Considerações fenomenológicas em torno do conceito de Intencionalidade, “Agency” e Cultura*

Luiz Fernando Calaça

1

Em Gestalt Terapia a gente estuda um pouco de fenomenologia e a questão da intencionalidade, ao menos como eu compreendo do que eu estudei de Husserl, é uma característica da consciência. A consciência se volta para o mundo numa relação de intencionalidade, e a intencionalidade seria, em si, uma característica da consciência.

Fiquei pensando com meus botões o que seriam ações que não fossem influenciadas por estados intencionais? Seriam, creio eu, atos reflexos, inatos, “respondentes”. Todo o resto de ações humanas seriam intencionais, pois envolveriam um movimento da consciência em direção ao mundo.

Não sei qual é a compreensão do Bruner sobre “atos intencionais”, se estaria ligado a “intenção” (que penso eu que talvez fosse algo talvez mais delimitado, demarcado, racionalizado pela consciência) ou se estaria ligada a “intencionalidade”, que não envolve necessariamente uma compreensão racional a priori, mas um movimento próprio da consciência em direção ao mundo, pré-reflexivo, talvez “estético”.

2.

Eu tinha compreendido “agency” como um posicionamento implicado do sujeito em suas escolhas, no direcionamento de sua vida, apropriando-se de sua existência.

Minha questão era mais em relação à questão do termo “intencional”. Se estaria relacionado a idéia de “intencionalidade”, da fenomenologia, ou a “intenção”, como ato deliberado, pós-reflexivo.

3.

Pelo pouco que sei da psicologia Cognitiva, sei que ela sofre influencia de dois campos: uma das neurocientífica e das ciências da computação (que é o que a gente aprende mais na faculdade) e outra da perspectiva fenomenológica, pela influencia direta que sofre da Psicologia da Gestalt.

Acho e estou quase convencido de que a Psicologia Cultural de Bruner se afina com a vertente fenomenológica da Psicologia Cognitiva. O Brentano, vovô da Fenomenologia e bisavô da Psicologia da Gestalt, já trabalhava com a idéia intencionalidade, de consciência intencional, nessa perspectiva que concebe uma consciência ativa que se dirige ao mundo. Nesse processo de a consciência voltar-se para o mundo, se daria a significação da experiência, a partir do contato direto (e cotidiano) com o mundo, na construção subjetiva da realidade. O Husserl desdobra essa idéia e traz a questão da intersubjetividade – que seria o processo de compartilhamento desses significados, da construção da realidade num processo de diálogo entre subjetividades.

A criação de significados sedaria, pelo que eu compreendi, no momento em que se dá a experiência e a posteriori. A intencionalidade seria um movimento a priori, o “mergulhar na experiência”, o ato da consciência de ir em direção ao mundo. Pelo que eu entendo da fenomenologia, as relações do homem – e da consciência – são sempre relações de significação, pois o homem constrói a realidade significando-a subjetivamente a partir do seu contato com o mundo.

Acho que tem tudo a ver com o que o Bruner fala.

4.

No final eu acabo vendo tudo bem interligado. No final das contas o Vygotski também sofreu influencia da Psicologia da Gestalt. Tem um texto bem legal que traz essa “genealogia” do pensamento psicológico a partir da psicologia do Franz Brentano, que cita essa conexão entre o pensamento fenomenológico e as correntes mais compreensivas da Psicologia Cognitiva.

Li apenas o ATOS DE SIGNIFICAÇÃO do Bruner e desde aquela época, ainda na pesquisa, eu via uma grande afinidade do pensamento dele com o pensamento fenomenológico. Pena não puder ter tido oportunidade de aprofundar essas questões teóricas, já que o foco da pesquisa era outro, mas ficaram as impressões.

O Husserl traz essa dimensão intersubjetiva, que advem da relação entre as pessoas. Isso é o que está na base das abordagens fenomenológico-existenciais, no processo dialógico que se dá em psicoterapia, espaço em que vejo de forma mais viva e próxima à prática do psicólogo a aplicação dessas formulações teóricas.

