A Experiência Homossexual (Resenha)

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

A leitura do livro “A experiência homossexual” traz uma perspectiva ampla do fenômeno da homossexualidade, tanto como objeto de estudo de diversos campos das ciências humanas e naturais, quanto como vivência pessoal e social, como construção histórica e cultural. Discute temas importantes como a questão da identidade homossexual e sua relação com os gêneros masculino e feminino, os “critérios” arbitrários para se definir que é ou não homossexual, que variam em cada cultura, as mudanças (e permanências) históricas de significação da homossexualidade desde as práticas legitimadas na Antiguidade, passando pela endemonização pelo cristianismo na Idade Média, a criminalização pelo Estado, a patologização e medicalização no século XIX, até o movimento de liberação sexual da década de 60, a partir do qual se emergiu uma comunidade GLBT, com cultura e linguagem próprios, num movimento de progressiva luta por direitos e pelo respeito à diferença.

Ao tratar da questão de gênero se aprofunda as diferenças na construção social da sexualidade, desde a infância, em que as crianças são submetidas a um processo de educação que distingue os papéis de homens e mulheres, tanto sociais como sexuais, interferindo sobre os sentimentos e afetos, sobre a expressão ou contenção dos desejos, sobre a descoberta e experimentação do corpo. Tal questão interfere e ajuda a compreender tanto a dinâmica dos relacionamentos heterossexuais, quando as relação homossexuais masculinas e femininas, que apresentam, em si, diferentes características e conformações.

A adolescência é trazida como a fase que talvez seja mais importante para o desenvolvimento social e psicossexual do indivíduo homossexual, seja por constituir uma fase de experimentação e descoberta da sexualidade, seja pela não vivência dessa, por repressão ou não consciência dos desejos. Essas diferentes vivencias podem interferir de forma importante no desenvolvimento afetivo e emocional do homossexual, sendo uma fase em que a diferenciação em relação ao grupo se torna presente e marcante, podendo levar a um progressivo movimento de isolamento e de solidão. As elevadas taxas de suicídio ou tentativa de suicídio nessa fase da vida do homossexual, demonstraria a relevância desse período de desenvolvimento do sujeito, de sua personalidade, requerendo atenção de pais e educadores para detectar possíveis sinais de isolamento e esquiva social.

A autora trata também o fenômeno da “saída do armário”, que envolve desde uma progressiva construção de uma identidade homossexual individual, desde a percepção e descoberta do desejo, a vivência dos contatos sexuais com pessoas do mesmo sexo, até o movimento progressivo de externalizar essa identidade, assumindo-a nos diversos contextos como a família, o bairro, até dimensões mais amplas da sociedade. Na adolescência esse “sair do armário” manifestasse como uma escolha ou um posicionamento que pode trazer riscos integridade física e psicológica do jovem homossexual, devido à imprevisibilidade das reações dos pais, amigos e outros contextos de interação, sendo necessário um planejamento e ensaios, cautela para escolher o momento certo e a tentativa de organização de uma rede de apoio sem a qual o adolescente pode se ver desamparado.

O sair do armário não se constituí um imperativo na vida do homossexual, que pode transitar pelos vários contextos encenando uma performance heterossexual, porém traz repercussões importantes do ponto de vista psicológico e relacional, em especial a questão da homofobia internalizada, que repercute em um conflito interno, numa dissonância cognitiva, entre o que foi socialmente aprendido como “normal” e a vivência pessoal. Pode interferir também nos diversos relacionamentos, em especial nas relações de casal, onde o “estar no armário” restringe a vivência da intimidade, restringindo as possibilidade de legitimação do relacionamento.

Um aspecto importante, e creio eu, também polêmico, é a opinião da autora sobre o terapeuta que trabalha com pacientes homossexuais e cujo foco de intervenção é, e “deve ser”, a homossexualidade. Ela traz duas questões que considero importantes de consideração: 1) que, preferencialmente, o terapeuta de um homossexual deveria também ser homossexual e 2) o atendimento terapêutico deve necessariamente envolver e aprofundar a vivência da homossexualidade.

O primeiro ponto ela justifica associando à importância de que o terapeuta homossexual tem um conhecimento maior com a elementos da cultura gay, e partilha de vivências comuns a quase todos os homossexuais, desde a “diferenciação” na infância e adolescência das outras pessoas heterossexuais, até as primeiras experiências de descoberta do desejo e vivência da relação. Considero parcialmente esse argumento como válido, mas ser o terapeuta também homossexual não garante que este não incorra também em riscos comuns a qualquer terapeuta, heterossexual, posto que não está imune à pré-conceitos e estereótipos sobre as diversas e possíveis vivências homossexuais, ou até uma ideologia específica que pode interferir no processo, deixando-se de levar em consideração a vivencia particular do cliente, em favor de um discurso ou de um ideal “emancipador” (caso o terapeuta tenha uma postura militante) ou “repressor” (em decorrência talvez de uma homofobia internalizada ou de estereótipos) do terapeuta.

