Transdisciplinaridade e práxis psicológica

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Atualmente tenho pensado um bocado sobre a questão da transdisciplinaridade, no que diz respeito à atuação do psicólogo nos diversos contextos de atuação profissional. Na minha experiência de estágio em um hospital, e em contato com colegas que atuam nos diversos campos de inserção da Psicologia enquanto profissão, tenho me deparado com um aspecto em comum: NOSSA TENDÊNCIA A ACREDITAR QUE HÁ ASPECTOS QUE SÃO EXCLUSIVOS DA PRÀTICA DO PSICÓLOGO. Coloco em letras grandes esse ponto, central nessa minha reflexão, e em especial no termo “exclusivo”. Considerar isso uma “verdade” me parece ser um retrocesso no que se considera hoje como uma tendência atual: a transdisciplinaridade.
Durante muito tempo considerei a transdisciplinaridade uma utopia, devido à impossibilidade de um trânsito em diversas áreas de conhecimento, com suas diversas linguagens e técnicas, com diferentes cosmo visões. Com o tempo, no entanto, lendo alguns autores da Psicologia e vendo suas trajetórias, percebi que isso era uma realidade que sempre existiu e que foi sendo perdida ao longo do século XX, principalmente com a tendência contemporânea de “especialização”. (Para qualquer trabalho, público ou privado, se valoriza as pós-graduações, e, principalmente, as especializações, que vão desde os cursos até experiência profissional de “X anos” na referida área).
A grande maioria dos teóricos clássicos a que temos acesso na Psicologia não eram psicólogos de formação de base. Eram médicos, físicos, matemáticos, sociólogos, homens das letras. E, em sua grande maioria, conseguiram transitar pelos mais diversos campos de conhecimento, das ciências naturais às sociais, nas artes e na literatura. Ao observar suas carreiras também percebemos percursos que vão desde a pesquisa acadêmica, à prática clínica, a intervenção na saúde mental e/ou em organizações. O olhar e a prática do psicólogo era ampla e, principalmente, eles tinham interlocutores dos mais diversos campos de saber.
Voltando ao ponto de partida, ao meu incômodo, tenho percebido críticas feitas por psicólogas colegas minhas, a assistentes sociais, enfermeiras, médicos e pedagogos que usam o conhecimento psicológico – ou o vago conhecimento que tem sobre a psicologia – em suas práticas profissionais. Assistentes sociais que atendem pacientes e realizam “acolhimento”, enfermeiras que realizam grupos de família e pacientes e que estão interessadas nos seus “aspectos subjetivos” ligados ao adoecimento, médicos que dão diagnósticos de “síndrome masoquista” em uma paciente queixosa, pedagogos que diagnosticam uma criança como “hiperativa”, etc. Tais situações são vistas com certo desdém por parte de algumas colegas, que acreditam que esses profissionais estão querendo INVADIR O CAMPO QUE É DO PSICÓLOGO. Essa reação me preocupa, pois mostra tanto uma certa agressividade exagerada para com os profissionais de outras “especialidades”, como traz de forma subliminar a crença de que há algo QUE É DO PSICOLOGO.
A subjetividade não é algo que é exclusivo do psicólogo. Todos os profissionais que trabalham diretamente com pessoas, estão lidando inevitavelmente com subjetividades. Uma postura de acolhimento também não é algo que deve ser exclusivo desse profissional, pelo contrário, é algo que deveria fazer parte da postura de todo profissional que pretende trabalhar com saúde numa proposta de humanização do atendimento – fora que deveria ser algo anterior, um “valor” que deveria vir como pré-requisito, da educação doméstica! Já os diagnósticos precipitados mostram a dificuldade de alguns profissionais, por falta de conhecimento ou pela popularização do jargão “psi”, a se utilizar desses termos para lidar com fenômenos difíceis de serem encarados, a primeira vista. Esse “lidar” pode ser tanto buscando soluções, como fugindo do conflito, protegendo-se através de um rótulo.
Em todo o caso, tais situações mostram a importância de o psicólogo estar inserido nos mais diversos contextos e SABER PARTILHAR O SEU CONHECIMENTO. Em geral os psicólogos tem uma formação que parece valorizar o privado, o individual, e, por vezes, isso faz dele um profissional com egoísta. Primeiro ele se considera um “especialista conhecedor da subjetividade” e, nesta posição, adota para si um monopólio desse saber, considerando-se o único apto a trabalhar com os sentimentos, emoções, vontades, desejos, fantasias, comportamentos…
Cada dia, no entanto, vemos mais profissionais com outras profissões – incluído jornalistas, engenheiros, administradores, etc, etc – que se enveredam por práticas terapêuticas não exclusivas aos psicólogos que desempenham trabalhos importantes como cuidadores e curadores – como TERAPEUTAS, no sentido radical da palavra. Esses mesmos enveredam pelo campo da educação e do trabalho comunitário, dialogam com as pessoas em seus contextos reais de vida, e constroem conhecimentos partilhados. Enquanto isso, o psicólogo se morde todo, se roendo, por perder aos poucos o seu espaço “exclusivo” de senhor das subjetividades.
Às vezes é cansativo ouvir as críticas de psicólogos ao ato médico e ao sentimento de onipotência do médico sobre o paciente. Eu, particularmente, me canso, ao ouvir colegas meus – formados ou em vias de formar-se psicólogos – ocupar esse lugar, adotar uma postura de “suposto saber” e se auto intitular-se como um especialista das subjetividades. Atitudes como essas me entristecem bastante, pois vejo que é um indício de grande imaturidade por parte dessas pessoas, que se fecham, na sua vaidade, para as maravilhas e os mistérios que é a PESSOA. Profissionais como esses se envaidecem quando submetem o outro a seu conhecimento, a sua técnica, a seu controle, e esquecem que esse outro (ou outros) é um ser muito maior, que sofre, que ama, que chora, que sorri, que fala, que silencia, que pede, que dá.
Não sou um amante da Psicologia. Sou um amador, um eterno aprendiz, um aspirante, um sonhador. Amor as pessoas no que elas são, e no que podem ser, em sua potencialidade e em sua capacidade de realização como projeto existencial. O conhecimento, a ciência, é fundo, a tinta, a tela e o pincel. A arte é sempre feita em parceria. E, quanto mais pessoas se envolvem nesse projeto, mais belo pode se tornar a obra final.

Salvador, 22/02/2009

Considerações fenomenológicas em torno do conceito de Intencionalidade, “Agency” e Cultura*

Luiz Fernando Calaça

1

Em Gestalt Terapia a gente estuda um pouco de fenomenologia e a questão da intencionalidade, ao menos como eu compreendo do que eu estudei de Husserl, é uma característica da consciência. A consciência se volta para o mundo numa relação de intencionalidade, e a intencionalidade seria, em si, uma característica da consciência.

Fiquei pensando com meus botões o que seriam ações que não fossem influenciadas por estados intencionais? Seriam, creio eu, atos reflexos, inatos, “respondentes”. Todo o resto de ações humanas seriam intencionais, pois envolveriam um movimento da consciência em direção ao mundo.

Não sei qual é a compreensão do Bruner sobre “atos intencionais”, se estaria ligado a “intenção” (que penso eu que talvez fosse algo talvez mais delimitado, demarcado, racionalizado pela consciência) ou se estaria ligada a “intencionalidade”, que não envolve necessariamente uma compreensão racional a priori, mas um movimento próprio da consciência em direção ao mundo, pré-reflexivo, talvez “estético”.

2.

Eu tinha compreendido “agency” como um posicionamento implicado do sujeito em suas escolhas, no direcionamento de sua vida, apropriando-se de sua existência.

Minha questão era mais em relação à questão do termo “intencional”. Se estaria relacionado a idéia de “intencionalidade”, da fenomenologia, ou a “intenção”, como ato deliberado, pós-reflexivo.

3.

Pelo pouco que sei da psicologia Cognitiva, sei que ela sofre influencia de dois campos: uma das neurocientífica e das ciências da computação (que é o que a gente aprende mais na faculdade) e outra da perspectiva fenomenológica, pela influencia direta que sofre da Psicologia da Gestalt.

Acho e estou quase convencido de que a Psicologia Cultural de Bruner se afina com a vertente fenomenológica da Psicologia Cognitiva. O Brentano, vovô da Fenomenologia e bisavô da Psicologia da Gestalt, já trabalhava com a idéia intencionalidade, de consciência intencional, nessa perspectiva que concebe uma consciência ativa que se dirige ao mundo. Nesse processo de a consciência voltar-se para o mundo, se daria a significação da experiência, a partir do contato direto (e cotidiano) com o mundo, na construção subjetiva da realidade. O Husserl desdobra essa idéia e traz a questão da intersubjetividade – que seria o processo de compartilhamento desses significados, da construção da realidade num processo de diálogo entre subjetividades.

A criação de significados sedaria, pelo que eu compreendi, no momento em que se dá a experiência e a posteriori. A intencionalidade seria um movimento a priori, o “mergulhar na experiência”, o ato da consciência de ir em direção ao mundo. Pelo que eu entendo da fenomenologia, as relações do homem – e da consciência – são sempre relações de significação, pois o homem constrói a realidade significando-a subjetivamente a partir do seu contato com o mundo.

Acho que tem tudo a ver com o que o Bruner fala.

4.

No final eu acabo vendo tudo bem interligado. No final das contas o Vygotski também sofreu influencia da Psicologia da Gestalt. Tem um texto bem legal que traz essa “genealogia” do pensamento psicológico a partir da psicologia do Franz Brentano, que cita essa conexão entre o pensamento fenomenológico e as correntes mais compreensivas da Psicologia Cognitiva.

Li apenas o ATOS DE SIGNIFICAÇÃO do Bruner e desde aquela época, ainda na pesquisa, eu via uma grande afinidade do pensamento dele com o pensamento fenomenológico. Pena não puder ter tido oportunidade de aprofundar essas questões teóricas, já que o foco da pesquisa era outro, mas ficaram as impressões.

O Husserl traz essa dimensão intersubjetiva, que advem da relação entre as pessoas. Isso é o que está na base das abordagens fenomenológico-existenciais, no processo dialógico que se dá em psicoterapia, espaço em que vejo de forma mais viva e próxima à prática do psicólogo a aplicação dessas formulações teóricas.

