Nascer não é igual para todos

NASCER NÃO É IGUAL PARA TODOS: A EXPERIÊNCIA DE PARTO DE MULHERES DE DIFERENTES GERAÇÕES E CLASSES SOCIAIS FRENTE A SERVIÇOS DE SAÚDE.

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Ana Cecília de Sousa Bastos
(Universidade Federal da Bahia – UFBA)

INTRODUÇÃO

Transições podem ser definidas, conforme Cowan (1991) como “processos que resultam em uma reorganização qualitativa da vida interna e do comportamento externo”, envolvendo uma perspectiva “de dentro” (um inside looking out – como o indivíduo compreende e sente o próprio self e o mundo) e uma perspectiva “de fora” (um outside looking in – referente a uma dimensão da identidade social, ocorrendo a reorganização do nível de competência pessoal do indivíduo ou da família, papéis e relacionamentos com outros significativos). A trajetória de vida de mulheres, na família, é marcada por transições, normativas ou não normativas, as quais, por sua vez, acarretam diferentes situações e momentos de enfrentamento da vida. Um dos eventos de transição mais marcantes é, certamente, a experiência do parto, que abre novas formas de experienciar a si e ao mundo através da maternidade, com a emergência de novos papéis e formas de relação que se definem a partir de significados que advém da maternidade.

Segundo Wang e Brockmeier (2002), a memória autobiográfica pode ser considerada como uma prática cultural que articula memória, self e cultura. Na mesma direção, Gone, Miller e Rappaport (1999), já chamavam a atenção para a característica que tem o evento narrativo, por si só, como ponto de convergência entre autor individual (que narra), engajado em atividade significativa e as práticas constitutivas de identidade ou do self, abraçadas por uma comunidade cultural. Brockmeier faz uma distinção entre eventos narrados e eventos narrativos, sendo os primeiros situados claramente no passado e os últimos envolvendo o próprio ato de narrar e o posicionamento do autor (Silva, 2003).

Para Gone, Miller, & Rappaport (1999), o estudo da narrativa pessoal sobre a história passada justifica-se pelo fato de narrativas podem ser uma oportunidade singular que as pessoas têm para representar o self na construção de significado; pela capacidade singular da narrativa de representar a natureza temporal da experiência humana em curso e, assim, sua capacidade resultante de capturar o self em desenvolvimento e pela centralidade da história de vida para a construção da identidade individual e pela afinidade entre narrativa e self, sendo as narrativas definidas como “construções sociais, produzidas pelo intercâmbio social, nas quais eventos relevantes para o self são articulados em seqüência temporal em um esforço para estabelecer coerência significativa para um número de propósitos instrumentais na interação.

A análise de narrativas, enquanto estudo da identidade cultural, tende a focalizar uma convergência entre autor individual, envolvido numa atividade significativa, e as práticas constitutivas do self, culturalmente estruturadas. Para compreender os diversos posicionamento de mulheres no contexto de transições para a maternidade, justifica-se empreender análise de narrativas, assumindo que é no contexto comunicativo, especialmente no da construção de narrativas, que se dá a construção do Self. A análise de conversação, permitida através da realização de entrevistas com duas gerações de mães, oferece importante potencial de análise de significações emergentes.

Tomando o parto como um evento significativo na vida das mulheres, este trabalho propõe-se discutir a forma como mulheres de gerações e classes sociais diferentes vivem essa experiência. Conduziu-se, então, um estudo de 8 casos transgeracionais, por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas em um contexto conversacional com mulheres de 28 a 87 anos, entre mães e avós, de origens e classes sociais diferentes. Buscou-se compreender diferentes significados emergentes dessa experiência, em especial no momento do parto e nas relações estabelecidas com os profissionais de saúde com participação ativa no processo de acompanhamento pré-natal, assistência ao parto e nos primeiros cuidados com mãe e bebê pós-parto.

