A questão da traição e o sentido da vida
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Não tenho dúvidas de que um dos principais conflitos existentes em um relacionamento amoroso é o medo da traição. Recentemente, no encontro com um amigo que não via a mais de dois anos, discutimos sobre esse assunto. Éramos um grupo de cinco pessoas, que tinham diferentes pontos de vista e diferentes experiências.
Para o meu amigo, a questão da traição estava relacionada à questão de sentir ou não desejo por outra pessoa que não o parceiro, considerando que o desejo é algo que faz parte do humano, nas que precisava ser “racionalizado”, não sendo conveniente relatar esse desejo ao parceiro, mesmo que não tenha sido realizado, efetivado na relação sexual. Ele acreditava que a traição faz parte da relação e não deve ser revelada. Mantêm-se então uma ficção de relacionamento monogâmico e com fiel.
Para mim, o contar para o outro sobre o desejo e a necessidade de realiza-lo é um ato de respeito à liberdade do outro, de aceitar ou não permanecer num relacionamento em que há a possibilidade de práticas sexuais extra-conjugais. Minha opinião não é nem de defesa da poligamia nem da monogamia, mas do respeito pelo outro, pela consciência das próprias necessidades e da liberdade de escolha. Acredito que somos responsáveis tanto pelo exercício de nossa liberdade quanto por permitir ao outro o exercício de escolha e da sua própria liberdade.
Meu amigo que falou da idéia sartreana do “amor necessário” e do “amor contingente”. O amor necessário é a relação de companheirismo e de parceria, em que ambos se nutrem nesse processo, crescer e ajudam o outro a crescer. Pode tanto ser um casamento, quanto uma amizade. A presença da pessoa é necessária para que eu me sinta bem e possa me realizar como pessoa. O amor contingente, por sua vez, diz respeito à necessidade de apaixonar-se, à excitação sexual e à satisfação da necessidade de experimentar um encontro intenso e intimo de entrega. Do amor contingente pode emergir o amor necessário. E no amor necessário, a paixão pode ser redescoberta.
Amores contingentes podem reacender a paixão nas relação de amor necessário. Relações extra-conjugais podem reacender a chama da relação estável e necessária, mas nem sempre. A busca por amores contingentes pode se tornar compulsiva quando falta no amor necessário a percepção e vivência da cumplicidade, do crescimento. O amor necessário não é sinônimo de relação monogâmica, nem o amor contingente é o remédio para o tédio.
O tédio vem da ausência de encanto no objeto de desejo. Quando esse objeto deixa de ser interessante e, mesmo assim, persistimos nele, fixados no ideal do amor eterno, numa forma abstrata de amar que só existe em nossa fantasia.
O amor real é mutável, passa por fases de expansão e contração, de aproximação e afastamento, de apaixonamento e de desapego. O amor necessário é o amor real que matem a energia dinâmica da conservação pela constante transformação. A paixão é o consumir da energia num impulso, é explosão, é delírio, é entrega em profundidade. O amor é a constância, é a conservação, é a construção cotidiana do exercício dialético da alteridade.
Para quem vive relacionamento monogâmicos, é necessário a consciência das necessidades e dos limites de si e do outro, o respeito pelo desejo do outro e a tentativa constante de estabelecer uma relação de nutrição mutua, em que ambos são vistos e confirmados, são percebidos e apoiados em seus projetos existenciais.
Para quem vive relacionamentos abertos, não monogâmicos, vale a mesma sugestão, e um cuidado maior pelo respeito aos limites do outro e uma reflexão constante do quanto a relação conjugal tem de necessária, e do quanto a busca por outras relações contingentes, tem de necessidade e não de compulsão.
Meu amigo trouxe a constatação de nascemos e morremos sós. Ele questionava o sentido da própria vida. Também acredito na nossa solidão no nascer e morrer, experiências únicas, intransferíveis. Mas o nascer e morrer são os limites extremos de nosso existir enquanto pessoas. Ao longo de todo o resto da vida, estamos em contato com outras pessoas, podendo desse contato nos nutrir e crescer, amar de forma necessária ou contingente, sentir e dar sentido a cada experiência e momento vivido. O sentido da vida é dado a cada momento, na relação que estabelecemos com o mundo e com nós mesmos. Não é anterior a nenhuma experiência. É contingente. É transcendente. Só o teremos no fim de nossa vida, quando finalizarmos nosso projeto existencial.
O amor e a traição também fazem parte desse sentido. O amor, quando nos sentimos e nos realizamos a cada momento, conscientes de nós mesmos, de nossos desejos e necessidades. A traição, quando fazemos o oposto, quando desconhecemos a nós mesmos e agimos na má-fé, quando racionalizamos e idealizamos um projeto de vida que sabemos que não podemos realizar, por ser contrario a quem realmente somos. Quando queremos ser algo diferente ao que realmente somos e queremos que o outro seja de acordo com nossas expectativas.