Gestalt e Literatura: Esboços e paralelos, gênese e atualidade.
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
RESUMO:
Este trabalho tenta estabelecer um paralelo entre GT e literatura, relacionando suas origens histórico-culturais com o Expressionismo Alemão no início do século XX e o movimento beat americano dos anos 50, analisando um caráter literário presente nas narrativas autobiográficas e teorizações de obras da Psicologia Humanista e GT, e refletindo sobre a atual produção de uma “literatura gestáltica” brasileira.
Comecei esse trabalho por um projeto, um esboço de idéias que, de algum modo, é um esboço de mim. Venho trabalhando algumas idéias desde meu primeiro ano de Psicologia, desde antes mesmo, antes de entrar na universidade, ao trazer a poesia para minha vida. A relação que faço entre Psicologia e Literatura é a que faço entre elas e mim, e é a que vejo, e de certa forma busco, na Gestalt-Terapia.
Neste trabalho que hoje apresento a vocês na forma de um esboço de um projeto, ainda a ser desenvolvido futuramente numa possível articulação entre a Gestalt e a Poesia, tentarei, no limite de tempo que me cabe, estabelecer um paralelo entre GT, arte e literatura, relacionando possíveis influências do expressionismo alemão do início de século XX e da Contracultura e movimento beat americano dos anos 60 sobre as origens da GT, além de sumariar algumas obras em que observo possíveis traços literários presentes, em narrativas autobiográficas e teorizações
Assim, levarei em consideração três contextos e momentos histórico-culturais distintos: 1) a Europa do início do século XX, envolvendo a 1ª Guerra Mundial, o surgimento e declínio do movimento expressionista alemão; 2) os EUA das décadas de
1) Alemanha: Início do século XX. Primeira Guerra Mundial. Expressionismo Alemão: Max Reinhardt, Salomo Friedlander, Martin Buber e Jacob Levy Moreno.
O primeiro paralelo que pretendo desenvolver é fruto de idéias em que entrei em contato a cerca de dois anos, em 2005, quando assisti uma aula aberta realizada por Afonso Henrique da Fonseca. Na ocasião, ele foi a Salvador vindo de Maceió para o Encontro Norte-Nordeste de Psicologia, e apresentou uma palestra sobre “Atualidades da GT”. Nesta apresentação ele trouxe algumas idéias sobre a influência do movimento expressionista sobre a GT, principalmente através do contato de Fritz Perls com o dramaturgo Max Reinhardt, trabalhando principalmente com a idéias de “performance”, “expressão” e “interpretação”, presentes nas técnicas gestálticas e na própria sua visão fenomenológica-existencial e hermenêutica de homem[1].
Meses depois, ao concluir a disciplina sobre Fenomenologia e Gestalt, ministrada por Lika Queiroz, montei com meus colegas um grupo de estudos, onde lemos textos introdutórios de GT e buscamos estabelecer conexões com temas que nos interessavam e emergiam das discussões. Na primeira reunião, lemos o capítulo sobre os pressupostos filosóficos da GT contido no livro de Ana Maria Kiyan (2001, 2006). Este continha uma visão cronológica da vida de Perls e as principais influências teórico-filosóficas que contribuíram para a fundamentação da GT. Nada se dizia, no entanto, a respeito do Expressionismo.
Busquei então fontes bibliográficas que apresentasse alguma noção do que foi esse movimento artístico e literário, e encontrei alguns fragmentos de textos expressionistas no livro de “Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro” da Gilberto Mendonça Teles (1999). Me chamou especial atenção o manifesto intitulado “Expressionismo na poesia” de Kasimir Edschmid, datado de 1918, em especial o seguinte fragmento:
A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal modo que ela chegue a nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; ao contrário, a imagem do mundo tem que ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos.
Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestaltet). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia de fatos (…) Agora existe a visão disso. Os fatos tem significado somente até o ponto em que o mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles.[2] .
Quando li este fragmento pela primeira vez, vi conexões diretas com o que havia estudado sobre Fenomenologia, saltando aos olhos a busca pela essência das coisas, através da percepção da realidade a partir das significações criadas por nós por meio as experiência sentida, que espelha o mundo. Tocou em mim, em especial, a idéia do papel ativo do poeta, como aquele que percebe o mundo de forma vivencial e subjetiva, sendo ele o que estrutura, organiza e dá forma a essa percepção.
