Entre a Poética e a Sociologia: Contribuições de Paul Goodman para a Gestalt-Terapia.

Luiz Fernando Calaça

Neste momento, em que levanto possíveis temas para a minha monografia da pós-graduação em Gestalt-Terapia, me defronto com várias possibilidades de articulação e pontos ainda pouco explorados.

Um ponto que vem chamando a minha atenção em especial é a possível articulação entre Gestalt e Literatura, que iniciei a abordar numa articulação histórica entre as origens da GT, na vida de Perls, e o contexto histórico cultural da Alemanhã pós-1ª Guerra Mundial e nos Estados Unidos da Guerra Fria, com o movimento de Contracultura.

Tenho, desde 2007, tentado refletir sobre a literatura, em especial a escrita autobiográfica, como recurso terapeutico. Nessa busca, tento encontrar alguns atores que abordaram o tema, mesmo que brevemente, em suas obras. Entre eles, encontrei algumas referências traduzidas para a lingua portuguesa que merecem nota e que se agrupam em algumas categorias possíveis:

1) A escrita como recurso terapeutico:

- a passagens no livro Gestalt Terapia Integrada, dos Polsters, em que é relatado o momento em que um cliente produz um poema após uma vivência no setting terapeutico,

2) A questão da linguagem e a dimensão poética:

- o capítulo “Verbalização e Poesia”, contido no livro de fundação da abordagem gestáltica, o Gestalt Therapia do Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman, em que Paul Goodman se atém à questão da linguagem,

- os capítulos “A questão da linguagem” e “A poética terapeutica”, do livro A Cara e o rosto: ensaio sobre Gestalt Terapia, da Ana Maria Loffredo, em que ela retoma as reflexões do Paul Goodman e faz articulação com o ensaísta e crítico literário Octávio Paz;

3) O papel do terapeuta como tecelão de histórias:

- considerações contidas no livro A arte de restauras histórias, da Jean Clark Juliano, em que ela traz o papel do terapeuta como aquele que irá tecer, junto com o cliente, uma colcha a partir de seus fragmentos/retalhos de vida;

4) Gestaltistas que escrevem poesia:

- os poemas e contos presentes nos livros do Paulo Barros, Narciso e a bruxa e outras histórias psi (1994) e Amor e ética (2006);

- os livros de poemas Gestando poesias, de Márcia Lilla, e Janelas da Alma, de Silvério Lucio Karwowski

5) A poesia e as narrativas autobiográficas como forma possível de transmitir a Gestalt:

- o relato em forma de poesia do caso clínico de atendimento com crianças em arte-terapia gestaltica “A cólera e a cadeira de balanço”, de J. Lederman, contido no livro Gestalt Terapia: teoria, técnicas e aplicações, de Fagan e Shepherd (1980);

- passagens contidas nas teorizações do Jorge Ponciano Ribeiro, em especial, seu livro Ruidos: Contato, luz e liberdade: um jeito gestaltista de falar do espaço e do tempo vividos (2006);

- a autobiografia do Fritz Perls, Escarafuchando Fritz, dentro e fora da lata de lixo (1969/1979);

- o relato autobiográfico da Barry Stevens sobre sua experiência no kibutz gestaltico do Fritz, Não Apresse o rio, ele corre sozinho (1970/1979).

- relatos de experiência e da história da Gestalt Terapia no Brasil, contidos no livro A arte de restaurar histórias e no artigo “Gestalt-terapia: revisitando as nossas histórias”, publicado na revista eletrônica IGT na Rede, de Jean Clark Juliano.

Essas referências, embora sejam valiosas para esboçar um panorana, me parecem insuficientes para se fazr uma articulação teórica entre Gestalt e Literatura. A única obra que conheço que faz essa articulação é o livro Psicologia e Literatura (1962), de Dante Moreira Leite. A articulação feita por ele, no entanto, se refere não é a Gestalt Terapia, mas sim à Psicologia da Gestalt, de Koffka, Kohler e Wertheimer.

Diante dessa carência de teorização, atualmente tenho buscado na literatura em lingua inglêsa essas referências. Dentre esses livros, encontrei o Every Person’s life is worh a novel (1987), do Erving Poster, e os livros Speaking and Language: defence of Poetry (1972), Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator spirit come: the literary essays of Paul Goodman (1979) do Paul Goodman. Essas obras infelizmente não tem tradução para o português.

O livro do Polster é interessante por, além de trazer relatos de casos clínicos, à Yallon, traz a perspectiva da narrativa autobiográfica, de considerar o contexto terapeutico como um espaço narrativo, e a natureza historiada da experiência do vivido.

Já os livros do Paul Goodman vão para além do campo psicoterapeutico e articula campos do saber como a Linguistica, a Sociologia e a Crítica Literária.

