MENINO PRESENTE: Fragmentos de infância e aspectos do desenvolvimento na poética memorialista de Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade. *

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Resenhar uma livro de poesias para uma disciplina de Psicologia do Desenvolvimento é uma aventura, para não dizer um desafio. Essa aventura se torna ainda maior por se tratar de um livro de Carlos Drummond de Andrade, pela responsabilidade que acabo por assumir na compreensão e interpretação de seus muitos poemas, temendo dar ênfase a uns, desmerecendo outros, ricos de imagens e sensibilidade, no retorno memorialista que o autor faz, através do verso, a infância, às lembranças da Minas Gerais itabirana, com seus costumes de província e seus sentimentos universais. Assim me encontro, diante dos 420 poemas de Boi Tempo, que versam sobre temáticas diversas, abordando desde questionamentos políticos, hábitos locais, até a imersão no mundo da criança, do “menino” que brinca, que briga, que tem sonhos e pesadelos, que respeita e teme a figura paterna e vê a mãe sob uma aura singular de sensibilidade e carinho, que começa a amar sem saber o que é o amor, que deseja e sente o despertar da sexualidade ou se descobre nas páginas dos primeiros livros, na solidão do internato.

Dividido em 3 volumes, Boi Tempo compreende uma coletânea de 420 poemas, que são subdivididos por títulos (ou “livros”) temáticos. Destes, foi possível selecionar um total de 83 poemas que tratam direta ou indiretamente de aspectos da infância, agrupados em sua maior parte no livro O pequeno e os grandes, de Boi Tempo II – Menino Antigo, e nos livros Fazenda dos 12 vintens ou do Pontal e Terras em redor, O menino e os grandes, Repertório Urbano, Primeiro colégio e Fria Friburgo, contidos em Boi Tempo III – Esquecer para lembrar. De Boi Tempo I encontrei apenas dois poemas, “O Banho” e “A Puta”, fazendo referência à aspectos da infância.

Para compreender esse retorno de Drummond à infância, utilizo-me do poema “Intimação” (p. 696) que serve como abertura do Boi Tempo III:

Intimação

- Você deve calar urgentemente

as lembranças bobocas de menino.

- Impossível. Eu conto o meu presente.

Com volúpia voltei a ser menino.

Nesse poema, Drummond traz uma dupla perspectiva sobre a infância: o descrédito atribuído pelo adulto à criança e o saudosismo deste mesmo adulto, que busca, através da memória, revivê-la. O primeiro aspecto se dá através da representação da infância como um momento sem importância, desprezado na maior parte das vezes pela perspectiva de uma racionalidade adultocêntrica, que desqualifica as lembranças – “bobocas” – da criança, colocando-a como desprovida de uma razão própria e desmerecendo a sua forma de percepção e representação da realidade. Essa perspectiva segue o viés da representação social da criança como um “não ainda”, um “não lugar” (CASAS, 1998), em que ela está subordinada ao arbítrio do adulto.

Em contraposição a esse desprezo aparente, há o desejo de retorno ao passado, uma evasão e um saudosismo que se dá na maturidade do poeta-homem, que busca o passado no presente das memórias, revivendo o olhar inocente sobre o mundo, as brincadeiras, os cenas cotidianas, os amores e a tristeza, a liberdade perdida pela imersão no mundo das normas e padrões de conduta, que a vida adulta impõe através das suas muitas responsabilidades. Esse retorno do poeta se dá, no entanto, já com a maturidade da vida percorrida, numa relação de revisitação e reflexão que se delineia em cada verso dotado de um sentimento particular e de um olhar universal.

A idéia do não lugar da criança, ou a infância como fase de indefinição da identidade, em que ela ainda não é considerada como sujeito, é trazida por Drummond em sua reflexão nos poemas “Verbo ser” (Boi Tempo II) e “Aquele córrego” (Boi Tepo III).

