A Contrapsicologia do Concurseiro ou Por uma contracultura dos concursos públicos.
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
a Paul Goodman e suas obras
“Growing Up Absurd” e “Compulsory miseducation”:
profecias da deseducação na contemporaneidade.
Acabo de ser convocado a ocupar um cargo após ser classificado em um concurso público. Após mais de um ano de espera, surgiu uma vaga para cadastro reserva. Enquanto eu esperava, realizei outros concursos públicos, sendo classificado em outros, e continuei tocando minha vida, realizando outras atividades profissionais, acadêmicas e pessoais. EU NÃO PAREI MINHA VIDA PARA ESTUDAR PARA CONCURSO PÚBLICO.
Como psicólogo clínico, atendo todo tipo de caso que chega até mim. Uma das questões que estão mais recorrentes na clínica é a questão do desemprego. Já atendi pessoas que foram demitidas e estavam a um ano desempregadas, o que repercutia na vida amorosa e na relação familiar. Já atendi recém formados que estavam atuando na iniciativa privada com medo da instabilidade de ser demitido a qualquer momento, e que tinha um companheiro que estava desempregado, o que afetava sua vida pessoal e afetiva. Atendi pessoas que estão desempregadas a 5 anos, que tinha escolhido cuidar da família, e se dedicar a concurso público visando maior estabilidade financeira, ficando na dependência de parentes que, por estarei sustentando, exigiam coisas em troca. Já atendi donas de casa casadas a quase 30 anos, que não tinham expectativa nenhuma de mudança e permanecia em um relacionamento arruinado por não ter como se sustentar economicamente. Já atendi pessoas que, por ter um diagnóstico psiquiátrico (questionável, no meu ponto de vista), acreditava ser incapaz de trabalhar.
Todos esses casos, com suas particularidades, trazem a questão econômica como elemento que interfere na dinâmica relacional e na auto-estima. Estar desempregado traz uma condição de dependência muitas vezes paralisante, quando não regressiva, do desenvolvimento natural. O desenvolvimento natural do ser humano é ir em busca de sua auto-realização. Parte desse processo implica no CAMINHAR COM AS PRÓPRIAS PERNAS, desenvolver o auto-suporte, ir atrás de seus objetivos e satisfazer suas necessidades.
Segundo Abraham Maslow, teórico humanista, clássico da Psicologia que trata de processos motivacionais, somos todos guiados por necessidades que envolvem: 1) necessidades básicas de alimentação, sexo e segurança – que visam a manutenção do indivíduo e da espécie humana; 2) necessidades sociais de reconhecimento e afeto, de ser valorizado pelo trabalho e ações que desenvolvemos na relação com o outro e 3) necessidade de auto-realização, o que inclui a realização de projetos pessoais, que por vezes envolve uma dimensão transcendente que inclui o desenvolvimento cultural, artístico e/ou espiritual.
Na clínica, no caso de pessoas desempregadas, e, em especial, no caso dos concurseiros, me deparo com pessoas que estão presas às necessidades básicas. Desempregadas, tem incerta a garantia do auto-suporte, por lha faltar condições de suprir suas necessidades fundamentais de sobrevivência. Dependem do outro para comer, ter uma casa para morar, ou se submetem a formas insuficientes de relação, por ainda ter um pouco de sexo, que lhes dão a sensação de ser amado/a.
(Essa questão do sexo como necessidade primária ou segundária é polêmica e creio que não dá para discutir aqui, pois envolve questões mais amplas que transcendem a sobrevivência da espécie e perpassa a dimensão do afeto).
Referindo-me especificamente ao concurseiro, tema desse breve artigo, percebo que sua vida está presa a uma armadilha perversa, em que cai sem se dar conta.
Vivemos numa sociedade capitalista em que o desemprego constitui um elemento estrutural NECESSÁRIO À MANUTENÇÃO DO SISTEMA.
Desde os pensadores clássicos da sociologia, em especial o Karl Marx, sabemos da importância da existência do exército de reserva, da existência de mão-de-obra desempregada. Esse exército de desempregados equilibra a balança das relações capitalista-proletário, empregador-empregado, em favor, é claro, do capitalista. Havendo profissionais qualificados desempregados, mais mão de obra do que ofertas de emprego, o empregador tem maior poder de manipulação e controle sobre seus empregados pois se um empregado se insurgir contra ele, haverão pelo menos uns 10 para substituí-lo. Assim, salários baixos e contratos precários se tornaram um elemento comum nos modos de relação de trabalho submetidos ao modelo econômico neoliberal. A livre negociação na verdade fala do livre pechinchar do empregador em relação ao valor do trabalho do empregado. Quem não se submete a isso fica desempregado.
