Gestalt-terapia e transgressão: a relação terapeuta-cliente e a arte na pós-modernidade.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Neste breve ensaio, que neste momento me proponho a escrever, busco apresentar, tomando ainda como base o livro de Hugo Elídio, “Introdução à Gestalt-Terapia”, um paralelo entre essa abordagem e a perspectiva de arte na pós-modernidade. Tenho que admitir que meus argumentos não se fundamentam necessariamente a conhecimento teórico específico, ou seja, não pretendo fazer citações ou lançar mão de referências bibliográficas, mas apenas esboçar um raciocínio decorrente de discussões travadas em nossa última reunião do grupo de estudos e em conversas minhas com minha irmã, concluinte do curso de em Letras, pela UFBA.
Bem, primeiramente tratarei da questão ligada à postura do terapeuta em relação ao cliente na terapia, que creio já ter sido mais do que trabalhada em meus outros textos, mas que retomo agora por achar pertinente e necessário. Tendo como base nossas leituras do livro de Elídio, bem como nossas aulas de Teorias e Sistemas Psicológicos II, com a professora Lika Queiroz, temos que a Gestalt-Terapia, com sua base fenomenológica e existencial, tende a valorizar o sujeito enquanto consciência de si mesmo e do mundo. Nisso, a terapia buscaria validar o sujeito e mobiliza-lo a tomar consciência, awareness, de si mesmo, cabendo ao terapeuta o papel de mediador, de facilitador desse processo de auto-descoberta, através de uma relação dialógica de caráter eu-tu.
Nesse ponto creio que devemos ressaltar o caráter inovador da Gestalt-Terapia e das abordagens humanistas no sentido de verdadeiramente transgredir a noção de terapia como prática de promover a saúde. Transgressora no sentido de corromper com a concepção de doença do modelo médico, que visa geralmente alcançar a cura do sintomas e deixa de encarar o paciente-cliente como um indivíduo, uma totalidade que é muito mais complexo que um organismo físico, sem no entanto desmerecer esse aspecto. É claro que a medicina e as outras áreas de saúde tendem, atualmente, eu imagino, ou torço para que assim seja, a buscar desenvolver esse olhar sensível ao ser humano, como ser dotado de subjetividade, emoções e individualidade, que vai além da disfunção de um órgão ou de um quadro classificado como psicopatológico.
Além disso tudo, e eis um dos aspectos que mais me chamaram a atenção para essa abordagem, é a relação direta da prática com a arte, com formas de expressão, seja ela dramática, corporal, ou visual e expressiva. Nesse ponto também a Gestalt-Terapia traz uma nova dimensão dessas técnicas, no sentido de não buscar a interpretação racional dos produtos de criação artística, como se propõe, por exemplo, a Psicanálise, ao buscar interpretar os elementos simbólicos e inconscientes presentes no objeto criado. A Gestalt-Terapia se preocupa em fazer com que o cliente entre em contato com suas criações, colocando-as como um prolongamento do próprio indivíduo, como parte significativa de sua individualidade e subjetividade, possibilitando assim se estabelecer um momento existencial de auto-descoberta e significação.
Dessa forma não é o terapeuta quem exerce um papel de voz autorizada para interpretar e analisar o sujeito, desvelando seus mecanismos de expressão e comportamento, mas sim o próprio sujeito, o cliente, torna-se responsável por sua vida, sua existência, ao ter valorizado seus aspectos criativos, sua identidade e sua autonomia, ao ter, durante o processo terapêutico, despertada a consciência para sua própria existência, para seu compromisso e sua responsabilidade existencial na relação travada consigo mesmo e com o mundo.
É quanto à questão de corromper com essa “voz autorizada”, exercida pelo terapeuta, que traço um paralelo entre a Gestalt-Terapia e a arte na pós-modernidade.
Durante nossa última reunião do grupo de estudos, quando tratávamos da relação estabelecida entre terapeuta-cliente, lembrei-me de ter visto em uma livraria um livro com um título como “Lixo ou Arte?”. Não me lembro o nome do autor, mas tratava sobre a arte na pós-modernidade, envolvendo os movimentos de arte conceitual e as vanguardas pós-década de cinqüenta. Pelo que eu pude perceber, e coerente a conversas que tive com minha irmã sobre literatura e arte durante o período dela na graduação, creio que o ponto fundamental de discussão era o fato de um objeto aparentemente ordinário, banal e cotidiano, como um conjunto de louça para servir café (exemplo citado no fundo do livro que eu vi na livraria) se tornar um objeto de arte, leiloado por 24 mil dólares, pelo simples fato de ter se transformado em uma relíquia, ao participar de uma performance de um artista servindo xícaras de café para os visitantes de um Museu. A grande polêmica por traz disso está no fato de que a peça em questão, por ter sido qualificada por uma voz autorizada, como um crítico de arte ou um artista famoso, passa a ter um valor maior, adicional, que o distingue dos outros jogos de chá, que o estigmatiza e o rotula como obra de arte, ou lixo. De forma semelhante temos os críticos de literatura que distingue a boa literatura, ou literatura canônica, da baixa literatura, literatura menor ou marginal.
O que percebemos é uma crise, na pós-modernidade, desses juízos de valores, em que o lixo, o ordinário, o cotidiano, ganha qualidades artísticas que corrompe com a estética do belo, com o equilíbrio das formas, por ter acentuado ou sinalizado qualidades além do tradicionalmente estabelecido, do dito canônico ou acadêmico. Se bem, é claro, que para ter um novo significado adquirido ele passa por um processo de ressignificação, de requalificação, estabelecido por uma voz autorizada que corrompe a ordem anterior, transgride as regras, e, de certa forma, estabelece novas formas de ver o mundo, novos paradigmas, nova percepção da realidade.
O importante de se observar é que na última década está havendo uma tendência a se estabelecer um processo mais acentuado de ruptura desses conceitos, quando os valores de arte ou não-arte são contestados, e passa a ter como base o olhar individual. De que forma aquele objeto é para mim artístico ou não?! Tendo como ponto principal a emoção, a sensação que aquele objeto me desperta, ao apresentado a mim num novo contexto.
Creio que essa perspectiva se assemelha à postura fenomenológica, quando voltamos nosso olhar para o objeto e buscamos significa-lo, através de um contato, de uma relação existencial, onde buscamos “colocar entre parênteses” nossos preconceitos, nosso olhar normalizado, e buscamos alcançar dimensões mais sensíveis, menos contaminadas pelo juízo de outro, explorando as infinitas possibilidades e ângulos da forma e do fenômeno que se manifesta.
Na literatura, temos o abandono, em parte, do discurso oficial, das grandes temáticas sociais, dos grandes ideais panfletários e politizados para submergir no eu, na subjetividade de um narrador que a cada instante se descobre (e se perde) como sujeito da trama, muitas vezes imprecisa, incoerente ou desassossegada, quando verdades são desfeitas e buscam-se respostas que talvez não existam, ou existam num espaço e numa realidade restrita, do indivíduo. Observamos, então, o crescente número de obras literárias de caráter autobiográfico, introspectivo e confissional. Em outro ponto, principalmente por meio da um interesse cada vez maior despertado pela mídia, temos a banalização da vida privada, através de programas como Big Brother, como forma, talvez, de se estabelecer contato, de se buscar no outro verdades, padrões e valores que não conseguimos encontrar em nós mesmos, em nosso circulo de relações frágeis e fragmentados, perdidos e desencontrados que somos.
Temos então na pós-modernidade um momento caótico, de mudanças bruscas e de rumos indefinidos.
Na Gestalt-Terapia vejo uma relação bem coerente a esse processo. Ao buscar uma perspectiva ateórica (não interpretativa, não sugestiva, que não castra as possibilidades diversas do indivíduo) na abordagem com o paciente, estabelece-se uma relação imersa num caos, o que não significa o mesmo que desordem, mas sim indeterminísta, que possibilitaria travar contatos criativos com o indivíduo desencontrado consigo mesmo e inconsciente de sua própria existência, com sua realidade, com sua vida e individualidade. Assim, temos não apenas o paciente com sua doença a ser tratada, mas uma situação em potencial de recriar e ressignificar o mundo, entrar em diálogo com as aflições, com os desejos e medos do sujeito, que sai, ao menos momentaneamente do completo anonimato das multidões, dos discursos e das ideologias, cada vez mais vazios e frágeis, para dialogar com o eu e o outro, que em relação, se encontram e se constroem, desenvolvendo seus potenciais criativos, sua expressividade e sua autonomia e auto-regulação.
É isso! Não posso dizer que neste momento não trago um discurso e não me coloco como uma voz autorizada que expões um ideal. Mas acho que a pós-modernidade não anula simplesmente os ideais, apenas fragilizando-os, desorganizando a realidade e o mundo como concebemos com nosso olhar condicionado e viciado, para que possamos, talvez sozinhos, talvez em contato com um outro, numa relação eu-tu, criar e significar nossa própria realidade, conscientes sempre de sua mutabilidade e da presença constante de vazios e formas a preencher e fechar com nossas muitas escolhas possíveis no aqui, no hoje, neste segundo que escorre como pintura de Salvador Dalí.