Essa aparente constatação de um relação entre a Fenomenologia e o Expressionismo (e a própria Psicologia da Gestalt, que ecoa pelo uso da expressão alemã gestaltet), de início, de causou grande fascínio, de modo que fiquei a especular ingenuamente se o Expressionismo era fenomenológico ou a Fenomenologia era expressionista. Hoje tento responder a essa questão levando em consideração o contexto histórico-cultural em comum em que ambos os movimentos, filosófico e artístico, se desenvolveram na Alemanha de fins do século XIX e início do XX.
Buscando outras referências sobre o Expressionismo, descubro que este se desenvolveu em diversos campos, envolvendo desde uma fase pré-expressionista na pintura de Cézanne e Van Gogh, na segunda metade do século XIX; movimentos literários e artísticos, com o surgimento de revistas de cunho político, artístico e filosófico, na Alemanha das duas primeiras décadas do século XX; tendo, por fim, seu término decretado pela ascensão do nazismo em 1933. O Expressionismo, nas suas mais variadas manifestações (literatura, artes plásticas, teatro e cinema), refletia sobre o caos político, social e religioso que marcou a Europa, sendo influenciado pelo pensamento de Nietzsche e pelo decadentismo fin de siècle.[3]
Tratou-se, no entanto, não de um movimento de caráter popular, mas sim intelectual, em que se engajavam jovens escritores, artistas e filósofos, muitos de ascendência judaica, que no período da 1ª Guerra Mundial se movimentaram contra os a guerra e propunham reformas sociais radicais, tendo como base um espírito comunitário e um humanismo universal. Esse caráter intelectual é descrito na citação do texto “A Revolta Expressionista”, de Luiz Nazário (1999, 2001), em referência extraída de Lionel Richard , em “D’un Apocalypse à l’autre”, pp 129-133:
Espírito prático, Wilhelm Michael propôs a formação de um Congresso Internacional de Intectuais: cada país elegeria seus poetas, escritores, artistas, sábios e pacifistas e os encarregaria de representá-los. Estes formariam o primeiro Parlamento da Comunidade Universal, reunindo-se a cada ano num país deferente para conferenciar sobre as possibilidades de educar os povos no sentido da amizade e do combate ao ódio, destruindo, sob o fogo do espírito do amor, o bloco de violência e injustiça que o mundo civilizado representava. Kurt Hiller foi mais longe e sugeriu a formação de um Partido dos Intelectuais, com o objetivo de conquistar o Paraíso na Terra; seu programa incluía a suspensão da guerra, reformas econômicas para garantir o mínimo vital a todo cidadão; ajuda aos desempregados e aos criadores; liberdade sexual com o reconhecimento da homossexualidade; racionalização da procriação; abolição da pena de morte; proteção do indivíduo diante do crescente poderio da psiquiatria; transformação das escolas de ensino em escolas de pensar; combate contra as Igrejas e Parlamentos; estabelecimento de uma aristocracia do espírito; liberdade total de expressão[4].
Este contexto sócio-político-cultural, que constituiu a Zeitgeit, a cosmovisão da Europa do início do século XX, serviu como base e influência para a formação intelectual Fritz Perls nos 30 primeiros anos de sua vida, em especial no período em que viveu em Berlim, quando participou de círculos intelectuais e boêmios.
O contato com o Expressionismo não se restringiu à sua experiência no teatro de Max Reinhardt[5], mas também pelo contato com Salomo Freidlander, que, além de filósofo, era escritor expressionista e dadaísta, e, sob o pseudônimo de Mynona, contribuir para revistas expressionistas como Der Sturm (A Tempestade), Die Aktion (A Ação), Der Einzige (O Único) e Der Jugend, além de ter realizado escritos dadaístas intitulados Groteske e Parodie. (Dos escritos literários de Friedlander, tive contato apenas com 2 textos em língua inglesa, intitulados “Gramophone” e “Abduction”, disponíveis na internet, que versam sobre aspectos da modernização industrial).
Em sua autobiografia, Fritz registra o círculo cultural boêmio freqüentado por ele na em Berlim, e o contato com esta face expressionista/dadaísta de Friedlander, para além da influência deste como filósofo, com a teoria da Indiferença Criativa:
Eu e alguns médicos amigos pertencíamos à classe boêmia de Berlim, que tinha como ponto de encontro o Café do Oeste[6], e mais tarde o Romanische Café.
