Atenção e memória na atuação clínica em Gestalt Terapia: articulações com a Psicologia Cognitiva

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Este artigo se propõe a delinear uma breve relação entre conceitos da psicologia cognitiva ligados aos processos de memória e atenção e a abordagem clínica da Gestalt-Terapia. Pretendo não me ater à definições sistemáticas dos conceitos trazidos por Robert J. Sternberg em seu livro Psicologia Cognitiva (2000), buscando fazer uma correlação mais objetiva quanto às propostas e posicionamentos expressos pela Gestalt-Terapia enquanto prática em psicoterapia.

Qual a relação entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva? Aparentemente nenhuma, tendo em vista que a primeira se caracteriza fundamentalmente como uma abordagem em psicoterapia e a outra como uma linha de investigação científica da psicologia. Ambas, no entanto, sofrem influência direta da Psicologia da Gestalt, sistema teórico da psicologia caracterizada principalmente por suas contribuições na investigação de processos psicológicos ligados à percepção, memória e aprendizado.
Afora essa semelhança quanto à fundamentação teórica, é difícil entrever uma relação mais profunda entre essas duas vertentes de conhecimento e prática da psicologia. Podemos constatar, no entanto, que processos como o de atenção, percepção e memória, detidamente trabalhados pela Psicologia Cognitiva tem sua aplicabilidade constatada, mesmo que indiretamente e de forma subliminar na prática clinica da Gestalt-Terapia.
A Gestalt-Terapia é uma abordagem criada por Frederick Salomon Perls, conjuntamente com Laura Perls e Paul Goodman, inicialmente como uma técnica psicoterápica. Influenciada não apenas pela Psicologia da Gestalt, a Gestalt-Terapia nasce fundamentada também pela teoria de campo de Hurt Lewin, pela teoria organísmica de Goldenstein e pela holística de Smuts, como fundamentos teóricos, além do movimento humanista, da fenomenologia, do existencialismo e da filosofia dialógica de Martin Buber, sem contar com as influencias orientais do Zen-budismo, como bases filosóficas (Kiyan, 2001).
Essa abordagem baseia-se numa concepção de homem sadio, em constante reação de contato em variados campos, no psicoemocional e sócio-ambiental (Ribeiro, 1997), numa dinâmica voltada para a realização de suas necessidades e desenvolvimento do sujeito.
A concepção de saúde da Gestalt-Terapia envolve uma idéia de homem em constante interação com o mundo, envolvida num ciclo de relações fundamentais norteadas por uma dinâmica dialética de contato e fuga, tendo como finalidade principal alcançar e equilíbrio – homeostase – do organismo. Quando há interrupção deste ciclo – o ciclo de contato – e as tensões e necessidades não encontram uma forma de satisfação, estabelece-se um processo de desequilíbrio que representa as interrupções neuróticas do contato.
Através de uma abordagem centrada no sujeito e voltada para o restabelecimento deste ciclo e de sua dinâmica, o terapeuta busca, através de uma perspectiva vivencial e expressiva, munida por técnicas diversas, possibilitar no sujeito o seu retorno no ciclo contato, à uma interação saudável com o mundo em suas diversas dimensões interativas. Em termos gerais, o gestalt-terapueta objetiva possibilitar ao cliente uma tomada de consciência – awareness – de sua realidade existencial e de sua condição ativa sobre o mundo e sua vida.
Para se estabelecer essa tomada de consciência, utilizam-se métodos que possibilitam um encontro vivencial do sujeito com sua própria realidade, através de técnicas psicodramáticas ou formas de expressão do sujeito por si mesmo, mediado pelo terapeuta, que facilita seu encontro e seu processo de auto-descoberta.
Sim, mas de que forma a atenção e a memória entra neste processo?
Para iniciar efetivamente essa correlação, proposta no início deste texto, utilizarei-me da citação de William James, trazida por Sternberg, na introdução do seu capítulo sobre Atenção e Consciência (p.78):

[Atenção ] é a tomada de posse da mente, em uma forma clara e vívida, de um dos diversos objetos ou séries de pensamentos que parecem simultaneamente possíveis… Implica o abandono de algumas coisas, a fim de ocupar-se efetivamente de outras. – William James, Principles of Psycology.