Salvador, 12/08/2005

Linguagem e a poesia na Psicanálise: transitos entre Lacan e Octávio Paz e um olhar incerto para o futuro.*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

O inconsciente é linguagem, na psicanálise. O homem é linguagem, posto que é ser de cultura. Essas duas sentenças, em certa medida, traduzem o pensamento psicanalítico sobre a questão da linguagem, pensada por Lacan, que, ao fazer uma releitura da psicanálise de Freud, em associação a uma perspectiva estruturalista, sugere essa compreensão do inconsciente.

Sendo o homem um ser de cultura, este se desprende da natureza de forma irreversível. Por estar imerso na linguagem, o homem cultural se diferencia dos outros animais, posto que não mais se limita a imagem e a realidade aparente, mas transcende essas duas dimensões, que passam a ser cortada pelo simbólico. Na esfera do simbólico o homem transcende a realidade e é capaz de recriá-la através da imaginação, da fantasia, erotisando o sexo, erotisando o universo, que deixa de ser um dado factual para ser um sentido.

O homem é um ser pulsional. A pulsão, por sua vez, é marcada pela linguagem, pela cultura, pelos sentidos que se criam pelo homem, no mundo que passa a ser objeto de desejo. O desejo dá sentido à existência humana. O mundo desejado, o corpo desejado, o “eu” desejado. O homem, e o mundo, são os sentidos criados e recriados pela cultura, que deixa seus registros desde os primeiros momentos da vida infantil, através do processo de socialização, da amamentação ao banho, dos primeiros passos ás primeiras palavras. Na fala o homem, então, se constitui definitivamente, único e singular, despregado da natureza.

Também Paz, em seu livro de ensaios “O Arco e a Lira”, traz essa dimensão lingüística constitutiva do homem, concebendo-o como um ser histórico. A linguagem teria sua origem num determinado momento da história da humanidade que o definiu e o diferenciou dos outros animais, sendo esse retorno a natureza impossível, pois implicaria na perda da função da linguagem, enquanto recurso de representação e abstração da realidade que, foi fundamental para o desenvolvimento das sociedades, das leis, da cultura.

Haveria nos outros animais formas de comunicação, sendo a linguagem humana diferente das outras formas de comunicação diferente em termos de nível de complexidade. Essa diferença, no entanto, é definitiva e definidora. A linguagem humana não traz apenas sinais que remetem a estados emocionais que sinalizam perigo, fuga, presença de alimento ou corte, como nos outros animais. A linguagem humana não apenas reproduz a realidade, mas a cria e recria, reconfigura através dos múltiplos sentidos e significados que emergem da palavra viva.

A dinâmica da linguagem do inconsciente se dá, na psicanálise, através dos mecanismos de metáfora e metonímia, na cadeia associativa de significantes que envolve o deslocamento da pulsão, do objeto de desejo primeiro pela mãe, a outros objetos, no mundo. Da mesma forma funcionaria o sintoma, que se utiliza do recurso da metáfora substitutiva do trauma ou do objeto recalcado por outros conteúdos secundários. A emergência desse conteúdo latente, dotado de energia pulsional, poderia se dar através de manifestações como os sonhos, os chistes, atos falhos, manifestações corporais que, como linguagem, são dotados de sentidos e serem apreendidos pelo sujeito significante.

O próprio homem é o significante da linguagem, na psicanálise, aquele que traz o sentido à fala, não sendo esta atrelada ao significado, a uma representação direta da realidade. A realidade para a psicanálise é a realidade psíquica, e não a realidade factual. A linguagem, para a psicanálise, não é protótipo do mundo, mas um novo mundo, inconsciente, subjetivo, do próprio homem, simbólico.

Em Octávio Paz, essa compreensão se aplica à palavra poética. A linguagem, na poesia, rompe a sua qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade, para expandi-la, tranfigurá-la, trangredí-la. A palavra é impossível de ser aprisionada pelos significados definidos, por um único objeto referente. A palavra é múltipla, e múltiplo o homem, que a pronuncia, é inscrito por ela. A palavra poética define o homem em sua condição simbólica, e sua existência é imprecisão. O homem é poeta, e na poesia é servo da linguagem, é veículo na qual ela se manifesta, incorpora, torna-se realidade.

O poema constrói o povo e revela quem somos. Através da palavra poética se criam sentidos, se funda a cultura, a humanidade deixa suas marcas definidoras, sempre reelaboradas. Partindo dessa perspectiva, Paz discute o caráter social da poesia e pensa sua função como criadora de subjetividade partilhada e pessoal. O poeta escreve o poema na linguagem comum aos homens, mas o acesso dos homens aos seus significados revelados, variam a cada época. A poesia emerge tanto em momentos de crise quanto de plenitude social. Na ordem, a poesia é patrimônio de todos, comunica à comunidade ideais comuns, guia a civilização por um caminho. Na crise, a poesia se torna hermética, individualizada, voltada para uma busca incerta de nortes, de sentidos perdidos no caos. Nesses tempos, os mesmos tempos que hoje vivemos, a poesia é revelação da decadência, é alerta, é grito que se faz inaudível no meio da multidão.

A psicanálise, em sua origem nos fins do século XIX, surge como manifestação da cultura revelando o homem moderno em suas neuroses. A Psicanálise é filha da decadência do mundo moderno, e se apresenta furando o campo das ciências exatas e naturais como uma nova forma de pensar o homem, na sua subjetividade, nos seus aspectos ocultos e velados. Assim, em muitos aspectos, ela se aproxima muito mais do fazer poético, do trabalho do artista.

A linguagem para a psicanálise não segue a linha da comunicação, em sua horizontalidade, na seqüência de significados encadeados que remetem a uma realidade factual. Os traumas tratados nem sempre tem um representante no vivido, mas fantasmático, inscrito na cadeia associativa inconsciente, desejo e castração. No método criado pela psicanálise, na associação livre, as palavras emergem como na poesia, rompendo o real, pulsionalizadas, vibrando. E o psicanalista, como o poeta, é servo de seu ofício, instrumento da linguagem, xamã que inicia o cliente, o sujeito, nas artimanhas da linguagem inconsciente. O mundo é lido na psicanálise através de uma forma própria, numa linguagem para iniciados, a linguagem inconsciente.

O lugar almejado pela psicanálise, em muitos momentos, é o de reveladora, permitindo ao próprio sujeito significante da análise a possibilidade de descobrir-se, aperceber-se de um conhecimento que ele mesmo traz em sua vida. Como o poeta, o artista, o analista seria aquele que facilitaria à humanidade ver além de sua realidade cotidiana, expandindo sua visão para além dos significados corriqueiros, dos condicionamentos, dos aprisionamentos. A poesia é a palavra sem fins utilitários. A psicanálise é a revelação da loucura de todos, de cada um de nós. Mas será mesmo?

Paz aponta para o perigo do poeta se transformar em propagandista, ser manipulador das massas, num tempo atual, em que as comunidades de desfizeram e a coletividade está padronizada. Também o psicanalista, ao utilizar-se da teoria psicanalítica, pode incorrer nesse perigoso caminho. Mas serão esses poetas e analistas verdadeiramente poetas e analistas? Ou o lugar da poesia e da psicanálise é, justamente, a margem. O poeta é marginal quando traz uma nova linguagem, quando perverte os sentidos, quando cria o novo. Também o analista deveria assim proceder, no exercício da psicanálise enquanto arte de revelação. Mas será que a psicanálise realmente nos revela os caminhos incosncientes de nossa própria existência, ou nos aprisiona no Édipo, no desejo incestuoso da mãe, no medo da castração, nas estruturas de personalidade, na neurose, psicose e perversão? De que psicanálise se fala e se pratica. Que poesia estamos vendo surgir hoje?