Ali se reunia muitos filósofos, escritores, pintores, políticos radicais e ainda um sem-número de freqüentadores. Uma das pessoas obviamente era Friedlander, embora nos encontrássemos quase sempre no estúdio de um pintor. Friedlander ganhava dinheiro escrevendo estórias muito engraçadas sob o nome de Mynona, que é a palavra anonym (anônimo) escrita ao contrário. Seu trabalho filosófico Creative Indifference (Indiferença Criativa) teve tremendo impacto sobre mim.[7]
Também Martin Buber, filósofo que muito influenciou Laura Perls, e consequentemente das bases filosóficas da GT, pelo existencialismo dialógico e relação EU-TU, contribuiu para revistas expressionistas pioneiras, como a Die Neue Gemeinschaft (A Nova Comunidade), onde propagava a filosofia romântica do retorno à natureza como condição para o nascimento do Novo Homem[8], tendo como base o judaísmo hassídico.
É importante ressaltar, ainda que de passagem, a fim de conclusão dessa primeira articulação entre a GT e o Expressionismo, a presença de J. L. Moreno como outro representante do movimento expressionista, ao ser organizador e colaborador da revista existencialista e expressionista Daimon Magazine, de
2) Estados Unidos: décadas de
O segundo paralelo que me proponho a estabelecer nesta aproximação entre GT e Literatura se dá pelo presença de Fritz Perls nos Estados Unidos, a partir da década de 40, vindo a entrar em contato e a fazer parte do movimento da Contracultura.
Conforme é apresentado por Kyian (2006), após a 2ª Guerra Mundial, Fritz Perls decide sair da África do Sul, onde havia se exilado juntamente com Laura, com a ascensão do nazismo, e parte para os Estados Unidos, onde se estabelece
Posteriormente, ele é apresentado a Elliot Shapiro (educador), Paul Weiz (médico que apresenta a Perls o zen-budista), Isadore From (homossexual), Ralph Heferline (acadêmico) e Jim Simkin, que formaram, juntamente com Fritz, Laura Perls e Paul Goodman, o Grupo dos Sete, responsável pela organizou e sistematização das bases teóricas da GT em 1950. Dessa união viria a surgir “bíblia” da GT, o Gestalt-Terapy (1952), além da criação do Instituto de Gestalt-Terapia de Nova York.
Perls, no entanto, dedicou-se, a partir desse período, a uma vida “andarilha”, contribuindo pouco para sistematização da GT, encarregando-se principalmente da divulgação da abordagem em outras regiões dos EUA, em viagens que fez a Cleveland, Detroit, Toronto, Miami e, entre 1959 e 1963, empreendeu viagens ao redor do mundo, entrando em contato com comunidades beatniks, em Israel, e em um mosteiro zen no Japão.[11] Nesse ponto é que surge meu interesse em pontuar a conexão que vejo entre a GT e o movimento beat.
No mesmo período da ida de Perls a Nova York, na década de 40, surge nos EUA, também nesta cidade, um grupo de jovens intelectuais e “vagabundos” composto por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Neal Cassady e Carl Salomon, que vem a se consolidar na década de 50 como o movimento literário e cultural beat, que sob a influência do jazz e do rock n’roll, deu início a uma geração marcada por uma cultura de contestação ao Establishment que viria a culminar com a Contracultura dos anos 60 e 70.