Creio que o Bruner trata de uma dimensão intersubjetiva mais ampla, no plano da cultura, dos significados partilhados em contextos que transcendem as relações diádicas pessoa-pessoa. O que gosto dele é a valorização que dá ao cotidiano e ao conhecimento do senso comum. A Psicologia, sem isso, acho que tem muito pouco a contribuir para o humano.

Não sei se dá pra a gente entrar na cabeça do outro e saber o que ele está pensando, mas podemos confrontar nossas impressões com esse sujeito, e chegarmos aos poucos num acordo entre subjetividades – o “transacional”, o “intersubjetivo”. Vamos negociando com nossas impressões e significados, até que possamos pelo menos intuir algo do que pode ser o que o outro compreende como realidade.

Às vezes tenho a impressão de que essas questões são já bem antigas da psicologia, desde o velho vovô Brentano, até abordagens psicoterapicas de meados das décadas de 50, 60… Não sei o tempo que se deu para isso chegar no campo da pesquisa acadêmica, e, em especial, no campo da psicologia do desenvolvimento, mas que essas questões já estavam aí desde muito tempo, lá estavam.

Gosto um bocado de História da Psicologia justamente pois assim a gente cavouca as idéias e nos damos conta de que o novo é velho, e o velho é atualíssimo!

5.

Numa perspectiva gestaltica a cultura é o “campo” no qual estamos imersos. Ela existe antes de nós, e nós interagimos e transformamos ela, em nossas interações, em nossas negociações, em nossos trânsitos.

A questão do “a priori” e do “a posteriori” é algo que a fenomenologia trabalha bastante. O foco da fenomenologia é a experiência vivida, e as relações de significação dessa experiência. A proposta do método fenomenológico, de aproximação de uma compreensão da realidade, se baseia no “colocar entre parênteses” – a epoché – nossos a prioris, para tentarmos contactar a realidade tal como ela acontece no momento presente da relação, buscando compreender sua “essência” (a configuração do fenômeno, com sua singularidade e especificidade) e buscar a apreensão do que acontece pelo “como” acontece.

Nessa relação com a realidade – com o mundo, com o outro – criamos nossas significações, e resignificamos nossos a prioris (que existem, estão aí – mesmo entre parênteses – e são importantes para confrontarmos nossas significações do mundo), daí a possibilidade de mutabilidades das significações e da constante atualização do mundo. Todo esse processo de significação e negociação de significados se daria – a meu ver – ou no ato em si, na relação, ou a posteriori, quando refletimos sobre a situação em que nos envolvemos. E, mesmo essa reflexão, se dá num contato presente com a experiência vivida em algum momento.

As “significações a priori”, creio eu, são nossos preconceitos ou nossas expectativas sobre a realidade, aquilo que esperamos encontrar e que esperamos ser confirmado em nossas interações com o mundo. O método fenomenológico não busca confirmar esses a prioris, mas construir uma compreensão da realidade tal como vivenciada nas relações reais, no momento presente das relações.

É na vivencia dessas relações reais presentes que se ancora o dialogismo, a meu ver.

É claro que a cultura ( e o “social” ) se mostra como algo mais amplo, o campo do qual as relações de significação emergem, porém se concebemos a cultura como mutável e negociável, acredito eu, essas mudanças e negociações se dão nas ressignificações (e mudanças de ações) que se dão nas relações reais e atuais, a cada momento, mesmo tendo como referencial significações e ações passadas.

Numa perspectiva fenomenológico-existencial, nós somos um eterno presente. O passado e futuro existem enquanto memória e projeto, atualizados no presente. E nas ações e relações no presente são significados, ressignificados, construídos e reconstruídos.

Tô viajando também, não com Geertz, Bruner e Vygotski, mas com os fenomenológos-existenciais.

Às vezes acho que, no final das contas, eles falam a mesma coisa. Com mais ou menos objetividade (ou subjetividade), mudando o pouquinho os nomes dos construtos, essas coisas todas da ciência, mas seguem o mesmo caminho de uma psicologia compreensiva que se volta para o humano, em suas possibilidades de ser, estar e significar-se a cada momento, sem determinismos, (por favor e graças a deus!)

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* Considerações livres escritas em conversa de e-mail com membros do grupo de pesquisa “MATERNOS”, Psicologia/UFBa

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