Manifesto Expressionista e Gestalt Terapia, o(s) Vazio(s), o(s) Nada(s) e o Poeta*
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior.
Escrevo esse breve artigo (se é que se trata de um artigo, ou não um relato pessoal) como primeiro produto, ainda prematuro, do nosso grupo de estudos em Gestalt-Terapia. Creio que os pontos tratados por mim, neste momento, serão mais impressões pessoais sobre temas diversos, que propriamente sobre a abordagem de Perls. Assim, não busco, ao menos agora, me aprofundar muito nos pressupostos ou na introdução do nosso objeto de estudo, mas tecer comentários paralelos, que talvez venham a coincidir ou difira de todo do olhar gestaltico. Em todo o caso, vamos lá.
No nossa primeira reunião, realizada dia 13 de julho, trouxe para o grupo o manifesto expressionista alemão de Kasimir Edschmid, de 1918, que tinha como título “Expressionismo na Poesia”. Seus dois primeiros parágrafos, que foram os que mais me chamou atenção, eu reproduzo abaixo:
A terra é uma paisagem imensa que Deus nos deu. Temos que olhar para ela de tal modo que ela chegue a nós sem deformação. Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida. Os fatos acreditados, imaginados, anotados não são o suficiente; ao contrário, a imagem do mundo tem que ser espelhada puramente e não falsificada. Mas isso está apenas dentro de nós mesmos.
Assim o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted). Ele não colhe, ele procura. Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doença, prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles. (…)(1) [grifos meus]
O motivo que me levou a trazer esse texto, foi a palestra proferida no dia 25 de maio, pelo gestalt-terapeuta Afonso Henrique da Fonseca, sobre “Atualidade da Gestalt-Terapia”, em que ele trazia os principais fundamentos da abordagem de Perls, incluindo a o expressionismo alemão, tendo em vista tratar-se do movimento intelectual e boêmia do qual Fritz tomou parte após a 1ª Guerra Mundial.
Afonso, na referida palestra, caracterizou Expressionismo pela “valorização da subjetividade do indivíduo, não voltada para a representação da realidade, mas a vivência da criatividade, da inspiração e da expressão”(2). Ele também qualificou a Gestalt-Terapia como uma abordagem expressiva e experimental, não no sentido do experimentalismo científico dos primórdios da Psicologia, mas no de “expressão voltada para o novo”.
Na época da palestra ainda não tínhamos entrado muito a fundo nos conceitos nem nas perspectivas da prática gestalt-terapeutica, mas a possibilidade de conciliar psicologia e arte, como uma forma de inovar, de criar e vivenciar uma realidade subjetiva, numa prática que fosse além de aplicação de uma teoria pré-estabelecida e modeladora, verdadeiramente me encantou e deu novo incentivo para eu permanecer no curso de Psicologia, tendo em vista minha grande inclinação para Letras.
Bem, voltando ao manisfesto expressionista de Kasimir Edschmid, podemos ver termos como essência, significação, percepção (percebe), acumulo de vivências e estrutura (gestalted). Eles remetem a conceitos principalmente da fenomenologia (essência, significação) e da Psicologia da Gestalt (percepção, estrutura), mas contextualizados, nas víceras do textos, percebemos que vai muito além da simples apropriação de conceitos.
Quando lemos no manifesto, por exemplo, que “Ninguém duvida de que a essência das coisas não seja a sua realidade exterior. A realidade tem que ser criada por nós. A significação do assunto deve ser sentida.”, nos deparamos com a realidade como fruto da relação entre o sujeito e o mundo, uma relação sensório-afetiva, vivencial, em que a realidade é a realidade para uma consciência, que a experimenta e a significa, tal qual propõe a fenomenologia. Da mesma forma como ao dizer que “Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestalted)”, podemos inferir, eu acho, uma relação com a Psicologia da Gestalt, sobre o processo de percepção através da vivência e da experiência da realidade, que se estrutura na boa forma, através de diversos mecanismos como o de figura-fundo, em que o mundo não é reproduzido, mas é estruturado pelo sujeito, e vivenciado por ele, no campo da consciência, em sua subjetividade-objetiva.
