O Caminho do pensamento
O CAMINHO DO PENSAMENTO:
DO PENSAR ORIGINÁRIO À ERA DA TÉCNICA
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Resumo: O presente artigo trata do caminho do pensamento de Heidegger, que parte do diálogo com os pensadores originários até a compreensão do destino histórico da filosofia, que culmina na era da técnica. Busca-se compreender a diferença entre o pensamento originário e o pensamento filosófico e o exercício de pensar de Heidegger, no diálogo com os primeiros pensadores, pensando as possibilidades – e impossibilidades – do pensamento na atualidade. Ao refletir sobre ainda não pensarmos, Heidegger traz a questão do mundo da técnica e suas repercussões na ciência, que não pensa, segundo o modo de pensar essencial.
Palavras-chave: Heidegger, Pensamento, Técnica, Ciência.
Heidegger é um pensador que nos convida a pensar a tradição e a modernidade. Ao pensar a filosofia, Heidegger nos mostra seu surgimento, que apontar para esquecimento do pensamento que pensa essencialmente, do pensamento originário dos primeiros pensadores gregos, que pensam em correspondência com o Logos. Pensar em correspondência com o Logos é pensar a totalidade, Pánta tà ónta, “Tudo é Um”. Esse modo de pensar pensa a integração entre a tensão de opostos, pensa o vigente em sua vigência, pensar o ser-sendo, a correspondência intima entre essência e existência.
Esse pensamento que pensa a totalidade, não parte de dicotomias, mas da visão que integra as diferenças e as compreende como uma unidade de relação e interdependência, unidade que integra tudo em sua diversidade, o claro e o escuro, o dia e a noite, o céu e a terra, os mortais e os deuses, nas várias possibilidades de manifestação do ser que é, como partes interconectadas de um todo, como múltiplas dimensões do acontecer do fenômeno em seu acontecimento. Esse pensamento pensa o extraordinário no ordinário, através da espera do inesperado, da revelação do mistério.
Essa forma de pensamento originário foi esquecida ao longo da história o Ocidente, que se inicia com o surgimento da filosofia, fundada com Sócrates e Platão, a partir da de-cisão de pensar por meio do questionamento Ti to on – “que é o ente?”. Esse modo de pensar filosofico surge do espanto, do espanto se distancia, enquanto condição fundamental, ao longo de seu curso historial, recaindo sobre a busca pela verdade como certeza que visa o asseguramento do mundo pelo homem, na vigência da técnica e do método que visa conhecer e controlar o mundo, reduzido este a um mundo de objetos. A partir destino historial da filosofia, Heidegger pensa a modernidade.
O questionamento que funda a filosofia instala a diferença entre ser e ente, e converte o pensamento em metafísica. O desenvolvimento da filosofia, como metafísica, levou ao esquecimento do pensamento do ser, dirigido-se ao questionamento sobre o ente. Essa forma de pensar que separa ser e ente e que não pensa a identidade no seio da diferença, rejeita o pensamento dos primeiros pensadores, colocando-o na obscuridade, à margem da História e da tradição filosófica. Assim, o pensamento é obscurecido em seu brilho originário, ofuscado pela vigência da razão, da luz da racionalidade que tudo ilumina e tudo encobre.
O modo de pensar filosófico pensa o ente substantivado, que se distância do ser-sendo, do devir e do vir-a-ser, que é o mistério da vida, a Physis enquanto manifestação, e busca eliminar a incerteza, através da razão que a tudo converte em objeto passível de ser analisado e explicado, que tudo sabe, que tudo ordena e controla. Nessa perspectiva, a filosofia se converte na tirania da razão sobre o pensamento.
