os impactos sociopolíticos e ambientais que influenciam e sustentam nossa condição humana”, considerando que o “ponto social e político da Gestalt Terapia, mascarado na forma de uma psicoterapia, serviria de base teórica para o combate da desumanização”.  Adentrar e aprofundar essas discussões no campo de uma sociologia ou de uma psicologia social, na Gestalt Terapia, me parece algo ainda a ser trilhado, uma lacuna que teria a compreensão da obra de crítica social e política de Paul Goodman como caminho que inevitável.

Um artigo mais recente é o de Kitzler (2007), gestalt terapeuta americano que foi aluno formado por Goodman, que trata da influência da formação pragmatista de Goodman, na Escola de Chicago, e sua influencia sobre as elaborações sobre o Self.

Sobre a contribuição de Paul Goodman no que tange ao campo da literatura, no entanto, quase nada se tem publicado, com exceção do artigo de Morton (1993), sobre a obra The Empiry City apontando para sua dimensão pós-moderna e pós-narrativa desta obra.

A principal e mais completa e ampla referência de fortuna crítica são os textos de Taylor Stoehr, editor e principal comentador da obra de Paul Goodman. Taylor descreve em seu livro Here, Next, Now (1994) detalhes minunciosos da história do autor, desde aspectos de sua vida pessoal, sua formação acadêmica e carreira literária, passando pelos momentos de imersão na psicanálise, sua inclusão no movimento da Gestalt Terapia e o posterior engajamento como crítico social e teórico da educação, ocupando o lugar de porta-voz da Contracultura. Esta obra e outros escritos de Taylor, principalmente as introduções das coletâneas reunidas após a morte de Goodman, são as fontes mais detalhadas sobre a biografia de Goodman e sua produção literária, descrevendo as principais fases do autor e suas transições, as características das obras de cada uma dessas fases, e os principais caminhos para adentrar o pensamento de Goodman, tanto no campo literário, quando da psicologia e da crítica social e política.

Na literatura gestáltica brasileira, apenas Alvim (2007), mais recentemente, focou a dimensão literária de sua obra, apontando como uma contribuição de Goodman para o “fundo estético” da Gestalt Terapia. Em seu artigo, no entanto, ela não adentra diretamente os textos do Paul Goodman, recorrendo a aspectos da biografia do autor a partir de referências de comentadores.

Recentemente encontrei também um site de divulgação do primeiro documentário sobre Paul Goodman, realizado por Jonathan Lee (2008), lançado inicialmente com o título Growing up with Paul Goodman e posteriormente como Paul Goodman chaged my life.  Neste documentário, constam fragmentos de entrevistas e apresentações públicas de Goodman e depoimentos de personalidades que tiveram contato direto com ele ao longo de sua vida. Creio que essa pode ser uma dica importante para quem deseja entrar em contato e conhecer um pouco mais sobre Paul Goodman, sua vida e seu pensamento.

IV. Apontando os caminhos que ainda podem – e precisam – ser percorridos

Debruçando-me sobre a obra de Paul Goodman, neste primeiro contato, torna-se claro para mim o imenso campo de possibilidades de articulação e expansão que a obra desse autor nos traz para ampliarmos as fronteiras de contato da abordagem gestáltica.  Na condição de um intelectual erudito, como Laura Perls mesmo dizia, “um dos raros feitos na América”, Goodman dialogou com vários campos do conhecimento, integrando numa gestalt plena e coerente, sua vida e obra. Seu conhecimento literário, filosófico, psicológico-psicanalítico e político, trazidos antes, durante e após a sua participação do movimento da Gestalt Terapia, servem para compreendermos melhor os fundamentando e as bases do pensamento gestáltico, tal como concebido originalmente, e, principalmente, nos aponta para nossa própria identidade enquanto gestalt-terapeutas. Quem somos, de onde viemos e para onde podemos ir.