Bem, não vou me estender muito em terreno que não domino. O que mais me impressionou, como já disse, foi a possibilidade de conexão entre a arte e a psicologia, entre um tratado estético e conceitos científicos da psicologia e da filosofia. Mas, antes de tudo, a idéia de vivência e experimentação, em que “Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do artista o atravessa para agarrar o que se encontra além deles.” Em que a realidade do sujeito só é alcançada por ele mesmo, no momento em que vivencia sua realidade, e vai além do mundo objetivo, em que significa e ressignifica, em que “Ele não colhe, ele procura” respostas, caminhos e significados, no mundo do agora, do aqui, e do sensível.
Creio ser importante trazer essa possível ligação entre o Expressionismo e a Gestalt-terapia, por tratar-se de um registro no mínimo interessante o fato de um tratado estético ter antecedido, embora seja contemporâneo à outras influências diretas na vida de Perls, o ideal de vivência e experimentação da subjetividade, proposta muitas décadas depois pela abordagem da Gestalt-terapia.
Outro ponto que gostaria de comentar, agora já me distanciando do possível elo Gestalt-Terapia — Expressionismo, foi em relação a um dos pressupostos apresentados no livro E a Gestalt emerge, em que a autora, Ana Maria Kiyan, traça a ligação entre a Gestalt-terapia de Perls e a filosofia oriental, em especial no que diz respeito à idéia existencial de nada e vazio. Em fragmento do texto, a autora diz que:
(…) Segundo a Gestalt-terapia, “o nada é um lugar” psíquico fundamental para se estar, dependendo do momento; é nele que o indivíduo pode entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que é. É esse ponto zero que acontece o momento de criação, em que qualquer coisa é possível.
Perls freqüentemente referia-se a dois tipos de vazio: o estéril e o fértil, sendo esse segundo tão vazio quanto o primeiro porém configurando-se como terreno fértil para novas possibilidades.(3)
Durante a nossa primeira reunião ficamos em dúvida sobre o que viria a ser esse nada, se a mesma noção apresentada pela tradição oriental seria a de Perls, e qual o significado para ambos. Tivemos três opiniões:
Bruno, meu colega de semestre e um dos organizadores do nosso grupo de estudos, acreditava (espero não estar distorcendo suas idéias) que o nada teria o sentido de harmonia e equilíbrio, expresso pela tradição oriental zen-budista. Esse lugar talvez fosse o da totalidade, em que não há pensamento racional, mas fusão com o universo. Lugar de silêncio (?), eu imagino, e de serenidade.
Particularmente eu não consigo compreender bem como, ao se alcançar esse estado de vazio, de harmonia, esse ponto zero, haveria a criação. Pergunto-me inclusive qual, ou como, seria essa criação. Eu tenho que admitir minha dificuldade de romper com alguns de meus paradigmas. Terei de me abrir a essa nova perspectiva.
Outra possibilidade para o nada seria quanto à relação vivencial eu-tu, enquanto processo no qual se estabeleceria uma totalidade, onde o nada seria a própria relação, que quando vivência é desprovida de racionalidade, é pura experiência, fenômeno imediato, no aqui e no agora, sendo só possível sua racionalização a posteriori, quando paramos para refletir e dar significação a este momento vivido. A essa possibilidade de interpretação sobre o sentido do vazio e do nada, todos, ou quase todos, de alguma forma compreenderam e concordaram.
A minha opinião, expressa antes do vazio na relação eu-tu, que creio ter sido levantada por Amanda (não sei bem se ela se chamava assim, pois sou péssimo em gravar nomes), estudante do 7º semestre e que faz formação em Gestalt-Terapia com Afonso, é de todo diversa. Geralmente tenho essa “qualidade” de divergir dos outros, mas tudo bem.