No pensamento originário se pensa a Physis, a vida em sua vitalidade, Universo em seu vigor de totalidade que diz – Tudo é Um. A obscuridade que hoje envolve o pensamento originário, que pensa essa totalidade, se dá pelo silenciar da Linguagem que tudo une. O estranhamento atual que o pensamento originário desperta se dá pela distância, não meramente cronológica, mas pelo esquecimento, como destino dessa conjuntura vigente que vigora desde os gregos. Esse destino diz também da insensibilização do homem atual ao apelo do Logos, da perda do sentido capaz de ouvir e ver o mistério que se manifesta na simplicidade, e diz também da alienação do homem em relação a sua própria humanidade .
A linguagem do Logos fala do vigor do nascimento como mistério. O mistério fala do simples, do singelo, das coisas que estão próximas, da vida em sua manifestação a cada momento. O simples que tudo engloba e que tudo é. Na era da técnica e do metafísica, o nascimento se torna fato banal, cotidiano e corriqueiro, controlado pelos aparatos tecnológicos e pelo saber que mede, explica e planeja, calcados na linguagem da ciência.
Os poucos fragmentos que nos restam dos primeiros pensadores nos chega na obscuridade, pois o vigor de seu pensamento se retraiu para dar lugar ao modo de pensar da metafísica, que se desdobra em múltiplos caminhos, na religião, na arte e na ciência, na vida cotidiana e no senso comum, criando um mundo em que os deuses se retiraram e o homem é colocado como centro. A ciência, talvez a máxima expressão do destino da filosofia enquanto metafísica, não compreende o pensamento dos primeiros pensadores, pois na luz de seu modo de vigência, não há lugar para o mistério que pensa a totalidade. A ciência substitui a linguagem do Logos pela linguagem do metafísica, substitui a medida divina, entre céu e terra, pela medida da régua e esquadro, pelo cálculo que converte a terra em matéria-prima de suas realizações.
O surgimento da filosofia se dá na decadência do pensamento. Com a decadência do pensamento que pensa em correspondência com o Logos, já não mais pensamos, filosofamos, reproduzimos um modo de pensar que se funda nos alicerces da metafísica, no edifício das categorias explicativas que buscam apreender a realidade nos fatos, cristalizando-os, quantificando-os e criamos sistemas.
O pensamento que pensa em correspondência com o Logos, não é o pensamento de um homem, do pensador, mas é pensamento enquanto caminho do ser, o pensamento que pensa de forma essencial, que pensa o fundamento e a verdade a partir da ausculta, da visão e da vivência, da experiência. A de-cisão pela filosofia foi uma de-cisão contra o pensamento, embora o filosofar não tenha abandonado de todo o pensar, optando pelo caminho da metafísica. O pensamento originário apenas se recolhe, nas sombras da vigência da conjuntura da metafísica.
Pensar originário é recolhimento, é colheita, é pensamento que conserva o brilho originário das coisas, que permanece, embora mudo, como fundo e moldura da atual conjuntura, como potência latente que se encobre e recobre. O descobrir da ciência encobre a essência vigorante no pensamento originário.
O que nos chega dos pensadores originários, em fragmentos, frases e palavras, nos chega como mensagem cifrada, como linguagem cujo sentido se retraiu, como sentença oracular, que, no entanto, não perdeu o seu vigor. Essa linguagem fala do mistério de modo essencial, como Logos, Physis, Aletheia, fala pelas palavras fundamentais que tudo recolhem e a tudo se dirige, que tudo cobre e ilumina, e nunca se deita. Tais palavras não são mera expressão do arbítrio do homem, mas falam do que é duradouro, do que é vigência, do que é eterno. Falam da eternidade do homem e dos deuses, do céu e da terra. Essa fala adquire sentido como apelo ao homem. Esse homem, no entanto, não é o autor desse pensar. Essa fala é a fala do Logos, que atravessa o homem e o envolve. É também fala do recolhimento, do retraimento de um modo de vigência que já vigorou e hoje se recolhe, embora continue a perdurar em seu modo de realizar-se. A mensagem cifrada dos primeiros pensadores vem como manifestação do Logos, no encontro do pensador com a Linguagem, através da abertura ao dizer essencial.