Sua contribuição para a Gestalt-Terapia, infelizmente, tende a ser considerada muito mais como marco histórico - por constituir o grupo dos 7 -, não sendo, a meu ver, devidamente valorizado e estudado aqui no Brasil.

Paul Goodman sofre críticas em relação ao aparente “hermetismo” da sua escrita da parte teórica do Gestalt Therapy. Eu compreendo essa questão principalmente no que tange o desejo de a Gestalt nascente estar buscando uma aceitação científica entre os psicólogos americanos e estar preocupada em romper com a Psicanálise, o que faz com que suas teorizações se utilizem de uma linguagem que, em muitos aspectos, é formal e rebuscada, se utilizando de modelos explicativos ainda atrelado a conceitos psicanalíticos. Essa crítica ao Gestalt Therapy está também muito influenciada pela tradução da obra para a lingua portuguesa, e que pode, por isso, trazer problemas de entendimento que talvez não exista na obra em inglês.

Historicamente, a Gestalt Terapia brasileira veio muito influenciada pelo modelo adotado pelo Fritz Perls, baseado nos workshops e trabalhos vivenciais, na década de 70. O que pouco se discute, exceto por alguns poucos autores, é que a Gestalt Terapia se desenvolveu inicialmente em duas vertentes, uma “californiana” - a do Perls, desenvolvida em Esalen - e outra “novaiorquina”, pela Laura Perls e pelo Paul Goodman, desenvolvida pelo Instituto de Gestalt Terapia de Nova Yok. Essa segunda vertente se preocupava muito mais numa sistematização teórica e conceitual, e não tanto nas vivências. Infelizmente, tanto a Laura quanto o Paul Goodman, escreveram pouco em Gestalt Terapia, e o que foi escrito por eles não foi traduzido para o português, havendo pouquíssimas referências a seus trabalhos. Diferentemente da realidade brasileira, nos Estados Unidos há extensa publicações do Paul Goodman e sobre ele, organizada por Taylor Stoehr.

A obra de Paul Goodman traz consigo um caráter multiteórico e transdisciplinar - tão valorizado hoje nso meios universitários, porém tão pouco posto em prática - articulando diversos campos de conhecimento e temáticas.

A formação do Paul Goodman, em especial o seu doutorado em Humanidades, faz dele um intelectual eclético, que articula Filosofia, Linguística, Literatura, Psicologia, Arquitetura, Sociologia e Política. Suas obras articulam conceitos e pontos de vistas de autores como Witgenstein, Chomski, Freud, Reich, Buber, Kant, Hume, etc, demosntrando vasto conhecimento e erudição.

Sua formação anarquista e sua militância política dentro do movimento da Caontracultura, fez dele um intelectual que pensava sua realidade, panfletário e crítico ao capitalismo armamentista, opondo-se ao movimento da Guerra Fria e à Guerra do Vietnã, e dando visibilidade a questões sociais de políticas identitárias como o movimento negro americano e a questão da homossexualidade, sendo, neste último, um dos iniciadores da Teoria Queer. Ao minifestar sua bissexualidade como forma de estar no mundo, Paul Goodman expressa o ideal libertário de relativismo e transvaloração dos papéis sexuais e valores sociais, primando pela liberdade de ser o que se é.

Tal amplitude de sua ação política e de seus focos de reflexão intelectual, aponta, dentro da Gestalt Terapia, para uma contribuição maior e mais ampla que a meramente histórica. As discussões e militâncias dele, e seu engajamento nas origens da Gestalt Terapia, estão diretamente vinculadas à dimensão transgressiva e libertária desta abordagem, como uma vertente em psicoterapia que busca a valorização do humano e confirmação de sua forma de ser no mundo, lutando no caminho da autenticidade, da liberdade e responsabilidade existencial, dirigida a um mundo menos “neurótico” e mais comunitário.

Creio que, na mesma proporção em que a Gestalt Terapia herda seus fundamentos filosóficos da Fenomenologia do Brentano e do Husserl, da Ontologia de Heidegger, do Existencialismo de Sartre, da dialética da Indiferenca Criativa do Friedlaender, do Existencialismo dialógico de Martin Buber, do Zen-Budismo, e suas bases teóricas da Psicologia da Gestalt do Koffka, Kohler e Wertheimer, da Teoria de Campo do Kurt Lewin e da Teoria Organísmica do Kurt Goldstein, ela também deve a Paul Goodman sua “Sociologia Utópica“, como ele mesmo qualifica seu pensamento, ou, simplesmente, a suas aspirações libertárias e de emancipação do homem e da sociedade. Sem deixar, é claro, de levar em conta o seu olhar para a dimensão poética, daquele que age e atua, é autor e tradutor do mundo em que vive.

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