Creio que o Bruner trata de uma dimensão intersubjetiva mais ampla, no plano da cultura, dos significados partilhados em contextos que transcendem as relações diádicas pessoa-pessoa. O que gosto dele é a valorização que dá ao cotidiano e ao conhecimento do senso comum. A Psicologia, sem isso, acho que tem muito pouco a contribuir para o humano.

Não sei se dá pra a gente entrar na cabeça do outro e saber o que ele está pensando, mas podemos confrontar nossas impressões com esse sujeito, e chegarmos aos poucos num acordo entre subjetividades – o “transacional”, o “intersubjetivo”. Vamos negociando com nossas impressões e significados, até que possamos pelo menos intuir algo do que pode ser o que o outro compreende como realidade.

Às vezes tenho a impressão de que essas questões são já bem antigas da psicologia, desde o velho vovô Brentano, até abordagens psicoterapicas de meados das décadas de 50, 60… Não sei o tempo que se deu para isso chegar no campo da pesquisa acadêmica, e, em especial, no campo da psicologia do desenvolvimento, mas que essas questões já estavam aí desde muito tempo, lá estavam.

Gosto um bocado de História da Psicologia justamente pois assim a gente cavouca as idéias e nos damos conta de que o novo é velho, e o velho é atualíssimo!

5.

Numa perspectiva gestaltica a cultura é o “campo” no qual estamos imersos. Ela existe antes de nós, e nós interagimos e transformamos ela, em nossas interações, em nossas negociações, em nossos trânsitos.

A questão do “a priori” e do “a posteriori” é algo que a fenomenologia trabalha bastante. O foco da fenomenologia é a experiência vivida, e as relações de significação dessa experiência. A proposta do método fenomenológico, de aproximação de uma compreensão da realidade, se baseia no “colocar entre parênteses” – a epoché – nossos a prioris, para tentarmos contactar a realidade tal como ela acontece no momento presente da relação, buscando compreender sua “essência” (a configuração do fenômeno, com sua singularidade e especificidade) e buscar a apreensão do que acontece pelo “como” acontece.

Nessa relação com a realidade – com o mundo, com o outro – criamos nossas significações, e resignificamos nossos a prioris (que existem, estão aí – mesmo entre parênteses – e são importantes para confrontarmos nossas significações do mundo), daí a possibilidade de mutabilidades das significações e da constante atualização do mundo. Todo esse processo de significação e negociação de significados se daria – a meu ver – ou no ato em si, na relação, ou a posteriori, quando refletimos sobre a situação em que nos envolvemos. E, mesmo essa reflexão, se dá num contato presente com a experiência vivida em algum momento.

As “significações a priori”, creio eu, são nossos preconceitos ou nossas expectativas sobre a realidade, aquilo que esperamos encontrar e que esperamos ser confirmado em nossas interações com o mundo. O método fenomenológico não busca confirmar esses a prioris, mas construir uma compreensão da realidade tal como vivenciada nas relações reais, no momento presente das relações.

É na vivencia dessas relações reais presentes que se ancora o dialogismo, a meu ver.

É claro que a cultura ( e o “social” ) se mostra como algo mais amplo, o campo do qual as relações de significação emergem, porém se concebemos a cultura como mutável e negociável, acredito eu, essas mudanças e negociações se dão nas ressignificações (e mudanças de ações) que se dão nas relações reais e atuais, a cada momento, mesmo tendo como referencial significações e ações passadas.

Numa perspectiva fenomenológico-existencial, nós somos um eterno presente. O passado e futuro existem enquanto memória e projeto, atualizados no presente. E nas ações e relações no presente são significados, ressignificados, construídos e reconstruídos.

Tô viajando também, não com Geertz, Bruner e Vygotski, mas com os fenomenológos-existenciais.

Às vezes acho que, no final das contas, eles falam a mesma coisa. Com mais ou menos objetividade (ou subjetividade), mudando o pouquinho os nomes dos construtos, essas coisas todas da ciência, mas seguem o mesmo caminho de uma psicologia compreensiva que se volta para o humano, em suas possibilidades de ser, estar e significar-se a cada momento, sem determinismos, (por favor e graças a deus!)

___________
* Considerações livres escritas em conversa de e-mail com membros do grupo de pesquisa “MATERNOS”, Psicologia/UFBa

Psicologia da Gestalt e Gestalt Terapia: uma pesquisa biobibliográfica (em construção).

Luiz Fernando Calaça

A cerca de 2 anos sou convidado, na condição de estudante de Psicologia, a dar aulas aos alunos calouros de Psicologia, na UFBa, sobre Psicologia da Gestalt. Essas aulas geralmente são na disciplina de Introdução a Psicologia, quando os alunos estão tendo o primeiro contato com essa área do conhecimento, principalmente em seus teóricos fundadores de sistemas e correntes teóricas, classicas como o Wundt, Pavlov, William James, Watson, Titchner, Fechner, etc.

A Psicologia da Gestalt sempre desperta um certo fascínio nos alunos em início de graduação, principalmente por causa das imagens ligadas a ilusões de ótica e estímulos ambíguos. O que acontece, no entanto, é que esse sistema teórico da Psicologia é, muitas vezes, tido como morto, situado apenas historicamente, sendo suas contribuições tidas como perdidas, devido à crença na ausência de teóricos que dessem continuidade aos estudos da Gestalt.

Certa feita ouvi de um professor meu, quando da época dos concursos para a Universidade do Recôncavo da Bahia, que não havia mais razão de se contratar professores para a disciplina de TSP II – Teorias e Sistemas Psicológicos II, que trata geralmente da Gestalt e da Fenomenologia, por a Gestalt já não se constituir como um sistema psicológico significativo, sendo, no seu ponto de vista, mais adequado substituir pela Psicologia Cognitiva e Neurociências.

É verdade que muitas faculdades, principalmente as privadas, já não tâm a Psicologia da Gestalt em sua grade curricular, sendo ocupada por disciplinas da Psicologia Cognitiva e Neurociências. Não nego a importancia de se estudar essas dsciplinas, mas me incomoda, no entanto, se ignorar a contribuição direta dos teóricos da Gestalt para essas duas disciplinas, tanto pelo pioneirismo nas pesquisas psicológicas nessas áreas, como pela assimilação de seus estudos e conceitos dos campos da percepção, aprendizagem, memória e resolução de problemas – temas clássicos da Psicologia da Gestalt.

Um outro grande equívoco que vejo acontecer é reduzir a contribuição da Psicologia da Gestalt a esses temas de pesquisa, ignorando-se as contribuições nos campos da Psicologia Social, Psicologia Ambiental, Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia da Arte, além da influencia exercida e, outras áreas de conhecimento e prática como as Artes Plásticas, Arquitetura, Design, Comunicação, Pedagogia e Ciências da Computação. Esse equívico se dá, principalmente, por restringirem a compreensão da Psicologia da Gestalt aos três teóricos da Escola de Berlim: o Max Wertheimer, o Kurt Koffka e o Wolfgang Kohler.

Somente em 2006, quando da vinda do teórico estoniano Jaan Valsiner – teórico estudioso principalmente da obra de Vygotsky -, para dar seminários sobre Psicologia Cultural, na UFBa, foi que fiquei sabendo da existência daz 3 Escolas da Gestalt: as escolas de Graz, de Berlim e de Leipzig. Essas escolas são citadas nas obras de História da Psicologia do Schultz e Schultz, Teorias e Sistemas Psicológicos de Max e Hillix, e no artigo do Arno Engelmann sobre a “Psicologia da Gestalt e a ciência empírica comtemporânea”, que a meu ver é o melhor e mais completo artigo sobre a Psicologia da Gestalt já escrito em lingua portuguesa.

Outra confusão que acontece é a de confundir a Psicologia da Gestalt com a Gestalt-Terapia. Quando sou convidado a falar sobre Gestalt, geralmente os professores pensam na Psicologia da Gestalt e não na Gestalt Terapia, ou tem-se a crença de que a Gestalt Terapia é uma aplicação direta dos conceitos – e das imagens de ilusão de ótica – da Psicologia da Gestalt na prática clínica. O que desconhecem é que, apesar de sofrer influência direta das teorizações da Psicologia da Gestalt, a Gestalt Terapia é uma abordagem humanista, fenomenológico existencial.

A Psicologia da Gestalt é, fundamentalmente, um campo de pesquisa experimental, com procedimentos realizados em laboratório, diferente de uma abordagem eminentemente clínica como a Gestalt Terapia. É inegável que muitos conceitos são assimilados no jargão da Gestalt-Terapia nas teorizações da abordagem, conceitos como figura-fundo, pregnância, “boa forma”, homeostase, auto-regulação organísmica, campo, etc. Todos esses conceitos foram desenvolvidos por teóricos da Psicologia da Gestalt, e das teorias de base gestáltica, como a Teoria de Campo do Kurt Lewin e a Teoria Organísmica do Kurt Goldstein.

A contribuição da Psicologia da Gestalt para a Gestalt-Terapia se deu principalmente pela ligação de seus criadores aos estudos da Psicologia da Gestalt, ainda na Alemanha. O Fritz Perls foi assistente nas pesquisas neurocientíficas com lesionados de guerra do Kurt Goldstein, e a Lore Perls, além de ter sido aluna do Goldstein, defendeu sua monografia de doutoramento sob a orientação do Max Wertheimer.

Além dessas influências teóricas, a Gestalt Terapia tem fundamentação teórico-filosófica na Fenomenologia do Husserl, no Existencialismo de Sartre, no Existencialismo Dialógico de Martin Buber, no Holismo de Cristian Smuts, na Psicanálise de Freud, Otto Rank, Karen Horney, na Bioenergética de Reich, no Zen-budismo e no Taoísmo, no Teatro Expressionista de Max Reinhardt, no Psicodrama de Moreno, etc.

A Psicologia da Gestalt surge na Alemanha entre fins do século XIX – quando é cunhado o termo gestaltqualitaten nos escritos sobre as “qualidades gestalticas” em esperimentos musicais desenvolvidos pelo Christian von Ehrenfels, da Escala de Graz, publicados em 1890 – e não apenas com os experimentos do fenômeno phi do Wertheimer, em 1910 . A Gestalt Terapia surge apenas em 1950, nos Estados Unidos, com a reunião do Grupo dos 7 e a publicação do Gestalt Therapy, do Perls, Hefferline e Goodman.