Se estamos vivenciando uma crise dos tempos, a mesma crise de a cem anos, no caminho da decadência da Modernidade, vemos emergir como costumes o individualismo exacerbado e a cegueira de massa, do consumo, do utilitarismo. Mais se escreve autobiografias, mais se lê livros de auto-ajuda e revistas tablóides. Se consome a vida alheia e se viva a própria vida amarrada às aparências, às tiranias da imagem padronizada, tiranizada pela mídia, pela moda. A poesia se torna silenciosa, como a voz dos intelectuais, e a psicanálise corre o risco de se tornar mais um objeto de consumo, um produto fetichizado de consumo, eliciando pequenas revelações que não necessariamente transformam o sujeito em ator de sua própria vida, mas mantêm no ciclo repetitivo. Esse risco não é apenas o da psicanálise, mas de todas as abordagens psicoterapeuticas.

Mesmo assim, ainda se tem a crença e a esperança de que é possível romper a lógica convencional, instaurando uma nova lógica, através da palavra poética, que transgride os significados dicionarizados e cambiando novas dimensões de sensibilidade. Para isso, é necessário que a poesia seja acessível a todos, que haja um compartilhamento da poesia, que novas linguagens ascendam do ordinário e novos sejam os iniciados, os profetas, os loucos.

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*Texto escrito para a disciplina Tópicos Especiais de Psicanálise IV, ministrado pela Profa. Clarice Bacelar. UFBA, nov. 2007.

Gestalt e Literatura: Esboços e paralelos, gênese e atualidade*.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

RESUMO:
Este trabalho tenta estabelecer um paralelo entre GT e literatura, relacionando suas origens histórico-culturais com o Expressionismo Alemão no início do século XX e o movimento beat americano dos anos 50, analisando um caráter literário presente nas narrativas autobiográficas e teorizações de obras da Psicologia Humanista e GT, e refletindo sobre a atual produção de uma “literatura gestáltica” brasileira.

Comecei esse trabalho por um projeto, um esboço de idéias que, de algum modo, é um esboço de mim. Venho trabalhando algumas idéias desde meu primeiro ano de Psicologia, desde antes mesmo, antes de entrar na universidade, ao trazer a poesia para minha vida. A relação que faço entre Psicologia e Literatura é a que faço entre elas e mim, e é a que vejo, e de certa forma busco, na Gestalt-Terapia.

Neste trabalho que hoje apresento a vocês na forma de um esboço de um projeto, ainda a ser desenvolvido futuramente numa possível articulação entre a Gestalt e a Poesia, tentarei, no limite de tempo que me cabe, estabelecer um paralelo entre GT, arte e literatura, relacionando possíveis influências do expressionismo alemão do início de século XX e da Contracultura e movimento beat americano dos anos 60 sobre as origens da GT, além de sumariar algumas obras em que observo possíveis traços literários presentes, em narrativas autobiográficas e teorizações em GT. Por fim, pretendo refletir sobre a atual produção de uma “literatura gestaltica” brasileira.

Assim, levarei em consideração três contextos e momentos histórico-culturais distintos: 1) a Europa do início do século XX, envolvendo a 1ª Guerra Mundial, o surgimento e declínio do movimento expressionista alemão; 2) os EUA das décadas de 40 a 80, envolvendo a Contracultura, e a emergência da Psicologia Humanista e a literatura beat e, por fim, 3) o Brasil da década de 80 à atualidade, o desenvolvimento e consolidação da GT no Brasil e a literatura produzida dentro da abordagem.

1) Alemanha: Início do século XX. Primeira Guerra Mundial. Expressionismo Alemão: Max Reinhardt, Salomo Friedlander, Martin Buber e Jacob Levy Moreno.

O primeiro paralelo que pretendo desenvolver é fruto de idéias em que entrei em contato a cerca de dois anos, em 2005, quando assisti uma aula aberta realizada por Afonso Henrique da Fonseca. Na ocasião, ele foi a Salvador vindo de Maceió para o Encontro Norte-Nordeste de Psicologia, e apresentou uma palestra sobre “Atualidades da GT”. Nesta apresentação ele trouxe algumas idéias sobre a influência do movimento expressionista sobre a GT, principalmente através do contato de Fritz Perls com o dramaturgo Max Reinhardt, trabalhando principalmente com a idéias de “performance”, “expressão” e “interpretação”, presentes nas técnicas gestálticas e na própria sua visão fenomenológica-existencial e hermenêutica de homem[1].

Meses depois, ao concluir a disciplina sobre Fenomenologia e Gestalt, ministrada por Lika Queiroz, montei com meus colegas um grupo de estudos, onde lemos textos introdutórios de GT e buscamos estabelecer conexões com temas que nos interessavam e emergiam das discussões. Na primeira reunião, lemos o capítulo sobre os pressupostos filosóficos da GT contido no livro de Ana Maria Kiyan (2001, 2006). Este continha uma visão cronológica da vida de Perls e as principais influências teórico-filosóficas que contribuíram para a fundamentação da GT. Nada se dizia, no entanto, a respeito do Expressionismo.

Busquei então fontes bibliográficas que apresentasse alguma noção do que foi esse movimento artístico e literário, e encontrei alguns fragmentos de textos expressionistas no livro de “Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro” da Gilberto Mendonça Teles (1999). Me chamou especial atenção o manifesto intitulado “Expressionismo na poesia” de Kasimir Edschmid, datado de 1918, em especial o seguinte fragmento:

A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal modo que ela chegue a nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; ao contrário, a imagem do mundo tem que ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos. Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestaltet). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia de fatos (…) Agora existe a visão disso. Os fatos tem significado somente até o ponto em que o mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles.[2] .

Quando li este fragmento pela primeira vez, vi conexões diretas com o que havia estudado sobre Fenomenologia, saltando aos olhos a busca pela essência das coisas, através da percepção da realidade a partir das significações criadas por nós por meio as experiência sentida, que espelha o mundo. Tocou em mim, em especial, a idéia do papel ativo do poeta, como aquele que percebe o mundo de forma vivencial e subjetiva, sendo ele o que estrutura, organiza e dá forma a essa percepção.

Essa aparente constatação de um relação entre a Fenomenologia e o Expressionismo (e a própria Psicologia da Gestalt, que ecoa pelo uso da expressão alemã gestaltet), de início, de causou grande fascínio, de modo que fiquei a especular ingenuamente se o Expressionismo era fenomenológico ou a Fenomenologia era expressionista. Hoje tento responder a essa questão levando em consideração o contexto histórico-cultural em comum em que ambos os movimentos, filosófico e artístico, se desenvolveram na Alemanha de fins do século XIX e início do XX.

Buscando outras referências sobre o Expressionismo, descubro que este se desenvolveu em diversos campos, envolvendo desde uma fase pré-expressionista na pintura de Cézanne e Van Gogh, na segunda metade do século XIX; movimentos literários e artísticos, com o surgimento de revistas de cunho político, artístico e filosófico, na Alemanha das duas primeiras décadas do século XX; tendo, por fim, seu término decretado pela ascensão do nazismo em 1933. O Expressionismo, nas suas mais variadas manifestações (literatura, artes plásticas, teatro e cinema), refletia sobre o caos político, social e religioso que marcou a Europa, sendo influenciado pelo pensamento de Nietzsche e pelo decadentismo fin de siècle.[3]

Tratou-se, no entanto, não de um movimento de caráter popular, mas sim intelectual, em que se engajavam jovens escritores, artistas e filósofos, muitos de ascendência judaica, que no período da 1ª Guerra Mundial se movimentaram contra os a guerra e propunham reformas sociais radicais, tendo como base um espírito comunitário e um humanismo universal. Esse caráter intelectual é descrito na citação do texto “A Revolta Expressionista”, de Luiz Nazário (1999, 2001), em referência extraída de Lionel Richard , em “D’un Apocalypse à l’autre”, pp 129-133:

Espírito prático, Wilhelm Michael propôs a formação de um Congresso Internacional de Intectuais: cada país elegeria seus poetas, escritores, artistas, sábios e pacifistas e os encarregaria de representá-los. Estes formariam o primeiro Parlamento da Comunidade Universal, reunindo-se a cada ano num país deferente para conferenciar sobre as possibilidades de educar os povos no sentido da amizade e do combate ao ódio, destruindo, sob o fogo do espírito do amor, o bloco de violência e injustiça que o mundo civilizado representava. Kurt Hiller foi mais longe e sugeriu a formação de um Partido dos Intelectuais, com o objetivo de conquistar o Paraíso na Terra; seu programa incluía a suspensão da guerra, reformas econômicas para garantir o mínimo vital a todo cidadão; ajuda aos desempregados e aos criadores; liberdade sexual com o reconhecimento da homossexualidade; racionalização da procriação; abolição da pena de morte; proteção do indivíduo diante do crescente poderio da psiquiatria; transformação das escolas de ensino em escolas de pensar; combate contra as Igrejas e Parlamentos; estabelecimento de uma aristocracia do espírito; liberdade total de expressão[4].

