Homossexualidade e Cura

Luiz Fernando Calaça*

Recentemente tem havido um movimento no meio GLBT pela punição da psicóloga Rozângela Alves Justino, que afirmava ter realizado curas de homossexuais, associando a homossexualidade a doença, posição que vai de encontro ao código de ética do Psicólogo e a Resolução do Conselho Federal de Psicologia, de 1999. Esse acontecimento me faz pensar sobre alguns aspectos que me parecem relevantes para discussão:

1) A vinculação da homossexualidade ainda como doença;
2) A definição de cura;
3) A crença na onipotência do psicólogo.

Sobre o primeiro ponto, considero que já é mais do que sabida a posição da Psicologia atual sobre o fenômeno. Numa perspectiva fenomenológico-existencial, a homossexualidade não se configura nem como “doença”, nem de “escolha” ou “opção”, mas como condição existencial. A pessoal não é nem homossexual nem heterossexual, pois ser algo implicaria em conceber que isso faz parte da essência da pessoa, e por isso, inato e imutável.
Particularmente não acredito em nada que seja tão sólido e cristalizado que não possa ser flexibilizado ou transformado. A homossexualidade é um estado de existência, uma das muitas formas de ser no mundo, uma dimensão do todo da existência de uma pessoa. Não é doença pois não pode ser contraída, não é uma anomalia genética, nem social, nem cultural. É algo que existe, está aí, sempre existiu e sempre existirá, pois é do humano, faz parte de sua condição existência.
Homossexual pode ser um comportamento, uma atitude, uma manifestação de expressão de afeto. Pode ser um ato de amor e uma forma de se satisfazer afetiva e sexualmente. A homossexualidade pode ser um meio pelo qual realizamos um fim, o meio que encontramos para sermos felizes, vivenciarmos nossa sexualidade, construir uma parceria, estabelecer laços de afeto. A homossexualidade não é uma essência, mas uma manifestação da existência. Não podemos precisar quando ou como se manifesta pela primeira vez, não tem causa, nem é conseqüência. Se desenvolve ao longo da vida, pode se configurar de diversas formas – ações, pensamentos, fantasias, emoções, sentimentos – e pode ser vivida em diferentes graus de consciência e aceitação.
Quando trago esses dois últimos termos – consciência e aceitação – penso no ser humano como um todo. Consciência de si e aceitação de si. Consciência de si com o outro e aceitação do outro como outro. O adoecimento talvez venha justamente da não consciência e da não aceitação – de si e/ou do outro. Diante da não consciência e não aceitação, surge o sofrimento, pela tentativa de ser diferente do que se é, ou pela tentativa de transformar o outro em outra coisa, ou ainda, de tentar fazer o outro aceitar aquilo que você acredita ser.
Havendo sofrimento, abre-se espaço para a atuação da psicologia como “promessa de cura”. Digo promessa por acreditar que a cura de um sofrimento emerge do próprio sujeito, do seu processo de consciência e aceitação de si mesmo. A psicologia, tendo a psicoterapia como recurso técnico, é apenas um meio pelo qual se pode tentar alcançar um fim. O fim, geralmente é aceitar quem se é, ou tomar consciência de formas de ser que, por muito tempo deixaram de ser funcionais e passaram a causar sofrimento – individual, social, corporal, existencial, espiritual… Nesse processo, o terapeuta é apenas companheiro de viagem, é um Sancho Pança que acompanha o Dom Quixote em sua jornada.
Nessa jornada, pode-se fazer descobertas sobre si que muitas vezes são dolorosas, prazerosas, pode-se rever crenças e expectativas introjetadas a partir dos outros ou criadas por si mesmo, crendo que se trata de algo que foi dito por outra pessoa “poderosa e opressora”. Muitas vezes nos deparamos com nossos fantasmas e com monstros imaginários que nós mesmos criamos. No caso da homossexualidade, essas “pessoas poderosas”, esses “monstros” e “fantasmas” são pessoas de carne e osso – nossos pais e amigos, nossos colegas de trabalho, dos quais tememos sofrer preconceito e violência. E às vezes realmente sofremos, mas nem sempre.
Às vezes, no entanto, esses monstros são nós mesmos, nosso medo de sermos nós mesmos, de nos aceitarmos, por não conseguirmos dar conta das sensações e sentimentos que emergem em nosso corpo, em nosso pensamento e que chamamos desejo. Às vezes somos nossos próprios algozes, nos martirizamos tentando dominar nossos “instintos”, nos punindo e suplicando de Deus a absolvição de nossos pecados. Sofremos como nosso próprio preconceito, com nossos julgamentos – projeções que antes dirigidas ao outro se voltam sobre nós mesmos – , com nossa homofobia internalizada.