Suas obras posteriores dialogam intimamente com o pensamento gestáltico e o amplifica, ao voltar-se para aspectos da sociedade, da política, da educação, da juventude, da sexualidade e do processo de criação na arte, na literatura, no teatro e na vida. Elas nos servem como norte para os novos caminhos possíveis que podemos percorrer, em nossas atuações práticas, em nossas investigações científicas e em nossas reflexões existenciais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesse artigo pretendi apontar para os caminhos da obra de Paul Goodman que podem ser percorridos e para as articulações com temas que, sendo de interesse dos gestalt-terapeutas, podem recorrê-la como referência. Esse caminho eu me mesmo me proponho a percorrer, fazendo um convite dirigido a todos a esse diálogo.  Aponto também, neste último instante, à dificuldade de acesso a essa extensa obra e à necessidade de sua tradução pela comunidade gestáltica brasileira, para que possamos usufruir melhor dessas referências, abrindo novas possibilidade de articulação.

Por fim, gostaria de lembrar que daqui a dois anos será o centenário do nascimento de Paul Goodman. Mais do que um simples momento de festejo, creio que talvez esta seja a circunstância ideal para empreendermos um mergulho em sua obra, trazendo a visibilidade que merece dentro da abordagem gestáltica, aprofundando a compreensão sobre suas contribuições teóricas e suas propostas práticas para o olhar e o agir no mundo, na contemporaneidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] N. A.: Dentre as obras dessa fase podemos citar:  The Grand Piano; or, The Almanac of Alienation. (San Francisco: Colt Press, 1942) [volume um do The Empire City (1959)], The State of Nature. (New York: Vanguard Press, 1946) [volume dois do The Empire City (1959)], The Copernican Revolution. (Saugatuck, Conn.: 5 X 8 Press, 1946), The Break-Up of Our Camp and Other Stories. (Norfolk, Conn.: New Directions, 1949) e The Dead of Spring. (Glen Gardner, N.J.: Libertarian Press, 1950) [volume três do The Empire City (1959)]

[2] C. f. CODY, J. (s/d) American Literature: Gay Male, 1900-1969. In:  GLBTQ (Na Encyclopedia of gay, lesbian, bisexual, transgendet & queer culture.  Disponivel na web em: http://www.glbtq.com/literature/am_lit2_gay_1900_1969.html

[3] RIBEIRO, W. F. da R. (2007). Gestalt-terapia no Brasil: recontando a nossa história. Revista da Abordagem gestaltica, vol. 13, n. 2, Goiânia. Disponivel na World Wide Web: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672007000200010&lng=es&nrm=iso>. ISSN 1809-6867.

[4] ROBINE, J-M. (2005) A Gestalt-Terapia terá a ousadia de desenvolver seu paradigma pós-moderno? In: Estudos e Pesquisas em Psicologia, RJ: UERJ, Ano 5, n. 1, 1º semestre, 2005, p. 103.

[5] Op. Cit. p. 108.

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*Trabalho inscrito para o Congresso Nacional de Gestalt Terapia, 2009

Existência, essência e espiritualidade.

Recebi uma pergunta para responder, sobre a visão existencialista contida na Gestalt Terapia… Agradeço a Mirella Lima, por essa maravilhosa “provocação”, e pela oportunidade de me fazer pensar sobre o tema.


Sei que a Gestalt terapia tem influência do existencialismo, inclusive de Sartre como sua celebre frase : ” A existência precede a essência”. Vcs concordam com essa visão ateista ?? Concordo com o livre arbitrio, com a responsabilização do homem diante das suas escolhas.mas como fica essa questão da essência do homem e as heranças genéticas, senão fica aquela impressão da “Tabula Rasa”, como se fossemos uma folha em branco e nos constituissemos no mundo sem trazer nada conosco e o temperamento (Herdado) e a questão da espiritualidade???


A idéia de que a existencia prescede a essencia não tem conxão com a questão da tábula rasa. Numa visão existencialista, o homem é um eterno devir, um eterno vir-a-ser e está o tempo inteiro caminhando em direção à realização de seu projeto existencial, segundo uma visão sartreana. A idéia de existencia do existencialismo está ligada à dimensão consciente do humano. Só o homem tem consciênciua de sua existencia como ser no mundo, e tem capacidade de refletir sobre si mesmo. A essencia seria algo que seria construida ao longo da existencia, à medida em que o homem fosse realizando seu projeto existencial, que só termina no momento da morte. Logo a visão existencialista é uma visão de evolução do homem em direção a sua essencia. A essencia não é algo dado a priori, mas construido pela pessoa como ser no mundo, como ser de consciência e autor de seu projeto existencial sempre atualizado.