Elias Boainain Jr (1998) descreve esses anos da Contracultura, esse novo Zeitgeist revolucionário – muito semelhante ao vivido no início do século na Alemanha –, da seguinte forma:
Anos de revoltas políticas e de costumes, sobretudo entre a juventude, e em que mais do que nunca a contestação ao sistema e aos valores estabelecidos estava na ordem do dia. Anos marcados pelo que, na expressão cunhada por Theodore Roszak (s/d.), foi chamado de contracultura: revoltas estudantis, movimento hippie, mobilização pacifista contra a Guerra do Vietnã, ativismo político, organização das minorias raciais e feministas, desafio á autoridade, revolução underground nas artes, oposição ao materialismo consumista, valorização do corpo, do sentimento, do amor livre, da experimentação psíquica por meio de drogas psicodélicas, da ecologia, da auto-expressão espontânea e das experiências meditativas e espirituais. Essas tendências todas convergiriam na rejeição aos modelos tradicionais de família, trabalho, escola, relações interpessoais, igreja, governo, instituições em geral e da própria cultura ocidental. [12]
Voltando ao termo beat, este designa o movimento literário que deu início à Contracultura nos anos 50, e significa, dentre outras coisas, beatitude, beato, santificação, além da batida do jazz, o embalo, o ritmo, sendo usado também para expressar cansaço e saturação, tendo o movimento beat como marca a vida nômade e a estrada sem rumo de On The Road, de Jack Kerouac, escrito em 1951 e publicado em 1957. (Carmo, 2003) Essa obra cria o mito do vagabundo e relata
as experiências e atitudes de um grupo de jovens norte-americanos, loucos por emoções fortes e cujos principais interesses na vida, além da literatura, giram em torno de viagens, estradas, agitadas festas, jazz, sexo, carona, drogas. (…) Ao rejeitar os valores burgueses, os beatniks valorizavam a espontaneidade, a natureza e a expansão da percepção, que alcançariam através das drogas, do jazz e das religiões orientais.[13]
Em sua autobiografia, “Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo” (1969), Perls relata o mesmo tipo de experiência de errância descrito por Kerouac
O fato é que guiei sozinho aqueles 500 quilometros pelo deserto (…) Ao contrário das minhas expectativas, a viagem não foi nem um pouco chata. A estrada era estreita, mas asfaltada e, em sua maior parte, em boas condições. (…) Achei alguns vagabundos de praia, em sua maioria americanos, fascinantes. Hoje os chamamos de hippies, e eles são encontrados aos milhares. É claro que entre a nossa turma boêmia de Berlim havia um ou outro tipo ocasional cuja profissão era não fazer nada; mas a maioria era constituída de gente ávida de se tornar importante e conseguir algo na vida, e muitos conseguiram. Eu também tinha encontrado beatnicks, que haviam tentado e desistido; gente zangada batendo cabeça contra as regras de ferro da sociedade. (p. 117-118)
Outro representante importante do movimento beat e posteriormente da contracultura americana, foi Allen Ginsberg, autor do poema Howl (Uivo), publicado em 1958, que sintetiza as experiências de toda a Geração Beat, como no fragmento inicial citado a seguir:
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz (…)
No editorial da edição de 1997, da Gestalt Review, Joseph Melnick compara Allen Ginsberg aos fundadores do movimento da Gestalt Terapia, quanto a alguns valores filosófico, social e políticos, colocando-os como líderes do progressivo zeitgeist social que contestou a ordem social conservadora dominante na década de 50. Melnick compara Ginsberg e Perls pelo otimismo radical, dividindo ambos a posição de gurus da Contracultura. Eles teriam em comum o discurso marginal e a valorização do conflito criativo e da expressão honesta das diferenças. Já as semelhanças de Ginsberg com Paul Goodman se dariam pela defesa que faziam da homossexualidade e do pacifismo anti-guerra, empreendidos na década de 60, bem como o pouco reconhecimento que tiveram, Ginsberg e Goodman, na poesia e na produção psicológica, respectivamente.[14]
Desta forma, podemos verificar grandes aproximações entre as origens da GT e o movimento beat, havendo inclusive algumas coincidências, como o fato de tanto o grupo dos 7 quanto o composto por Ginsberg, Kerouac e outros, ter se dado
A casa onde Perls residiu no período de
Naquela primeira noite a primeira coisa que percebo é que a luz da cozinha está acesa, no alto do despenhadeiro, à direita onde alguém construiu uma cabana onde se descortina toda a paisagem terrível de Big Sur, alguém lá no alto está fazendo uma ceia leve e gostosa é só o que eu sei - A luz da cozinha da cabana lá no alto é como um farolzinho fraco e morre em pleno ar suspensa a trezentos metros acima das ondas furiosas – Para construir uma cabana lá no alto só mesmo um arquiteto blasé velho gruisalho aventureiro (…) [15]
A descrição feita por Perls de Esalen é semelhante à realizada por Kerouac, principalmente na descrição da paisagem composta por mar e rochedos:
A minha casa fica a cem metros acima dos banhos, bem sobre o rochedo. Ela é em grande parte escavada na montanha, então tem uma vista de milhares de quilômetros quadrados de oceano, e também dos rochedos selvagens, interrompendo o ruído e o balanço incansável do mar, cedendo apenas algumas rochas para as ondas existentes. A gente não sai pela porta, a gente emerge, não como antes, entrando na natureza intocada, mas numa mistura de visão magnífica, degraus de pedras naturais que são uma extensão da parede de pedra circular, cabanas e automóveis, mais embaixo. [16]
Esses fragmentos servem como exemplo do contato, mesmo que indireto, entre Perls e o movimento beat, no caldeirão cultural que representou a Contracultura americana, celeiro para a emergência de várias das principais abordagens que constituíram o movimento humanista da Psicologia, a 3ª Força.
