HxH: Homossexualidade e Homoerotismo

Luiz Fernando Calaça

Não sou gay! Sou homem que gosta de homens“. Já ouvi essa frase algumas vezes. Frase que me causou um certo estranhamento, para não dizer desconforto. Algo que, de início, me pareceu incoerente. Muitos são os homens que praticam sexo com outros homens e não se consideram homossexuais. Eles estão no armário? São gays com homofobia internalizada? São bissexuais que não admitem sua homossexualidade? São “indecisos”?

Recentemente participei de uma discussão em grupo que culminou, num determinado ponto, quando falava-se na questão do assumir-se gay, no tema da “omissão”. Na ocasião eu pensava na omissão como uma forma o homossexual vivenciar sua sexualidade sem, necessariamente, se defrontar diretamente com conflitos familiares. A omissão, embora não pareça a melhor alternativa, às vezes pode ser um ajuste temporário, principalmente para o jovem que inicia sua vivencia homossexual ainda cheia de medos e incertezas. Nem todos são obrigados a “sair do armário” e “se assumir para todos”, embora, a meu ver, seja fundamental “se assumir para si mesmo”.

Em todo o caso, a discussão enveredou para o tema dos “HxH” – homens que vivenciam praticas homossexuais em paralelo a relacionamentos heterossexuais, de forma velada, às vezes esporádica e impessoal. São, creio eu, os caras que fazem “pegação” em saunas e banheiros, longe do olhar recriminador da sociedade e que, depois, retornam para seus lares, ocupam seus lugares de homens-machos-pais-de-família. Tais práticas, e sua omissão, por muitas vezes, pode causar sérios prejuízos, quando realizada de forma inconseqüente. Muitas são as mulheres que são contaminadas por parceiros que dão suas “quebradas de asa” sem se preocupar com o uso da camisinha, contraindo diversas doenças sexualmente transmissíveis , inclusive a AIDS.

Entretanto, não podemos adotar uma visão maniqueísta dessas pessoas. Não são simplesmente “monstros” egocêntricos e narcisistas. Muitos podem sofrer conflitos internos intensos, por se verem numa posição incoerente com o que se espera socialmente de um homem heterossexual, por saberem que estão fazendo uma “coisa errada”, embora sintam e precisem vivenciar o prazer de estar com outro homem num contato sexual. Outros aprenderam socialmente que homossexuais são os gays efeminados, as “bichas” e “viados”, e não se vêem identificados com eles. Não se identificam como homossexuais, não tem internalizada essa “identidade” como parte de si.

A homossexualidade é uma construção histórica e cultural recente, que remete aos últimos dois séculos. A “identidade homossexual” é uma construção, uma ficção, uma criação. Existe e sempre existiu sim, as práticas homossexuais, desde a Antiguidade, como a iniciação dos jovens gregos através da prática sexual com seus professores e diversos outros rituais de iniciação. O sexo com outros homens fazia parte dos rituais e práticas socialmente aceitas e contextualizadas. O homoerotismo sempre existiu, o desejo, o prazer e o amor entre iguais sempre existiu, de forma variada, a depender das culturas. Praticar sexo com outro homem era, inclusive, visto em algumas culturas como um sinal de masculinidade, de virilidade e igualdade. Sua endemonização só se deu efetivamente a partir do advento do cristianismo, com o processo de controle e moralização da sexualidade, com sua associação com o pecado. E, mais recentemente, no idos dos séculos XVIII e XIX, foi criminalizada e patologizada.

A construção da identidade homossexuale a ressignificação da homossexualidade – dá-se apenas no século XX, tendo seu ápice nas décadas de 60 e 70, com o Movimento de Liberação Gay, quando os homossexuais passaram a se organizar em “comunidade” a fim de reivindicar seus direitos como cidadãos, lutando contra a violência e a homofobia. Porém, a assimilação dessa nova identidade não se deu de forma imediata e ainda hoje muitos sequer sabem ao certo o que quer dizer a palavra “homossexual“.

A vivência da sexualidade às vezes se dá de forma diversa da construção de uma identidade. Ainda se cultiva muitos preconceitos e estereótipos em torno do que seria considerado “homossexual“, e, muitas vezes, a prática do ato sexual não está, necessariamente, associada a essa representação. Muitos homens aprenderam e assimilaram uma identidade heterossexuais que é normativa, esperada socialmente como padrão. O homem macho, que ocupa a posição ativa na vida e no sexo, que se sobrepõe ao feminino, que desbrava o mundo, que abre passagens, que conquista, constrói e destrói. Constituídos como homem, sob as prescrições de uma cultura heteronormativa – não se vêem desviando de seu papel de “homem”, e como homem, se pressupõe heterossexual.

Não sei qual o caminho para se resolver esse dilema. Talvez aos poucos, em cada um, comece a emergir dúvidas, e das dúvidas – ou do sofrimento pela ausência de respostas – uma maior consciência de si, um movimento de interiorização que possibilite a mobilização para o questionamento e a ressignificação de si enquanto homem. Talvez a omissão se dê por ignorância das reais necessidades, ou, na consciência dessas, do medo de admiti-las e sustentá-las socialmente, como escolha existencial, como desvelamento para o outro, saindo da satisfação individual para a negociação em comunidade.

A sexualidade até hoje é tabu. Suas múltiplas facetas e manifestações são amplas e diversas demais, e não se restringem a um rótulo, a uma categoria, a um ideal identitário. Muitos são os fatores que constituem o homem em seu jogo de papéis sociais, sexuais, em sua consciência de existência no mundo. É do homem, é mistério! Como mistério, emerge na forma de fenômeno. Como fenômeno, carece de compreensão.

Salvador, 29/01/2009

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