Breve consideração sobre as cores
[BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE AS CORES: Um gestalt-terapeuta falando para um estudante de propaganda]
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Fui convidado responder um questionário para um trabalho de um aluno de Publicidade e Propaganda, da UCSal. Um verdadeiro desafio, pensar sobre a questão das cores, dentro de uma visão técnica e utilitária, que ainda vê as cores como um estímulo fragmentado, ou eliciador de comportamento reações e comportamentos. Isso me lembrou os primórdios da Psicologia, com os primeiros trabalhos de percepção, os primórdios da Psicologia da Gestalt e a revolução de uma perspectiva fenomenológica e de campo, do relativismo que inclui a dimensão subjetiva e a cultura, como fatores que desconstroem a prioris e abrem as portas da percepção para o campo da possibilidade e do aqui-agora a cada momento.
Bem, sem me estender, lá vão as respostas que me deram muito prazer em responder, e me fizeram pensar um bocado. Me coloco aqui na posição de um verdadeiro ignorante sobre o tema, um leigo, porém arrisco considerações gestaltica e fenomenológica. Penso no quanto ainda desejo aprender sobre tudo, o curto-longo tempo de uma vida, para me encantar com as descobertas da Psicologia, das psicoterapias, e do mundo que se manifesta pra nós a cada instante, prenhe de possibilidades, e muito distante das leis, causalidades e generalizações.
• Quais as principais cores que causam efeitos psicológicos ao ser humano? Como e Por quê?
As cores, como estímulo ou sensação, interfere diferentemente em cada pessoa, em cada contexto ou situação em que ela se encontra. Não dá para definir a priori o efeito de uma cor sobre uma determinada pessoa, sem levar em consideração o contexto dessa cor, se é a cor da parede de um ambiente, se num quadro, se num objeto, se na roupa que é usada, etc. Estamos o tempo inteiro envolvido por cores que são elementos de um configuração – gestalt – específica. Há estudos (científicos ou não) que descreve, o efeito de cores específicas, associando-as a sensações ou emoções dela decorrentes, por exemplo: “tons quentes” (laranja, vermelho, amarelo) ligados a excitação ou estimulação (para sexo, para comer, para a inteligência, etc) e “cores frias” (azul, lilas, etc) para tranquilidade, equilíbrio, harmonia, espiritualidade. Esses significados atribuidos às cores, no entanto, não podem ser generalizados, variando para cada sujeito e tendo diferentes efeitos. Dentro de uma perspectiva gestaltica e fenomenológica, “realidade é realidade para uma consciência” e “o todo é diferente da soma das partes”, de modo que não podemos estabelecer a priori o efeito de um estímulo sem considerar seu contexto e o sujeito – com sua subjetividade – nesse inserido.
• Por que em hospitais e instituições de saúde, predominam em seu ambiente a cor branca? Esta correta a utilização dessa cor ou deveria ser substituída por alguma outra?
Creio que a predominância da cor branca seja em função da higiene do ambiente (para melhor percepção da sujeira) – mas desconfio que o seu uso seja, talvez, pelo menor custo da tinta branca. (Hehehehehe). Na minha experiência em contexto hospitalar, seja como usuário, seja trabalhando inclusiva em UTI, me deparo com ambientes clínicos e hospitalares das mais diversas cores (brancos, amarelos, verdes, rosas, etc). No hospital em que estagiei, por exemplo, houve todo um estudo realizado para que se construísse a UTI. Usou-se cor amarela nas paredes, se priorizou o uso de janelas junto aos leitos, para trazer a iluminação natural, a fim de orientar o paciente no tempo-espaço e propiciar um ambiente tranqüilo e acolhedor. Como disse na resposta anterior é uma questão de contexto e a combinação do todo do ambiente que estabelece um impacto sobre o sujeito, e esse impacto é específico para cada um, variando, por exemplo, entre um paciente acamado numa UTI e um cliente num ambulatório/consultório. Tive um cliente de psicoterapia, por exemplo, que disse que ficava angustiado com o meu antigo consultório, que era amarelo.
• Existe alguma técnica, na área da Psicologia, que é utilizada para orientações da correta utilização das cores?
Não sei lhe responder com precisão sobre a existência de uma técnica – ou teoria – que oriente o uso de cores; Certamente há muitos estudos sobre as cores, desde os primórdios da Psicologia, na Filosofia, e em especial às abordagens experimentais que se dedicaram aos processos psicológicos básicos (Atenção, Memória, Inteligência, Motivação, Emoção, etc), em destaque, cito a Psicologia da Gestalt, que se dedicou ao estudo da percepção visual (por exemplo, o Rudolf Arnhein). Há usos no campo do design, da arquitetura e da comunicação, que se utilizam do conhecimento desenvolvido pela Psicologia da Gestalt e seus desdobramentos no campo das neurociências e da Psicologia Cognitiva, quando tratam da percepção de imagens subliminares ou imagens ambíguas, de noções de perspectivas, de profundidade, etc. Atualmente, creio que o uso das cores ainda se restringe ao campo da pesquisa experimental, que mantém a tradição de pesquisa de processos psicológicos básicos, mas se expande para campos da Psicologia Ambiental, Psicologia do transito, etc, que trabalham justamente com a construção dos espaços e seu impacto sobre o sujeito, com as mais diversas funções. Há certamente também alguma referencia ao uso e percepção de cores, provavelmente, com fins psicodiagnósticos, em testes ou técnicas psicológicas projetivos, entretanto, suas interpretações podem ser questionadas, se não embasadas por estudos atualizados e culturalmente contextualizados, bem como ao cuidado com o sentido e a realidade de cada sujeito específico, em sua forma de relacionar-se com o mundo.
• Quanto às percepções cromáticas. Qual(is) o(s) efeito(s) gerado(s) às pessoas?
Acho que a minha resposta à pergunta 1 responde essa pergunta. Não creio que seja possível prever, a priori, o efeito de uma cor ou combinação de cores. Pode-se até encontrar certas respostas em comum, às cores, mas o sentido e o impacto vai variar de pessoa para pessoa, de acordo com a experiência atual, as experiências passadas e o repertório simbólico da pessoa e da cultura em que ela está envolvida. As cores para um paulistano são diferentes para um baiano, como para um inglês ou um esquimó.
• Sabemos que as cores exercem efeitos às pessoas. Podem influenciar de maneira positiva ou negativa. Partindo desse princípio, o que a gestalterapia ou cromoterapia pode falar sobre essa afirmação?
Não sei lhe responder sobre a cromoterapia – que até onde eu saiba, não é um campo da Psicologia, mas sim uma abordagem terapêutica alternativa. Na condição de gestalt-terapeuta, como explicitado anteriormente, os efeitos positivos ou negativos das cores vão depender da configuração e do campo (contexto) de relação da pessoa com esse meio. Não há uma influencia específica, e a percepção – consciente ou inconsciente – vai variar em múltiplos aspectos, levando-se em consideração as múltiplas dimensões da pessoa (social, cultural, física, emocional, etc). As cores, em si, como feixe de luz, como estímulo visual, não exerce uma influência a priori. Sua configuração em todos, em objetos, no ambiente, na situação de interação pessoa-mundo, aí sim tem efeitos sobre a pessoa. Esse efeito, não é, em si, positivo ou negativo, mas pode ser positivo e negativo a depender da significação dada pela pessoa, em diferentes situações, de acordo com sua história de vida, de aprendizados, de relações, com a realidade que a cerca.