A Gestalt terapia não rejeita as bases genéticas, o temperamento, a filogênese, que nos conecta a espécie, mas a idéia de essência não se aplica a essas bases biológicas, é uma questão ontológica, sobre o ser e a existência como ser-no-mundo. Segundo Heidegger, só as coisas tem uma essencia definida a priori, pois elas são, são entes dados no mundo, sem reflexividade. Já o homem não tem essa essência definida a priori, pois esta se constroi a partir da existencia, como ser no mundo. Não dá para definir a essencia de alguém a priori, pois estamos em eterno movimento de mudança, não somos seres finalizados, mas seres em processo de construção de si, em eterno aprimoramento.

O existencialismo tem duas vertentes, uma ateísta e uma cristã. Na Gestalt Terapia, geralmente estudamos a perspectiva sartreana, mas também estudamos Kierkgaard, que é um dos precursores do existencialismo, e traz uma reflexão existencial sob forte influência do cristianismo. Não deixamos de levar em consideração a dimensão do sagrado. A Gestalt Terapia é uma abordagem que traz uma visão holista de homem, que considera todas as dimensões da pessoa : biológica, social, cultural, psiquica e espiritual.

Há muitos trabalhos atualmente sobre o sagrado e a espiritualidade dentre os pesquisadores da Gestalt Terapia, nas mais diversas perspectivas. Me afino à idéia de sagrado buberiana, que considera a dimesão espiritual que emerge na relação pessoa-pessoa, no “entre”, no encontro, na relação EU-TU. Essa visão do sagrado vem do hassídismo, uma corrente da religião judaíca, que também influenciou o Psicodrama moreniano.

Entrar na Gestalt-terapia é mergulhar num mundo infinito de influencia teórico-filosóficas ricas e inquietantes. É uma abordagem, a meu ver, bastante eclética e integrativa, que busca conciliar aspectos diversos do humano, sem excluílos, porém dando foco alternado em cada um deles, a depender do que surge como questão. Não escluimos o biológico, o social, o cultural, o espiritual. Consideramos cada qual como uma das múltiplas dimensões do humano, que estão interconectadas e interdependentes entre si. É preciso ampliar bastante o quadro de referencias, dialogar com vários autores sem, necessariamente confrontá-los. Uma coisa não esclui a outra.

Nossa visão existencialista não exclui a dimensão do sagrado, porém não comunga com dogmas ou “verdades” aprioristicas. O sagrado existe como dimensão do humano, como decorrente da relação do homem com sua existencia, com a sua transcendencia no movimento eterno de auto-realização, e como tal trabalhamos em nossa prática, considerando-a como parte da pessoa inteira que nos procura, como potencialidade e devir.

Não somos flhas em branco, mas não somos seres acabados. Somos seres em desenvolvimento contínuo, em constante aprimoramento e re-construção. Esse aprimoramento e construção se dá nas relações, nas interações, na cultura e na sociedade, pois não somos seres alienados de nosso meio. Isso não quer dizer que somos produtos do meio, porém somos seres-no-mundo, “jogados” nessa existência, em busca de nossa essência, que é a realização do nosso projeto existencial.

Sugiro que você leia o texto de Sartre “O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO”. Você verá que Sartre não ignora a existencia de Deus, porém não a defende. Satre foi um dos filósofos que mais falaram de Deus. É até curioso pensá-lo como ateu. O existencialismo se funda na relação de “desespero” do homem diante da finitude e da iminência de deparar-se com Deus. Assim Kierkgaard traz a questão da reflexão do homem sobre sua existencia. Nietzsche puxa o homem para o mundo, para o olhar sobre sua potencialidade e sua existencia no mundo, e sobre os riscos de se perder na contemplação e no ascetismo. Sartre traz o homem político e responsável por si, por sua existencia, pela realização de seu projeto, e responsável pela humanidade.

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