A autora intui ainda alguns possíveis problemas relativos a questão da neutralidade e da necessidade ou não de o terapeuta homossexual “se assumir” para o cliente. Embora considere que a questão técnica não garanta uma condução adequada do tema, creio que, adotar uma postura humana (ou humanista) como técnica possa sim ser uma alternativa, independente da orientação sexual do terapeuta ou do cliente

O segundo ponto, que diz respeito à quase obrigatoriedade de que se trabalhe em torno da questão da homossexualidade, me parece uma escolha arbitrária. É evidente que não podemos negligenciar esse aspecto da existência do cliente, e as possíveis repercussões sobre a forma como ele está no mundo, porém não se pode definir, a priori, o foco dos atendimentos ou induzir os encaminhamentos dos atendimentos nessa direção. A terapia precisa, a meu ver, ser construída o tempo todo com o cliente e é ele quem define os pontos que considera mais relevante de serem trabalhados. “Especializar” o atendimento pode ter ganhos, porém pode também restringir as possibilidades de intervenção em outras dimensões da existência do cliente que não necessariamente está diretamente associada à questão da sexualidade.

A autora trabalha em três capítulos do livro, o tema do casal homossexual, partindo de uma perspectiva mais ampla para depois discorrer sobre as especificidades do casal lésbico e do casal gay. As descrições sobre as relações de casal são bastante minunciosas e mostra a diversidade de fatores envolvidos, que vão desde a questão de gênero, os papéis sexuais esperados segundo um modelo heteronormativo, características psicológicas e comportamentais de homens e mulheres nas relações, jogos de poder e práticas sexuais homoeróticas. A autora tenta desconstruir estereótipos sobre a idéia do senso comum de que sempre haveria um passivo e um ativo na relação, e mostra o caráter transgressor da sexualidade homossexual, que traz sua marca na cultura a parir da revolução sexual da década de 60. Segundo ela, a sociedade mudou, e com ela os modelos de casal, de casamento, e dos papéis sexuais. Com a emancipação feminina e com novas configurações do masculino, a sexualidade já não é vivida de forma padronizada e a homossexualidade estaria no vanguarda desse movimento de evolução sexual.

Aprofundando as singularidades que caracterizam os casais lésbicos e gays, é enfatizada diferença de gênero e o papel do aprendizado da sexualidade por homens e mulheres, sendo os primeiros estimulados à exploração do corpo, à não expressão de afeto, a não vinculação, enquanto caberia às mulheres a vivência mais intensa do afeto, o apaixonamento, a busca por estabilidade e uma vivencia sexual menos intensa. Tais características influenciariam o fato de comumente se ver casais lésbicos mais dependentes, às vezes simbióticos e marcados pela emoção intensamente expressada casais gays com vivencia mais “aberta”, com a valorização da autonomia, com menos intimidade, competitividade e pouco duradouros. Essa caracterização acaba por reproduzir certos estereótipos ou representações que não necessariamente são generalizáveis, nem irreais, porém um retrato possível. Também nos casais homossexuais pode haver uma tendência à convenções e institucionalizações de papeis, embora a negociação desses papeis e a possibilidade de reformulação seja mais possível de se dar, por não haver, a priori, um modelo único ou tradicional de relacionamento a ser seguido.

Um dos últimos pontos a ser trabalhado pela autora é a questão da bissexualidade, que se apresenta como um tema polêmico dentro do meio GLBT, por se apresentar como um entre-lugar nas identidades dicotomizadas heterossexual versus homossexual. A bissexualidade se mostra como um calcanhar de Aquiles, das políticas identitárias, embora aponte para uma dimensão ampla de escolhas e possibilidades. Podendo ser vivida como uma fase de transição entre vivências e identidades – um “limbo” -, ou como uma nova identidade escolhida e assumida política e ideologicamente, a bissexualidade desnaturaliza as categorias convencionais, desconstrói discursos afirmativos excludentes e aponta para novos arranjos sexuais e afetivos. Entre o apego e a autonomia, entre a experimentação e o prazer, pode ser vista tanto como um sintoma de uma sociedade narcísica, ou como um sinal de que as fronteiras da o sexualidade são um campo aberto ainda a ser explorado.

Por fim, a autora conclui descrevendo a existência de uma comunidade global homossexual, que se organizou ao longo dos últimos 30 anos, desde os movimentos de liberação gay, do feminismo, com o ápice no surgimento da AIDS, que pôs em foco a importância de os homossexuais se ajudarem mutuamente no combate ao preconceito e na luta por direitos civis e humanos. A autora aponta para a diferença entre o movimento gay militante e o atual panorama, em que as lutas, longe de serem emancipatórias e de transformação radical das instituições sociais, se dirigem à assimilação e garantia de ingresso do homossexual na ordem e no modelo de vida heterossexual, regido pelo consumo e pela lógica do capital. A autora lança críticas sobre essa descaracterização do movimento GLBT, por considerar que a “assimilação” e a aceitação “condicional” da homossexualidade mascara atitudes de preconceito ainda vividas intensamente na sociedade e descaracteriza e despotencializa o poder transformador e revolucionário da homossexualidade.

Independente disse “perda” política, é evidente que no momento atual, a cultura ocidental pode incluir a homossexualidade dentro de seu quadro de referências, mesmo que ainda restrita a um contexto limitado, a uma cultura burguesa urbana. As diversidades continuam existindo, as diferenças e seus respectivos preconceitos permanecem nas relações sociais e na sociedade como um todo. É inegável as mudanças dos tempos, as transformações vividas pelas últimas gerações, embora se mantenham limites e barreiras entre o respeito e a “tolerância”, entre a aceitação real e a aparente.

Marina Castañeda conclui seu livro com a clareza de sua parcialidade e de sua limitação histórica, considerando um cenário em transformação constante, antevendo seu lugar na história como um retrato de época. Sua descrição da “experiência homossexual”, ou das múltiplas dimensões possíveis desse fenêmeno complexo, é atual e circunscrita no tempo presente. Tempo mutável que, a cada momento, se reinscreve.

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