Gestalt-terapia e transgressão: a relação terapeuta-cliente e a arte na pós-modernidade.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Neste breve ensaio, que neste momento me proponho a escrever, busco apresentar, tomando ainda como base o livro de Hugo Elídio, “Introdução à Gestalt-Terapia”, um paralelo entre essa abordagem e a perspectiva de arte na pós-modernidade. Tenho que admitir que meus argumentos não se fundamentam necessariamente a conhecimento teórico específico, ou seja, não pretendo fazer citações ou lançar mão de referências bibliográficas, mas apenas esboçar um raciocínio decorrente de discussões travadas em nossa última reunião do grupo de estudos e em conversas minhas com minha irmã, concluinte do curso de em Letras, pela UFBA.
Bem, primeiramente tratarei da questão ligada à postura do terapeuta em relação ao cliente na terapia, que creio já ter sido mais do que trabalhada em meus outros textos, mas que retomo agora por achar pertinente e necessário. Tendo como base nossas leituras do livro de Elídio, bem como nossas aulas de Teorias e Sistemas Psicológicos II, com a professora Lika Queiroz, temos que a Gestalt-Terapia, com sua base fenomenológica e existencial, tende a valorizar o sujeito enquanto consciência de si mesmo e do mundo. Nisso, a terapia buscaria validar o sujeito e mobiliza-lo a tomar consciência, awareness, de si mesmo, cabendo ao terapeuta o papel de mediador, de facilitador desse processo de auto-descoberta, através de uma relação dialógica de caráter eu-tu.
Nesse ponto creio que devemos ressaltar o caráter inovador da Gestalt-Terapia e das abordagens humanistas no sentido de verdadeiramente transgredir a noção de terapia como prática de promover a saúde. Transgressora no sentido de corromper com a concepção de doença do modelo médico, que visa geralmente alcançar a cura do sintomas e deixa de encarar o paciente-cliente como um indivíduo, uma totalidade que é muito mais complexo que um organismo físico, sem no entanto desmerecer esse aspecto. É claro que a medicina e as outras áreas de saúde tendem, atualmente, eu imagino, ou torço para que assim seja, a buscar desenvolver esse olhar sensível ao ser humano, como ser dotado de subjetividade, emoções e individualidade, que vai além da disfunção de um órgão ou de um quadro classificado como psicopatológico.
Além disso tudo, e eis um dos aspectos que mais me chamaram a atenção para essa abordagem, é a relação direta da prática com a arte, com formas de expressão, seja ela dramática, corporal, ou visual e expressiva. Nesse ponto também a Gestalt-Terapia traz uma nova dimensão dessas técnicas, no sentido de não buscar a interpretação racional dos produtos de criação artística, como se propõe, por exemplo, a Psicanálise, ao buscar interpretar os elementos simbólicos e inconscientes presentes no objeto criado. A Gestalt-Terapia se preocupa em fazer com que o cliente entre em contato com suas criações, colocando-as como um prolongamento do próprio indivíduo, como parte significativa de sua individualidade e subjetividade, possibilitando assim se estabelecer um momento existencial de auto-descoberta e significação.
Dessa forma não é o terapeuta quem exerce um papel de voz autorizada para interpretar e analisar o sujeito, desvelando seus mecanismos de expressão e comportamento, mas sim o próprio sujeito, o cliente, torna-se responsável por sua vida, sua existência, ao ter valorizado seus aspectos criativos, sua identidade e sua autonomia, ao ter, durante o processo terapêutico, despertada a consciência para sua própria existência, para seu compromisso e sua responsabilidade existencial na relação travada consigo mesmo e com o mundo.
É quanto à questão de corromper com essa “voz autorizada”, exercida pelo terapeuta, que traço um paralelo entre a Gestalt-Terapia e a arte na pós-modernidade.
Durante nossa última reunião do grupo de estudos, quando tratávamos da relação estabelecida entre terapeuta-cliente, lembrei-me de ter visto em uma livraria um livro com um título como “Lixo ou Arte?”. Não me lembro o nome do autor, mas tratava sobre a arte na pós-modernidade, envolvendo os movimentos de arte conceitual e as vanguardas pós-década de cinqüenta. Pelo que eu pude perceber, e coerente a conversas que tive com minha irmã sobre literatura e arte durante o período dela na graduação, creio que o ponto fundamental de discussão era o fato de um objeto aparentemente ordinário, banal e cotidiano, como um conjunto de louça para servir café (exemplo citado no fundo do livro que eu vi na livraria) se tornar um objeto de arte, leiloado por 24 mil dólares, pelo simples fato de ter se transformado em uma relíquia, ao participar de uma performance de um artista servindo xícaras de café para os visitantes de um Museu. A grande polêmica por traz disso está no fato de que a peça em questão, por ter sido qualificada por uma voz autorizada, como um crítico de arte ou um artista famoso, passa a ter um valor maior, adicional, que o distingue dos outros jogos de chá, que o estigmatiza e o rotula como obra de arte, ou lixo. De forma semelhante temos os críticos de literatura que distingue a boa literatura, ou literatura canônica, da baixa literatura, literatura menor ou marginal.