Este contexto sócio-político-cultural, que constituiu a Zeitgeit, a cosmovisão da Europa do início do século XX, serviu como base e influência para a formação intelectual Fritz Perls nos 30 primeiros anos de sua vida, em especial no período em que viveu em Berlim, quando participou de círculos intelectuais e boêmios.

O contato com o Expressionismo não se restringiu à sua experiência no teatro de Max Reinhardt[5], mas também pelo contato com Salomo Freidlander, que, além de filósofo, era escritor expressionista e dadaísta, e, sob o pseudônimo de Mynona, contribuir para revistas expressionistas como Der Sturm (A Tempestade), Die Aktion (A Ação), Der Einzige (O Único) e Der Jugend, além de ter realizado escritos dadaístas intitulados Groteske e Parodie. (Dos escritos literários de Friedlander, tive contato apenas com 2 textos em língua inglesa, intitulados “Gramophone” e “Abduction”, disponíveis na internet, que versam sobre aspectos da modernização industrial).

Em sua autobiografia, Fritz registra o círculo cultural boêmio freqüentado por ele na em Berlim, e o contato com esta face expressionista/dadaísta de Friedlander, para além da influência deste como filósofo, com a teoria da Indiferença Criativa:

Eu e alguns médicos amigos pertencíamos à classe boêmia de Berlim, que tinha como ponto de encontro o Café do Oeste[6], e mais tarde o Romanische Café.Ali se reunia muitos filósofos, escritores, pintores, políticos radicais e ainda um sem-número de freqüentadores. Uma das pessoas obviamente era Friedlander, embora nos encontrássemos quase sempre no estúdio de um pintor. Friedlander ganhava dinheiro escrevendo estórias muito engraçadas sob o nome de Mynona, que é a palavra anonym (anônimo) escrita ao contrário. Seu trabalho filosófico Creative Indifference (Indiferença Criativa) teve tremendo impacto sobre mim.[7]

Também Martin Buber, filósofo que muito influenciou Laura Perls, e consequentemente das bases filosóficas da GT, pelo existencialismo dialógico e relação EU-TU, contribuiu para revistas expressionistas pioneiras, como a Die Neue Gemeinschaft (A Nova Comunidade), onde propagava a filosofia romântica do retorno à natureza como condição para o nascimento do Novo Homem[8], tendo como base o judaísmo hassídico.

É importante ressaltar, ainda que de passagem, a fim de conclusão dessa primeira articulação entre a GT e o Expressionismo, a presença de J. L. Moreno como outro representante do movimento expressionista, ao ser organizador e colaborador da revista existencialista e expressionista Daimon Magazine, de 1917 a 1920, juntamente com Max Scheler, Kafka e Martin Buber[9], e pelo desenvolvimento do seu Teatro Vienense da Espontaneidade, em 1921, que serviria como embrião do Psicodrama.

2) Estados Unidos: décadas de 40 a 60. Contracultura, Movimento Beat.

O segundo paralelo que me proponho a estabelecer nesta aproximação entre GT e Literatura se dá pelo presença de Fritz Perls nos Estados Unidos, a partir da década de 40, vindo a entrar em contato e a fazer parte do movimento da Contracultura.

Conforme é apresentado por Kyian (2006), após a 2ª Guerra Mundial, Fritz Perls decide sair da África do Sul, onde havia se exilado juntamente com Laura, com a ascensão do nazismo, e parte para os Estados Unidos, onde se estabelece em Nova York, num período de dez anos, que vai de 1946 a 1956. Lá conhece Paul Goodman, escritor e crítico, considerado um intelectual controvertido, mas bastante respeitado, bissexual e anarquista. Nesse primeiro contato com Paul Goodman, Perls é inserido em um grupo de intelectuais compostos por John Cage, James Agee, Dwight McDonald, Julian Beck e Judith Molina, onde se propunha uma vivência de honestidade e experimentação que fugisse ao contexto social e repressor vivido na sociedade americana.[10]

Posteriormente, ele é apresentado a Elliot Shapiro (educador), Paul Weiz (médico que apresenta a Perls o zen-budista), Isadore From (homossexual), Ralph Heferline (acadêmico) e Jim Simkin, que formaram, juntamente com Fritz, Laura Perls e Paul Goodman, o Grupo dos Sete, responsável pela organizou e sistematização das bases teóricas da GT em 1950. Dessa união viria a surgir “bíblia” da GT, o Gestalt-Terapy (1952), além da criação do Instituto de Gestalt-Terapia de Nova York.

Perls, no entanto, dedicou-se, a partir desse período, a uma vida “andarilha”, contribuindo pouco para sistematização da GT, encarregando-se principalmente da divulgação da abordagem em outras regiões dos EUA, em viagens que fez a Cleveland, Detroit, Toronto, Miami e, entre 1959 e 1963, empreendeu viagens ao redor do mundo, entrando em contato com comunidades beatniks, em Israel, e em um mosteiro zen no Japão.[11] Nesse ponto é que surge meu interesse em pontuar a conexão que vejo entre a GT e o movimento beat.

No mesmo período da ida de Perls a Nova York, na década de 40, surge nos EUA, também nesta cidade, um grupo de jovens intelectuais e “vagabundos” composto por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Neal Cassady e Carl Salomon, que vem a se consolidar na década de 50 como o movimento literário e cultural beat, que sob a influência do jazz e do rock n’roll, deu início a uma geração marcada por uma cultura de contestação ao Establishment que viria a culminar com a Contracultura dos anos 60 e 70.

Elias Boainain Jr (1998) descreve esses anos da Contracultura, esse novo Zeitgeist revolucionário – muito semelhante ao vivido no início do século na Alemanha –, da seguinte forma:

Anos de revoltas políticas e de costumes, sobretudo entre a juventude, e em que mais do que nunca a contestação ao sistema e aos valores estabelecidos estava na ordem do dia. Anos marcados pelo que, na expressão cunhada por Theodore Roszak (s/d.), foi chamado de contracultura: revoltas estudantis, movimento hippie, mobilização pacifista contra a Guerra do Vietnã, ativismo político, organização das minorias raciais e feministas, desafio á autoridade, revolução underground nas artes, oposição ao materialismo consumista, valorização do corpo, do sentimento, do amor livre, da experimentação psíquica por meio de drogas psicodélicas, da ecologia, da auto-expressão espontânea e das experiências meditativas e espirituais. Essas tendências todas convergiriam na rejeição aos modelos tradicionais de família, trabalho, escola, relações interpessoais, igreja, governo, instituições em geral e da própria cultura ocidental. [12]

Este contexto histórico cultural é apontado como o propiciador do desenvolvimento da 3ª Força em Psicologia, o Movimento Humanista, do qual tratarei posteriormente, quando discutirei a questão referente aos relatos autobiográficos.

