Homossexualismo e homossexualidade: o politicamente correto e o sentido do dizer
Luiz Fernando Calaça
Do ponto de vista político, a mudança do termo homossexualismo para homossexualidade tem um sentido, tanto histórico quanto ideológico e político, de ressignificar a homossexualidade, dissociando da idéia de doença e trazendo para o campo da diversidade e da construção de identidade.
Pessoalmente, no entanto, acho que pode haver nisso um excesso, uma atitude “politicamente correta”, que pode se esvaziar ou ser estereotipada. Tipo: toda vez que você houve o termo, você automaticamente corrige, por considerá-lo inapropriado.
O “toda vez”, ao meu ver, deixa de levar em consideração o “cada caso”, e caímos numa padronização que não condiz, a meu ver, com a idéia de diversidade, multiplicidade e imprevisibilidades constituinte de nossas relações sociais reais, no contato pessoa-pessoa no mundo.
Em uma das reuniões que tivemos no UNISEX, por exemplo, um dos participante da discussão trouxe uma ideia de que ao invés de “homossexualidade”, o termo “homoafetividade” seria mais adequado, por dissociar a homossexualidade da idéia de sexo, associando a afetividade, para assim tentar separar do estigma da promiscuidade sexual e de todo o imaginário associado aos gays. Eu, pessoalmente, acho um exageiro, embora saiba que essa expressão já é utilizada tanto nos meios acadêmicos, quanto em espaços culturais alternativos e “esclarecidos”.
Eu acredito que, independente do termo que se utilize, o que importa realmente é o contexto em que ele é empregado e a sua dimensão semântica – o sentido empregado ao termo.
O “-ismo” não se relaciona apenas ao sentido de patológico.
Por exemplo:
Muitos (senão todos) movimentos estéticos na literatura e na arte vieram vinculados ao sufixo “-ismo”: surrealismo, dadaismo, romantismo, etc etc.
Se pensamos nessa perspectiva o Homossexualismo poderia ser um movimento estético, um estilo artístico vanguardista.
Da mesma forma o sufixo -ismo é associado a certas religiões: islamismo, catolicismo, budismo, hinduímo, taoismo.
Então o Homossexualismo poderia ser também uma religião, uma filosofia de vida, uma doutrina ou uma vocação espiritual.
A origem histórica do homossexualismo associado a doença é inegável, não questiono isso, mas a mudança do nome necessariamente não muda sua semântica, nem o peso do preconceito, nem as práticas discriminatórias – e às vezes auto-discriminatórias. Talvez essa atitude adotada dentro do movimento GLBT, de trocar um termo pelo outro, tenha tido um sentido politico importante, num contexto específico que estamos sempre reatualizando, mas considero importante olhar para o momento presente e ver se esse sentido ainda faz sentido.
O que podemos fazer, ao meu ver, olhando para o contexto atual, é possibilitar a emergência de novas formas de ressignificação do olhar sobre esse fenômeno, é educar as pessoas próximas a nós sobre a homossexualidade, tentando dissociá-la dos estereotipos e dos sentidos negativos, a partir de nossa propria vivência, por nossos próprios modelos, pela nossa forma de estar no mundo.
Não tenho dúvidas de que muitos GLBTs, em suas práticas cotidianas reafirmam estereotipos ou confirmam preconceitos, e nisso retroalimentam o preconceito, por estarem presos e fixados a velhos sentidos e formas de estar no mundo – embora essas formas, em si, não devam deixar de existir, mas possam ser também elas ressignificadas.
Não sou hipocrita nem moralista, e não acho que devemos ser prescritivos sobre “como um GLBT deve se comportar corretamente”, mas creio que devemos, ao menos, tentar ser coerentes entre o que dizemos e fazemos, e para isso é necessário um exercício cotidiano de auto-análise, de reflexão sobre si mesmo, de consciência de si, de postura ética (= cuidadosa).
Às vezes eu sinto que tudo isso se perde no meio do caminho, tanto nas tentativas de construção identitária, como na práxis da militância e, principalmente, nas nossas formas de relação interpessoal, onde, sem perceber, podemos ser agressivos e desrespeitosos, quando não olhamos o outro a quem nos dirigimos, mas apenas as nossas projeções que nele fazemos.
O “dizer a homossexualidade”, a meu ver, implica em várias questões difícieis de serem percebidas, mas de fundamental importância, para o desenvolvimento da auto-consciência e do nosso posicionar-se politicamente.