Do período entre o contato da Lore e do Fritz Perls com o Kurt Goldstein, e a criação da Gestalt Terapia, há um período de cerca de 30 anos, em que ambos exercem a Psicanálise em seu formato mais ortodoxo, na Africa do Sul e Estados Unidos. Para que a Gestalt Terapia ganhasse corpo foi necessário um longo processo de assimilação e elaboração e conceitos e técnicas, que progressivamente foram se estruturando, passando por reformulações progressicas, até os dias atuais.

Além desses esclarecimentos, que considero fundamentais para que haja a devida diferenciação entre a Psicologia da Gestalt e a Gestalt Terapia, considero importantíssimo que haja um resgate da Psicologia da Gestalt, tanto como sistema teórico, como pelas contribuições que esta dá, efetivamente, às formulações teóricas da Gestalt Terapia. Para isso vejo como de fundamental importância o resgate da produção bibliografica, tanto da Psicologia da Gestalt quanto da Gestalt Terapia, submetendo-a a análise dos conceitos, campos de influência e desdobramentos.

Até o momento, tenho feito de forma independente apenas a coleção dessas obras e organização de uma bibliografia sobre o tema. A grande maioria dessas obras estão esgostadas ou não estão traduzidas para a lingua portuguêsa. Através dessa bibliografia é possível reconstruir a história da Psicologia da Gestalt através dos autores, dos temas estudados, dos conceitos elaborados e das articulações com outras teorias e campos de conhecimento.

Ter acesso a esse material mostra a diversidade da Gestalt e o caráter múltiplo e dinâmico de seus desdobramentos, sua atualidade e vivacidade enquanto campo de pesquisa. Diferentemente de algumas aborgadens psicológicas que acabam restritas a autores canônicos, a Psicologia da Gestalt se adaptou à tradução da cultura alemã para a americana, ampliou seus horizontes e adaptou-se às demandas sociais e históricas emergêntes, saindo de um campo meramente teórico para a aplicação.

Também consta, neste levantamento bibliográfico, artigos em língua inglesa contidos em site e disponíveis na internet, tanto em formato HTML quando em PDF. Algumas referências já contêm os links para artigos ou para os sites que têm a obra para ser baixada da internet.

Essa pesquisa não se propõe exaustiva e está sempre em curso, à medida que encontro títulos disponíveis tanto para serem adquiridas na sua forma impressa quanto digital.

Segue listagem de livros em anexo, que, a medida do possível, irei comentando.

(Quem tiver alguma outra obra de Psicologia da Gestalt ou Gestalt Terapia cuja referência não conste nessa listagem – sei que existem ainda algumas obras que não consegui obter sequer a referência – e puder fornecer a referência ou doar a obra impressa, peço que entre em contato comigo).


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 PIMENTEL, Adelma. (2008). Cuidado paterno e enfrentamento da violência. São Paulo: Summus.

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PINTO, Ênio Brito. (org.) (2009) Gestalt-terapia: Encontros. São Paulo: Instituto de Gestalt de São Paulo.

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RIBEIRO, Jorge Ponciano. (1997) O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. São Paulo: Summus.

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(REVISTAS DE GESTALT-TERAPIA)

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Revista Sampa GT: Revista de Psicologia do Instituto de Gestalt de São Paulo. (1.: 2004: São Paulo). São Paulo: Instituto de Gestalt de São Paulo, 2004.

Revista Sampa GT: Revista de Psicologia do Instituto de Gestalt de São Paulo. (2.: 2005: São Paulo). São Paulo: Instituto de Gestalt de São Paulo, 2005.

Revista Sampa GT: Revista de Psicologia do Instituto de Gestalt de São Paulo. (3.: 2006: São Paulo). São Paulo: Instituto de Gestalt de São Paulo, 2006.

Revista Sampa GT: Revista de Psicologia do Instituto de Gestalt de São Paulo. (4.: 2007: São Paulo). São Paulo: Instituto de Gestalt de São Paulo, 2007.

Revista do III Encontro da Abordagem Gestáltica. Seu corpo teórico e prático. (3.:1997, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T.,1997.

 

Revista do IV Encontro da Abordagem Gestáltica. Dimensões corporal, racional, afetiva, social e espiritual da psicoterapia  e da existência humana. (4.:1998, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T.,1998.

 

Revista do V Encontro da Abordagem Gestáltica. Humanizando o diagnóstico. (5.:1999, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T.,1999.

Revista do VI Encontro da Abordagem Gestáltica. A Arte do Encontro. (6.: 2000, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T., 2000.

VIII Encontro da Abordagem Gestáltica. O campo criativo: a abordagem gestaltica trabalhando os grupos humanos nas áreas: clínica, hospitalar, educacional e organizacional. (7.: 2001, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T., 2001. 

VIII Encontro da Abordagem Gestáltica. Relação dialógica: a cura pelo encontro – “se o outro é o risco, é também a única possibilidade” (Jean-Paul Sartre) (8.: 2002, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T., 2002. 

IX Encontro da Abordagem Gestáltica. A emergência da totalidade. (9.: 2003, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T., 2003. 

X Encontro da Abordagem Gestáltica. O aqui e agora gestáltico. (10.: 2004, Goiânia, GO). Goiânia: I.T.G.T., 2004. 

XI Encontro da Abordagem Gestáltica – Presença e Existência. (Anais). Goiânia/GO: Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia – ITGT, 2005.

Revista da Abordagem gestáltica – Gestalt e Fenomenologia: diálogos, desafios e possibilidades. (12.: 2006: Goiânia). Goiânia: Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia – ITGT, 2006.

Revista da Abordagem gestáltica. (12.2: 2006:Goiânia). Goiânia: Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia de Goiânia – ITGT, 2006.

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2. Bibliografia da GESTALTISMO (Gestalt Theory)

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LIMA, P. V. de A. Teoria Organísmica. (arquivo pdf)

MEDITSCH, E. O elogio do invisível pelo mestre da imagem: Rudolf Arnheim e o poder do rádio. (arquivo pdf)

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3. LINKS DE ARTIGOS CONTIDOS EM SITES DE INSTITUIÇÃOS INTERNACIONAIS

The International “Society for Gestalt Theory And Its Applications”

      Site: http://gestalttheory.net/

      Data de criação: 1978

      Idiomas: alemão, inglês, italiano, francês

      Categoria: Site de sociedade científica

Descrição: The Society for Gestalt Theory and its Applications (GTA) is a scientific association established for thepurpose of promoting the Gestalt-theoretical perspective in research and practice. It was founded in 1978, and since then has grown to include many members from European countries and throughout the world. Most of the members are psychologists and psychotherapists, but the membership also contains researchers from many other disciplines as well. 

Obras encontradas: 

Arnheim, Rudolf (1999). Gestalten and Computers.  

 

Brown, Junius F. (1937). Psychoanalysis, Topological Psychology and Experimental Psychopathology.

Duncker, Karl. (1941/42) On Pleasure, Emotion, and Striving. 

Goldstein, Kurt &  Scheerer, Martin (1941)  

Abstract and Concrete Behavior Henle, Mary (1975). Gestalt Psychology and Gestalt Therapy

Henle, Mary (1962). Some Aspects of the Phenomenology of the Personality

Hornbostel Erich M. von (1927). The Unity of the Senses

Koffka, Kurt (1928). On the Structure of the Unconscious

Koffka, Kurt (1935) Principles of Gestalt Psychology (Chapter I: Why Psychology?)

Köhler, Wolfgang. (1929) An Old Pseudoproblem (Ein altes Scheinproblem, 1929; translated by Erich GOLDMEYER, 1971)

Levy, Erwin (1936). A Case of Mania with its Social Implications

Levy, Erwin (1943). Some Aspects of the Schizophrenic Formal Disturbance of Thought.

Lewin, Kurt (1935). A Dynamic Theory of Personality (Chapter VIII. Survey of the Experimental Investigations)

Lewin, Kurt (1941). Theory of Regression in Frustration

Luchins, Abraham S. (1948). The Role of the Social Field in Psychotherapy

Luchins, Abraham S. & Luchins, Edith H. (1959). Comments on the Concept of Closure

Luchins, Abraham S. (1993). On Being Wertheimer’s Student

Luchins, Abraham S. & Luchins, Edith H. (1997). A sampling of Gestalt psychologists’ remarks on psychoanalysis.

Luchins, Abraham S. (1997). On Schulte, Wertheimer, and Paranoia 
(With an excerpt from WERTHEIMERs Seminars and an additional comment by Daniel J. LUCHINS)

Luchins, Abraham S. & Luchins, Edith H. (1999) Isomorphism in Gestalt Theory: Comparison of Wertheimer’s and Köhler’s Concepts

Luchins, Abraham S. & Luchins, Edith H. (2000/2001) Kurt Grelling – Steadfast Scholar in a Time of Madness

Maibaum, Matthew (1992). A Lewinian Taxonomy of Psychiatric Disorders

Metzger, Wolfgang (1928). Certain Implications in the Concept of Gestalt

Metzger, Wolfgang (1969). The Phenomenal-Perceptual Field as a Central Steering Mechanism

Brandt, Lewis W. & Metzger, Wolfgang (1969). ‘Reality,’ What does it mean?

Metzger, Wolfgang. (1972). Do Schools of Psychology Still Exist ?

Metzger, Wolfgang. (1974). Can the Subject Create His World?

Tholey, Paul (1989). Overview of the development of lucid dream research in Germany

Toccafondi, Fiorenza. (2002). Receptions, Readings and Interpretations of Gestaltpsychologie

Walter, Hans-Jürgen. (1997) Gestalt Theoretical Psychotherapy and Cognitive Behavior Therapy (translation of 1981 German original version)

Wertheimer, Max. (1924). Gestalt Theory

Understanding Psychotics’ Speech – A Max Wertheimer Seminar Transcript Abraham S. Luchins and Edith H. Luchins

More on Psychotics’ Speech - A Max Wertheimer Seminar Transcript by Abraham S. Luchins and Edith H. Luchins

Zanforlin, Mario. (2004). Gestalt Theory in Italy – Is it Still Alive ?

 
 

Classics in the History of Psychology

      Sites: http://psychclassics.yorku.ca/index.htm

            http://psychclassics.yorku.ca/topic.htm

            http://psychclassics.yorku.ca/links.htm

      Data de criação:

      Língua:

      Categoria: Site de indexação de textos clássicos da Psicologia.