Verbo ser

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas! Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer. (p. 664)

Neste poema em prosa, Drummond levanta os questionamentos sobre o “tempo de ser”, que seria a idade adulta, estando a criança circunscrita como um “não ser”, um algo ainda por se tornar. Delineada numa única pergunta central e cotidiana, – o “Que vou ser quando crescer?” -, lançada com freqüência à criança, busca-se uma resposta definidora, um conceito, uma suposta solidez que despreza a infância e a própria vida como um processo de desenvolvimento contínuo, de vir-a-ser, mutável e dinâmico. Diante da ausência de uma resposta objetiva, o eu-lírico abre mão de respostas e busca simplesmente viver, “crescer assim mesmo”, sem uma definição, seguindo a vida em seu fluxo. Essa indefinição e esse questionamento levantado em “Verbo ser” é retomada em “Aquele córrego” no trecho a seguir:

Aquele córrego

(…)

Que nome ele tem? Não tem

nome nenhum, tão muidinho

ele é. Pois é, qual riacho

qual nada. Ele é mesmo corgo

ou nem isso. É meu desejo

de água que não me afogue

e onde eu veja minha imagem

me descobrindo, indagando:

que menino é esse aí?

Que menino é este aqui?

Não sei como responder.

(…) (p. 703)

Em “Aquele córrego”, além de retratar esse não lugar da criança, ele aprofunda uma reflexão existencial sobre a própria identidade, refletida no menino da infância, da lembrança e memória do passado – o “menino aí” – e o menino revivido no presente, ele mesmo, através da poesia, do eu-lírico que se constrói no agora – o “menino aqui”. Retornar a infância torna-se, então, um processo de auto-descoberta.

Ainda tratando sobre a representação da criança, temos, no poema “Fim da casa paterna”, contido no livro Primeiro Colégio, de Boi tempo III, a imagem da criança como “objeto de família”, seguindo a compreensão da criança como uma questão de ordem familiar, circunscrito sob as “leis” domésticas e a ela subordinada no espaço privado (ARÌES, 1981; CASAS, 1998). Nesse poema, o autor retrata o desespero da criança em ter de sair do núcleo familiar para adentrar a sociedade, através da escola – o colégio interno – caminho a ser trilhado para a suposta liberdade advinda com a educação. Abaixo, segue o fragmento que retrata essa questão:

Primeiro colégio

(…)

Vou dobrar-me

à regra nova de viver.

ser outro que não eu, até agora

musicalmente agasalhado

na voz de minha mãe, que cura doenças

escorado

no bronze de meu pai, que afasta os raios.

Ou vou ser – talvez isso – apenas eu

unicamente eu, a revelar-me

na sozinha aventura em terra estranha?

Agora me retalha

o canivete desta descoberta:

eu não quero ser eu, prefiro continuar

objeto de família. (p. 776)

Nesse fragmento temos retratado também um aspecto interessante e que diz respeito à idealização da criança em relação às figuras paterna e materna, estando a mãe representada como uma imagem de doçura e bálsamo e o pai, uma figura de força, mantenedor e protetor da família, representações estas ligadas diretamente à configuração típica da família patriarcal.

Além dessa reflexão, podemos perceber outros aspectos da infância, que são retomados. A memória de fatos do cotidiano, como as brincadeiras de criança, as brigas, os rituais religiosos, o contato com a escola e o processo de socialização, são recorrentes em diversos de seus poemas.

Em “Higiene corporal” (Boi Tempo III, p. 718), por exemplo, é retratada a cena de asseio da criança pequena, feita por um cuidador. Esse poema reflete a importância, nos primeiros anos de vida da criança, de uma atenção especial voltada para a criança, a fim de garantir seu bem-estar e desenvolvimento saudável, com progressiva aquisição de independência, à medida em que vai adquirindo habilidades próprias (COLE & COLE, 2004). Esse processo de progressivo desenvolvimento da criança representa mudanças significativas tanto para ela, apresentado de forma metafórica pela mudança da forma de asseio – dos “panos de limpar cu” para os “pedaços de jornal” –, como na dinâmica social em seu entorno, nos papéis estabelecidos pelas outras pessoas em suas relações diádicas (GAUY & COSTA JR., 2005).

