A liberdade em Gestalt Terapia, o Existencialismo, o Absurdo e o Suicídio*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Neste momento me proponho a fazer um levantamento de idéias, sob um olhar bem particular, sobre a questão da liberdade, influenciada pelo pensamento existencialista, na Gestalt-Terapia. Para tal fim, tomarei como ponto de partida as discussões travadas durante nossa segunda reunião no grupo de estudos, bem como algumas leituras minhas, que creio, podem ser pertinentes ao assunto.
Ao longo de nossa reunião, debatemos, dentre outros pontos, as diferenças entre a abordagem gestáltica e a psicanalítica (ortodoxa) e behaviorista (metodológico), tendo como base as distinções traçadas por Hugo Elidio, em seu livro “Introdução à Gestalt-terapia”, bem como os pressupostos esboçados em “E a Gestalt emerge”, de Ana Maria Kiyan. A diferença estabelecida por Elidio se daria principalmente no tipo de paradigma e concepção filosófica por trás dessas abordagens, bem como na relação terapeuta-paciente. Segundo ele, tanto a psicanálise quanto o behaviorismo, com suas devidas singularidades, apresentariam um modelo explicativo, baseado em relações causais, que determinariam segundo um olhar mecanicista de homem, a construção do indivíduo e a manifestação de quadros patológicos.
A Gestalt-terapia se distinguiria dessas abordagens principalmente por apresentar um método de análise descritiva, tendo como base o modelo fenomenológico-existencial, valorando não apenas os fatores influenciadores em um deternimado sintoma ou situação apresentada. Ela Enfatiza, então, a importância da relação e vínculo terapeuta-paciente, como um processo dialógico, sendo lançado um olhar do sujeito como ser dinâmico, mutável e integral, primando-se principalmente pela afirmação da liberdade do sujeito, por sua autonomia e capacidade de auto-regulação e valorização de suas potencialidades.
Para que essas qualidades do sujeito fossem compreendidas, no entanto, seria necessário que se estimulasse a consciência de liberdade do sujeito, que não implica simplesmente na possibilidade de livre ação e expressão, mas na compreensão de que a liberdade implica em responsabilidade sobre si e sobre o mundo. Creio ser esta a idéia apresentada pelo texto, no que diz respeito à questão da liberdade segundo o existencialismo. Vejo, no entanto, a nossa necessidade de aprofundarmos um pouco mais neste ponto, em nossos estudos e discussões, tendo em vista que essa noção é ponto de crítica fundamental das outras abordagens em relação às abordagens humanistas em geral, da qual a Gestalt-terapia também faz parte.
Um dos pontos cruciais talvez no que diz respeito à visão existencial do sujeito seria o fato de trazer para ele a responsabilidade sobre sua própria vida, de sua própria existências, sobre seus atos e as conseqüências deles sobre si e o meio à sua volta. Essa perspectiva aumentaria o caráter de autonomia e auto-gestão do sujeito, que creio ser fundamental, e que vai de encontro à concepção de homem subordinada e dependente a esquemas de controle ou mecanismos inconscientes.
A Gestalt-terapia, acredito eu, não nega a existência desse controle ou dos conteúdos inconscientes, mas apresenta em relação a eles uma visão distinta. Sua concepção de homem prima, fundamentalmente, pela compreensão do sujeito como um todo coerente e relacional, tendo essa relação um caráter dinâmico, seguindo uma ordenação de campo. Segundo esse olhar, as relações se dão sob um modelo dialógico eu-isso ou eu-tu, de mutua significação e de caráter construtivo, em que o contato implicaria em troca de experiências, sem que com isso se perdesse a autonomia do sujeito.
Quanto à questão da liberdade, o tema que proponho como central nesta reflexão, a Gestalt-terapia traz uma concepção própria do existencialismo, segundo a qual a liberdade implica em consciência acerca da responsabilidade sobre si mesmo. Segundo essa visão filosófica, o indivíduo é responsável por sua própria existência no mundo, pela condução de sua vida e pelo caminho por ele percorrido. Daí a importância do papel da escolha. Escolha essa que implica inclusive na ida ou não à terapia e no compromisso de se integrar à relação terapêutica.