      Descrição: An internet resource developed by Christopher D. Green,  York University, Toronto, Canada. ISSN 1492-3173

      Obras encontradas (Brentano, Fenomenologia e Teoria da Gestalt):

Brentano, Franz. (1874). Psychology from an empirical standpoint (sec I. “The concept and purpose of psychology”). (The Value of Knowledge). [From the primary advocate of intentionality as the primary "mark of the mental." Titchner considered him to be Wundt's most important opponent.]

Husserl, Edmund. (1937a). The crisis of European sciences (Part II, sec. 22-27 on Locke, Berkeley, Hume, and Kant). (The Value of Knowledge). [A late work from the founder of phenomenology.]

Husserl, Edmund. (1937b). The crisis of European sciences (Part IIIB: The Way into Phenomenological Transcendental Philosophy from Psychology. sec. 57-68. The fateful separation of transcendental philosophy and psychology.). (The Value of Knowledge). [A late work from the founder of phenomenology.]

Koffka, Kurt (1922). Perception: An introduction to the Gestalt-theorie. Psychological Bulletin, 19, 531-585.

Introduction to Koffka (1922) by Christopher D. Green.

Koffka, Kurt. (1935). Why psychology?, from Principles of gestalt psychology . (The Value of Knowledge) [From the most important textbook of Gestalt psychology.]

Köhler, Wolfgang. (1959). Gestalt psychology today. American Psychologist, 14, 727-734.

Köhler, Wolfgang. (1929). An old pseudoproblem. (The Gestalt Archive). [From one of the founders of Gestalt psychology.]

Köhler, Wolfgang. (1914). Wolfgang Köhler’s experiments on ape’s intelligence. (German Gestalt Psychologists: Lewin and Köhler, by Eugene Matusov of U. Deleware) [Three short videos of the Tenerife apes attempting to solve puzzles.]

Lewin, Kurt. (1930s?). Kurt Lewin’s videos on psychological fields: Toddlers trying to sit on an attractive stone. (German Gestalt Psychologists: Lewin and Köhler, by Eugene Matusov of U. Delaware) [Two short videos of children solving problems.]

Lewin, Kurt. (1950s?) The World of the Child. (German Gestalt Psychologists: Lewin and Köhler, by Eugene Matusov of U. Delaware) [One hour video on application of Lewin’s field theory to developmental psychology.]

Mach, Ernst. (1886/1905). The analysis of sensations (Introductory remarks: Anti-metaphysical). (The Value of Knowledge). [From a leader among 19th-century phenomenalists.]

Merleau-Ponty, Maurice. (1942). The structure of behavior (Introduction: “The problem of the relations of consciousness and nature”). (The Value of Knowledge). [From one of the most influential phenomenologists of the 20th century. Contains explicit responses to physiological psychologists of the day, and to the Gestalt Theorists as well.]

Metzger, Wolfgang. (1953). On seen motion (U. Neisser, Trans.). From Die Gesetze des Sehens (2nd ed.). Frankfurt am Main: Kramer Verlag. (Robert Sekuler, Brandeis University). [A key chapter by one of the most influential members of the second generation of Gestalt psychologists.]

Stumpf, Carl. (1930). Autobiography of Carl Stumpf. In C. Murchison (Ed.), History of psychology in autobiography (Vol. 1, pp. 389-441). Worcester, MA: Clark University Press. [The great German psychologist's summary of his life's work.]

Titchener, E. B. (1921). Brentano and Wundt: Empirical and experimental psychology. American Journal of Psychology, 32, 108-120.

Wertheimer, Max. (1938). Laws of organization in perceptual forms. In W. Ellis, W (Ed. & Trans.), A source book of Gestalt psychology (pp. 71-88). London: Routledge & Kegan Paul. (Original work published in 1923 as Untersuchungen zur Lehre von der Gestalt II, in Psychologische Forschung, 4, 301-350.)

Wertheimer, Max. (1924). Gestalt theory. (The Gestalt Archive). [From the founder of Gestalt psychology.]

Wundt, Wilhelm. (1897). Outlines of psychology (Introduction). (The Value of Knowledge). [The major textbook on Wundt mature approach to psychology.]

Entre a Poética e a Sociologia: Contribuições de Paul Goodman para a Gestalt-Terapia.

Luiz Fernando Calaça

Neste momento, em que levanto possíveis temas para a minha monografia da pós-graduação em Gestalt-Terapia, me defronto com várias possibilidades de articulação e pontos ainda pouco explorados.

Um ponto que vem chamando a minha atenção em especial é a possível articulação entre Gestalt e Literatura, que iniciei a abordar numa articulação histórica entre as origens da GT, na vida de Perls, e o contexto histórico cultural da Alemanhã pós-1ª Guerra Mundial e nos Estados Unidos da Guerra Fria, com o movimento de Contracultura.

Tenho, desde 2007, tentado refletir sobre a literatura, em especial a escrita autobiográfica, como recurso terapeutico. Nessa busca, tento encontrar alguns atores que abordaram o tema, mesmo que brevemente, em suas obras. Entre eles, encontrei algumas referências traduzidas para a lingua portuguesa que merecem nota e que se agrupam em algumas categorias possíveis:

1) A escrita como recurso terapeutico:

- a passagens no livro Gestalt Terapia Integrada, dos Polsters, em que é relatado o momento em que um cliente produz um poema após uma vivência no setting terapeutico,

2) A questão da linguagem e a dimensão poética:

- o capítulo “Verbalização e Poesia”, contido no livro de fundação da abordagem gestáltica, o Gestalt Therapia do Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman, em que Paul Goodman se atém à questão da linguagem,

- os capítulos “A questão da linguagem” e “A poética terapeutica”, do livro A Cara e o rosto: ensaio sobre Gestalt Terapia, da Ana Maria Loffredo, em que ela retoma as reflexões do Paul Goodman e faz articulação com o ensaísta e crítico literário Octávio Paz;

3) O papel do terapeuta como tecelão de histórias:

- considerações contidas no livro A arte de restauras histórias, da Jean Clark Juliano, em que ela traz o papel do terapeuta como aquele que irá tecer, junto com o cliente, uma colcha a partir de seus fragmentos/retalhos de vida;

4) Gestaltistas que escrevem poesia:

- os poemas e contos presentes nos livros do Paulo Barros, Narciso e a bruxa e outras histórias psi (1994) e Amor e ética (2006);

- os livros de poemas Gestando poesias, de Márcia Lilla, e Janelas da Alma, de Silvério Lucio Karwowski

5) A poesia e as narrativas autobiográficas como forma possível de transmitir a Gestalt:

- o relato em forma de poesia do caso clínico de atendimento com crianças em arte-terapia gestaltica “A cólera e a cadeira de balanço”, de J. Lederman, contido no livro Gestalt Terapia: teoria, técnicas e aplicações, de Fagan e Shepherd (1980);

- passagens contidas nas teorizações do Jorge Ponciano Ribeiro, em especial, seu livro Ruidos: Contato, luz e liberdade: um jeito gestaltista de falar do espaço e do tempo vividos (2006);

- a autobiografia do Fritz Perls, Escarafuchando Fritz, dentro e fora da lata de lixo (1969/1979);

- o relato autobiográfico da Barry Stevens sobre sua experiência no kibutz gestaltico do Fritz, Não Apresse o rio, ele corre sozinho (1970/1979).

- relatos de experiência e da história da Gestalt Terapia no Brasil, contidos no livro A arte de restaurar histórias e no artigo “Gestalt-terapia: revisitando as nossas histórias”, publicado na revista eletrônica IGT na Rede, de Jean Clark Juliano.

Essas referências, embora sejam valiosas para esboçar um panorana, me parecem insuficientes para se fazr uma articulação teórica entre Gestalt e Literatura. A única obra que conheço que faz essa articulação é o livro Psicologia e Literatura (1962), de Dante Moreira Leite. A articulação feita por ele, no entanto, se refere não é a Gestalt Terapia, mas sim à Psicologia da Gestalt, de Koffka, Kohler e Wertheimer.

Diante dessa carência de teorização, atualmente tenho buscado na literatura em lingua inglêsa essas referências. Dentre esses livros, encontrei o Every Person’s life is worh a novel (1987), do Erving Poster, e os livros Speaking and Language: defence of Poetry (1972), Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator spirit come: the literary essays of Paul Goodman (1979) do Paul Goodman. Essas obras infelizmente não tem tradução para o português.

O livro do Polster é interessante por, além de trazer relatos de casos clínicos, à Yallon, traz a perspectiva da narrativa autobiográfica, de considerar o contexto terapeutico como um espaço narrativo, e a natureza historiada da experiência do vivido.

Já os livros do Paul Goodman vão para além do campo psicoterapeutico e articula campos do saber como a Linguistica, a Sociologia e a Crítica Literária.

Sua contribuição para a Gestalt-Terapia, infelizmente, tende a ser considerada muito mais como marco histórico – por constituir o grupo dos 7 -, não sendo, a meu ver, devidamente valorizado e estudado aqui no Brasil.

Paul Goodman sofre críticas em relação ao aparente “hermetismo” da sua escrita da parte teórica do Gestalt Therapy. Eu compreendo essa questão principalmente no que tange o desejo de a Gestalt nascente estar buscando uma aceitação científica entre os psicólogos americanos e estar preocupada em romper com a Psicanálise, o que faz com que suas teorizações se utilizem de uma linguagem que, em muitos aspectos, é formal e rebuscada, se utilizando de modelos explicativos ainda atrelado a conceitos psicanalíticos. Essa crítica ao Gestalt Therapy está também muito influenciada pela tradução da obra para a lingua portuguesa, e que pode, por isso, trazer problemas de entendimento que talvez não exista na obra em inglês.

Historicamente, a Gestalt Terapia brasileira veio muito influenciada pelo modelo adotado pelo Fritz Perls, baseado nos workshops e trabalhos vivenciais, na década de 70. O que pouco se discute, exceto por alguns poucos autores, é que a Gestalt Terapia se desenvolveu inicialmente em duas vertentes, uma “californiana” – a do Perls, desenvolvida em Esalen – e outra “novaiorquina”, pela Laura Perls e pelo Paul Goodman, desenvolvida pelo Instituto de Gestalt Terapia de Nova Yok. Essa segunda vertente se preocupava muito mais numa sistematização teórica e conceitual, e não tanto nas vivências. Infelizmente, tanto a Laura quanto o Paul Goodman, escreveram pouco em Gestalt Terapia, e o que foi escrito por eles não foi traduzido para o português, havendo pouquíssimas referências a seus trabalhos. Diferentemente da realidade brasileira, nos Estados Unidos há extensa publicações do Paul Goodman e sobre ele, organizada por Taylor Stoehr.