Quando leio matérias de “especialistas” em concursos, eles sempre falar que o concurseiro deve se dedicar com afinco aos estudos, submeter-se a uma rotina rigorosa de leituras e treinamentos de provas de concursos anteriores, para se acostumar com o ritmo de uma prova de concurso. O concurseiro praticamente tem que viver para o estudo, pois esse sacrifício irá levá-lo à vitória e ao objetivo almejado: um bom salário e um emprego público com estabilidade para toda a vida.
Não vou negar que eu fico com medo, quando o salário e a estabilidade se colocam como meta de vida. O concurseiro, na maioria das vezes, coloca o concurso público como meta, e se aliena de outras dimensões de sua vida, deixa de olhar para outras necessidades fundamentais, por ter cristalizado como foco esse objetivo – que para mim me parece como que um arricar na roleta da sorte de um cacino ou fazer a fezinha na MEGA-SENA. É um jogo de sorte ou azar, e as possibilidades de ficar milionário não são tão grandes.
Folheando uma revista de grande circulação nacional que trazia como tema a febre dos concursos públicos, li uma matéria que falava da importância de manter a persistência nesse objetivo, estabelecer um foco, escolher um concurso específico e estudar para ele mesmo que ainda não tenha sido aberto o edital, criar rotinas e estratégias de estudo. Pessoas que passam 5, 7, 10 anos estudando em cursinhos de concurso. Enquanto isso, o que fazem com da vida?
Estudar para concurso não é um modo de vida natural. Poderíamos questionar o que é esse “natural” de que eu falo e repito. E eu digo: natural é respirar, comer, desejar, amar, viver, sentir, ter prazer e dor, seguir o fluxo da vida aproveitando cada momento e cada oportunidade de ser feliz com intensidade. Tudo isso que parece tão poético e utópico, faz parte da vida e acontece a cada momento, se nos damos conta de quem somos, de quais as nossas REAIS NECESSIDADES e de como podemos interagir com o mundo para satisfazê-las. Mergulhados em objetos cristalizados ficamos bitolados, obsessivos com uma meta artificial que, quando alcançada, a conquista perde todo o sentido.
Muitos concurseiros fazem concursos buscando uma estabilidade que não existe. A vida, em si, segue um fluxo contrário à estailidade. A vida é instabilidade e desequilíbrio, e isso nos movimenta, isso dá sentido a nossa existência. Parar a vida para perseguir um objetivo é cristalizar o movimento dinâmico de nossa existência, se estabilizar num movimento obsessivo, repetitivo, pouco criativo, é seguir regras e modos ditados por especialistas que, muitas vezes, não praticam o que pregam e ensinam. “Façam o que eu digo, mas não o que eu faço”.
Os especialistas em concurso público estão lucrando com o sonho de estabilidade de concurseiro. Vendem seus livros de auto-ajuda, suas metodologias de estudo e suas estratégias de como vencer. Vendem, e com toda a razão! Eles conseguem manipular o sistema capitalista a seu favor. Conseguem extrair do sistema perverso o seu ganha pão e sua fortuna, explorando a miséria alheia. E não estão errados! Estão certíssimos pois isso é o esperado e é o necessário para que o sistema continue funcionando sob suas próprias leis de exploração, submissão e tirania.
Nós, psicólogos, também nos valemos desse sistema. Nossos consultórios se enchem de pessoas frustradas com a própria vida, por estarem desempregados, por estarem lutando por um sonho, por estarem submetidos ao outro que lhe dá o sustento e o submete ao controle, e às vezes, à humilhação. Nós lucramos também com a miséria do outro e podemos alimentar os sonhos ou podemos ajudar a despertar do véu de Maia, da fantasia e da ilusão. Mas às vezes o concurseiro está tão adaptado ao “ser concurseiro”, tão bitolado às engrenagem da máquina capitalista, tão conformado a esse papel e esse lugar no mundo, que a tarefa torna-se quase impossível.
Nós, psicólogos, temos uma função de agir na contramão. Somos do contra, pois nossa função é resgatar a humanidade do homem submetido à alienação. Precisamos frustrar os sonhos para criar outros, mais naturais e autênticos. Precisamos desmistificar o que está dado, para que a realidade se mostre em sua riqueza de possibilidades. Precisamos ensinar o outro a acreditar em suas potencialidades e em sua capacidade de transformar sua realidade de forma ativa.
Estar na posição de concurseiro e esperar que a solução de seus problemas venham com a aprovação de um concurso público. Esperam a estabilidade antinatural da vida, a riqueza que proporciona a solução de todos os problemas, a via para conquistar o futuro. O futuro, no entanto, se dá a cada momento, nesse aqui-agora em que a vida é vivida, ou desperdiçada.