Segundo essa visão existencial, o homem não teria mais a ilusão de um suporte ou autoridade, que poderia ser representada por Deus, da sociedade ou do mundo ou das “contingências”, que personificados, determinariam e seriam os “culpados” pelos rumos de sua vida. Assim, na impossibilidade de direcionar para um outro as responsabilidades, o homem seria convocado a se posicionar existencialmente, no momento vivencial do agora, não se permitindo evadir-se para o passado ou futuro, como forma de criar ou idealizar perspectivas falsas, ilusões.
Esse olhar existencial traz consigo uma carga e um peso muito grande, para não dizer insuportável, sobre o homem moderno, criando um sentimento de inevitabilidade que me remete, neste momento, aos personagens do escritor tcheco do início do século, Franz Kafka.
Em suas histórias, classificadas por alguns como realismo fantástico, observa-se a construção de personagens condenados a existências transtornadas, imersos em situações labirínticas, sem alternativas aparentes, em que o ser em questão não consegue se desprender de suas prisões, não conseguem fugir de seu destino, o que imprime ao leitor uma sensação de angústia imensa. De modo geral, trata-se de personagens solitárias, em muito desumanizadas, ou zoomorfisadas, imersa numa atmosfera de irrealidade.
A nós, envolvidos em nossos laços sociais e emocionais, entre familiares, amigos e colegas, essa perspectiva existencial ganha tons caricatos, numa configuração verdadeiramente “fantástica”, senão absurda.
Percebemos, no entanto, que esse sentimento como que se perpetua na literatura e nas artes ocidental do século XX, quando me remeto, por exemplo, às peças teatrais e narrativas de Samuel Beckett. Nelas, de forma análoga a Kafka, os personagens são imersos na incomunicabilidade, em relações estéreis, marcadas por um forte traço de dependência, umas às outras, perdidas numa linguagem de fluxo verborrágico e caótico (onde se perde a possibilidade de significação), de idéias entrecortadas por longos vazios desesperadores, num tempo-espaço inexistente e imutável.
Em ambos os casos, diante da inevitabilidade, da repetição e da esterilidade da vida, o sentimento, que muitas vezes se manifesta após a leitura desta literatura, e que pessoalmente me desperta atenção, é a de morte. A morte, que em situações de tão poucas, ou nenhuma, perspectivas, ganha um sentido mais alentador neste mundo de desassossego, mais certo e definitivo, em contraste ao caos e incerteza.
O que me faz remeter a estes escritores é, não apenas a perspectiva fatalista da existência que, de algum modo a filosofia existencialista desperta, mas um dado levantado durante as discussões do grupo de estudo.
Enquanto discutíamos sobre a questão da liberdade e do existencialismo, meio a tantos outros pontos de texto do texto de Elidio, Andréa, que estava presente, comentou haver em Salvador um grande índice de suicídio, fato este que seria sufocado pela imprensa, provavelmente para evitar que se desfaça a imagem construída de “terra da felicidade, da alegria e do Carnaval”. Pensando sobre isso, fiz essa conexão, não apenas com os autores mencionados, que expressam o sentimento de vazio e angústia próprio da (pós-)modernidade, mas também a do filósofo Albert Camus, autor do qual li apenas o seu livro de estréia “O Avesso e o Direito”, mas que desde esta obra traz justamente esse sentimento de contradição, ao retratar a pobreza social em oposição às manhãs ensolaradas na Argélia e, principalmente, ao enfocar sobre a inevitabilidade da morte.
Neste ponto, observamos a morte constituída como a única certeza, o único elemento imutável, o ponto absoluto da existência humana, embora impossível de ser determinado precisamente em sua temporalidade. Nesta óptica, a morte representaria o limite da vida, a fronteiras da existência e o seu foco possível no tempo agora, imprimindo a necessidade do estabelecimento do sujeito no momento vivencial, como única possibilidade aparente de fazer-se significativo.