3) EUA e Brasil. Décadas de
É importante salientar que é nas décadas de 50 e 60 que, nos EUA, o movimento Humanista se estabelece, muito influenciado pela Psicologia da Gestalt de Wertheimer, Koffka e Kohler e por psicólogos humanistas de formação gestaltista como Goldstein, Angyal e Lewin, tendo também como influência as teorias neopsicanalíticas, holistas, as Psicologias Esistenciais e as Escolas americanas de Psicologia da Personaidade[17].
As principais abordagens a que me proponho reportar nesta terceira parte do trabalho são além da GT, a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl Rogers, tendo como principal argumento o fato de, ao menos no Brasil, a literatura rogeriana ter servido de grande influência, na década de 60, para os gestalt-terapeutas[18]. (Juliano, 2004).
Meu interesse consiste em elencar as narrativas e relatos autobiográficos produzidos tanto na Gestalt-Terapia, quanto na literatura rogeriana, por considerar estas obras como de grande importância, não apenas histórica. O que tem-se observado nos. últimos 30 anos em GT, foi uma ênfase maior na fundamentação teórico-filosófica da GT, em detrimento, com algumas exceções, do caráter vivencial e reflexivo presente nessas obras iniciais.
As narrativas que busco resgatar a título de indicação bibliográfica, trazem o que considero a matriz da experiência gestaltica, com uma ênfase dirigida ao vivido, ao aqui-agora, a vida cotidiana do homem e do terapeuta humanista gestáltico.
Dentre as obras que classifico como narrativas, situo primeiro alguns “clássicos” de autores humanistas de influência rogeriana como:
- As obras “Tornar-se pessoa” (1961) e o “Um Jeito de Ser” (1980) de Carl Rogers, em que este mescla, em alguns capítulos, reflexões pessoais sobre o desenvolvimento da teoria da ACP, apresentando uma perspectiva autobiográfica;
- Os capítulos autobiográficos de Barry Stevens contidos no “De Pessoa para Pessoa” (1967), sob o títulos “Da minha Vida” em que ela dialoga com a teoria de Rogers, através de uma leitura pessoal, associada a fatos de sua vida, sentimentos e pensamentos decorrentes de vivências cotidianas;
- “A mulher emergente: uma experiência de vida” de Nathalie Rogers (1980), filha de Carl Rogers, que traz em uma obra autobiográfico reflexões sobre a mulher, a busca do feminino, o uso de grogas alucinógenas e o despertar da sexualidade, temas emergentes a partir no movimento de Contracultura americano ;
- “Vestígios de Espanto: notas de fim de semana de um psicólogo” (1985) de John Keith Wood, que traz uma escrita coleção de relatos cotidianos e narrativas curtas, poemas, ensaios sobre a ACP, em que ele faz uma crítica à ciência positivista americana, em favor de um olhar de estranhamento e reencantamento diante do mundo e do homem.
- A já comentada nessa apresentação autobiografia do Fritz Perls, “Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata do lixo” (1969), escrita em Esalen e Cowikan, em 1969, na qual ele faz um retrospecto de sua vida, revive experiências e tenta fechar gestalten inacabadas, utilizando-se de uma escrita fragmentada e polimorfa em prosa, poesia e drama (nos momentos top dog-under dog) e realiza importantes reflexões teóricas sobre a Gestalt-Terapia;
Essa obra em especial é muito criticada pelo seu caráter confuso e fragmentado (Kyian, 2006), mas considero de grande importância por trazer uma reflexão do próprio Perls sobre sua trajetória pessoal e da abordagem, na forma como ele a concebia. As aberturas deixadas por Perls servem, a meu ver, como brechas e portas para o desenvolvimento da Gestalt e os vários estilos empregados em sua narrativa reproduz a premissa tão enfatizada, mas às vezes esquecida, do gestaltista que, fazendo seu próprio trajeto de vida, configura a GT da sua forma, a partir de sua experiência pessoal.