Higiene corporal

Junto à latrina, o caixote

de panos de limpar cu

de menino.

Sá Maria é quem limpa o cu

e lava o pano.

Cresce o menino.

Assume a responsabilidade

de limpar seu próprio cu

com pedaços de jornal.

Sá Maria é chamada a outros deveres.

Em “O Banho de Bacia”, contido em Boi Tempo II (p. 663), vemos a contraposição entre a criança e as normas sociais que são impostas a ela, para que esta adentre, progressivamente, a vida dos adultos – “Se não tomar banho não vai passear”. Para o eu-lírico, o banho não representa apenas um momento de asseio, um hábito de higiene, necessário para a saúde, mas uma “condenação”, uma limitação para sua atuação mundo. Essa experiência, no entanto, inicialmente violenta, para a criança do poeta, ganha novo sentido, o das possíveis e múltiplas sensações que o mundo oferece em seu processo de descoberta e exploração criativa e individualizada, configurada no ambiente do quarto de banho. Esse olhar sensível, esse vivência sensorial, novamente se contrapõe às prescrições dos adultos, e é representada como uma revolta da criança, e do próprio poeta, ao dever que submete sua criatividade. Podemos perceber esses elementos no trecho a seguir:

O Banho de Bacia

(…)

O mundo é estreito. Uma prisão de água

envolve o ser, uma prisão redonda.

Então me faço prisioneiro livre.

Livre de estar preso. Que ninguém me solte

deste círculo de água, na distancia

de tudo mais. O quarto. O banho. O só.

O morno. O ensaboado. O toda-vida.

Podem reclamar,

podem arrombar

a porta. Não me entrego

ao dia e seu dever.

Um outro sentido atribuído ao banho, pelo poeta, é o de purificação espiritual e, paradoxalmente, o despertar da sexualidade na criança, através da progressiva descoberta e erotisação do corpo, o que é retratado no poema “O banho”, contido em Boi Tempo I.

O banho

Banheiro de meninos, a Água Santa

lava nossos pecados infantis

ou lembra que pecado não existe?

Água de duas fontes entrançadas,

uma aquece, outra esfria surdo anseio

de apalpar e na laguna a perna, o seio

a forma irrevelada que buscamos

quando, antes de amar, confusamente amamos.

A tarde não cai na Água Santa

Ela pousa na sombra da gameleira,

fica vendo meninos se banharem.

Esse processo de descoberta e erotisação do corpo, pela criança, é, no entanto, foco de forte repressão moral, por parte da cultura e da religião cristã, em especial, por esta considerá-la impureza e submetendo a criança ao peso de um suposto pecado, o que é representado não apenas no poema “O Banho”, na “Água Santa (que) lava nossos pecados infantis” como em outros tantos, e que destaco no trechos a seguir, dos poema “Sentimento de pecado” (p. 751-752) e em “Ele” (p. 752-753), ambos contidos em Boi Tempo III.

Sentimento de pecado

Pecar, eu peco todo santo dia.

Às vezes mais. Outras nem tanto.

Mas sempre a sombra, na consciência,

visão do inferno, crepitante,

subimpressa nos atos, nos lugares.

sei todos os pecados e cometo-os.

Todos os arrependimentos.

Todas as prosternadas confissões,

previstas penitências (…)

Como pode durar o ano inteiro

este jogo de deus e de diabo

em peito de menino?

(…)

***

Ele

(…)

O que faço de errado,

principalmente o que faço

de gostoso,

tudo lhe merece

a mesma indiferença

enquanto vou fazendo.

Tarde é que mostra sua

condenação.

Interrogo-me, sinto

que dói dentro de mim.

Não devia ter feito.

Como poderia evitar de fazer?

Só agora percebo

que condenado fui

a pazer e provar a pena interior.