A obra de Paul Goodman traz consigo um caráter multiteórico e transdisciplinar – tão valorizado hoje nso meios universitários, porém tão pouco posto em prática – articulando diversos campos de conhecimento e temáticas.

A formação do Paul Goodman, em especial o seu doutorado em Humanidades, faz dele um intelectual eclético, que articula Filosofia, Linguística, Literatura, Psicologia, Arquitetura, Sociologia e Política. Suas obras articulam conceitos e pontos de vistas de autores como Witgenstein, Chomski, Freud, Reich, Buber, Kant, Hume, etc, demosntrando vasto conhecimento e erudição.

Sua formação anarquista e sua militância política dentro do movimento da Caontracultura, fez dele um intelectual que pensava sua realidade, panfletário e crítico ao capitalismo armamentista, opondo-se ao movimento da Guerra Fria e à Guerra do Vietnã, e dando visibilidade a questões sociais de políticas identitárias como o movimento negro americano e a questão da homossexualidade, sendo, neste último, um dos iniciadores da Teoria Queer. Ao minifestar sua bissexualidade como forma de estar no mundo, Paul Goodman expressa o ideal libertário de relativismo e transvaloração dos papéis sexuais e valores sociais, primando pela liberdade de ser o que se é.

Tal amplitude de sua ação política e de seus focos de reflexão intelectual, aponta, dentro da Gestalt Terapia, para uma contribuição maior e mais ampla que a meramente histórica. As discussões e militâncias dele, e seu engajamento nas origens da Gestalt Terapia, estão diretamente vinculadas à dimensão transgressiva e libertária desta abordagem, como uma vertente em psicoterapia que busca a valorização do humano e confirmação de sua forma de ser no mundo, lutando no caminho da autenticidade, da liberdade e responsabilidade existencial, dirigida a um mundo menos “neurótico” e mais comunitário.

Creio que, na mesma proporção em que a Gestalt Terapia herda seus fundamentos filosóficos da Fenomenologia do Brentano e do Husserl, da Ontologia de Heidegger, do Existencialismo de Sartre, da dialética da Indiferenca Criativa do Friedlaender, do Existencialismo dialógico de Martin Buber, do Zen-Budismo, e suas bases teóricas da Psicologia da Gestalt do Koffka, Kohler e Wertheimer, da Teoria de Campo do Kurt Lewin e da Teoria Organísmica do Kurt Goldstein, ela também deve a Paul Goodman sua “Sociologia Utópica“, como ele mesmo qualifica seu pensamento, ou, simplesmente, a suas aspirações libertárias e de emancipação do homem e da sociedade. Sem deixar, é claro, de levar em conta o seu olhar para a dimensão poética, daquele que age e atua, é autor e tradutor do mundo em que vive.

Roberto Piva: Literatura e (homo)sexualidade como transgressão, mística e resistência

Numa madrugada de 2004, sapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte. Fiquei esperando e assisti ao documentário Assombrações Urbanas com Roberto Piva.

Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a “catar” edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: O Estrangeira na Legião (2006), Malas na mão & asas pretas (2007) e o livro recém saído do prelo, Estranhos sinais de saturno (2008).

O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?

Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico. Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.

Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e jovem.

Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.

No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração – de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.

Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de “se assumir” gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.

Em seu livro Coxas (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de “comunidade”. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa.

Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em Ciclones (1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.

Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro O que é homossexualidade, quando se refere à figura do berdache – “homem-mulher” ou “mulher-homem” que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no “não lugar” entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.

Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.

Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o João Silvério Trevisan, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.

Meu primeiro ano de faculdade

Quando eu entrei no curso de Psicologia da UFBa já havia se passado cerca de 5 meses de quando saiu o resultado. Eu fui aprovado para o 1º semestre do ano de 2004, mas devido ao atraso do calendário, em função do acumulo de greves, as aulas só começaram em maio. Em junho, quando já estávamos “pegando o pique”, houve uma greve que durou 4 meses. Foi uma greve sem sentido, ao meu ver. Reivindicavam coisas diversas, uns alegavam que era por causa da Reforma Universitária, outros reivindicavam melhores condições físicas dos prédios, outros queriam a abertura do restaurante universitário e de um ônibus inter-campi. De tudo isso, só o ônibus saiu do plano das idéias e, mesmo isso, só durou por pouco tempo, por “falta de passageiros”.

Lembro-me da primeira semana na faculdade, na recepção dos calouros. Assisti algumas palestras, sobre a história da psicologia no Brasil, sobre luta anti-manicomial e reformulação do currículo do curso de Psicóloga, para melhor se adequar às diretrizes do MEC. Lembro que me empolguei um bocado com a idéia de participar de projeto de pesquisa, muito influenciado por minha irmã, que era bolsista na faculdade de Letras, e via na carreira acadêmica uma possibilidade de continuar estudando e de trabalho.

(Parêntese: Na ocasião da palestra sobre luta anti-manicomial eu travei uma discussão com o aluno que trouxe uma visão bem radical da coisa. Até hoje esse tema não desce bem por minha garganta. Não acho que é possível acabar de vez com todo um processo que se construiu e funcionou – bem ou mal – de uma hora para a outra. Sei que a luta é antiga, mas são muitos os fatores relacionados à questão da doença mental. Família, comunidade, políticas de saúde. Não dá pra simplificar e dizer que fechando os hospitais e criando CAPs vai resolver o problema. Os CAPs também apresentam problemas!)

Em setembro eu entrei numa pesquisa extra-faculdade, com uma socióloga aposentada. O trabalho era basicamente de arquivista. Ficava horas mexendo em jornais velhos, separando por temas. Muita coisa interessante eu via naquele material. Era um arquivo pessoal que tinha material coletado desde fins do século XIX até 2004. Material sobre a família e a profissão do dono do arquivo, com temas ligados a relações raciais, evasão de talentos, religião e cotidiano. Lembro que eu me divertia lendo alguns artigos. Fiquei nessa pesquisa por um ano de dois meses.

Eu recebia bolsa e com esse dinheiro eu comprava livros, roupas e ia ao cinema. Na ocasião eu tinha entre 18 e 19 anos. Me sentia mais independente por poder custear minhas próprias compras.

Sou de classe média, filho de funcionários públicos, mas sei que as coisas não estão fáceis. Entrar na UFBa foi uma conquista. Não suei tanto, pois sempre fui bom aluno, mas reconheço que é um alívio. Sei que se não tivesse passado numa faculdade pública minha mãe não teria como me manter numa privada. Em fevereiro cheguei a cursar 4 dias de Rui Barbosa, me sentia numa prisão com aqueles corredores revestidos de azulejo. Saiu o resultado da UFBa e eu fiquei feliz, pois não tive que me submeter a uma semana de trote que estava programada para a semana seguinte.

Quando passei na UFBa fui logo visitar São Lázaro. Minha mãe me dizia que era uma decadência só. Eu, na minha cabeça, pensei que seria algo semelhante à Ladeira da Montanha ou o Taboão, com prédios sem janelas, paredes caindo, limo… Besteria! Gostei. Parecia uma “fazenda” – como disse uma professora que me recepcionou. Na época eu queria que construíssem um prédio para o Instituto de Psicologia, em Ondina, perto de Letras. Hoje acho que está bem. São Lázaro é um lugar sossegado, tem verde, as pessoas conversam nos caminhos que vão de um prédio a outro de forma descontraída – a tal disciplina optativa de “Patiologia”.

Aprendi muito em conversas informais no corredor. Conheci bons amigos que já se formaram. Me informei e me formei, em parte, nesse “espaço alternativo” da universidade. Mas não gosto da idéia do Fumódromo, das drogas, do pessoal que parece que não toma banho e que pensa que é hippie dos anos 70. Acho muito caricato. Tem gente que eu entrei e já devia estar formado, mas se arrasta no movimento estudantil, como se pudessem mudar o mundo.

Não gosto do movimento estudantil. Me irritei terrivelmente no início do curso, com a greve de 4 meses. Já tínhamos perdido 5 meses devido ao atraso do calendário. Acabamos perdendo um semestre. Nada se resolveu. O prédio do “Iguatemi”, condenado pela CODESAL, foi “reformado” em um mês, por 2 funcionários que martelaram e cobriram as rachaduras expostas e caiaram com tinta barata. Fizeram um enxame, arrastaram mais 2 semanas sem aula por causa desse prédio e ficou por isso mesmo. Se esqueceu Reforma Universitária, se esqueceu restaurante universitário, se esqueceu segurança… Muito barulho por nada! Resolvi escolher pela alienação política e investir um pouco mais em minha formação pessoal. Se eu posso “atuar” de alguma forma na sociedade, será pelo meu trabalho e por uma boa formação profissional, não por militância “porra louca”.

Fiz isso! Investi na minha formação profissional! No segundo semestre eu me interessei por Gestalt-Terapia, ao assistir as aulas de Lika. No semestre anterior o professor de Sociologia havia dado uma formação básica de “quebra de paradigmas”. Hoje sei que ele tem formação humanista, educador numa linha rogeriana bem não diretiva. Fiz um curso de Abordagem Centrada na Pessoa, já no 5º semestre, e vi que ele se enquadrava no perfil Carl Rogers. Abandonei o curso da ACP porque achei “não diretivo” demais pro meu gosto.

Ao final da disciplina de Gestalt, montei meu primeiro grupo de estudos. Me tornei adepto dessa forma alternativa de estudo e tentei montar mais uns 2 ou 3 depois. Li textos de Gestalt-terapia, de Existencialismo e no 4º semestre iniciei meu curso formação – adiantado em relação às outras pessoas, já que se priorizava alunos a partir do 6º semestre. Não me arrependo. Acho que já me encontrei no que gosto, mas mantenho o olhar aberto a várias possibilidades. Não me considero um fanático, mas não nego que tenho uma preferência por visões e abordagens “marginais” dentro da Psicologia. Acho que tenho posições pouco convencionais.

Acho que a graduação é um espaço de passagem, nem mais nem menos importante que outros espaços de formação. A universidade não é tudo. Existem outros espaços de aprendizado, existem outras formas de conhecimento a serem descobertos. É importante flertar! Se aventurar, tentar conhecer um bocadinho de tudo, para depois ir fazendo escolhas que tem mais a ver consigo. A universidade não oferece tudo. Existe uma Psicologia que é feita fora da academia, numa vivência “aparentemente” sem regras ou metodologias bem específicas e enquadradas. Sem script, ou com um script mais flexível. Não acho isso ruim. Acho que dá espaço maior para a criação do novo.