Agora, aonde configura a questão do suicídio? Creio que justamente como forma de, diante das incertezas, do caos e do absurdo, se alcançar uma certeza objetiva, uma segurança e clareza da própria existência através de seu ponto ápice e final. Levanto isso sob um olhar absolutamente particular, numa leitura que creio ser possível, sobre a questão do existencialismo, mas tenho consciência da necessidade de me aprofundar através de outras leituras mais objetivas. Este artigo-relato tem, no entanto, apenas a pretensão de levantar pontos de vista e interpretações pessoais.
Uma visão explicativa sobre a questão do suicídio buscaria levantar algumas causas que seriam responsáveis pelo ato em si, talvez o sentimento de vazio, talvez a incomunicabilidade, a perda de entes queridos, do emprego, ou ainda um quadro psicopatológico que, por si só, já teriam causas diversas. Vejo no entanto o suicídio como um posicionamento existencial, uma forma de posicionar-se diante da vida, do mundo e da própria existência. Não digo isso no sentido de pregar uma apologia ao suicídio, mas concebo tratar-se de uma posição existencial tanto quanto a ida ao terapeuta a fim de buscar uma compreensão desse sentimento de angústia e morte. A própria fuga, como podemos encarar às vezes, de fora, o suicídio, é um escolha existencial, o uso da liberdade sobre a própria vida. A alienação, de certo modo, tende a ser uma posição existencial, consciente ou não, mas coerente, creio eu ao próprio estagio existencial de cada indivíduo.
No caso da terapia, em destaque a Gestalt-terapia, está teria como fogo despertar justamente esse olhar vivencial, essa consciência e essa coerência no indivíduo, possibilitando vivenciar suas emoções, significar seu mundo e posicionar-se. Se diante da idéia do suicídio, creio que buscaria fazer o eu em questão significar esse desejo, trazer os elementos que se manifestam como necessidade, reconectar o individuo ao mundo, às suas relações afetivas, possibilitando que este abra o leque de possibilidades, de experiências e expressões possíveis.
Creio ser vital a abertura que a abordagem gestáltica possibilita ao indivíduo, ao abarcá-lo como totalidade e como consciência de si mesmo, como ser de experiência e expressão, capaz de escolhas e, principalmente, construção de si mesmo, de sua vida, que eternamente é uma perspectiva, um vir-a-ser. Tenho que admitir meu desconforto pessoal em relação à idéia de ser resultado ou expressão unicamente de um mundo externo ou de um inconsciente psíquico. Acredito na minha posição de integrante um uma sociedade, de uma cultura, de um todo maior, mas também me vejo como agente nessa construção pessoal, mesmo que sem ter um projeto pré-estabelecido (mesmo porque essa projeção seria uma ilusão), mas como um complexo processo de escolhas, de pequenos passos, de diálogos com os outros, com as palavras, com os sentimentos e com minhas próprias limitações.
Admito aqui não sentir-me livre nem autônomo, mas ao menos essa perspectiva já traz uma visão menos pessimista que, de modo geral tenho da vida. Aqui como que faço uma confidência. Sinto que ainda estou muito distante de alcançar o olhar pleno e existencial, de exaltação e afirmação das potencialidades do indivíduo, mas o simples fato de fazer parte desse grupo representa para mim uma escolha existencial, um primeiro passo, que espero possa mobilizar muitos outros, para além do labirinto, do silêncio e do absurdo.

Salvador, 21/07/2005.

PS.: Gostaria de ter abordado muitos outros pontos, mais as idéias tralharam um rumo imprevisível. Mas convenhamos dizer, a previsibilidade é absolutamente frustrante.

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* Artigo escrito durante meus primeiros estudos em Gestalt Terapia, num grupo de estudos auto-didata montado com colegas, em 2005, no início da minha graduação de Psicologia.

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