Seu nome (e termo) é Deus do catecismo.

Esses poemas retratam a repercussão que o contato com certas experiências culturais, como o estabelecido com os dogmas da religião católica, ou com papéis sociais de autoridade repercutem sobre o imaginário da criança. Assim como nos poemas acima citados, em que o pecado e o temos a Deus é retratado, outras figuras ganham dimensões e forte impressão sobre a criança, como a do padre, como autoridade religiosa, e do pai, que representa a autoridade dentro do seio da família nuclear e patriarcal, que constituem as memórias de infância do eu-lírico. Um certo temor acaba por ser construído e configurado no ato da “benção”, que perde muito de seu sentido no ambiente familiar urbano, mas que ainda tem representatividade em ambientes rurais, e é retratado também nos trechos dos poemas O padre passa na rua (p. 680) e O beijo (p. 656), abaixo transcritos:

O padre passa na rua

Beijo a mão do padre

a mão de Deus

a mão do céu

beijo a mão do medo

de ir para o inferno

o perdão

de meus pecados passados e futuros

a garantia de salvação

(…)

***

O beijo

Mandamento: beijar a mão do Pai

às 7 da manhã, antes do café

e pedir a benção

e tornar a pedir

na hora de dormir.

(…)

Olha o caso do Nô.

Cresce demais, vira estudante

de altas letras, no Rio de outras normas.

Volta, não beija o Pai

na mão. A mão procura

a boca, dá-lhe um tapa,

maneira dura de beijar

o filho que não beija a mão sequiosa

de carinho, gravado

nas tábuas da lei mineira de família.

A definição de papéis, através do contato da criança com a dinâmica social, na família, primeiramente, possibilita, à criança, a diferenciação na forma de representar, por exemplo, a figura paterna da figura materna, como é retratado, no poema “Distinção”, de Boi Tempo II (p. 649):

Distinção

O Pai se escreve sempre com P grande

em letras de respeito e temor

se é Pai da gente. E Mãe, com M grande.

O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.

Com ela sim me entendo bem melhor:

Mãe é muito mais fácil de enganar.

(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

Nesse poema percebemos não apenas uma distinção de nível de autoridade atribuído ao pai, em superioridade à da mãe, justificada pelo contexto predominante da família patriarcal, no início do século XX, como a maior relação de afetividade entre a criança e a mãe, relacionada ao maior cuidado, dirigido, na maioria das vezes, por ela ao filho. Esse cuidado deve-se aos papéis sociais atribuidos à mulher ao longo da história recente da humanidade, em que cabia a ela a condição de cuidadora da criança, estabelecendo-se supostamente um maior vínculo de apego e laços afetivos.

Nos poemas “Revolta” (p. 686) e “Fuga” (p. 686-8), nos deparamos com duas questões bastante curiosas que povoam a infância: o castigo, dirigido pelo adulto como forma de punição, – às vezes por meio de violência física, como retratado também no poema “O maior Pavor” (p. 787) -, por mau comportamento ou desobediência, e as reações emocionais de raiva da criança, que se sente injustiçada, e pensa em fugir de casa. Esses mesmos sentimentos são retratados nos poemas em que o autor rememora as cenas no internato, como no poema “A norma e o domingo” (p. 783).

Enfocando um outro aspecto levantado por Drummond em seus poemas, temos a questão das brincadeiras de criança, que estão retratados em poemas como “Os grandes” (p. 663), “Matar” (p.664), “Fruta furto” (p. 666), “Achado” (p. 667) e “Quinta-feira” (p. 668-9), contidos em Boi Tempo II, e os poemas “Estojo de costura” (p. 714), “Açoita-cavalo” (p. 714), de Boi-Tempo III.