Entrei no curso de Psicologia porque eu gostava, e ainda gosto, de literatura. Minha irmã fez graduação em Letras, me dava aula de Teoria da Literatura quando eu ainda era estudante secundarista. No quarto semestre eu fiz uma disciplina em Letras. Fechei com 10, e a professora ainda disse que eu escrevia como aluno de pós-graduação. Eu fazia uma miscelânea. Joguei Freud no meio da prova e dei asas a minha imaginação. Sem querer me gabar, acho que eu sou muito cara de pau às vezes.

No segundo semestre fui para meu primeiro evento científico. Foi uma jornada de Psicologia organizada pelos alunos da UNIFACS. No mesmo período estava tento um Encontro Nacional de Psicologia. Optei pelo da UNIFACS. Depois me senti um besta, pois o valor da inscrição do Nacional foi “razoavelmente” em conta (R$ 120,00!!!) Não me arrependo! Assisti palestras sobre literatura, filosofia, música e fiz um workshop sobre arte-terapia gestáltica. Me encontrei, definitivamente. Era isso o que eu queria. Uma articulação entre psicologia e arte. Assisti também uma palestra de um gestaltista que veio para o Nacional e falou sobre as “Atualidade da Gestalt Terapia”. Ele falou de Nietzsche e da influencia do Expressionismo alemão sobre a Gestalt. Anos mais tarde, em 2007, eu fiz um trabalho e apresentei no Rio de Janeiro, sobre a articulação entre Gestalt e Literatura. O expressionismo estava no meio.

Acho que esse primeiro ano foi apenas o início de várias descobertas. Me estimulei a pesquisar por conta própria temas que, para mim, fazem sentido, me traduzem. Acho que pra ser um bom profissional tem que ser um apaixonado. Acho que me apaixonei e continuo enamorado, às vezes com crises e brigas. (Não conheço estudante de psicologia que não tenha ou viva em crises!). Mas sempre renovando meu interesse, à medida que descubro novas possibilidades.

Salvador, 9 de abril de 2008.

Vivências e divergências na homossexualidade

Nos últimos dias estive pensando sobre a questão da homossexualidade, não de forma abstrata e distanciada, mas implicado neste processo, por ter presenciado um dia de discussões do grupo de estudos UNISEX e por esta fazer parte da minha existência em diversas dimensões e contextos. Na oportunidade, quando nos voltamos para a discussão do livro “O que é homossexualidade” de Peter Fry, alguns temas sucitaram debates tais como a questão dos papéis sociais e sexuais, o masculino e feminino, ativo e passivo, os tabus e convenções culturais de povos indigenas e da sociedade ocidental até a década de 80, com implicações e atualizações para os dias atuais.

Na ocasião fiquei mobilizado com um ponto em questão: as diversas vivências e rótulos popularmente criados e associados a elas, que, embora não seja canônicamente encontrados nas leituras científicas, figuram no dia-a-dia, entre leigos e “esclarecidos”, seja entre heteros ou homossexuais. Tais vivências envolveriam tanto os vários tipos de “homossexuais” masculinos e femininos, quanto os “bissexuais”, “transexuais”, “travestis” e “intersexuais” – abrangendo as diversas variações no prisma multicolorido da sexualidade humana.

Assim, além desses termos comumente empregados, encontrariamos:

- os gays, bichas, bichinhas pão com ovo, bibas, monas, bofes, pitboys;

- as lésbicas, sapatões/sapatonas, ladies, melissinhas, góbis, bofões, bolachões;

- os bissexuais, “curiosos”, HxH, MxM;

- as drags, transformistas, “transdresseds”;

- as/os trangêneros, e

- intersexuais.

Todas essas e muitas outras expressões existem, são utilizadas no nosso cotidiano, muitas vezes de forma pejorativa, inclusive dentro da própria “comunidade” GLSBTTI. Alguns termos e vivências não dizem respeito necessariamente à homossexualidade – enquanto comportamento e papéis social e sexual -, mas está incutida no imaginário gay, como a questão das “drags” e “travestis”. Outros estão ainda restrito ao campo médico, sendo ainda “obscura” ou velada a sua manifestação social, como no caso dos intersexuais, sendo ainda um campo a ser desbravado na psicologia.

Em todo o caso, tamanha diversidade de expressões denotam bem que há um polimorfismo de manifestações da sexualidade, que vai muito além do tema da homossexualidade, mas que está intimamente vinculado a ele, tanto no imaginário coletivo, como nas buscas e tentativas de se configurar uma suposta e tão distante identidade gay, ou de “comunidade gay”.

Também o que observo, dentro deste movimento, oras coletivo, oras individual, de afirmação e firmação, é que não existe consenso nem comunicação efetiva. Nem todos comungam dos mesmos valores, dos mesmos signos, das mesmas experiências de construção e descoberta de si enquanto gay, lésbica, bi, etc etc. O gay não é o mesmo HxH, nem a bicha é o bofe, e não há uma identificação entre eles que não tragam consigo a marca da diferença e ruídos, fronteiras e conflitos. Nem sempre gay e lésbicas convivem harmoniosamente uns com os outros, e estranham, e “brincam” de maneira às vezes chistosa da sua “diferença”.

E, o que considero ainda mais sutil e passível de reflexão e crítica é, muitas vezes, a formação de uma pseudo identidade gay para se contrapor com a hegemonica heterossexualidade, sob a bandeira do combate à homofobia e a intolerância. Mas, de fato, será que dentro de nós mesmos não há essa mesma semente do preconceito dirigido ao outro “igual a nós”?

O que trago nesse ponto não é a negação da existencia da homofobia ou do preconceito de heterossexuais sobre homossexuais, mas a sim a relativização desta idéia, desta crença, ao levarmos em conta que nem todos são iguais e nem todos pensam da mesma forma. Até entre os heterossexuais há diferentes vivencias e formas de ver o mundo: o pai de familia, o padre, o putão, o galinha, a dona de casa, a estudante, a piriguete, a puta, a beata…

No final, todos eles não passam de tipos. Papéis incorporados, passíveis de crítica, de reflexão, de ressignificação. Cristalizações de valores, crenças, modos de viver e existir norteados por perspectivas diversas de ver e experimentar o mundo.

Dessa forma, tanto heterossexuais como homossexuais, trazem dentro de si, como categorias que são, diversas formas e manifestações de existir, que não necessariamente são coerentes e comungam de uma mesma realidade, de uma mesma visão de mundo, de homem, nem são vividas da mesma forma em sociedade. Estabelecer fronteiras entre estas duas categorias, também, abacam por delimitar, artificialmente, limites nem sempre vividos com separação, oposição e tensão de forças antagonicas ou discordantes.

Creio que é, nas relações interpessoais, no campo da vivência real entre pessoa e pessoa, que as diferenças verdadeiramente se manifestam e tem seus valores e sentidos negociados. As fronteiras são demarcadas no embate diário com nós mesmos e entre o “eu” e o “outro”, sejam os protagonistas desse encontro gay, lesbica, hetero, trans, bi, …

Assim, creio que a diferença não antecede o sujeito, mas se manifesta nele na sua forma de se relacionar com o outro, contextualmente implicado, atuando e interagindo. Ser homossexual, então, se esvazia, ao meu ver, assim como ser heterossexual, enquanto categoria abstrata, se desvinculada da vivência real de cada pessoa no mundo, no contato com os outros, construindo e re-construindo a si e ao outro, com plena liberdade de ser e estar a cada momento como único em sua experiência.

Palavras-chave: homossexual, homossexualidade, homossexualismo

Qual é o momento para se começar a terapia?*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

É curioso. Todos os gestaltistas que ouvi defendem a terapia para terapeutas. Os psicanalistas também. Eu acho importante. Fundamental. Mas sempre me pergunto: Qual é o momento para se começar a terapia?

Penso algumas outras coisas também:

- A função da terapia é fazer com que a pessoa possa lidar de forma mais autônoma com sua própria vida. Quem já faz isso, precisa de terapia?

- A terapia é indicada pra quem sobre de angústias – o “sofrimento psíquico” dos psicanalistas. As angústias existenciais, no entanto, não serão dissolvidas na terapia. Aprendemos nela a lidar melhor com as angustias, e saber nos posicionar de forma ativa, ou da melhor maneira possível, diante delas.

- A terapia deve ser um lugar de acolhimento, em que a pessoa se sinta a vontade para se abrir no encontro com o outro. É um chamado para um encontro. E se a pessoa não se sentir assim, confortável? Lidar com o desconforto, trabalhar esse desconforto, se torna tema. Isso pode servir para expandir a percepção do cliente para outros momentos em que se depara com desconfortos, mas pode também virar uma tática de convencimento do terapeuta da importância de se fazer terapia. Às vezes essa figura pode ser artificial, produto do próprio contexto artificial da terapia. Talvez seja preciso se pensar se aquele é o momento certo.

- “A psicoterapia se alimenta dos psicólogos, autofagicamente”. (Isso foi uma sacada que me foi mostrada por dois professores meus). Psicoterapeutas TÊM DE passar por psicoterapia. Um imperativo da profissão. Nisso vejo alguns lados da moeda, polaridades:

1) Experimentar a posição de cliente para poder compreender melhor esse lugar, e saber lidar com as angústia daquele que, no futuro, virá te procurar – eu gosto e concordo com esse argumento;

2) Um caminho complementar para o aprendizado do modo de ser terapeuta – concordo parcialmente com esse aspecto, pois é possível que aprendamos e reproduzamos alguns “maus hábitos”, por pura reprodução, quando não se tem senso crítico, impedindo a emergência de um estilo próprio – defendido tanto pela Laura Perls;

3) Uma forma de se preservar a prática da clínica indiviual, por questão de mercado e campo de atuação profissional, para que todos tenha a possibilidade de exercer a clínica – descordo completamente, vendo nisso uma posição mesquinha e anti-ética.

Minha crítica é em parte resistência (por que não? também sou humano e filho de Deus. Terapia é cara pra chuchu e nem sempre é possível escolher o terapeuta com quem se acha mais confortável em função disso) e luta pela minha liberdade de escolha (meu eu sartreano se revoltando!).