Diante de tamanho sofrimento buscamos a cura, criamos a ilusão de que poderemos ser salvos por médicos, padres, pastores, e, por fim, por psicólogos. Muitas vezes vamos ao consultório de um psicólogo desejando ser curados de algo que nos atormenta – nós mesmos. A cura entendida como o silenciar do corpo, do desejo, o controlar os instintos, o submeter-se à privação, o deixar de ser o que se é. Empoderamos o psicólogo – assim como a todos os outros “curadores” – de um falso poder que não existe realmente e, mais cedo ou mais tarde, nos daremos conta de que realmente não existe e que, o máximo que se pode fazer é aceitar quem se é, ou melhor, quem se está sendo.
Um homem (ou mulher) “heterossexual” casado, com filhos, com desejos homoeróticos, pode se tornar “homossexual”, separar-se da esposa, e iniciar relacionamento com um outro homem. Um jovem, que teve namoradas e até foi noivo, também pode. Uma mulher, lésbica, pode ter filhos, pelas vias naturais ou por inseminação artificial. Um homem gay também pode ser pai e engravidar uma mulher – é biologicamente saudável e nada, fisiologicamente, o impede. Um homem gay, assumido, pode, um dia, aparecer para a família e mostrar uma noiva, mulher com quem quer, a partir de agora, compartilhar sua vida.
Em nenhum desses casos houve doença ou cura. Qualquer um desses casos pode ter envolvido algum nível de sofrimento individual ou social. Não necessariamente o movimento heterossexual <–> homossexual  é, em si, saudável ou patológico, se pensarmos não em termos de essências, mas em formas de ser no mundo.
Desejar uma pessoa do mesmo sexo, vivendo socialmente – e afetivamente – uma posição ou papel heterossexual, pode ser extremamente ansiogênico e causar sofrimento, se não puder aceitar seu desejo e vivenciá-lo. Se a pessoa “escolher” transitar nesses dois lugares – por exemplo, exercendo a bissexualidade -, tendo relacionamentos tanto homossexuais como heterossexuais, pode encontrar uma posição de saúde por conseguir satisfazer suas necessidades sexuais e afetivas. Em algum momento, no entanto, talvez precise se “definir” socialmente. Essa definição, por pressão social ou pessoal, para atender a expectativas “externas” ou “internas”, pode, então, gerar um novo impasse, retomando o sofrimento. Ele pode se definir por uma coisa ou outra – ser heterossexual ou homossexual – mas, qualquer definição que der, é sempre provisória. Mesmo após um longo processo de consciência e aceitação de si mesmo, nunca poderemos ter certeza de que somos algo e não outra coisa. A outra coisa é sempre uma possibilidade que deixamos de escolher experienciar.
Socialmente buscamos nos orientar de acordo com expectativas e papéis definidos a priori – homem-mulher, heterossexual-homossexual, ativo-passivo, dominador-dominado, vítima-algoz, etc. No momento atual de evolução ou transformação histórica e cultural de nossa sociedade, estamos cada vez mais vivendo processos de questionamento, relativização e flexibilização desses pares dicotômicos. Hoje podemos ser homem e mulher, heterossexual e homossexual, ativo e passivo, dominador e dominado, vítima e algoz, e muito mais!
Um homem, dito “homossexual”, pode ir a um consultório psicológico e, ao longo do processo, “descobrir” que quer ser pai e ter uma esposa, que quer fazer sexo com mulheres e/ou com homens, ter um relacionamento aberto, experimentar outras formas de amar num lugar de fronteira – nem lá, nem cá. Um lugar que é um AQUI, num momento AGORA, que pode se estender por um DEPOIS.
Um dia, um homem “heterossexual” pode ir a um consultório psicológico e, ao longo do processo, “descobrir” que sente desejo por homens, que não suporta mais viver uma “farsa”, sustentar uma “ficção”, e passar a se dizer “homossexual convicto”. Se ele renegar completamente sua vivência anterior, opor-se à heterossexualidade que existia nele, adotar uma postura reativa contra os heterossexuais, pode ainda estar em sofrimento, não estar “curado”, viver em desequilíbrio com sigo e com o mundo, por não ter consciência e não aceitar a si mesmo, o que foi, e o que escolheu ser antes de ser e estar sendo algo diferente.
O psicólogo, no final das contas, é uma testemunha desse processo de tomada de consciência e de aceitação, do que foi, do que é, e do que pode vir-a-ser. As “identidades” são rótulos e expectativas sociais e pessoais sob os quais nos agarramos para ter uma sensação mínima de segurança. São também uma ficção, uma farsa, uma verdade provisória. Há pessoas que experimentam as várias dimensões do existir, da sexualidade, sem se apegar a nada em definitivo, sem que isso, necessariamente significa saúde ou doença, sofrimento ou cura. Há pessoas que vivem muito bem suas identidades, não manifestam desejo nem necessidade de experimentar estar sendo algo diferente. No final do caminho não há uma forma única, nem melhor, nem mais bem adaptada, nem mais saudável. Existe sim, a forma melhor, mais adaptada e saudável para cada pessoa, em cada ponto – momento – da linha de sua vida. A estrada da vida, e da sexualidade, nem sempre é em via de mão única.