Os resultados parciais apontam para questões ligadas a diferenças de geração, permitindo comparações entre as formas de parto domiciliar (realizados por parteiras) e institucionalizado (por médicos e enfermeiras) e evidenciam tensões entre tradição e modernidade, quanto aos procedimentos de realização do parto, e do acesso a recursos tecnológicos e à informação. Quanto ao parto institucionalizado, observam-se distinções principalmente na forma de atendimento à mulher verificado nos serviços privados e públicos, envolvendo diferenças quanto à qualidade do cuidado, ao acesso a recursos básicos como exames pré-natais, disponibilidade de assistência profissional, recursos básicos durante o parto como uso ou não de anestesia, opção pelo tipo de parto (natural ou cesariana), bem como no que diz respeito à saúde materna e à atenção dirigida aos aspectos subjetivos da mulher, como suas sensações, emoções e expectativas em relação à gravidez, ao parto e à experiência de se tornar mãe.

A experiência do parto revela-se única e singular, significada distintamente por cada mulher, que constrói, através das narrativas, uma versão de suas experiências, num processo dialógico e interativo com o contexto socioeconômico e cultural na qual se inserem e, principalmente, com os agentes que participam do processo de acompanhamento pré-natal e parto. As diferentes formas de relação estabelecida com os profissionais de saúde definem as diferentes posições do self, determinando possibilidades diversas de escolha antes e durante a gravidez e no parto, com maior ou menor protagonismo da mulher na própria experiência, o que, por sua vez, desenha modos diversos de enfrentamento das relações de poder no âmbito dos serviços de saúde.

O presente estudo de transições familiares supõe uma ênfase sobre o papel das narrativas na construção de significados pessoais e culturais em torno de transições familiares experienciadas. Explora-se a memória autobiográfica de mães de duas gerações e de diferentes classes sociais em torno do parto e transição para a maternidade e sua articulação com narrativa, self e identidade, situada tanto no nível macro do sistema cultural amplo como no micro do ambiente narrativo imediato.

As narrativas reproduzem a natureza temporal da experiência humana em curso, sendo esta marcada por rupturas com o canônico (Bruner, 1995), os significados tradicionalmente associados à idéia de gravidez e parto. Assume-se, neste estudo, que a produção de narrativas em uma situação aberta de conversação envolvendo mães multíparas de diferentes gerações, oriundas de classes sociais diferentes, representa um canal privilegiado de acesso ao contexto multivocal e polissêmico no qual se desenvolvem processos de construção da maternidade, envolvendo a articulação dialógica da identidade pessoal e coletiva. Como Wang e Brockmeier (2002), ao propor análises interculturais da memória autobiográfica, assumimos que, “sendo o agente ativo dessa construção, e não um experienciador passivo ou o veículo de algum destino incontrolável, o self é o pivô construtivo da organização narrativa”.

Objetivos

O estudo visou a analisar as múltiplas direções que a construção cultural da maternidade assume a partir de uma situação aberta de conversação em família, focalizando particularmente suas experiências junto a serviços e profissionais de saúde.

Metodologia

Sujeitos

A pesquisa envolveu 8 casos, compreendendo o relato de 16 mulheres entre 28 a 87 anos, entre mães e avós de origem (urbana ou do interior) e de classes sociais diferentes. A variação entre as idades possibilitou definir 3 grupos de mães: 1) mães jovens entre 20 aos 40 anos, 2) mães de meia idade ou avós jovens, dos 40 aos 60 e 3) avós, dos 60 em diante.

Coleta de dados

Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com mães e avós, em contexto de conversação. As entrevistas duraram em torno de uma hora e cinqüenta minutos e foram transcritas integralmente.

Análise de dados

As entrevistas realizadas foram transcritas e submetidas a análise de conteúdo, identificando-se três eixos de categorias conforme 1) núcleos temáticos, 2) forma narrativa e 3) tensões.