Sei que essas observações parecem “racionalizações” minhas. Mas também são meus insights e reflexões críticas sobre a questão. Não consigo aceitar passivamente um imperativo que remete aos tempos de Freud. Acredito veementemente em outras formas, talvez até mais criativas, de estar consigo mesmo, ampliar a awarness, posicionar-se sobre o mundo e ir em busca de saúde.

A poesia, a música, a arte, a natureza, amigos, namoro, amar, fazer sexo… Todos são ou podem ser extremamente terapêuticos. A psicoterapia não é a única, nem a melhor. É algo que nem medicina halopática e homeopática, acumpuntura, massagens curativas, rituais xamânicos, candomblé, etc etc. Existe a técnica, existe o saber teórico por traz da técnica, mas os resultados são alcançados diferentemente para cada um, em seu processo individual, segundo os significados e crenças que cada um traz em sua vida. É isso!

Defendo a psicoterapia. Escolhi AGORA, começar uma. Já tinha me dado conta antes, em alguns momentos de sua necessidade, mas não serei escravo dela. Preso por minha liberdade, até mesmo pela liberdade de escolher estar preso, imobilizado, em minhas angústias. Só assim creio que poderei de fato aprender a dar meus passos e escolher meus caminhos, ou abrir outros no meio da mata cerrada.

Não sei… Me tornei indisciplinado e questionador. Não sei se isso é bom ou ruim.

Se um dia eu vier a ser professor direi tudo isso a meus alunos. Defenderei o direito deles de escolher o momento certo, ou escolher outros caminhos. Se não fizer isso, acho que estarei sendo incoerente comigo mesmo e com o que eu acredito ser o que me move na Gestalt.

___________

* Texto desenvolvido a partir de e-mail encaminhado por mim a Luciana Aguiar, quando trocamos impressões sobre o tema, em 28 de dezembro de 2007.

Conceitualização e problematização do Psicodiagnóstico

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Em seu livro Psicodiagóstico V, Jurema Cunha (2004) define psicodiagnóstico como “uma avaliação psicológica, feita com propósitos clínicos e portanto não abrangendo todos os modelos de avaliação psicológica de diferenças individuais. É um processo que visa identificar forças e fraquezas no funcionamento psicológico, com um foco na existência ou não de psicopatologia.” (p. 23)

 

Ao trazer essa conceituação, Cunha circunscreve o psicodiagnóstico ao contexto clínico, restringindo-se a uma das muitas práticas possíveis de avaliação psicológica, e tendo como um dos possíveis objetivos a identificação de psicopatologias existentes no indivíduo. Nesse ponto, tem-se uma perspectiva de estudar o sujeito a partir de possíveis sinais e sintomas – forças e fraquezas – por ele apresentados, que compreendidos em conjunto, levariam à identificação de um quadro de morbidade ou sofrimento psíquico.

 

Segundo Cunha, as origens da avaliação psicológica e do psicodiagnóstico se deram sob uma tradição médica e da psicologia acadêmica, de orientações comportamentalistas ou psicanalistas, predominantemente, que seguiam estratégias de avaliação comportamental – com identificação de comportamentos-alvo -, ou por uma orientação conceitual circunscritas em um corpo teórico e numa visão de homem específica, segundo as diretrizes de uma comunidade acadêmica. Tais perspectivas justificariam a ênfase dada ao aspecto do sujeito em sofrimento, disfuncional ou em desajuste com um ideal de saúde e normalidade.

 

As origens da avaliação psicológica seria perpassada também por uma tradição psicométrica, que tinha como métodos principais a aplicação de testes psicológicos estruturados ou de testes projetivos. Um outro recurso adotado também seria o uso de entrevistas psicológicas, herdada pela psiquiatria, que variaria desde um modelo mais estruturado, o que trazia como deficiência a questão a falta do rapport, a dimensão idiográfica da experiência do sujeito e a flexibilidade de discurso. Assim, tanto o uso de testes quanto o de entrevistas dirigidas para a identificação de sinais e sintomas seriam enfatizados, em detrimento, muitas vezes, dos aspectos do sujeito que expressassem uma tentativa de adaptação, a melhor maneira possível, voltada para uma perspectiva de saúde dissociada da doença ou do psicopatológico.

 

O uso de testes projetivos, principalmente de base psicanalítica, teria vigorado por muito tempo por servir como recurso de identificação do processo dinâmico da personalidade, porém vem caído em desuso por tratar-se de um método muitas vezes de interpretação intuitiva, e por sofrer crítica de psicólogos com orientação comportamental e biológica. (p. 25)

 

Uma outra definição de psicodiagnóstico trazida por Cunha é a de “um processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes psicodiagnósticos (input), em nível individual ou não, seja para atender problemas a luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos, seja por classificar o caso e prever seu curso possível, comunicando os resultados (output), na base dos quais são propostas soluções”. (p. 26)

 

Segundo essa outra definição, além do uso de testes e da vinculação a uma perspectiva teórica, outros aspectos sobre o psicodiagnóstico são apresentados: a limitação temporal, o foco na classificação e a vinculação dos resultados a um contexto externo requerente, aspectos que podem ser problematizados.

 

A limitação temporal que envolve desde a realização do contrato entre o sujeito investigado, o requerente e o psicólogo até a devolução dos resultados, por ser restrito, em geral, a poucas sessões, traz consigo restrições quanto às possibilidades de compreensão do sujeito em sua complexidade, nos mais diversos contextos de sua vida, tratando-se de um recorte, numa redução do fenômeno a um modelo científico incompleto e passíveis de equívocos.

 

A investigação psicodiagnóstica, conforma aponta Cunha, se baseia num plano de avaliação que é baseado em perguntas e hipóteses iniciais levantadas a priori. A linha de investigação adotada acaba, pois, a seguir um caminho predeterminado, a partir do que é apresentado como queixa ou dos desdobramentos das entrevistas iniciais, não dando conta, muitas vezes, da variabilidade de questões existentes na vida do sujeito como um todo, que por ventura possa estar atuando sobre o seu campo existencial.

 

A definição de instrumentos de investigação com base nessas hipóteses iniciais podem, a depender do seu caráter e dos objetivos a que se propõe, também limitar as possibilidades de compreensão dinâmica do sujeito, circunscrevendo a um repertório específico de respostas que podem estar aquém das reais necessidades do sujeito objeto de investigação.

 

Ao ser solicitado por sujeitos outros que não o próprio investigando, essa dimensão externa ao contexto de investigação, acaba por impor um objetivo que pode ir de encontro à liberdade de posicionamento daquele que se torna objeto do psicodiagnóstico. Assim, o psicólogo que realiza o psicodiagnóstico, por mais conhecedor que seja dos métodos a serem empregados, não deve deixar de levar em consideração a pessoa do examinando, bem como ponderar sobre a sua real implicação sobre sua vida, sabendo identificar como e quando é necessário, de fato, submeter o sujeito a uma investigação – muitas vezes invasiva e de repercussões imprevisíveis ou definidoras da vida recente ou futura do sujeito examinado.

 

Cunha aponta para alguns possíveis usos do psicodiagnóstico. A depender das instituições requerentes e dos objetivos a serem alcançados, as avaliações psicológicas podem ser classificados como : 1) de classificação simples, comparando o sujeito à médias levantadas a partir de outros sujeitos da população; 2) de descrição, que tem um valor mais interpretativo acerca dos escores levantados em testes, buscando identificar as forças e fraquezas e o desempenho do sujeito; 3) de classificação nosológica, que tem fins diagnósticos, visando a tietagem de hipóteses, 4) de diagnóstico diferencial, voltada para identificar variações nos quadros sintomáticos e níveis de funcionamento patológico; 5) de avaliação compreensiva, responsável por determinar o funcionamento da personalidade, funções do ego, insight e sistemas de defesa, voltados para intervenção terapêutica; 6) de entendimento dinâmico, que associaria as dimensões investigadas na avaliação compreensiva a uma perspectiva teórica, buscando inferir possíveis dificuldades futuras e focos terapêuticos para além do material levantado nas entrevistas; 7) de prevenção, voltada para a identificação de problema precocemente, buscando detectar fraquezas e forças do ego, e respostas a situações novas; 8) de prognóstico, tentando determinar o curso provável do caso clínico e, 9) de perícia forense, voltado para identificar insanidades, incapacidades e patologias que possam estar associadas a infrações da lei e afetem o exercício da cidadania.

 

Em todos esses possíveis usos do psicodiagnóstico se supõe que, através de uma metodologia científica seja possível compreender, predizer e, em alguns casos, controlar o desenvolvimento do sujeito, sua personalidade e seu funcionamento nos diversos contextos, prevendo possíveis ocorrências no futuro e determinando intervenções. Deixa-se, no entanto, de se levar em consideração a imprevisibilidade do humano e sua interação em contextos reais de sua vida, reduzindo-se as informações colhidas, muitas vezes, ao relato verbal do sujeito e a respostas levantadas através dos recursos técnicos de avaliação. Tal procedimento pode vir a ter repercussões imprevisíveis, por exemplo, quando se trata de se definir um psicodiagnóstico em criança, levando-se em consideração o fato de tratar-se de uma fase de transformações, em que várias dimensões relacionais e contextuais (família, escola, etc), atuam sobre e com o sujeito.

 

É importante, no processo psicodiagnóstico, levar em consideração o sujeito como algo mutável e dinâmico, circunscrito num mundo maior que o da consulta psicológica, sendo multideterminado e atuando ativamente sobre sua realidade. Assim, também é imprescindível levar em consideração o próprio sujeito do avaliador, qual a perspectiva teórica que norteia sua prática, qual a sua disposição para com o sujeito investigado, seus a prioris, seus preconceitos e limitações, posto que o processo psicodiagnóstico não se dá sem ruídos, de forma objetiva e sem deformações. A leitura dos dados se submete ao crivo do investigador, e a seleção de aspectos mais ou menos relevantes a serem levados em consideração é definido pelo olhar daquele a quem se dirige o objeto de apreciação.

 

Dessa forma, mais do que compreender o processo psicodiagnóstico em sua dimensão operacional, na definição do objeto a ser investigado, na metodologia a ser seguida e nos possíveis sujeitos a quem se dirige sua aplicação, é necessário se ter uma preocupação ética para com a pessoa que se submete ao exame, e ao próprio investigador, seus limites e possibilidades de relação, posto que, também ele, na interação que estabelece com o outro, transforma e é transformado ao longo deste processo.

Bibliografia:

CUNHA, J.A. Psicodiagnóstico – V. Porto Alegre: ARTMED, 2004.