O que percebemos é uma crise, na pós-modernidade, desses juízos de valores, em que o lixo, o ordinário, o cotidiano, ganha qualidades artísticas que corrompe com a estética do belo, com o equilíbrio das formas, por ter acentuado ou sinalizado qualidades além do tradicionalmente estabelecido, do dito canônico ou acadêmico. Se bem, é claro, que para ter um novo significado adquirido ele passa por um processo de ressignificação, de requalificação, estabelecido por uma voz autorizada que corrompe a ordem anterior, transgride as regras, e, de certa forma, estabelece novas formas de ver o mundo, novos paradigmas, nova percepção da realidade.
O importante de se observar é que na última década está havendo uma tendência a se estabelecer um processo mais acentuado de ruptura desses conceitos, quando os valores de arte ou não-arte são contestados, e passa a ter como base o olhar individual. De que forma aquele objeto é para mim artístico ou não?! Tendo como ponto principal a emoção, a sensação que aquele objeto me desperta, ao apresentado a mim num novo contexto.
Creio que essa perspectiva se assemelha à postura fenomenológica, quando voltamos nosso olhar para o objeto e buscamos significa-lo, através de um contato, de uma relação existencial, onde buscamos “colocar entre parênteses” nossos preconceitos, nosso olhar normalizado, e buscamos alcançar dimensões mais sensíveis, menos contaminadas pelo juízo de outro, explorando as infinitas possibilidades e ângulos da forma e do fenômeno que se manifesta.
Na literatura, temos o abandono, em parte, do discurso oficial, das grandes temáticas sociais, dos grandes ideais panfletários e politizados para submergir no eu, na subjetividade de um narrador que a cada instante se descobre (e se perde) como sujeito da trama, muitas vezes imprecisa, incoerente ou desassossegada, quando verdades são desfeitas e buscam-se respostas que talvez não existam, ou existam num espaço e numa realidade restrita, do indivíduo. Observamos, então, o crescente número de obras literárias de caráter autobiográfico, introspectivo e confissional. Em outro ponto, principalmente por meio da um interesse cada vez maior despertado pela mídia, temos a banalização da vida privada, através de programas como Big Brother, como forma, talvez, de se estabelecer contato, de se buscar no outro verdades, padrões e valores que não conseguimos encontrar em nós mesmos, em nosso circulo de relações frágeis e fragmentados, perdidos e desencontrados que somos.
Temos então na pós-modernidade um momento caótico, de mudanças bruscas e de rumos indefinidos.
Na Gestalt-Terapia vejo uma relação bem coerente a esse processo. Ao buscar uma perspectiva ateórica (não interpretativa, não sugestiva, que não castra as possibilidades diversas do indivíduo) na abordagem com o paciente, estabelece-se uma relação imersa num caos, o que não significa o mesmo que desordem, mas sim indeterminísta, que possibilitaria travar contatos criativos com o indivíduo desencontrado consigo mesmo e inconsciente de sua própria existência, com sua realidade, com sua vida e individualidade. Assim, temos não apenas o paciente com sua doença a ser tratada, mas uma situação em potencial de recriar e ressignificar o mundo, entrar em diálogo com as aflições, com os desejos e medos do sujeito, que sai, ao menos momentaneamente do completo anonimato das multidões, dos discursos e das ideologias, cada vez mais vazios e frágeis, para dialogar com o eu e o outro, que em relação, se encontram e se constroem, desenvolvendo seus potenciais criativos, sua expressividade e sua autonomia e auto-regulação.
É isso! Não posso dizer que neste momento não trago um discurso e não me coloco como uma voz autorizada que expões um ideal. Mas acho que a pós-modernidade não anula simplesmente os ideais, apenas fragilizando-os, desorganizando a realidade e o mundo como concebemos com nosso olhar condicionado e viciado, para que possamos, talvez sozinhos, talvez em contato com um outro, numa relação eu-tu, criar e significar nossa própria realidade, conscientes sempre de sua mutabilidade e da presença constante de vazios e formas a preencher e fechar com nossas muitas escolhas possíveis no aqui, no hoje, neste segundo que escorre como pintura de Salvador Dalí.

Salvador, 12/08/2005

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