Em Os grandes observamos a contraposição entre os valores das crianças e os dos adultos, em que Drummond expõe a riqueza do mundo infantil em oposição à vida do adulto, imersa em relações de negócios. Essa própria forma de brincar, com objetos ordinários – pedrinhas – do dia-a-dia, irrelevante para a maioria dos adultos, demonstraria uma potencialidade criativa da criança em sua atividade de exploração e significação do mundo, de forma evidentemente distinta da do adulto. Esse paradoxo é explicitado no fragmento abaixo:

Os grandes

(…)

Incessantemente falam de negócio.

Contos contos contos de réis saem das bocas

circulam pela sala em revoada,

forram as paredes, turvam o céu claro,

perturbando meu brinquedo de pedrinhas

que vale muito mais.

Outro aspecto digno de nota diz respeiro às inúmeras brincadeiras coletivas de criança, trazidas no poema “A separação das casas” (p. 756-760), que retrata a importância dessa atividade para o processo de socialização, estabelecida no contato com outras crianças, possibilitando estabelecer formas embrionárias de interação e definição de papéis. Essas formas primeiras de relação, criança-criança, sofreriam, no entanto, progressiva intervenção de valores sociais e de classe, de grupos, que desvirtuariam o tipo de vinculação primária e não preconceituosa de uma criança em relação a outra. Essa questão é apresentada no trecho a seguir:

A separação das casas

Crianças das duas casas

unidas num só brinquedo

de chicotinho queimado,

carniça, gata-parida,

e marija, roda cantigas

lusamente brasileiras,

ou melhor universais.

té se fez de mentirinha,

casamento de meninos

(…)

Eis de súbito alterado

o panorama gentil

de tão grata convivência. (p. 759)

Essa intervenção social, oriunda do mundo dos adultos ao infantil, é retratado como uma forma de imposição e violência ao mundo infantil, construído sob a fantasia da liberdade. Em “Brincar na rua” (p. 739), por exemplo, essa liberdade é censurada através da imposição de limites, de convenções como o tempo, definidas socialmente, mas que nem sempre são compreendidas pelas crianças que buscam o prazer da brincadeira.

Brincas na rua

Tarde?

O dia dura menos que um dia.

O corpo ainda não parou de brincar

e já estão chamando da janela:

É tarde.

Ouço sempre este som: é tarde, tarde.

A noite chega de manhã?

Só existe a noite e seu sereno?

O mundo não é mais, depois das cinco?

É tarde.

A sombra me proibe.

Amanhã, mesma coisa.

Sempre tarde antes de ser tarde.

Nos poemas “Iniciação Literária” (p. 671), “Assinantes” (p. 671), “Primeiro jornal” (p. 671) e “Biblioteca verde” (p. 672-3), percebemos nos poemas de Drummond a introdução de um outro elemento no mundo da criança em suas fantasias e brincadeiras, a literatura. Nesses poemas, não apenas são retratadas as primeiras experiências do menino-poeta com a literatura, os livros e as histórias de faz-de-conta, como também possibilita à própria criança a condição de autor e ativa nesse processo de criação, aprofundando sua relação com a linguagem e com formas mais complexas de representação do mundo, caracterizada por fortes expectativas e desejos da criança.

Como último aspecto percebido, que considero de relevância, entre as diversas cenas remetidas nos poemas de Boi-Tempo, temos a questão do despertar do amor e da sexualidade, na criança. Retratado no poema “A puta” (p. 598), de Boi Tempo I, onde o eu-lírico descreve o desejo idealizado do “menino” pela figura da prostituta (imagem recorrente como iniciadora da sexualidade dos meninos) da cidade.

A Puta

Quero conhecer a puta.

A puta da cidade. a única.

A fornecedora.

Na Rua de Baixo

onde é proibido passar.

(…)

É preciso crescer

esta noite a noite inteira sem parar

de crescer e querer

a puta que não sabe

o gosto do desejo do menino

o gosto do menino

que nem o menino

sabe, e quer saber, querendo a puta.