- “Não Apresse o Rio: ele corre sozinho” (1970) de Barry Stevens, que envolve um relato em primeira pessoa sobre suas experiência no Instituto Gestalt do Canadá, o gestalt-kibuts em Cowikan, em 1969. Esta serve quase como uma continuidade e um contraponto da autobiografia do Perls, onde ela o descreve de forma distinta a que ele mesmo se faz representar. Além disso, ela descreve o convívio em comunidade, exercita a focalização da awareness em momentos do aqui e agora, revisita, através das memórias, experiências vividas em aldeias de índios americanos, numa perspectiva etnográfica sobre o cotidiano, se aproximando pela simplicidade da narrativa ao censo comum, ou à denominada “Psicologia popular”, tecendo também reflexões sobre o envelhecimento e maternidade.
A dimensão e o estilo autobiográfico dessas obras é também observado nas primeiras obras de caráter teórico mais sistematizado, da GT, como o “Gestalt Terapia Integrada”, do casal Polsters (1973; 2001) e o “Gestalt - uma terapia do contato” de Serge e Anne Ginger (1987; 1995). Nestes, os autores se utilizam de exemplos da esfera do vivido, seja pessoal, seja da experiência clínica, para desenvolver uma articulação teórica e conceitual sob uma perspectiva fenomenológico-existencial.
4) Brasil, 1980 até os dias atuais. Escritos poéticos e a arte de contar histórias.
O último ponto que pretendo tratar diz respeito à “literatura gestaltica” que emerge atualmente no Brasil, paralelamente ao número significativo de publicações teóricas. Durante os mais de trinta anos de Gestalt-Terapia no Brasil, como já mencionei, observamos uma grande preocupação dos gestalt-terapeutas no sentido de tornar evidente a consistência da abordagem através da exploração e explicitação de suas bases filosóficas e fundamentação teórica, bem como a questão da técnica clínica e ou instrumentais, o que teria repercutido de forma evidente o crescimento de produções de mestrado e doutorado nos últimos 30 anos (Holanda, A. F. e Karwowski, S. L., 2004). Esses anseios de fundamentação da abordagem vêm da demanda dos gestalt-terapeutas de dar mais legitimidade à GT no campo das práticas psi, buscando tornar mais consistente sua formação profissional (Frazão, 1995).
Neste contexto cito três representantes deste movimento que creio seguiram caminhos bem próprios e poéticos: Jorge Ponciano Ribeiro, Jean Clark Juliano e Paulo Barros.
Paulo Barros, morto no ano passado, foi um importante impulsionador da GT no Brasil, ao viabilizar, junto à editora Summus, na condição de tradutor, revisor e organizador de traduções de obras estrangeiras.
Em “Narciso, a bruxa e outras histórias psi” (1994), Barros é fortemente influenciado pela Psicologia Analítica e pela Dasainanálise, seus contos em formas de fábulas e histórias infantis trazem personagens arquetípicos, e seus poemas refletem questões como a existência, a temporalidade e a finitude humana. Além disso, suas articulações teóricas, do início da década de 90, já apontam para críticas aos caminhos adotados pelos gestalt-terapeutas, ressaltando a necessidade de não se esquecer a dimensão sensível e experiencial do terapeuta, suas falhas, suas feridas e sua condição de humano. Em uma escrita “polimorfa” que, tal como a de Perls em sua autobiografia, mescla poesia, prosa e teorizações. Os “ruídos” que emanam de sua escrita servem como potencializadores de “insights”, e, em suas narrativas, desenvolve-se um olhar para o vivido, para uma psicologia popular, um saber ancestral e mítico, ateórico. Arte de contar histórias.
Em “Amor e ética” (2006), sua última obra publicada, Barros segue o mesmo estilo, mas inova ao trazer discussões sobre a internet como forma de pesquisa, apontado para os novos tempos, o mundo virtual. (Nesse ponto abro um parêntese e ressalto um interesse pessoal meu por um fenômeno atual: o blog e as escritas autobiográficas. Conteúdo ainda inexplorado, ou pouco explorado no campo psi.)