Voltando ao termo beat, este designa o movimento literário que deu início à Contracultura nos anos 50, e significa, dentre outras coisas, beatitude, beato, santificação, além da batida do jazz, o embalo, o ritmo, sendo usado também para expressar cansaço e saturação, tendo o movimento beat como marca a vida nômade e a estrada sem rumo de On The Road, de Jack Kerouac, escrito em 1951 e publicado em 1957. (Carmo, 2003) Essa obra cria o mito do vagabundo e relata

as experiências e atitudes de um grupo de jovens norte-americanos, loucos por emoções fortes e cujos principais interesses na vida, além da literatura, giram em torno de viagens, estradas, agitadas festas, jazz, sexo, carona, drogas. (…) Ao rejeitar os valores burgueses, os beatniks valorizavam a espontaneidade, a natureza e a expansão da percepção, que alcançariam através das drogas, do jazz e das religiões orientais.[13]

Em sua autobiografia, “Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo” (1969), Perls relata o mesmo tipo de experiência de errância descrito por Kerouac em On The Road, ao atravessar o deserto de Israel, quando vai a um kibutz e entra em contato com um grupo de hippies e de beatniks. Diante desse contato, no entanto, Perls faz uma diferenciação entre essa nova juventude que ele vê surgir e o grupo boêmio do qual fez parte, na Alemanha berlinense:

O fato é que guiei sozinho aqueles 500 quilometros pelo deserto (…) Ao contrário das minhas expectativas, a viagem não foi nem um pouco chata. A estrada era estreita, mas asfaltada e, em sua maior parte, em boas condições. (…) Achei alguns vagabundos de praia, em sua maioria americanos, fascinantes. Hoje os chamamos de hippies, e eles são encontrados aos milhares. É claro que entre a nossa turma boêmia de Berlim havia um ou outro tipo ocasional cuja profissão era não fazer nada; mas a maioria era constituída de gente ávida de se tornar importante e conseguir algo na vida, e muitos conseguiram. Eu também tinha encontrado beatnicks, que haviam tentado e desistido; gente zangada batendo cabeça contra as regras de ferro da sociedade. (p. 117-118)

Outro representante importante do movimento beat e posteriormente da contracultura americana, foi Allen Ginsberg, autor do poema Howl (Uivo), publicado em 1958, que sintetiza as experiências de toda a Geração Beat, como no fragmento inicial citado a seguir:

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz (…)

No editorial da edição de 1997, da Gestalt Review, Joseph Melnick compara Allen Ginsberg aos fundadores do movimento da Gestalt Terapia, quanto a alguns valores filosófico, social e políticos, colocando-os como líderes do progressivo zeitgeist social que contestou a ordem social conservadora dominante na década de 50. Melnick compara Ginsberg e Perls pelo otimismo radical, dividindo ambos a posição de gurus da Contracultura. Eles teriam em comum o discurso marginal e a valorização do conflito criativo e da expressão honesta das diferenças. Já as semelhanças de Ginsberg com Paul Goodman se dariam pela defesa que faziam da homossexualidade e do pacifismo anti-guerra, empreendidos na década de 60, bem como o pouco reconhecimento que tiveram, Ginsberg e Goodman, na poesia e na produção psicológica, respectivamente.[14]

Desta forma, podemos verificar grandes aproximações entre as origens da GT e o movimento beat, havendo inclusive algumas coincidências, como o fato de tanto o grupo dos 7 quanto o composto por Ginsberg, Kerouac e outros, ter se dado em Nova York, e de Perls, ter empreendido viagens, assim como os beats, em direção à Califórnia (como o fez Kerouac em On The Road) e, posteriormente ao redor do mundo, entrando em contato com o orientalismo zen.

A casa onde Perls residiu no período de 1964 a 1969, em Esalen, localizava-se em Big Sur, e bem poderia ser a mesma cabana vista a distância e descrita por Kerouac, na obra também intitulada Big Sur (1962):

Naquela primeira noite a primeira coisa que percebo é que a luz da cozinha está acesa, no alto do despenhadeiro, à direita onde alguém construiu uma cabana onde se descortina toda a paisagem terrível de Big Sur, alguém lá no alto está fazendo uma ceia leve e gostosa é só o que eu sei - A luz da cozinha da cabana lá no alto é como um farolzinho fraco e morre em pleno ar suspensa a trezentos metros acima das ondas furiosas – Para construir uma cabana lá no alto só mesmo um arquiteto blasé velho gruisalho aventureiro (…) [15]

A descrição feita por Perls de Esalen é semelhante à realizada por Kerouac, principalmente na descrição da paisagem composta por mar e rochedos:

A minha casa fica a cem metros acima dos banhos, bem sobre o rochedo. Ela é em grande parte escavada na montanha, então tem uma vista de milhares de quilômetros quadrados de oceano, e também dos rochedos selvagens, interrompendo o ruído e o balanço incansável do mar, cedendo apenas algumas rochas para as ondas existentes. A gente não sai pela porta, a gente emerge, não como antes, entrando na natureza intocada, mas numa mistura de visão magnífica, degraus de pedras naturais que são uma extensão da parede de pedra circular, cabanas e automóveis, mais embaixo. [16]

Esses fragmentos servem como exemplo do contato, mesmo que indireto, entre Perls e o movimento beat, no caldeirão cultural que representou a Contracultura americana, celeiro para a emergência de várias das principais abordagens que constituíram o movimento humanista da Psicologia, a 3ª Força.

3) EUA e Brasil. Décadas de 60 a 80: Psicologia Humanista, Gestalt-Terapia e narrativas autobiográficas.

É importante salientar que é nas décadas de 50 e 60 que, nos EUA, o movimento Humanista se estabelece, muito influenciado pela Psicologia da Gestalt de Wertheimer, Koffka e Kohler e por psicólogos humanistas de formação gestaltista como Goldstein, Angyal e Lewin, tendo também como influência as teorias neopsicanalíticas, holistas, as Psicologias Esistenciais e as Escolas americanas de Psicologia da Personaidade[17].

As principais abordagens a que me proponho reportar nesta terceira parte do trabalho são além da GT, a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, tendo como principal argumento o fato de, ao menos no Brasil, a literatura rogeriana ter servido de grande influência, na década de 60, para os gestalt-terapeutas[18]. (Juliano, 2004).

Meu interesse consiste em elencar as narrativas e relatos autobiográficos produzidos tanto na Gestalt-Terapia, quanto na literatura rogeriana, por considerar estas obras como de grande importância, não apenas histórica. O que tem-se observado nos. últimos 30 anos em GT, foi uma ênfase maior na fundamentação teórico-filosófica da GT, em detrimento, com algumas exceções, do caráter vivencial e reflexivo presente nessas obras iniciais.

As narrativas que busco resgatar a título de indicação bibliográfica, trazem o que considero a matriz da experiência gestaltica, com uma ênfase dirigida ao vivido, ao aqui-agora, a vida cotidiana do homem e do terapeuta humanista gestáltico.

Dentre as obras que classifico como narrativas, situo primeiro alguns “clássicos” de autores humanistas de influência rogeriana como:

  • As obras “Tornar-se pessoa” (1961) e o “Um Jeito de Ser” (1980) de Carl Rogers, em que este mescla, em alguns capítulos, reflexões pessoais sobre o desenvolvimento da teoria da ACP, apresentando uma perspectiva autobiográfica;

  • Os capítulos autobiográficos de Barry Stevens contidos no “De Pessoa para Pessoa” (1967), sob o títulos “Da minha Vida em que ela dialoga com a teoria de Rogers, através de uma leitura pessoal, associada a fatos de sua vida, sentimentos e pensamentos decorrentes de vivências cotidianas;

  • A mulher emergente: uma experiência de vida” de Nathalie Rogers (1980), filha de Carl Rogers, que traz em uma obra autobiográfico reflexões sobre a mulher, a busca do feminino, o uso de grogas alucinógenas e o despertar da sexualidade, temas emergentes a partir no movimento de Contracultura americano ;

  • Vestígios de Espanto: notas de fim de semana de um psicólogo” (1985) de John Keith Wood, que traz uma escrita coleção de relatos cotidianos e narrativas curtas, poemas, ensaios sobre a ACP, em que ele faz uma crítica à ciência positivista americana, em favor de um olhar de estranhamento e reencantamento diante do mundo e do homem.

Dentre as obras de inspiração gestáltica, cito:

  • A já comentada nessa apresentação autobiografia do Fritz Perls, “Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo” (1969), escrita em Esalen e Cowikan, em 1969, na qual ele faz um retrospecto de sua vida, revive experiências e tenta fechar gestalten inacabadas, utilizando-se de uma escrita fragmentada e polimorfa em prosa, poesia e drama (nos momentos top dog-under dog) e realiza importantes reflexões teóricas sobre a Gestalt-Terapia;

Essa obra em especial é muito criticada pelo seu caráter confuso e fragmentado (Kyian, 2006), mas considero de grande importância por trazer uma reflexão do próprio Perls sobre sua trajetória pessoal e da abordagem, na forma como ele a concebia. As aberturas deixadas por Perls servem, a meu ver, como brechas e portas para o desenvolvimento da Gestalt e os vários estilos empregados em sua narrativa reproduz a premissa tão enfatizada, mas às vezes esquecida, do gestaltista que, fazendo seu próprio trajeto de vida, configura a GT da sua forma, a partir de sua experiência pessoal.