Salvador, 03 de agosto de 2009

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* Psicologo formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), Gestalt-terapeuta. Aluno especial do mestrado em Filosofia Contemporânea da UFBa.

5 comentários:

  1. Cláudio, 22 de agosto de 2009, 20:30

    Fernado, esse seu texto contém algumas contradições:

    1 – homossexualismo não é doença. Neurose, hoje em dia também não é considerada doença, e sim transtorno, e por causa disso não se trata?

    2 – Homossexualismo é uma condição existencial. Neuroses e psicoses também são formas de ser, então tem que haver uma regra ética de não tratamento desses quadros clínicos?

    3 – O homossexualismo sempre existiu e sempre existirá. A pedofilia, o roubo, a corrupção, as guerras etc também sempre existiram, então não se deve combater essas coisas?

    4 – Não existe essência. Correto. Então Como pode essa afirmação que o homossexualismo não tem cura, se não existe essência, existe mudança constante. Ou tudo não tem essência, menos o homossexualismo.

    5 – Onipotência do psicólogo. Contradição maior do seu texto, pois não é papel do psicólogo, baseado nessa sua afirmação extremamente correta, de dizer ao paciente, quando este o procura que a sua demanda de tratamento terá que ser modificada, já que o psicólogo é aquele que já sabe de antemão o quê é bom e certo para ele. Como se a demanda do paciente tivesse que se adequar ao corporativismo ideológico dessa instituição. Essa fraqueza, pelo menos por enquanto, a psicanálisse não é acometida, pois ela ainda sabe, da proposição abaixo:

    Para toda afirmativa existe uma negativa.

    O quê me parece ser o problema da psicologia moderna é que ela se transformou num dos canais de expresssão do chamado discurso politicamente correto, correto segundo o julgamento dela mesma.

    Enfim, não é papel da psicologia proclamar ou não que o homossexualismo, heterossexualismo, bisseualismo, ou seja lá o que for é ou não tratável. Mas existem os interresses ideológicos dentro da própria psicologia.

     
  2. Luiz Fernando, 26 de agosto de 2009, 0:16

    Claudio,

    Não sei exatamente de que lugar você fala, porém percebo que tem algum contato com a psicanálise. Concordo com você de que há uma onde de coisas “politicamente corretas” que constitui uma ideologia que perpassa atualmente a ciencia, em destaque à psicologia, já que dela nos referimos. Se há, no entanto, essa ideologia hoje, é por um posicionamento critico dessa ciência a sua história. Até recentemente a posição da psicologia foi a de estar a serviço da segregação social, entre normais e anormais, aptos e inaptos, competentes e incompetentes, etc, sendo requerido dela uma posição de ordenamento social a partir de seu pretenço poder de predizer e controlar o que é do humano.

    Hoje, no entanto, a meu ver – e na perspectiva que eu adoto – há uma preocupação pela ética, que não é simplesmente a ética do bem dizer, mas a ética do cuidado. Cuidado com o outro em sua humanidade. Não sei se a psicologia tem ferramentas para tratar coisa alguma, muito menos de curar. Podemos sim aprender a tratar o outro enquanto pessoa, para além de suas formas de ser no mundo, com respeito e consideração como humano.