Jorge Ponciano Ribeiro certamente é o que desenvolveu de forma mais significativa, ao menos em número de publicações, obras que serviram ao objetivo de consolidar a GT enquanto abordagem reconhecida no campo da Psicologia. É interessante notar, no entanto, o seu estilo próprio de fazer teoria, muitas vezes recorrendo a uma linguagem poética, poucas vezes acessível ao leitor num primeiro momento.
Apenas a título de exemplo, cito uma das definições de contato que ele traz nas primeiras páginas do seu livro “O Ciclo de Contato” (1997):
CONTATO É ARTE. Ternura, suavidade, carinho, disciplina, clareza, muitas vezes são os verdadeiros alimentos do contato. O corpo é o santuário onde habitamos, uma oração visível saudando o universo. Obra de arte, a mais fina, imagem e semelhança de Deus, o corpo é a projeção da arte interior de cada um de nós. O corpo é a pessoa, é o retrato de si mesmo, da minha história, por isso só pode ser falado por mim. Se o outro me toca eu ou eu toco o outro, devo faze-lo com a reverência própria de quem entra num santuário à procura do sagrado.[19]
Esse estilo poético, marcado por reflexões que transcendem a teoria e se desenvolve em direção ao sagrado, é evidenciado pelo estilo literário de Ponciano, e, em sua última obra “Ruídos: contato, luz, liberdade: um jeito gestaltica de falar do espaço e do tempo vividos” (2006) ganha uma forma livre, voltada para a narrativa do cotidiano, através de contos, crônicas, reflexões de pensamento livre em articulação com o vivido. Tais reflexões articulam temas da religião (cristianismo), espiritualidade, viagens (Santiago de Compostela), em conexões com a natureza, holismo e totalidade.
Por último, mas não menos importante, Jean Clark Juliano, uma das pioneiras da GT no Brasil, traz em diversos artigos essa história por ela vivida, refletindo pelo caminho trilhado no Brasil, pontuando seus conflitos, buscas por aprofundamento teórico, tentativas e erros.
Em seu livro “A Arte de Restaurar Histórias” (1999), ela trata do trabalho do psicólogo, utilizando como metáfora a imagem do terapeuta como artesão que cria colchas a partir dos retalhos de vida de seus clientes. Retalhos que são fragmentos de histórias. Nesta obra, também, num estilo próprio, ela traz cartas, reflexões, memórias, memórias da GT brasileira, um olhar sobre o envelhecimento, sobre a morte, o luto. Temas gerais sob uma perspectiva não teórica, poética, através de um olhar sobre o mundo e a vida.
Estes autores brasileiros, cada qual com sua especificidade, com seu “estilo” próprio, faz articulações entre fantasia, ficção e autobiografia, numa proposta que transcende o campo da teorização e adentra uma metapsicologia, uma reflexão sobre a vida e a existência, sobre o ser pessoa, o ser psicólogo, num processo de construção e desconstrução de significados.
CONCLUSÃO
Concluo, então, este trabalho, que antes de tudo defino como uma tentativa de abrir uma via de articulação possível entre Gestalt-Terapia e a literatura, buscando compreender vínculos existentes entre a experiência vivida e significada e as construções poéticas e narrativas dos relatos autobiográficos presentes em obras da Psicologia Humanista e Gestalt-Terapia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARROS, P. (1994). Narciso, a bruxa e outras histórias psi. - São Paulo: Summus.
BOAINAIN JR, E.(1998) Tornar-se transpessoal: transcendência e espiritualidade na obra de Carl Rogers. São Paulo: Summus.
CARMO, P. S. do. (2003). Culturas de rebeldia,: a juventude em questão. 2ª ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo.
EISNER, L. H. (1985). A Tela Demoníaca: As influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra: Instituto Goethe.
GONÇALVES, C. S.; WOLF, J. R.; ALMEIDA, W. C. de. (1988) Lições de Psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Agora.
JULIANO, J. C. (1999) A arte de restaurar histórias: libertando o diálogo. - São Paulo: Summus.
KIYAN, A. M. M. (2006) E a gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana.
MELNICK, J. (1997) “Editorial” In: Gestalt Review, 1(3): 185-189, 1997
PERLS, F. S. (1979). Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo. São Paulo: Summus.