E, o mais importante, a meu ver, é a coerência entre
o que dizemos,
o como dizemos,
o quando dizemos,
o onde dizemos,
o para que dizemos,
o para quem dizemos,
o que sentimos ao dizê-lo,
o sentido que desejamos transmitir ao outro, quando dizemos,
o que o outro sente quando eu digo.
E, ao ouvir o outro, precisamos prestar bastante atenção em:
o que o outro diz,
o como ele diz,
o quando ele diz,
o onde ele diz,
o que ele quer dizer quando diz,
o efeito que ele deseja estabelecer sobre mim ao dizer,
o que eu sinto quando ele diz.
Olhando para tudo isso, as palavras não se perdem na simples arte da retórica, mas se faz prenhe de sentido, viva, em nossas relações cotidianas, em nossas ações sobre o mundo, em nosso posicionamento político efetivo, em nossa tentantiva de construção e reconstrução da sexualidade.
Nossa.
Achei teu texto extremamente “rico” de questionamentos, que me fizeram refletir sobre muitas coisas. E muito bem elaborado o teu posicionamento.
Olha, eu concordo com praticamente tudo que tu disseste, entretanto, eu não acho que seja exagero a mudança de palavra na busca por re-significar o contexto que a palavra carrega.
É inegável, como tu bem afirmaste, a origem do termo homossexualismo que foi, durante muito tempo, compreendido como patologia. E – creio – por ser compreendido assim durante tanto tempo que os movimentos sociais de defesa dos direitos de homossexuais encontraram a mudança de termo como alternativa para romper com a lógica de que a homossexualidade era doença.
Se existiu, em algum momento da história, esse rompimento, por que negá-lo? Por que não insistir para que ninguém mais diga o incorreto, não como atitude “politicamente correta”, mas como autoafirmação. Quando cobro das pessoas que elas não digam o ‘ismo’, mas sim o ‘idade’, eu não espero que elas simplesmente pronunciem o termo correto. Eu espero que elas entendam o que elas estão dizendo, o sentido que isso carrega, como tu bem disseste em teu texto. É por isso que mais uma vez eu concordo contigo quanto ao fato de não cobrar simplesmente do outro a pronúncia correta, e prestarmos atenção em como cobramos isso, onde, quando, pra quem, pra que cobramos.
Veja, essa necessidade é tão explícita que podemos observar como exemplo a transexualidade/travestilidade. Se prestarmos bastante atenção, esses termos só são usados com o sufixo ‘idade” pelos movimentos sociais, militantes e ALGUNS meios acadêmicos. Tanto é assim que pra um transexual solicitar uma cirurgia de readequação de sexo (seja a retirada das mamas ou do falo) ele precisa passar por uma equipe multidisciplinar de profissionais em um setor que, pelo menos aqui em Porto Alegre, chama-se Programa de TRANSTORNO de Identidade de Gênero. Te pergunto: é realmente um transtorno? se o é, então é visto como patologia. Já encontrei muitas dissertações e teses “atuais” onde ainda se prega o termo transexualismo. Será que a mudança do termo não acarretaria num movimento futuro de garantia de direitos? um direito, por exemplo, do transexual poder fazer a cirurgia de readequação de sexo sem precisar, pra isso, ser considerado doente.
Enfim, são só mais alguns questionamentos. Mais uma vez quero te dizer que eu gostei muito do texto, da forma como te colocas e agradecer por essa leitura tão reflexiva.
Abraço!
Luiz Fernando, parabéns pela exposição desta matéria, acho técnicamente correta. Só gostaria de saber como o órgão de saída do aparelho digestivo (que todos nós temos, tanto homens como mulheres) é tido como sexo. Sei que sexo é o diferencial do aparelho reprodutivo. Portanto creio que toda prática anal não é sexual. Se o caro comentarista tiver alguma explicação, por favor, gostaria de saber.
Meu muito obrigado
Antônio Dias
Caro Antônio,
A questão da sexualidade transcende a reprodução, pois inclui a questão do prazer. No nosso corpo existem várias regiões erógenas que nos dão prazer. Desde Freud já ficou bem evidenciado isso. O sexo não se restringe à penetração e à relação entre o pênis e a vagina, mas inclui a participação do corpo todo. A boca, a pele, as mão, e por que não o ânus, são regiões erógenas, de erotização e de sexualização do corpo. Há pessoas com maior ou menor conhecimento do próprio corpo, com maior oui menor percepção de si e de sua capacidade de dar e receber prazer no contato consigo mesmo e com o outro.
Acho que isso responde sua pergunta.
Luiz Fernando