    Em sua colocação, ao meu ver, você coloca o “homossexualismo” no mesmo patamar da neurose, da psicose, dos transtornos, da pedofilia, da corrupção, das guerras. (Não vou discutir com você o uso do termo homossexualismo, a da atual adoção da expressão homossexualidade, embora tenha uma função ideológica importante, em termos de ressignificação do sentido desse fenômeno.) Ao colocar tudo no mesmo patamar, você fala de tratar e de combater. A meu ver não se deve tratar a homossexualidade pois ela não é doença nem transtorno, nem muito menos crime. Não é essência, mas é forma de existir. E pensando existencialmente, a essencia se faz na existencia, não é a priori nem determinista, mas um processo continuo de realização, de auto-realização, de atualização do si-mesmo.

    Quanto à onipotencia da psicologia e do psicologo em definir o rumo da terapia, digo-lhe apenas que, por mais que possamos dirijir – ou mostrar caminhos (que a meu ver me parece a melhor imagem pela qual compreendo o processo terapeutico) – não somos responsáveis pelos encaminhamentos da vida do cliente, mas somos responsáveis sim por estarmos atentos aos sinais que indicam algum nível de sofrimento que pode ser trabalhado e tratado no sentido de uma solução – que será a solução que será sempre a dada pelo cliente.

    O cliente, no entanto, muitas vezes chega ao consultório num sofrimento tão grande que não sabe sequer do que padece. Como ouvintes e testemunhas de seu sofrimento, pelo que nos é trazido como fala, choro e desespero, tentamos identificar o que está no entorno desse sofrimento, e descrevemos, e apontamos, e tentamos trabalhar no sentido de uma resolução, que traga para ele um alívio mínimo necessário para que continue sua vida. Não atendemos a demandas, mas acolhemos ela, e tentamos compreendê-la, junto com o cliente, buscando antever o sentido dessa demada, o caminho para onde ela aponta. Esse caminho, visto às vezes como único e inexorável, é apenas um dos muitos possiveis de serem escolhidos.

    Não sei se respondo sua pergunta. Não sei se fui contraditório, mas acredito que tentei ser coerente com minha ética profissional e pessoal. Confio menos na psicologia que na capacidade do homem de se aprimorar e se tornar pleno e se realizar em suas potencialidades. Olho para o humano enquanto um mudo rico de experiencia, inteiro e em constante crescimento. Não olho – ou tento não olhar – para o humano enquanto falta, desvio ou patologia. Esse é meu posicionamento ideologico ou ético. Esse é o lugar de onde eu falo.

     
  3. João Neto, 8 de novembro de 2009, 3:08

    Caro Luiz Fernando,

    Fujo totalmente da minha área de conhecimento quando o assunto é psicologia, mas a capacidade de entendimento me permite, numa ousada análise crítica, perceber o quanto você é racional e lógico em todas as suas colocações. Parabéns pelo texto e pela postura em relação a um assunto ainda tão polemico. Nada contraditório… apenas demonstrações de profundo conhecimento e postura ético-profissional.

     
  4. rosa, 9 de novembro de 2009, 12:31

    Dr. Luiz Fernando,
    Adorei seu texto, claro na sociedade em que vivemos vai sempre existir o preconceito e também esperança pra quem tem parente homossesuais de que exista cura é até compreensível pois estamos tratando muitas vezes de pessoas leigas que tem outros tipos de valores que erroneamente se acha correto, mais sabemos que todos somos livres pra viver o que achamos ser certo ou errado o estudo da antropologia traz essa visão de aceitar o outro apartir do referencial do outro com uma visão relativista.Olha não só conhecedora da ciência que é psicologia mais admiro muito essa profissão e pretendo na medida do possível melhorar como pessoa e na aceitação da diversidade humana.

     
  5. Luiz Fernando Calaça, 9 de novembro de 2009, 16:20

    Oi, Rosa.

    Fico feliz por sua resposta. Acho que a melhor coisa que podemos fazer é justamente isso: tentar nos melhorar como pessoas e aceitar a diversidade. Creio que um grande erro que cometemos cotidianamente é tentar corrigir o outro usando como critério arbitrário os nossos valores e costumes, sem olhar para nossos próprios erros, defeitos e fragilidades. Se aprendermos a nos conhecer melhor e adotarmos uma postura mais humana e solidária em relação ao outro, certamente caminharemos para uma cura, no sentido de um cuidado ético com a humanidade.

     

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