ROGERS, C. (1976) Tornar-se pessoa. - São Paulo: Martins Fontes.
__________. (1983) Um jeito de ser. São Paulo: EPU.
__________ e STEVENS, B. (1976). De pessoa para pessoa: o problema de ser humano, uma nova tendência na psicologia - São Paulo: Thompson Pioneira.
ROGERS, N. (1993). A mulher emergente: uma experiência de vida. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
TELES, G. M. (1999). Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Editora Vozes.
Von Zuben (1990), “Jacob Levy Moreno e Martin Buber: um encontro”, in: O Psicodramaturgo J. L. Moreno, 1889-1989. São Paulo: Casa do Psicólogo
WOOD. J. K. (1985). Vestígios de espanto: notas de fins fé semana de um psicólogo. São Paulo: Agora, 1985.
[1] Cf.
[2] TELES, G. M. (1999). Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. Petrópolis: Editora Vozes. p. 111.
[3] TELES, G. M. (1999). Op. Cit. p. 105.
[4] NAZARIO, L. (1999). “A Revolta Expressionista”, in As sombras Móveis. Belo Horizonte: Editora da UFMG/mídia@rte, 1999. Ampliado e disponível no site: http://www.expressionismo.pro.br/express.html.
[5] Max Reinhardt é apontado por Einser (1985), não como expressionista, mas como impressionista, tendo resistido a inovações propostas pelos jovens artistas expressionistas. Cf. EISNER, L. H. (1985). A Tela Demoníaca: As influências de Max Reinhardt e do Expressionismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra: Instituto Goethe. P. 45-46.
[6] Esse mesmo local é apontado no texto de Nazario (1999) local de reunião de intelectuais e artistas expressionistas, sob o nome de Café des Westerns ou “do Ocidente”.
[7] PERLS, F. S. (1979). Escarafuchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo. São Paulo: Summus. P. 74-75.
[8] NAZARIO, L. (1999). Op. Cit.
[9] GONÇALVES, C. S.; WOLF, J. R.; ALMEIDA, W. C. de. Licções de Psicodrama: introdução ao pensamento de J. L. Moreno. São Paulo: Agora, 1988. Conforme os autores desse livro, Moreno teria colaborado na Daimon Maganize juntamente com Martin Buber, Max Scheller, Jacó Wasserman e Kafka. Há, no entanto, impasse quanto à veracidade da contribuição de Buber para essa revista e do possível contato estabelecido entre ele e Moreno, conforme apresentado no artigo de Von Zuben (1990), “Jacob Levy Moreno e Martin Buber: um encontro”, in: O Psicodramaturgo J. L. Moreno, 1889-1989. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1990, p. 106-118.
[10] KIYAN, A. M. M. E a gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana. P. p. 57-59.
[11] Ibid, p. 27.
[12] BOAINAIN JR, E. Tornar-se transpessoal: transcendência e espiritualidade na obra de Carl Rogers. São Paulo: Summus, 1998, p. 28.
[13] CARMO, P. S. do. Culturas de rebeldia,: a juventude em questão. 2ª ed. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2003. p. 28.
[14] MELNICk, J. Editorial In: Gestalt Review, 1(3): 185-189, 1997.
[15] KEROUAC, J. (1985). Big Sur. São Paulo: Editora Brasiliense S.A., p. 24-25.
[16] C. f. KYIAN, Op. Cit. p. 83.
[17] Cf. BOAINAIN JR. Op. cit. p. 24-27.
[18] Cf. JULIANO, J. C. “Gestalt-terapia: revisitando as nossas histórias”. In: IGT na Rede, Revista Virtual, 2004.
[19] RIBEIRO, J. P. (1997). O Ciclo do Contato. São Paulo: Summus.
isso que eu li é incrivel muito legal esse resumo é ótimo
Parabéns!!!
Olá, Luiz.
Excelente seu texto. Espero que ele tenha uma acolhida na nossa comunidade, pois junta competencoa, clareza e um estilo fácil de seguir. Obrigado. Jorge Ponciano
Parabéns pelo artigo, estava procurando material para um trabalho de psicologia e não encontro muito material relativo a Gestalt, usarei alguma coisa dos teus textos se me permitires, com os devidos créditos.
Beijos e muita luz.