As categorias analisadas para o presente trabalho dizem respeito ao eixo temático, tais como: o tipo de parto realizado e justificativas para a sua escolha, acesso a informações sobre o parto, composição e funções da rede de apoio, relacionamento com o sistema de saúde e acesso a recursos e assistência profissional ; articuladas às tensões envolvendo diferenças quanto às práticas de cuidado tradicionais e tecnológicas, vividas no tempo passado e presente, e nos contextos urbano ou do interior.

Resultados e Discussão

As 6 mulheres com mais de 60 anos, tanto da cidade quanto do interior, relataram com freqüência:

• a realização de partos naturais por parteiras, em domicílio;
• a presença da mãe, parentes do sexo feminino (mãe, tias solteiras, etc) ou vizinhas, como principais referências quanto ao cuidado com o corpo e com o bebê;
• a parteira ocupando o papel de principal referência como profissional de saúde;
• predominância de crenças e práticas populares que envolvem desde a alimentação, cuidados com o corpo grávido, até métodos de se prever o sexo da criança;
• há uma familiaridade entre parteira e a família da gestante, havendo casos desta ter realizado o parto de mais de uma geração de mulheres na mesma família;
• acesso a acompanhamento médico, geralmente se restringindo a poucas consultas voltadas a saúde da mãe;
• quando se referiu ao médico como profissional de saúde envolvido no parto, denunciou-se práticas cirúrgicas que causaram complicações no corpo da mulher ou demora e sofrimento no momento do parto normal;
• comparações no sentido de conceber as práticas do passado como mais atrasadas e em relação ao acesso aos profissionais de saúde e à informação.

No grupo de 8 mulheres compreendidas na faixa entre os 40 e 60 anos, houve variações em relação à origem cidade/interior e à classe social. Observou-se que:

• as mulheres do interior migravam para cidades maiores em busca de serviços médicos de acompanhamento pré-natal e ficavam junto às mães no período do parto e pós-parto;
• variaram as formas de parto, havendo, no entanto maior valorização do parto cesariano , por ser programado, causar menos dor e contar com maior apoio profissional de médicos e enfermeiras;
• o ambiente domiciliar é substituído pelo hospitalar, sendo demarcados os momentos de tensão do pré-operatório, parto e pós-parto, envolvendo diferentes atores sociais e cenários em cada um desses momentos;
• as diferenças de classe social são evidenciadas no tipo de parto: há maior incidência de cesarianas entre mulheres de classe média, e de parto normal entre mulheres de baixa renda (sem o uso de anestesia, havendo inclusive entre estas um caso de parto por parteira);
• há grande incidência de cirurgias de esterilização por laqueadura de trompas;
• a definição pelo tipo de parto é realizada pelo médico, havendo pouca possibilidade de escolha tanto para a mulher de classe média quanto de baixa renda;
• a parteira perde lugar para os médicos e o saber científico é valorizado, substituindo as crenças e práticas populares;
• a avaliação em relação aos profissionais de saúde tende a ser positivo, apesar de serem apontadas críticas quanto às formas de tratamento (como em relação à pouca tolerância dos médicos diante das manifestações de choro e grito das gestantes);
• há um maior vínculo entre profissionais de saúde e gestante, havendo inclusive casos de parentesco.

O grupo composto por mulheres de 20 a 40 anos envolveu apenas 2 mães, sendo que uma delas era primípara de gêmeos, ambas de baixa renda. Os seus relatos sinalizaram que:

• há uma intensificação da influência do saber médico;
• há uma maior preocupação quanto ao uso de métodos contraceptivos e o desejo de realizar a laqueadura de trompas, a fim de evitar novas gestações;
• o acesso a exames pré-natais pelo SUS é dificultado;
• os partos foram realizados sem programação prévia, não havendo contato anterior entre profissional de saúde e a gestante.

Considerações Finais

Um estudo transgeracional possibilita explicitar aspectos do movimento de medicalização e tecnologização da maternidade, em seu processo empreendido ao longo do século XX, com a progressiva substituição do saber popular pelo científico e perda da autonomia da mulher diante da autoridade dos profissionais de saúde. Isto repercute na mudança de atores e cenários envolvidos ao longo da transição para a maternidade.

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