A minha interpretação sobre o nada diz respeito ao nada vivido pelo escritor, pelo poeta, trazendo assim o termo para minha realidade. Esse vazio seria o que geralmente se chama de ¿vazio do artista¿, aquele momento de tensão que antecede o momento da concepção, da criação poética, ou seu oposto, o momento após a criação, equivalente, para alguns, ao momento de morte.
Quando penso na vazio antecedente à escrita (ou a qualquer outra expressão artística), me refiro ao instante em que a poesia se faz necessidade, tensão e angústia, marcado principalmente pela faz de palavras, ou de idéias, para expressar um sentimento qualquer, uma emoção enlouquecida, um desejo de vida. Creio tratar-se, não do momento de equilíbrio, mas de seu antônimo, quando o poeta se vê mergulhado numa esterilidade desesperadora, numa ânsia violenta de vida e de concretude, mas é frustrado.
Às vezes, a própria esterilidade torna-se matéria poética, algo que observamos na literatura contemporânea, quando o poeta ou o escritor relata sua impossibilidade de significar o mundo a sua volta, de criar, de viver, meio ao deserto das palavras ou ao caos de mundo e da existência. Particularmente é essa a sensação de vazio que sinto, enquanto poeta, principalmente por achar que a poesia, assim como a terapia, religião, política, etc, para outras pessoas, é o momento meu de encontrar minha existência, de significar minha subjetividade, de sentir-me vivo, de ser e existir como consciência.
Nesta perspectiva, o vazio não é nem o momento de harmonia ou de equilíbrio, nem fruto da relação eu-tu, a não ser que o tu seja o eu, ou a poesia, as palavras, ou a folha de papel, mas, em todo o caso, a sensação é mais de fragmentação que de totalidade.
O outro vazio, seria o período seguinte à concepção poética, quando tudo o que poderia (e não o que se queria) ser dito se tranforma em linhas, letras, palavras, em sentimos a sensação de morte, de anulação, às vezes até de perda, que, paradoxalmente se opõe e se equivale à tensão do vazio estéril antecedente à escrita. Este momento, também, não é o momento de criação, mas de reflexão, de julgamento estético do próprio autor sobre a criação, sobre o poema, o texto.
Talvez, e nisso eu acredito, o momento verdadeiramente de equilíbrio, ou de equilibração, de tornar-se vivente e consciente da sua existência, seja o momento em si, o tempo e o lugar da concepção, o agora em que o caos ganha forma, torna-se sensível, é expresso e significado pelo eu que se descobre e se propõe como narrador ou eu-lírico. Creio que é no momento da escrita, seja por inspiração (ou insight), seja por persistência para quebrar o vazio de esterilidade, que eu, poeta e criatura, posso “entrar em contato com a experiência de ser, sendo o que sou”.
Assim, não concluo nada, apenas levanto minhas primeiras impressões e idéias, e, talvez, lanço mão de uma possibilidade a mais de discussão. De meu nada, meu vazio, ou de meus nadas e vazios, pouco sei, em correlação com o da Gestalt-Terapia de Perls. O equilíbrio do nada zen é para mim estranho, embora sinta interesse verdadeiro em conhecer como filosofia e fundamento do objeto que me proponho, no grupo de estudo, a compreender e aprimorar.
Aqui fico, nesse artigo-relato um pouco maior do que eu queria que fosse, mas sou verborrágico e caótico por excelência.
Espero sinceramente que nosso grupo de estudos se estabeleça e tenhamos bons frutos.
Salvador, 17/07/2005
NOTAS:
1. TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos prefácios e conferencias vanguardistas, de 1857 a 1972. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997, p. 111.
2. Minhas anotações da palestra de Afonso Henrique, em 25 de maio de 2005.
3. KIYAN, Ana Maria Mezzarana. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Editora Altana, 2001, p. 146.
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* Artigo escrito durante meus primeiros estudos em Gestalt Terapia, num grupo de estudos auto-didata montado com colegas, em 2005, no início da minha graduação de Psicologia.
Retomo algumas dessas idéias no artigo sobre “Gestalt, Literatura e literatura gestaltica”, publicado na revista eletrônica IGT na Rede, e nesse site.