  • Não Apresse o Rio: ele corre sozinho” (1970) de Barry Stevens, que envolve um relato em primeira pessoa sobre suas experiência no Instituto Gestalt do Canadá, o gestalt-kibuts em Cowikan, em 1969. Esta serve quase como uma continuidade e um contraponto da autobiografia do Perls, onde ela o descreve de forma distinta a que ele mesmo se faz representar. Além disso, ela descreve o convívio em comunidade, exercita a focalização da awareness em momentos do aqui e agora, revisita, através das memórias, experiências vividas em aldeias de índios americanos, numa perspectiva etnográfica sobre o cotidiano, se aproximando pela simplicidade da narrativa ao censo comum, ou à denominada “Psicologia popular”, tecendo também reflexões sobre o envelhecimento e maternidade.

Além dessas duas obras ligadas mais diretamente ao que se poderia chamar de uma “literatura gestaltica”, pontuo também o artigo de J. Lederman, “A cólera e a cadeira de balanço” (FAGAN e SHEPHERD, 1980), onde esta relata na forma de poesia um caso envolvendo a aplicação de técnicas gestalt com crianças.

A dimensão e o estilo autobiográfico dessas obras é também observado nas primeiras obras de caráter teórico mais sistematizado, da GT, como o “Gestalt Terapia Integrada”, do casal Polsters (1973; 2001) e o “Gestalt – uma terapia do contato” de Serge e Anne Ginger (1987; 1995). Nestes, os autores se utilizam de exemplos da esfera do vivido, seja pessoal, seja da experiência clínica, para desenvolver uma articulação teórica e conceitual sob uma perspectiva fenomenológico-existencial.

4) Brasil, 1980 até os dias atuais. Escritos poéticos e a arte de contar histórias.

O último ponto que pretendo tratar diz respeito à “literatura gestaltica” que emerge atualmente no Brasil, paralelamente ao número significativo de publicações teóricas. Durante os mais de trinta anos de Gestalt-Terapia no Brasil, como já mencionei, observamos uma grande preocupação dos gestalt-terapeutas no sentido de tornar evidente a consistência da abordagem através da exploração e explicitação de suas bases filosóficas e fundamentação teórica, bem como a questão da técnica clínica e ou instrumentais, o que teria repercutido de forma evidente o crescimento de produções de mestrado e doutorado nos últimos 30 anos (Holanda, A. F. e Karwowski, S. L., 2004). Esses anseios de fundamentação da abordagem vêm da demanda dos gestalt-terapeutas de dar mais legitimidade à GT no campo das práticas psi, buscando tornar mais consistente sua formação profissional (Frazão, 1995).

Neste contexto cito três representantes deste movimento que creio seguiram caminhos bem próprios e poéticos: Jorge Ponciano Ribeiro, Jean Clark Juliano e Paulo Barros.

Paulo Barros, morto no ano passado, foi um importante impulsionador da GT no Brasil, ao viabilizar, junto à editora Summus, na condição de tradutor, revisor e organizador de traduções de obras estrangeiras.

Em “Narciso, a bruxa e outras histórias psi” (1994), Barros é fortemente influenciado pela Psicologia Analítica e pela Dasainanálise, seus contos em formas de fábulas e histórias infantis trazem personagens arquetípicos, e seus poemas refletem questões como a existência, a temporalidade e a finitude humana. Além disso, suas articulações teóricas, do início da década de 90, já apontam para críticas aos caminhos adotados pelos gestalt-terapeutas, ressaltando a necessidade de não se esquecer a dimensão sensível e experiencial do terapeuta, suas falhas, suas feridas e sua condição de humano. Em uma escrita “polimorfa” que, tal como a de Perls em sua autobiografia, mescla poesia, prosa e teorizações. Os “ruídos” que emanam de sua escrita servem como potencializadores de “insights”, e, em suas narrativas, desenvolve-se um olhar para o vivido, para uma psicologia popular, um saber ancestral e mítico, ateórico. Arte de contar histórias.

Em “Amor e ética” (2006), sua última obra publicada, Barros segue o mesmo estilo, mas inova ao trazer discussões sobre a internet como forma de pesquisa, apontado para os novos tempos, o mundo virtual. (Nesse ponto abro um parêntese e ressalto um interesse pessoal meu por um fenômeno atual: o blog e as escritas autobiográficas. Conteúdo ainda inexplorado, ou pouco explorado no campo psi.)

Jorge Ponciano Ribeiro certamente é o que desenvolveu de forma mais significativa, ao menos em número de publicações, obras que serviram ao objetivo de consolidar a GT enquanto abordagem reconhecida no campo da Psicologia. É interessante notar, no entanto, o seu estilo próprio de fazer teoria, muitas vezes recorrendo a uma linguagem poética, poucas vezes acessível ao leitor num primeiro momento.

Apenas a título de exemplo, cito uma das definições de contato que ele traz nas primeiras páginas do seu livro “O Ciclo de Contato” (1997):

CONTATO É ARTE. Ternura, suavidade, carinho, disciplina, clareza, muitas vezes são os verdadeiros alimentos do contato. O corpo é o santuário onde habitamos, uma oração visível saudando o universo. Obra de arte, a mais fina, imagem e semelhança de Deus, o corpo é a projeção da arte interior de cada um de nós. O corpo é a pessoa, é o retrato de si mesmo, da minha história, por isso só pode ser falado por mim. Se o outro me toca eu ou eu toco o outro, devo faze-lo com a reverência própria de quem entra num santuário à procura do sagrado.[19]

Esse estilo poético, marcado por reflexões que transcendem a teoria e se desenvolve em direção ao sagrado, é evidenciado pelo estilo literário de Ponciano, e, em sua última obra “Ruídos: contato, luz, liberdade: um jeito gestaltica de falar do espaço e do tempo vividos” (2006) ganha uma forma livre, voltada para a narrativa do cotidiano, através de contos, crônicas, reflexões de pensamento livre em articulação com o vivido. Tais reflexões articulam temas da religião (cristianismo), espiritualidade, viagens (Santiago de Compostela), em conexões com a natureza, holismo e totalidade.

Por último, mas não menos importante, Jean Clark Juliano, uma das pioneiras da GT no Brasil, traz em diversos artigos essa história por ela vivida, refletindo pelo caminho trilhado no Brasil, pontuando seus conflitos, buscas por aprofundamento teórico, tentativas e erros.

Em seu livro “A Arte de Restaurar Histórias” (1999), ela trata do trabalho do psicólogo, utilizando como metáfora a imagem do terapeuta como artesão que cria colchas a partir dos retalhos de vida de seus clientes. Retalhos que são fragmentos de histórias. Nesta obra, também, num estilo próprio, ela traz cartas, reflexões, memórias, memórias da GT brasileira, um olhar sobre o envelhecimento, sobre a morte, o luto. Temas gerais sob uma perspectiva não teórica, poética, através de um olhar sobre o mundo e a vida.

Estes autores brasileiros, cada qual com sua especificidade, com seu “estilo” próprio, faz articulações entre fantasia, ficção e autobiografia, numa proposta que transcende o campo da teorização e adentra uma metapsicologia, uma reflexão sobre a vida e a existência, sobre o ser pessoa, o ser psicólogo, num processo de construção e desconstrução de significados.

CONCLUSÃO

Concluo, então, este trabalho, que antes de tudo defino como uma tentativa de abrir uma via de articulação possível entre Gestalt-Terapia e a literatura, buscando compreender vínculos existentes entre a experiência vivida e significada e as construções poéticas e narrativas dos relatos autobiográficos presentes em obras da Psicologia Humanista e Gestalt-Terapia.
Acredito que estes registros por mim sumariados seriam embriões para um possível uso da literatura enquanto momento de contato e awareness da pessoa consigo mesma e com sua história de vida, significada e ressignificada no momento da escrita, nas construções e reconstruções do si-mesmo.
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WOOD. J. K. (1985). Vestígios de espanto: notas de fins fé semana de um psicólogo. São Paulo: Agora, 1985.