Segundo esta citação, a atenção é concebida como uma função ativa da mente, com o sentido de direcionar o indivíduo a entrar em contato com estímulos do meio ou pensamentos, mobilizando-o num ato de intencional sobre si e sobre o mundo. De acordo com essa interpretação, a atenção constitui-se um processo fundamental e indispensável na prática terapêutica da Gestalt-Terapia, tendo em vista que a tomada de consciência – awereness – nada mais é do que a possibilidade de o sujeito entrar em contato direto com seus pensamentos, suas emoções e aflições, bem, como atentar-se para os vínculos e relações desempenhadas por ele no mundo no qual ele se encontra inserido como ser existencial e ativo.
Sternberg, em seu capítulo sobre Atenção e Consciência busca estabelecer uma diferenciação inicial entre estes dois conceitos. Ele relata que os psicólogos costumavam confundir atenção com consciência, sendo esta última caracterizada como “o fenômeno pelo qual não apenas processamos ativamente a informação, mas também estamos conscientes disso”, enfatizando a tendência atual de se conceber um processamento ativo da atenção sem necessariamente o envolvimento de nosso conhecimento consciente. Desta forma ele introduz a concepção de um processamento pré-conciente da atenção, envolvido principalmente em fenômenos como a percepção subliminar, o priming e os processos automáticos.
Os processos automáticos, em particular, são considerados como recurso cognitivo importante, que envolve a economia de energia para a realização de atividades do sujeito, possibilitando um maior dinamismo em sua interação com o mundo.
Em sua obra Gestalt-Terapia, Perls, juntamente com Goodman e Hefferline expõe a existência de três propriedades do Self, o Ego, o Id e a Personalidade, que compreenderiam mecanismos constituintes da dinâmica de interação e contato do sujeito com o meio à sua volta. Ao Id, caberia os aspectos mais primários e básicos do contato, e envolveria um gasto mínimo de energia por parte do organismo. Perls salienta, entretanto, o caráter de intencionalidade da relação, que envolveria, em certa medida, o papel da consciência, exercido pelo Ego, é fundamental para a realização de um contato pleno.
A Gestalt-Terapia valoriza imensamente esse caráter da consciência no processo de interação do sujeito com o mundo, a ponto de constituir um de seus objetivos maiores enquanto prática psicoterápica, possibilitar o restabelecimento dessa intencionalidade, bem como a formação de uma responsabilidade existencial do sujeito sobre sua própria vida.
Na introdução de seu livro A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, Perls salienta a sua crítica à avassaladora rotina da vida moderna, norteada por automatismos que acabam por impedir que o homem entre em contato direto com o mundo e consigo mesmo. Qualifica, pois, essa rotina como o responsável pela dessensibilização do homem para com sua própria vida e saúde, por aliena-lo dos prazeres e das experiências a cada momento possíveis e indispensáveis para se alcançar um estado de auto-realização.
Em todo o caso, a própria concepção de consciência da Gestalt-terapia é distinta da defendida pela Psicologia Cognitiva, envolvendo uma dimensão além do pensamento consciente e racional, e envolvendo uma dimensão integrativa do sujeito em seus diversos campos de interação.
O que aproxima ambas abordagens é a idéia da atenção consciente quanto aos seus objetivos, expressos de forma precisa por Sternberg:

(…) a atenção consciente satisfaz outros três objetivos: (1) monitorar nossas interações com o ambiente, mantendo nossa consciência de quão bem estamos nos adaptando à situação na qual nos encontramos; (2) ligar nosso passado (memórias) e nosso presente (sensações) para dar-nos um sentido de continuidade da experiência, que pode até servir como a base para a identidade pessoal; e (3) controlar e planejar nossas futuras ações, com base na informação da monitorização e das ligações entre as memórias e as sensações presentes. 4