Gestalt-terapia: um paradigma “ateórico” – divergências com a Psicanálise.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Em nossa última reunião discutimos, dentre outras coisas, a questão da ruptura entre Perls e a Psicanálise e as distinções entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica. Durante essa discussão, B. levantou a idéia de que um gestalt-terapeuta jamais indicaria um paciente o tratamento com um psicanalista, fundamentando este argumento no fato de a gestalt-terapia ter surgido em oposição ao método e à teoria psicanalítica ortodoxa de Freud. Inicialmente, tomarei como base a concepção ateórica de Perls, para desenvolver uma argumentação sobre o assunto.
Podemos dizer, dentre outras coisas, que a oposição entre a Gestalt-terapia e a Psicanálise vem não apenas de incompatibilidades teórico-metodológicas, mas que, inclusive essas incompatibilidades, advêm da desilusão e negação pessoal de Perls a Freud e sua abordagem, o que coincidiu com o rompimento com outros psicanalistas na mesma época, como levanta Ana Maria Kiyan:

(…)Aos poucos, fundamentalmente devido à decepção com Freud e também a seu modo específico de olhar para a vida, Perls passou a uma atuação na qual não cabia mais a prática psicanalítica e seus pressupostos.
(…)Além do rompimento de Perls com a psicanálise, outros rompimentos importantes estavam acontecendo: primeiro Jung, e logo depois Reich (…)
(1)

Como pudemos observar ao longo desses dois primeiros semestres de graduação, há nas ciências, e em destaque na Psicologia, uma tendência de negação do pensamento antecessor e dominante, dando-lhe formas e proporções incoerentes, a fim de fundamentar um argumento ou um modelo explicativo. Podemos ver isso inclusive na própria Psicologia da Gestalt, que tido como “contestador”, surge em oposição ao modelo introspectivo e ao método fragmentador e analítico de investigação de Wundt, propondo um outro modelo explicativo para os processos de percepção, tendo como base a perspectiva fenomenológica e o princípio de totalidade de Brentano e Husserl.
Assim, também a Gestalt-terapia surge como que em oposição ao método analítico da psicanálise que, por ser o paradigma dominante na clínica, é de certo modo negado por Perls, que propõe, ao invés de uma imersão no passado e no inconsciente, propõe a presentificação e a experimentação vivencial.
É importante salientar, no entanto, que, como já foi mencionado, essa ruptura deu-se principalmente por uma decepção pessoal de Perls à psicanálise, que, como reação passou a nega-la como método e modelo explicativo. Temos no entanto que por mais de 20 anos Perls foi psicanalista e, como tal, propôs uma revisão da teoria em comunicação realizada na Tchecoslováquia, em 1936, não tendo, no entanto, a recepção esperada pelo grupo de psicanalistas, revisão esta que foi desenvolvida e publicada seis anos depois, sob o título de Ego, Fome e Agressão (2).
Partindo dessa ruptura, Perls propôs uma abordagem ateórica (o que não quer dizer que se trata de uma abordagem sem fundamentação teórica) no sentido de negar qualquer modelo pré-estabelecido, qualquer explicação pré-concebida, para lidar e trabalhar na terapia com as questões do paciente, justamente em oposição ao modelo explicativo da psicanálise, que segundo consta, tenderia a enquadrar os casos clínicos à julgamentos coerentes ao seu corpo teórico. Essa postura seria adequada ao próprio método da gestalt-terapia de valorizar a experimentação existencial, o momento vivencial como forma de possibilitar ao paciente entrar em contato com sua própria realidade, com o momento do agora, desprovido de determinismos ou verdades absolutas, tendo em vista uma concepção de homem mutável e em constante processo de construção de si mesmo. Sobre essa questão, fala Alberto Pereira Filho em seu livro Gestalt e Sonhos, sobre a questão da negação da concepção de inconsciente da psicanálise:

Considero autentica e louvável a tentativa de rompimento com a psicanálise e seus pressupostos teóricos, em especial se levada em conta a imensa contribuição de Perls para o repertório metodológico das psicoterapias. Que uma autonomia metodológica custe o preço de um desabono, de uma desqualificação, porém, parece-me um recurso infeliz, compreensível somente se visto no contexto idiossincrático da história do autor. Uma negação, no sentido filosófico do termo, ou seja, de absorver e ir além, seria mais coerente com uma proposta integradora.(3)

O fato, no entanto, de haver uma negação de Perls à teoria e ao método da psicanálise não significa dizer que deva haver um descrédito dessa abordagem por parte dos gestalt-terapeutas ou dos interessados em se aprofundar nessa abordagem. A própria psicanálise sofreu suas alterações e adaptações aos novos tempos, e em muito ainda serve para compreender o pensamento ocidental na pós-modernidade.
O fato de a perspectiva de trabalho com o paciente ser de uma ou outra forma não invalida a possibilidade do seu progresso na terapia, de trabalhar com suas demandas e de conseguir alcançar uma melhor compreensão do indivíduo. Assim como propõe a própria abordagem gestáltica, a verdade, a compreensão de um fenômeno (no caso a terapia), é subjetiva, é individual e coerente à forma de uma consciência significar e desenvolver uma relação.
Creio que conceber a negação de uma ou outra abordagem, invalidando-a como veículo catalizador de mudanças, é cair numa intransigência que, ao menos para mim, vai de encontro à própria práxis da Gestalt-terapia, que prima pela relação e pelo seu papel de criação e transformação. Acredito que cada método terapêutico, em sua diversidade, tende a ser adequado também a cada indivíduo, com seus valores, sua história e visão de mundo.
Certa vez tive uma discussão com nossas colegas D. e M. e levantamos a questão de que até mesmo a ciência, com suas mais diversas vertentes e corpos teóricos, condizem de certa forma com crenças, assim como a religião, a filosofia, a política, dentre outras, pois são formas de ver o mundo, forma de interpretá-lo, de significá-lo, servindo como paradigma para nele se posicionar.
A grande questão existente é que haveria uma tendência de se valorizar mais a ciência que outras formas de saber, sendo esta ciência eminentimente positista, que seria mais “verdadeira” por possibilitar a apresentação de dados “absolutos”, fatos exatos e comprovados empiricamente ou por advir de um raciocínio e método de análise minunciosa, rígido, capaz de possibilitar resultados mais efetivos. Temos, no entanto, que toda essa eficácia e verdade depende do referencial de cada pessoa, podendo outras abordagens, que não estritamente científicas, apresentar o mesmo efetividade sobre a vida de uma pessoa, à medida que essa encontra uma identidade, sua integridade, sentir-se contextualizada.
Acredito que o mesmo ocorre em relação às psicoterapias, com suas diversas abordagens, diversas formas de trabalhar a subjetividade, múltiplas possibilidades de descoberta e inclusão do indivíduo no mundo. A grande questão a ser considerada e trabalhada é que cada uma delas tem suas singularidades e precisam ser vistas como perspectivas, como formas distintas e diversas, que são, de significar o mundo. São verdades possíveis, porém nunca absolutas ou incontestáveis. Creio ser necessário o exercício do diálogo, e não o confronto e a intransigência entre cada uma das formas de pensar a realidade. Sei que isso é difícil de ser alcançado, tendo em vista a necessidade que temos de buscar bases sólidas para nossa vida, algo que nos possibilite uma ilusão de segurança e estabilidade.
Isso me faz lembrar uma alegoria de Kafka, intitulado Fábula Curta, em que a personagem, um rato, reflete sobre o mundo, que progressivamente foi se tornando estreito, à medida em que ele corria de encontro a muros, que inicialmente lhe causaram uma sensação de conforto, mas que, progressivamente foram se encontrando, até que só havia à frente uma ratoeira ou como outra única alternativa, voltar atrás, sendo no final devorado por um gato.
Neste conto é possível percebermos, se fizermos uma associação entre os muros e a idéia de paradigmas, que, muitas vezes estes possibilitam delimitar nossa compreensão do mundo, possibilitar um recorte de nossa realidade, a fim de que possamos nos situar de forma mais objetiva. No entanto, dependendo da forma como nos agarramos a esses limites, podem nos limitar, nos restringir, castrando nossas possibilidades de perceber e vivenciar o mundo à nossa volta, as perspectivas e possibilidades diversas que, potencialmente nos aparece, impossibilitando uma visão mais ampla de nossa existência.
É claro que os paradigmas são de certa forma necessários, para nos possibilitar o mínimo de coerência em nossos posicionamentos, tal como as bases que constituem uma filosofia ou uma linha teórica que fundamentam uma abordagem. É preciso, no entanto, termos a lucidez de que nossa percepção do mundo, apesar de objetiva, é particular e pode abarcar dimensões diversas da do outro, não nos cabendo atribuir juízo de valores ao paradigma do outro tomando como parâmetro nossos próprios paradigmas. Possibilitando o contato, e não a sobreposição, entre essas perspectivas através do diálogo, que no caso da práxis psicoterápica, seria a transdisciplinaridade. Essa postura me remete ao relato de nossa professora Lika Queiroz, que disse ter participado de workshops realizados por uma equipe de formação humanista, encabeçada por Carl Rogers, composta por vários profissionais, de várias áreas e vertentes, da psicologia ou não, incluindo um surfista, o que demonstra a possibilidade de construção de um conhecimento através da diversidade, sem que com isso se perca a individualidade e a coerência de cada olhar sobre o mundo.
Admito que essa perspectiva vai muito além do nosso olhar condicionado, e nisso me incluo, mas creio que, se a Gestalt-terapia valoriza a possibilidade do contato e enfatiza a questão da relação, sem desprezar o papel da subjetividade e da verdade do sujeito, certamente, apesar das divergências de caráter teórico metodológico, a negação de uma ou outra abordagem, de um ou outro paradigma, é, ao menos para mim incoerente como postura ética a ser tomada, se levado em conta seus próprios fundamentos.

Salvador, 28/07/2005.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
(1) KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 120.
(2) PERLS, Frederick S. Ego, Fome e Agressão. São Paulo: Summus, 2002. p. 9.
(3) LIMA FILHO, Alberto Pereira. Gestalt e sonhos. Goiânia: Dimensão, 1993. p. 36.

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* Alguns nomes de colegas que fizeram e fazem parte da minha turma de formação em Psicologia e do grupo de estudos (2005), foram omitidos por questões éticas, mantendo-se apenas suas iniciais.

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