Meu primeiro ano de faculdade
Quando eu entrei no curso de Psicologia da UFBa já havia se passado cerca de 5 meses de quando saiu o resultado. Eu fui aprovado para o 1º semestre do ano de 2004, mas devido ao atraso do calendário, em função do acumulo de greves, as aulas só começaram em maio. Em junho, quando já estávamos “pegando o pique”, houve uma greve que durou 4 meses. Foi uma greve sem sentido, ao meu ver. Reivindicavam coisas diversas, uns alegavam que era por causa da Reforma Universitária, outros reivindicavam melhores condições físicas dos prédios, outros queriam a abertura do restaurante universitário e de um ônibus inter-campi. De tudo isso, só o ônibus saiu do plano das idéias e, mesmo isso, só durou por pouco tempo, por “falta de passageiros”.
Lembro-me da primeira semana na faculdade, na recepção dos calouros. Assisti algumas palestras, sobre a história da psicologia no Brasil, sobre luta anti-manicomial e reformulação do currículo do curso de Psicóloga, para melhor se adequar às diretrizes do MEC. Lembro que me empolguei um bocado com a idéia de participar de projeto de pesquisa, muito influenciado por minha irmã, que era bolsista na faculdade de Letras, e via na carreira acadêmica uma possibilidade de continuar estudando e de trabalho.
(Parêntese: Na ocasião da palestra sobre luta anti-manicomial eu travei uma discussão com o aluno que trouxe uma visão bem radical da coisa. Até hoje esse tema não desce bem por minha garganta. Não acho que é possível acabar de vez com todo um processo que se construiu e funcionou – bem ou mal – de uma hora para a outra. Sei que a luta é antiga, mas são muitos os fatores relacionados à questão da doença mental. Família, comunidade, políticas de saúde. Não dá pra simplificar e dizer que fechando os hospitais e criando CAPs vai resolver o problema. Os CAPs também apresentam problemas!)
Em setembro eu entrei numa pesquisa extra-faculdade, com uma socióloga aposentada. O trabalho era basicamente de arquivista. Ficava horas mexendo em jornais velhos, separando por temas. Muita coisa interessante eu via naquele material. Era um arquivo pessoal que tinha material coletado desde fins do século XIX até 2004. Material sobre a família e a profissão do dono do arquivo, com temas ligados a relações raciais, evasão de talentos, religião e cotidiano. Lembro que eu me divertia lendo alguns artigos. Fiquei nessa pesquisa por um ano de dois meses.
Eu recebia bolsa e com esse dinheiro eu comprava livros, roupas e ia ao cinema. Na ocasião eu tinha entre 18 e 19 anos. Me sentia mais independente por poder custear minhas próprias compras.
Sou de classe média, filho de funcionários públicos, mas sei que as coisas não estão fáceis. Entrar na UFBa foi uma conquista. Não suei tanto, pois sempre fui bom aluno, mas reconheço que é um alívio. Sei que se não tivesse passado numa faculdade pública minha mãe não teria como me manter numa privada. Em fevereiro cheguei a cursar 4 dias de Rui Barbosa, me sentia numa prisão com aqueles corredores revestidos de azulejo. Saiu o resultado da UFBa e eu fiquei feliz, pois não tive que me submeter a uma semana de trote que estava programada para a semana seguinte.
Quando passei na UFBa fui logo visitar São Lázaro. Minha mãe me dizia que era uma decadência só. Eu, na minha cabeça, pensei que seria algo semelhante à Ladeira da Montanha ou o Taboão, com prédios sem janelas, paredes caindo, limo… Besteria! Gostei. Parecia uma “fazenda” – como disse uma professora que me recepcionou. Na época eu queria que construíssem um prédio para o Instituto de Psicologia, em Ondina, perto de Letras. Hoje acho que está bem. São Lázaro é um lugar sossegado, tem verde, as pessoas conversam nos caminhos que vão de um prédio a outro de forma descontraída – a tal disciplina optativa de “Patiologia”.
Aprendi muito em conversas informais no corredor. Conheci bons amigos que já se formaram. Me informei e me formei, em parte, nesse “espaço alternativo” da universidade. Mas não gosto da idéia do Fumódromo, das drogas, do pessoal que parece que não toma banho e que pensa que é hippie dos anos 70. Acho muito caricato. Tem gente que eu entrei e já devia estar formado, mas se arrasta no movimento estudantil, como se pudessem mudar o mundo.