Não é raro que pessoas passem em concursos públicos aplicando o mínimo de esforço. Algum esforço é necessário, mas não precisa ser o esforço que leva à exaustão. Deparo-me com clientes que já não tem força para estudar, tamanho é o estresse e a pressão que aplica sobre si mesmo. O mesmo eu vi colegas meus que perderam nos exames de vestibular, por estudarem até o choro. Tamanho sofrimento não traz resultados positivos, só reduz a confiança em si mesmo, em sua capacidade de conquistar seus sonhos, abalando sua auto-imagem e auto-estima. Pra que isso tudo?
Não desmereço o sonho da estabilidade e do concurso público como uma via para alcançar esse fim, entretanto ele NÃO É A ÚNICA VIA. Durante o tempo em que eu fiz concurso público me dediquei a outras atividades paralelas. Essas atividades são portas que me permitiam ter um retorno financeiro mínimo necessário, manter contatos com outras pessoas, ampliar meu conhecimento e minha rede de relações sociais – o que os especialistas chamam de “networking”. Essas vias outras me permitiram reduzir a ansiedade para fazer o concurso público e me permitiu olhar de forma ampla para o mundo a minha volta. SE FIXAMOS UM ÚNICO FOCO, DEIXAMOS DE OLHAR PARA AS OUTRAS POSSIBILIDADES QUE EXISTEM A NOSSA VOLTA.
A lógica atual nos convoca a ser profissional ecléticos, versáteis, polivalentes. Por um lado há algo de perverso nisso, que nos obriga a ser pau pra toda obra. Por outro lado nos convoca a ter uma visão do todo, ampla, a servos flexíveis e dinâmicos. A estabilidade aspirada no concurso público nos convoca para o caminho oposto. Nos convoca para a estagnação, a rigidez, o conformismo, a acomodação. A lógica da polivalência é perversa e é a radicalização da proposta neoliberal, no entanto dá margem para escolhermos caminhos múltiplos que podem nos levar à auto-realização. O modelo do serviço público nos convoca ao entrincheiramento, ao estreitamento das nossas potencialidades.
É claro que ter estabilidade e ter um rendimento fixo garantido todo o mês nos permite realizar outras coisas, concretizar sonhos e alcançar nossa realização a médio e longo prazo. Para quem não se entrincheira e vê o emprego como meio para se alcançar um fim, isso funciona como impulsionador. Entretanto, o que venho observando com freqüência é o concurso público convertido em fim em si mesmo. Estudar copiosamente tendo como fim passar no concurso público. As posições, a meu ver, se invertem em escala de valores.
Não desmereço os esforços dos concurseiros, mas proponho uma reflexão crítica sobre essa posição, esse lugar no mundo. Passar num concurso não deve ser o fim, mas o meio. E nesse meio, outros caminhos podem ser trilhados em paralelo, concomitantemente. E, nessas trilhas, se pode encontrar outros caminhos que levem ao mesmo fim, a auto-realização, ao empreender a própria vida com mais liberdade, flexibilidade e autonomia.
Em tempos de crise tendemos a radicalizar posições e criar fórmulas mágicas que nos dão uma certa estabilidade em relação ao mundo. Se busca a estabilidade no que é instável, fluido e incerto. A lógica do concurso público segue essa perspectiva. Se tornar funcionário público, no entanto, não é sinônimo de realização de todos os problemas, nem a garantia de estabilidade para a vida inteira. Trata-se de um mito, uma ficção, um delírio, com uma dimensão concreta de realidade, mas também cheia de fantasias.
Precisamos aprender a lidar com o tempo das pequenas construções, das pequenas coisas e dos pequenos encantamentos da vida. A vida não para de caminhar em seu ritmo. E seu ritmo é lento. Nós, no entanto, nos agoniamos e agonizamos no desejo de concretizar todos os nossos sonhos em um curto espaço de tempo, esperando que as coisas se dêem a nós.
A vida também caminha numa velocidade frenética, passa por nós e, quando menos pensamos, já perdemos toda a nossa vida, que poderia ter sido vivida com intensidade, com prazer e alegria de viver. Nos damos conta disso quando acordamos de um sonho, quando despertamos para o tempo perdido por persistirmos num caminho em círculos que não leva a lugar nenhum.
Precisamos aprender a estar a caminho sempre andando, e nos arriscarmos um pouco, seguindo nossa intuição ou nossos desejos. O caminho não precisa ser penoso, como um calvário, nem precisa ser “a insustentável leveza do ser”. O caminho do meio, como diz os orientais, talvez seja o caminho. O caminho que vê todas as possibilidades e segue seu ritmo natural de realização.
Sempre tenha um plano A, B, C, D, E… e sempre esteja aberto ao novo que emerge a cada momento enquanto possibilidade que se abre. Não se fixe numa única meta, num fim em si mesmo. Encontre o seu caminho nos vários meios e vários fins, e preste atenção para os caminhos, trilhas e atalhos que a vida te apresenta.