O amor e o sexo constitui-se temática recorrente em poemas como “Os tios e os primos” (p. 656-7), “Beija-flor” (p. 674), “Indagação” (p. 675), “As pernas” (p. 675) e “Le voyeur” (p. 676-7), de Boi Tempo II e em “Febril” (p. 748), Boi Tempo III, que constroem a atmosfera de curiosidade do menino que inicia-se na puberdade, com suas fantasias sexuais e brincadeiras de sedução. Em “Tentativa” (p. 677), Drummond retrata a primeira experiência sexual de um menino.

Em oposição a esse despertar da sexualidade, no entanto, se contrapõe o rigor moral e religioso, que, imbutido da idéia de pecado – o “onde é proibido passar”, do poema “A puta”, dotado de moralismo -, censura e condena a criança nessa fase de novas descobertas e transição para a puberdade. Essa realidade ambígua e ambivalente, vivida pelo “menino”, é expressada no poema “Inventor” (p. 796-7), em que se ensaia, de forma satírica, a idéia da masturbação.

Inventor

Entre Deus, que comanda,

e guris, que obedecem,

entre aulas a dar

o mês inteiro, a vida inteira, a inteira eternidade

(…)

e sob a esperança do Paraíso,

o padre português, no confessionário,

antes que o pecador

debulhe seus pecados

indaga:

“Quantas vezes mexeste no pirolito?”

Finda a obrigação,

recolhe-se ao quarto ascético,

dedica-se ao aperfeiçoamento

de sua invenção, o ovoscópio

(…)

Concluir essa leitura acaba se tornando uma experiência de crise, por estar ciente de que diversos pontos curiosos e relevantes deixaram de ser aprofundados. Nessa leitura encontro em Boi-Tempo, nos poemas de infância revisitada pelo poeta já maduro, uma representação de infância onde a criança tem seu lugar, transitando por experiências diversas, às vezes marcadas por tristezas e ressentimentos, na lembrança, às vezes relembradas e revividas com um sabor saudosista.

Nestes poemas, a criança é vista como um ser dotado de uma consciência particular sobre o mundo, uma percepção sensível e distinta da do adulto, voltada à apreensão das pequenas coisas, pequenos detalhes, prazeres e sensações. Antes de tudo, e seguindo a própria dinâmica dos poemas, em suas temáticas que extrapolam a infância e invadem outras fases da vida e maturidade do poeta, há uma preocupação notada do desenvolvimento como processo ininterrupto, fluxo progressivo, potencial realizador e possibilidade. O próprio passado deixa de ser passado, se torna presente, no momento e na lembrança, ao leitor que se encontra na universalidade das imagens de infância-memória.

E, utilizando-me de apenas mais um verso, em seu poema “Memória prévia” (p. 663), descobrimos que “Viver é saudade prévia”, pois nos projetamos no futuro presentificado e recordado. Poesia, memória e vivência.

REFERÊNCIAS:

* ANDRADE, C. D. de. (1987). Nova Reunião: 19 livros de poesia. – 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio.

* ARIÈS, P. (1981). Historia social da criança e da família. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S/A.

* CASAS, F. (1998). Infância: perspectivas psicosociales. Barcelona: Paidós.

* COLE, M. & COLE, S. R. (2004). O desenvolvimento da criança e do adolescente. Porto Alegre: ArtMed.

* DESSEN, M. A. & COSTA JR., A. L. (2005). A ciência do desenvolvimento humano. Tendências atuais e perspectivas futuras. porto Alegre: ArtMed.

____________
* Artigo escrito como atividade de avaliação para a disciplina Psicologia do Desenvolvimento I, em 2006, no início de meu curso de graduação em Psicologia, pela UFBa. Posteriormente o texto foi revisado e apresentado no comgresso da Sociedade Brasileira de Psicologia, ocorrido em Salvador-BA, no mesmo ano.

1 comentário:

  1. Anderson Proença de Andrade, 3 de novembro de 2009, 16:18

    Ótimo artigo. Soube dar toda a importância que a obra de Carlos Drummond de Andrade merece e ocupa no cenário da literatura universal.

     

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