A partir dessa citação, podemos estreitar a relação possível entre a Gestalt-Terapia e a Psicologia Cognitiva, no que diz respeito à atenção e à memória. A pratica da Gestalt-Terapia vem justamente no sentido de buscar possibilitar no cliente esta consciência de suas interações com o mundo, buscando uma adaptação mais efetiva do sujeito aos eventos à sua volta, adaptação esta que não implica em ato passivo, mas em admissão de uma atitude consciente e responsável sobre seus atos e suas conseqüências sobre o mundo e sobre sua própria vida.
A ausência de uma postura consciente e engajada, segundo a Gestalt-Terapia, é que leva a um processo de adoecimento do sujeito, equivalente à interrupção do contato deste com o mundo, se prendendo a velhas formas de contato, a repetições e introjeções de emoções e sentimentos que acabam por desestabilizá-lo em todos os seus campos de relação.
As técnicas psicoterápicas dessa abordagem são realizadas no sentido de possibilitar essa tomada de consciência para todos os aspectos que constituem o sujeito enquanto totalidade, fazendo-o vivenciar no momento imediato do aqui-agora as questões que emergem como necessidades ou pendências que por ventura tragam sofrimento a ele. Para tanto, o terapeuta busca trabalhar no cliente uma atenção seletiva, tentando centrar suas queixas nas questões – figuras ou gestalten incompletas, segundo o jargão gestáltico da dinâmica perceptual figura-fundo – mais significativas e emergentes que surgem no encontro terapêutico.
Ao próprio terapeuta cabe o papel de manter, no momento do encontro com o cliente, uma vigilância constante, a fim de que possa captar os elementos significativos que por ventura surjam no discurso do cliente, em seu comportamento observável, em suas reações a intromissões por ele realizadas, mantendo a todo instante um contato intencional, realizando intervenções pertinentes e adequadas à cada situação. É claro que há sempre a possibilidade de a “vigilância terapêutica” direcioná-lo a respostas equivalentes às da teoria da detecção de sinal (TDS), da Psicologia Cognitiva:

Segundo a teoria da detecção de sinal, há quatro conseqüências possíveis de uma tentativa para detectar um sinal: acertos (também chamados “corretos positivos”), nos quais identificamos corretamente a presença de um sinal; alarmes falsos (também denominados “falsos positivos”), nos quais identificamos corretamente erroneamente a presença de um sinal que é realmente ausente; erros (também chamados “falsos negativos”), nos quais deixamos erroneamente de observar a presença de um sinal; e rejeições corretas (também denominadas “corretos negativos”), nos quais identificamos corretamente a ausência de um sinal.

De forma bem evidente, é possível evidenciarmos esses possíveis caminhos (acertos, alarmes falsos, erros ou rejeições) defrontados pelo terapeuta durante os instantes em que interage com o cliente e busca, de forma vigilante, perceber cada detalhe que por ventura o paciente expressa sobre suas aflições. A maioria das vezes, os conteúdos trazidos pelo cliente se de forma não consciente, em suas diversas manifestações, seja, como já disse, pelo discurso, seja por outros recursos, como os gestos, a interpretação de situações vivenciadas, ou por expressões artísticas.
No que diz respeito à interpretação de situações vivenciadas, e angústias decorrente de situações inacabadas, remeto ao papel da memória, que juntamente com a atenção e a consciência, tem participação fundamental na definição do psicodiagnóstico dos casos e no andamento do trabalho terapêutico.
Muito dos conteúdos apresentados no encontro terapêutico vêm de experiências vividas pelo sujeito e que retornam constantemente à consciência do paciente, causando-lhe angústia, por não sentir-se capaz de, sozinho, conseguir superá-las. Esse processo de recuperação das informações armazenadas na memória, a maioria das vezes requer lembranças associadas à memória de evocação, de idéias já conhecidas, de fatos já vivenciados e que muitas vezes emergem sem uma ordem exata (evocação livre), seguindo o fluxo das ideais que vão se associando ao longo da fala do cliente. Muitas vezes, no entanto, esse processo pode se dar de forma implícita, sem que o cliente se dê conta exatamente dos elementos que agem em sua vida, influenciando em seu estado de ansiedade, mas que se manifesta e persiste em seus comportamentos presentes, em suas resistências e rejeições quanto a contato consigo e com seus campos de interação.
Cabe ao terapeuta mobilizar recursos para que o cliente possa entrar em contato com essas memórias e vivencie de forma atenta cada sensação envolvida naquela experiência ou sentimento evocado. Ao trazer para a consciência elementos mnemônicos, o terapeuta mobiliza o cliente a tomar consciência de elementos presentes em sua memória de longo prazo que dão uma idéia do sujeito enquanto uma integralidade, um processo contínuo de experiências vivenciadas, atentando para cada aspectos, cada comportamento experienciado ou idealizado, de modo a fazer com que mobilize energias a fim de que possa posicionar-se de forma ativa e existencial sobre sua própria realidade.
Muitas vezes, o terapeuta faz com que o cliente repita frases que ele mesmo havia expressado e que podem vir impregnada de significações, e que muitas vezes não perceptíveis. Essa repetição possibilita que o cliente mantenha por mais tempo uma determinada informação como figura emergente no campo perceptual, possibilitando que ele tome consciência de alguns aspectos de sua fala ou de traços de seu próprio comportamento, tom de voz, etc, e os ressignifique. A partir dessa ressignificação, através da vivencia enquanto possibilidade ou expressão existencial, é possível o armazenando de uma nova experiência, de novos (auto-)conceitos, revistos e reelaborados, em sua memória, de modo a retroagir positivamente em seu comportamento futuro.
Desta forma, novamente, a atenção e a memória se associam e interagem juntamente com os processos de auto-percepção do cliente, na prática terapêutica, em destaque na Gestalt-Terapia, possibilitando que ele tome consciência existencial de si-mesmo, e possa vivenciar o aqui-agora, elaborando projetos mais coerentes e integrados para o futuro, aberto à perspectiva do contato e da relação consigo e com o mundo à sua volta.