Para os concurseiros jovens, não tenham pressa. Para os mais velhos, não percam as esperanças e não creiam que já não resta outra alternativa. Sempre haverá alternativas. Sempre haverá possibilidades de escolher diferente. Para os donos de cursinhos e “especialistas”, cuidado com os paraísos artificiais que constroem, e cuidado com os caminhos pedregosos que apontam como via. Há vias possíveis de ser caminhadas sem se destruir no percurso.
É isso. Não me considero nem me considerei em momento nenhum “concurseiro”. Para mim, ser concurseiro não é uma ocupação, nem se deve contentar com esse modo de estar no mundo, mesmo que provisoriamente. Não parei minha vida, e busquei caminhos alternativos. Abrir mão desses caminhos, hoje, se constitue um dilema muito grande. Não abro mão, no entanto, de meus sonhos e de minha liberdade. Posso escolher entre todas as possibilidades que se mostram para mim, incluindo o serviço público como uma dessas possibilidades, sem coloca-la acima ou como melhor que as outras.
Fazer escolhas é exercer minha liberdade. Sou responsável pelas minhas decisões, e isso me faz uma pessoa que caminha com as próprias pernas. Se eu cair, me levanto. Se eu me perder, me encontro. E nesse caminho me construo diariamente, em meu caminhar.
Boa sorte a todos os que lutam por seus sonhos com os pés no chão, conscientes de si, de sua realidade e de suas necessidades. Sabendo sempre que a vida é um movimento que não deve parar.
muito interessante seu comentário. Este ultimo quebrou um pouco da minha ansiedade como ver o concurso como uma unica opçao. É preciso que estejamos sempre tentando e aprendendo com nossos erros! `Parabens!
É isso mesmo, Alessandra. A ansiedade só faz prejudicar. Um pouco dela nos ajuda a nos mexer, mas o excesso nos paralisa. É importante nos darmos conta de quando uma idéia fixa nos paralisa para outras possibilidades e oportunidades que existem e muitas vezes não nos permitimos ver.
Eu gostei da matéria. Achei sensata, equilibrada e motivadora. Podemos criar outras alternativas de sobrevivência, o nosso mundo não deve acabar com o desemprego. Porque a vida é + importante que o sustento dela. Se fosse ao contrário o sustento de nossos corpos seriam um fim em si mesmo, mais importante até do que a nossa vida. Deus pode nos dar outras alternativas de sobrevivência. É que esquecemos que temos potencial e somos criativos. Não podemos abrir mão dos valores corretos na vida, pois eles nos auxiliarão na condução de nossos caminhos.
Perfeito posicionamento!
O concurso não pode se tornar o motivo da existência de ninguém… muitos o fazem, na verdade, pelo medo do “mercado”, e acabam encontrando no “estudando para concurso” o porto seguro para frustrações, pressões e dificuldades.
Gostei muito do seu texto, verdadeiro e bem escrito, articula nossas teorias e filosofias psicológicas com a experiência da vida. Tomei a liberdade e acrescentei uma de suas marcantes frases no meu perfil do orkut – com a devida referência! Fico muito orgulhosa ao ler um texto tão inteligente de um colega de profissão. E, com ele, renovo ainda mais a minha paixão pela psicologia. Parabéns! E parabéns tb pela aprovação, e, principalmente, pelo percurso até ela! Sucesso.
Seu posicionamento realmente conseguiu descrever o universo utópico dos concurseiros (eu me encontro nele). O próprio Estatuto dos servidores fala de VACÂNCIA e se ela existe, não há estabilidade. O problema é a vacância na vida, o espaço vazio que fica quando você aposta “todas as suas fichas” numa situação que não se realiza. É nesse momento que se deve ter a estabilidade necessária para não ir ao fundo do posso e por lá ficar. Deve se ter os planos A, B e C; estar perto das pessoas que realmente te amam; erguer novamente a cabeça e sem deixar de valorizar as coisas boas da vida. As pessoas ficam esperando a hora (nomeação)de serem felizes (eu fazia isso). Hoje, após quase 4 anos tentando passar em algum concurso, aprendi muitas coisas boas, conheci melhores amigos, descobri novas habilidades e ainda venci alguns limites. Além disso, após ter experimentado duas faculdades, 2 pós-graduações e iniciar um mestrado, só fui me encontrar, mesmo, profissionalmente, após ter tido a coragem de largar tudo e ter entrado nessa vida dos concursos (não sabia que me apaixonaria pelo Direito). Sou feliz por simplesmente poder caminhar. Parabéns pela sua aprovação e pelo seu texto. Continue ajudando as pessoas, pois nós viemos aqui para servir e ser feliz.