Não gosto do movimento estudantil. Me irritei terrivelmente no início do curso, com a greve de 4 meses. Já tínhamos perdido 5 meses devido ao atraso do calendário. Acabamos perdendo um semestre. Nada se resolveu. O prédio do “Iguatemi”, condenado pela CODESAL, foi “reformado” em um mês, por 2 funcionários que martelaram e cobriram as rachaduras expostas e caiaram com tinta barata. Fizeram um enxame, arrastaram mais 2 semanas sem aula por causa desse prédio e ficou por isso mesmo. Se esqueceu Reforma Universitária, se esqueceu restaurante universitário, se esqueceu segurança… Muito barulho por nada! Resolvi escolher pela alienação política e investir um pouco mais em minha formação pessoal. Se eu posso “atuar” de alguma forma na sociedade, será pelo meu trabalho e por uma boa formação profissional, não por militância “porra louca”.
Fiz isso! Investi na minha formação profissional! No segundo semestre eu me interessei por Gestalt-Terapia, ao assistir as aulas de Lika. No semestre anterior o professor de Sociologia havia dado uma formação básica de “quebra de paradigmas”. Hoje sei que ele tem formação humanista, educador numa linha rogeriana bem não diretiva. Fiz um curso de Abordagem Centrada na Pessoa, já no 5º semestre, e vi que ele se enquadrava no perfil Carl Rogers. Abandonei o curso da ACP porque achei “não diretivo” demais pro meu gosto.
Ao final da disciplina de Gestalt, montei meu primeiro grupo de estudos. Me tornei adepto dessa forma alternativa de estudo e tentei montar mais uns 2 ou 3 depois. Li textos de Gestalt-terapia, de Existencialismo e no 4º semestre iniciei meu curso formação – adiantado em relação às outras pessoas, já que se priorizava alunos a partir do 6º semestre. Não me arrependo. Acho que já me encontrei no que gosto, mas mantenho o olhar aberto a várias possibilidades. Não me considero um fanático, mas não nego que tenho uma preferência por visões e abordagens “marginais” dentro da Psicologia. Acho que tenho posições pouco convencionais.
Acho que a graduação é um espaço de passagem, nem mais nem menos importante que outros espaços de formação. A universidade não é tudo. Existem outros espaços de aprendizado, existem outras formas de conhecimento a serem descobertos. É importante flertar! Se aventurar, tentar conhecer um bocadinho de tudo, para depois ir fazendo escolhas que tem mais a ver consigo. A universidade não oferece tudo. Existe uma Psicologia que é feita fora da academia, numa vivência “aparentemente” sem regras ou metodologias bem específicas e enquadradas. Sem script, ou com um script mais flexível. Não acho isso ruim. Acho que dá espaço maior para a criação do novo.
Entrei no curso de Psicologia porque eu gostava, e ainda gosto, de literatura. Minha irmã fez graduação em Letras, me dava aula de Teoria da Literatura quando eu ainda era estudante secundarista. No quarto semestre eu fiz uma disciplina em Letras. Fechei com 10, e a professora ainda disse que eu escrevia como aluno de pós-graduação. Eu fazia uma miscelânea. Joguei Freud no meio da prova e dei asas a minha imaginação. Sem querer me gabar, acho que eu sou muito cara de pau às vezes.
No segundo semestre fui para meu primeiro evento científico. Foi uma jornada de Psicologia organizada pelos alunos da UNIFACS. No mesmo período estava tento um Encontro Nacional de Psicologia. Optei pelo da UNIFACS. Depois me senti um besta, pois o valor da inscrição do Nacional foi “razoavelmente” em conta (R$ 120,00!!!) Não me arrependo! Assisti palestras sobre literatura, filosofia, música e fiz um workshop sobre arte-terapia gestáltica. Me encontrei, definitivamente. Era isso o que eu queria. Uma articulação entre psicologia e arte. Assisti também uma palestra de um gestaltista que veio para o Nacional e falou sobre as “Atualidade da Gestalt Terapia”. Ele falou de Nietzsche e da influencia do Expressionismo alemão sobre a Gestalt. Anos mais tarde, em 2007, eu fiz um trabalho e apresentei no Rio de Janeiro, sobre a articulação entre Gestalt e Literatura. O expressionismo estava no meio.
Acho que esse primeiro ano foi apenas o início de várias descobertas. Me estimulei a pesquisar por conta própria temas que, para mim, fazem sentido, me traduzem. Acho que pra ser um bom profissional tem que ser um apaixonado. Acho que me apaixonei e continuo enamorado, às vezes com crises e brigas. (Não conheço estudante de psicologia que não tenha ou viva em crises!). Mas sempre renovando meu interesse, à medida que descubro novas possibilidades.
Salvador, 9 de abril de 2008.