Creio ter me detido um pouco mais sobre a questão da atenção, mas considero que esta é fundamental tanto no processamento de aquisição quanto de evocação de memória, seja de curto, seja de longo prazo. Como deixei claro, no início do artigo, pretendo relacionar esses dois conceitos, de atenção e memória à prática da Gestalt-Terapia. Por tratar-se de um artigo curto, não foi possível explanar melhor sobre alguns conceitos, tanto dessa abordagem como da Psicologia Cognitiva. Espero, no entanto, poder ter atrelado, ao menos de forma panorâmica, algumas idéias fundamentais de ambas abordagens e teorizações da psicologia.
Concluo afirmando que tanto a atenção quanto a memória são elementos indispensáveis para a manutenção e operacionalização do ser humano, possibilitando sua interação com o mundo, viabilizando processos de percepção da realidade e formação de autoconceitos. Assim, a possibilidade de relacionar idéias e conceitos das mais diversas linhas de pensamento, como tencionado aqui, neste breve artigo, só demonstra a riqueza e as possibilidades de construção de um saber, cada vez mais amplo sobre o homem, em seu processo de construção e auto-descoberta, seja através de estudos científicos, como os da Psicologia Cognitiva, seja por meio de práticas voltadas para a compreensão do homem em interação consigo e com o outro, no mundo ou em um encontro terapêutico.

Salavdor, 11/12/2005

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. – São Paulo: Editora Altana, 2001. (Coleção Indentidades)

PERLS, Frederick., HEFFERLINE, Ralph., GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. – São Paulo: Summus, 1997

PERLS, Fritz. A abordagem gestáltica e Testemunha ocular da terapia. – Rio de Janeiro: LTC Editora, 1988.

RIBEIRO, Jorge Ponciano. O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. – São Paulo: Summus, 1997.

RODRIGUES, Hugo Elídio. Introdução à Gestalt-Terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

STERNBERG, Robert J. Psicologia cognitiva. – Porto Alegre: Artes Medicas Sul, 2000.

1 comentário:

  1. Iaraci Silva, 1 de julho de 2009, 10:34

    Ótimo artigo, muito bem colocado, tornando a psicologia cognitiva e gestalt de fácil entendimento sobre suas diferenças e aplicabilidade. Trabalho com educação para o trânsito e aplico um módulo sobre Percepção, sensação, memória e atenção – fatores cognitivos de tomada de decisão no trânsito. Obrigada. Iaraci Silva

     

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