[1] Cf.

[2] TELES, G. M. (1999). Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Editora Vozes. p. 111.

[3] TELES, G. M. (1999). Op. Cit. p. 105.

[4] NAZARIO, L. (1999). “A Revolta Expressionista”, in As sombras Móveis. Belo Horizonte: Editora da UFMG/mídia@rte, 1999. Ampliado e disponível no site: http://www.expressionismo.pro.br/express.html.

[5] Max Reinhardt é apontado por Einser (1985), não como expressionista, mas como impressionista, tendo resistido a inovações propostas pelos jovens artistas expressionistas. Cf. EISNER, L. H. (1985). A Tela Demoníaca: As influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra: Instituto Goethe. P. 45-46.

[6] Esse mesmo local é apontado no texto de Nazario (1999) local de reunião de intelectuais e artistas expressionistas, sob o nome de Café des Westerns ou “do Ocidente”.

[7] PERLS, F. S. (1979). Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo. São Paulo: Summus. P. 74-75.

[8] NAZARIO, L. (1999). Op. Cit.

[9] GONÇALVES, C. S.; WOLF, J. R.; ALMEIDA, W. C. de. Licções de Psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Agora, 1988. Conforme os autores desse livro, Moreno teria colaborado na Daimon Maganize juntamente com Martin Buber, Max Scheller, Jacó Wasserman e Kafka. Há, no entanto, impasse quanto à veracidade da contribuição de Buber para essa revista e do possível contato estabelecido entre ele e Moreno, conforme apresentado no artigo de Von Zuben (1990), “Jacob Levy Moreno e Martin Buber: um encontro”, in: O Psicodramaturgo J. L. Moreno, 1889-1989. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1990, p. 106-118.

[10] KIYAN, A. M. M. E a gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana. P. p. 57-59.

[11] Ibid, p. 27.

[12] BOAINAIN JR, E. Tornar-se transpessoal: transcendência e espiritualidade na obra de Carl Rogers. São Paulo: Summus, 1998, p. 28.

[13] CARMO, P. S. do. Culturas de rebeldia,: a juventude em questão. 2ª ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2003. p. 28.

[14] MELNICk, J. Editorial In: Gestalt Review, 1(3): 185-189, 1997.

[15] KEROUAC, J. (1985). Big Sur. São Paulo: Editora Brasiliense S.A., p. 24-25.

[16] C. f. KYIAN, Op. Cit. p. 83.

[17] Cf. BOAINAIN JR. Op. cit. p. 24-27.

[18] Cf. JULIANO, J. C. “Gestalt-terapia: revisitando as nossas histórias”. In: IGT na Rede, Revista Virtual, 2004.

[19] RIBEIRO, J. P. (1997). O Ciclo do Contato. São Paulo: Summus.

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*Artigo publicado na revista IGTnaREDE, de 2009, sob o título Gestalt, literatura e “literatura gestáltica”: expressionismo, contracultura e narrativas autobiográficas. Disponível para ser baixada no formato PDF em http://www.igt.psc.br/ojs/viewarticle.php?id=231

Gestalt e Literatura: uma proposta de articulação

- proposta de trabalho para o XI Encontro/VIIICongresso de Gestalt-Terapia – Rio de Janeiro –

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

RESUMO:
Este trabalho tenta estabelecer um paralelo entre GT e literatura, relacionando as origens da GT com o expressionismo alemão e o movimento beat americano dos anos 60, analisando traços literários presentes nas narrativas autobiográficas e teorizações em GT e refletindo sobre a atual produção de uma “literatura gestalt” brasileira.

Durante os mais de trinta anos de Gestalt-Terapia no Brasil observamos uma grande preocupação dos gestalt-terapeutas no sentido de tornar evidente a consistência da abordagem através da exploração e explicitação de suas bases filosóficas e fundamentação teórica, bem como a questão da técnica clínica e ou instrumentais, o que teria repercutido de forma evidente nas produções de mestrado e doutorado nos últimos 30 anos (HOLANDA, A. F. e KARWOWSKI, S. L., 2004). Esses anseios de fundamentação da abordagem vêm da demanda dos gestalt-terapeutas de dar mais legitimidade à GT no campo das práticas psi, buscando tornar mais consistente sua formação profissional (FRAZÃO. L. M. in CIORNAI, S., 1995).

Neste trabalho, no entanto, proponho trilhar um caminho distinto, tentando estabelecer uma articulação que considero ainda pouco explorada nas investigações empreendidas sobre a abordagem. Trata-se de traçar possíveis relações entre a Gestalt-Terapia e a literatura.

Na própria Psicologia a articulação com a literatura ainda é pouco explorada, ou é feita principalmente pela Psicanálise, que tende a trabalhar com aspectos ligados a projeção e sublimação dos desejos do autor, num enfoque que enfatiza aspectos de sua personalidade e/ou possíveis efeitos catárticos sobre o leitor (LEITE, 1962).

Proponho, então, uma leitura indireta, levando em consideração três contextos e momentos histórico-culturais distintos: 1) o pós 1º Guerra Mundial e emergência do movimento expressionista alemão; 2) os EUA das décadas de 60-80, envolvendo o movimento da contracultura, a emergência da Psicologia Humanista e a literatura beat, e 3) o Brasil da década de 90 à atualidade.

A primeira articulação, situada no contexto da Alemanha pós 1ª Guerra Mundial, diz respeito ao impacto do expressionismo sobre a primeira etapa da vida de Perls, geralmente associada à sua participação no teatro de Max Reinhardt (PERLS, 1979), e ao contato com S. Friedlaender, grande influenciador de Perls através de sua filosofia da Indiferença Criativa (PERLS, 1979 e 2002; STEVENSEN, 2004). O que geralmente é pouco considerado é a participação de Friedlaender como parte desse movimento expressionista, sob o pseudônimo de Mynona.

Não pretendo me aprofundar muito nesse recorte, proponho apenas para a conexão que há entre a poesia expressionista em seus fundamentos e uma dimensão vivencial e fenomenológica da poesia, conforme se apresentada de forma implícita no manifesto “Expressionismo na poesia” de Kasimir Edschmid (TELLES, 1997).

A segunda articulação, na qual pretendo me deter mais extensamente, relaciona-se às narrativas e relatos autobiográficos produzidos tanto na Gestalt-Terapia, quanto em representantes da Psicologia Humanista. Dentre essas obras situo “Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo” (1969), a autobiografia do Fritz Perls, escrita em Esalen, na qual ele narra passagens de sua vida e realiza reflexões sobre a Gestalt-Terapia e “Não Apresse o Rio: ele corre sozinho” (1970) de Barry Stevens, que envolve um relato em primeira pessoa sobre suas experiência no Instituto Gestalt do Canadá em Cowikan, em 1969.

Além dessas duas obras ligadas mais diretamente ao que se poderia chamar de uma “literatura gestaltica”, pontuo também o artigo de J. Lederman, “A cólera e a cadeira de balanço” (FAGAN e SHEPHERD, 1980), onde esta relata na forma de poesia um caso envolvendo a aplicação de técnicas gestalt com crianças, além de “clássicos” de autores humanistas como o “Tornar-se pessoa” (1961) de Carl Rogers, os relatos autobiográficos de Barry Stevens contidos no “De Pessoa para Pessoa” (1967), além do “Vestígios de Espanto” (1985) de John Keith Wood.

O que há em comum entre esses relatos, e que de alguma forma se manifesta em menor escala também em obras teóricas como o “Gestalt Terapia Integrada”, dos Polsters (1973; 2001) e o “Gestalt – uma terapia do contato” de Serge e Anne Ginger (1987; 1995), é a dimensão pessoal e autobiográfica que esses autores utilizam ao trazer a esfera do vivido para uma articulação com o pensamento fenomenológico-existencial. Cada qual com sua especificidade, com seu “estilo” próprio, faz articulações entre fantasia, ficção e autobiografia, numa proposta que transcende o campo da teorização e adentra uma metapsicologia, uma reflexão sobre a vida e a existência, sobre o ser pessoa, o ser psicólogo, num processo de construção e desconstrução de significados.

A partir dessas obras creio ser possível estabelecer também uma relação com aspectos da contracultura (PEREIRA, 1984), contexto de emergência das abordagens humanistas (CIORNAI, 1995; BOAINAIN JR., 1998), e com o movimento literário beat (BUENO e GÓES, 1984). Esta última relação, por analogia, seria possível principalmente na autobiografia do Perls (1979), posto que esta evidencia uma grande aproximação entre o percurso de vida de Perls e a dos poetas beat americanos, pelo registro das viagens ao redor do mundo, uso de drogas, orientalismo e liberdade sexual.

Creio que, em grande medida, essas obras se encontram um pouco negligenciadas nas discussões atuais na abordagem gestáltica, justamente por seu caráter desatrelado de uma proposta formadora de teorização e fundamentação científica da Gestalt ou da Psicologia Humanista. Acredito que este abandono é perigoso, posto que essa “literatura” representa um documento histórico importante para se compreender não só as origens da 3ª Força em Psicologia, como pode conter elementos latentes ainda por serem melhor explorados, principalmente no que tange a relação entre psicologia e literatura.

O terceiro e último ponto que pretendo tratar diz respeito à “literatura gestaltica” que emerge atualmente no Brasil, paralelamente ao número significativo de publicações teóricas. Trata-se das obras “Narciso, a bruxa e outras histórias psi” (1994) e “Amor e ética” (2006) de Paulo Barros, “A arte de restaurar histórias: libertando o diálogo” (1999), de Jean Clark Juliano e o “Ruídos: contato, luz, liberdade: um jeito gestaltico de falar do espaço e do tempo vividos” (2006), de Jorge Ponciano Ribeiro.

Proponho com esse trabalho, pois, abrir uma via de articulação possível entre Gestalt-Terapia e a literatura, buscando compreender vínculos existentes entre a experiência vivida e significada e as construções poéticas e narrativas dos relatos autobiográficos presentes em obras da Psicologia Humanista e Gestalt-Terapia. Acredito que estes registros seriam embriões para um possível uso da literatura enquanto momento de contato e awareness da pessoa consigo mesma e com sua história de vida (POLSTER e POLSTER, 2001), significada e ressignificada no momento da escrita, nas construções e reconstruções do si-mesmo.

EQUIPAMENTO UTILIZADO: data-show.

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Indivíduo e Sociedade?

Uma tentativa de síntese.*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Estar diante do outro, um estranho, é defrontar-me com a sensação de fragilidade. O outro me aprisiona com o olhar. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. Diante do outro, estranho, não consigo deixar de ser eu mesmo, em minha dança encenada de papéis, sempre tropeçando, sempre gaguejando, sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional, sem pestanejar, aprisionando meu presente, cristalizando minha existência num olhar, num adjetivo, num conceito, numa crença concebida na superfície que demonstro ser, como lago. Diante do outro, conhecido, quando creio mininamente conhece-lo, tento ser eu memso. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser, diante do outro, na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. Sempre me será um estranho, assim como eu a ele. Mesmo na cotidianeidade, nos dias partilhados em intinmidade, sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. O estranho se revela a mim, como eu a ele, na parcialidade de um ângulo, de um momento passageiro, num instante de lapso, e cada novo encontro vai deixando indícios, sinais, que confirmam ou negam a primeira impressão. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo.

Não tentarei ser comportado. Admito, desde o início, que não segui os passos indicados. Não fui sistemático e rigoroso, não fiz resenhas de capítulos, não li tudo o que devia(?) ter lido. Partirei de minhas impressões gerais, agora, após finalizado o percurso de um semestre, de forma corajosa ou suicida.

Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. Vim cheio de preconceitos, e não sei, admito, se eles foram desfeitos. Há algo ainda em suspensão, uma tentativa de formular um opinião, o receio de expressá-la.

As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses, de corpo fechado. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto, o qual fui expositor, que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar, em contraposição à vida errante e democrática, da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade, no “mundo real” da polis. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro, lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho.

As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. Tentei prestar atenção no que emergia, as falas que surgiam das leituras, os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões. Todos emitindo seus pontos de vista, para uma questão que acho sem solução. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade?

Papéis, herança, identidade. Somos nossa casa, nossa família, nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis, as identidades múltiplas, fluidas, negociáveis na pólis. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento, a cada devis, em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis, como fantoches ou ventrílocos. Não sei. Nessa abertura para o mundo, nos dissolvemos, perdemos a condição de pessoa, nos tornamos anônimos e invisíveis. Quinze minutos de fama, como diria Andy Warhol. Apenas 15 minutos. De resto, somos como os ratos, numa massa que corre em busca da própria sobrevivência, como em Josefina, conto de Franz Kafka.

E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -, ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. Associações entre o burguês e o proletário, numa relação mutualista, cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa, sem que se espere mais nada, sem que se conheça sequer algo do outro. Lembro-me das minhas andanças pela cidade, a pé e de ônibus, desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram, evitando o olhar constrangedor.

As palavras agora são pronunciadas de forma encenada, na política midiatizada, em que se finge santidade e competência, bastando apenas parecer o que não se é. O tempo das cirurgias plásticas, do clareamento dental, da moda sempre em mutação, dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase, melodramas mexicanos, tango. Ninguém é o que realmente aparenta ser. E todos escondem algo por traz do sorriso.

E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. Criamos ficção de um mundo improvável, criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar, utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo, na perda do verdadeiro desejo, sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. Nesse ponto, só consigo ver a arte como salvação, na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. É o mundo das caixas registradoras, e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto.

E me pergunto, de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. O mundo inteligível das idéias. A sociedade formada de homens, caminhando movida por uma mão abstrata, maquinaria pesada ou tecnologia digital, irrealidade e virtualidade, digitalizando-nos, transformando-nos em porcentagens e estatísticas.

Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é, também, um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. Ainda assim somos humanos, vivemos em agrupamentos, trabalhamos e funcionamos, construímos vidas e vias, traçamos rumos que desejamos trilhar, planejamos e nos projetamos existencialmente, ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. Despertar para a visão disso tudo é necessário. Uma saída ensaiada da caverna, mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas?

Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Tantos pontos de vista, tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos, situações, e, todos eles defendendo vieses. Também eu tenho meus vieses, e será que realmente preciso lapidá-los, ou incorporar novas formas, para ser eu mesmo, para ser um outro em auteridade? Será que há essa auteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. Todos nós temos nossas ideologias, nossa forma “melhor” de ver o mundo, nossas verdades, e defendemos como se fossem reais.

Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido, ou é uma grande confusão? Não sei. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. E a tentativa de síntese é falsa. Estou apenas sumariando. Citando. Discorrendo livremente, na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. Mas bem posso estar enganado, e o previsível seja o que se espera. Estou tentando me arriscar. Nada tenho a perder. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça.

O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Mentira! Trago incômodos.

Entre nós há, e se reproduz, o desconforto. Situação atípica. Uma presença. Algo que destoa do resto do grupo. Ela estava lá, fazendo comentários e perguntas incômodas, aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. Às vezes ingênua, outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. Senti prazer em ver essa situação se instaurar, pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados, e domesticados, e que o imprevisível é desconcertante. Acho que é o lugar da loucura no mundo. É motivo de risos e desconforto, quando não censurado e reprimido. Nada se fala, fica a situação velada, mas eis que emerge e se cristaliza o “bode espiatório”.

E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas, para as referências à filosofia alemã, o discurso sobre o desejo, o mais forte que submete o outro por prazer de gozar, o relativismo dos valores como verdade afirmada. Senti-me contente. Momentos inesquecíveis nesse período.

Como saio afinal? Não sei. Algo se moveu, mas não mudei meus pontos de vista. Quero sedimentá-los um pouco, teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise, ao marxismo, à sociologia, à antropologia, às fenomenologias do outro homem. Mas sei-me em mutação. Já não estou mais no início do percurso. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum, posto que dissociada da vivência real com o outro. Saio de uma turma de desconhecidos. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica, foi por minha escolha pela omissão consentida. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto.

Não sei se isso é o bastante. Não sei se tenho mais nada a falar. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. O espaço, eu sei, é importante. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. Eu guardei coisas em mim, que não foram ainda assimiladas. Jogo na lata de lixo de minha cachola, para depois ruminar. Sinto muito, pois tentei ser poeta, e sofista, contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade, defendendo o absurdo.

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*Relatório das aulas da disciplina Indivíduo e Sociedade, ministrada pela profa. Sônia Bahia, no semestre de 2007.2.

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