A mensagem do Logos, as palavras fundamentais dos pensadores, não se dá a compreender de forma imediata, numa tradução literal. O pensador que se põe a caminho do pensamento, carece de um esforço hermenêutico de inter-pretação, que é, em si, um pensar de um encontro que se dá no “entre”, nos dês-velamentos e desdobramentos de cada palavra em seus múltiplos sentidos, num modo de caminhar rigoroso, tentando tocar o pensamento que não tem leis, mas segue o modo de ser essencial, o ordenamento cósmico, no movimento Universo da totalidade. Esse “entre” se dá num ir e vir, de aproximação e distanciamento, requer um tempo de espera, um exercício de reflexão que só vem no demorar-se junto às coisas, com atenção que acompanha o ciclo de plantil e colheita, que cultiva e resguarda. Esse pensar é um pensar paciente, que acompanha o encobrir e o descobrir, o velar e o desvelar, o movimento que traz e afasta, que busca o igual no diverso.
Heidegger nos convida a refletir sobre o vigor desse pensamento que é Linguagem, e que traz em si uma atualidade que nos dá sinais de nosso caminho historial, marcado pelo esquecimento. Esquecimento do que há de essencial na relação do homem no mundo, em sua morada, em seu modo de ser que constrói e habita poeticamente. O que nos chega do pensamento originário, como mensagem, no mistério que nos faz estranhamento, e na distância do tempo, nos remete ao próximo e familiar, apontando para um vigor do que ainda vigora, mas que não nos damos conta, por estarmos dispersos, imersos numa conjuntura que nos chama para o imediato e para o útil, que busca o asseguramento da verdade enquanto certeza, sustenta na técnica, no método, na razão analítica que tudo separa.
O pensamento originário pensa o céu, a lua e as estrelas num mesmo firmamento, no vigor que perduram a muito mais de dois mil e quinhentos anos, mantendo o enquadre de nossa existência na Terra. O pensamento originário fala do ciclo da vida, do nascimento à da morte, ciclo que continua a vigorar no homem, nos animais, nas plantas e em tudo o que é vivo – Physis. O pensamento originário fala das sucessões das estações, do plantil e da colheita, do tempo de semear e do tempo da espera, que até hoje segue seu caminho na mão do camponês. O pensamento originário nos diz da vida vivida em sua vitalidade, nos fala da mortalidade dos mortais, da divindade dos deuses, da temporalidade do tempo, que envolve a apropriação do acontecimento em seu acontecer, do som dos sinos, que marca a permanência e a impermanência.
No resguardo que traz o sentido originário do Logos, a verdade do pensamento é verdade como Alétheia, como velamento e desvelamento que se enuncia no que se dá. Esse pensar integra, em sua verdade, o ser do homem no mundo, compreendendo-o em seu habitar sobre a terra, como parte conectada com o todo, em conexão intima com o sagrado, com a terra e o céu, na quadratura que só vigora na presença dos quatro elementos. Esse homem, no vigor do pensamento originário, é homologein, está em consonância com a verdade do logos, é receptáculo da mensagem e sinal que aponta o sentido do pensar as coisas em seu vigor de manifestação. O homem como sinal é, se move no movimento do velar e desvelar, quando se abre ou se fecha para o ver e ouvir a voz do Logos. O homem, em seu caminhar, está sempre a caminho. Vigora em seu movimento, envolve a terra com o olhar e por ela é envolvido. Imerso na metafísica, no entanto, tem seus olhos e ouvidos turvos pelo barulho e pela fumaça dos conceitos e das certezas, pelas máquinas que medem e consomem a terra, construindo paisagens artificiais.
Heidegger nos aponta para o esquecimento do ser e desse modo originário de ser do homem, em correspondência com o Logos. O que nos chega hoje com estranhamento, dos fragmentos do pensamento originário, nos chega a partir de nosso modo de ver as coisas a partir de esquemas, dentro do modo de pensar da metafísica, que não pensa a unidade e o pertencimento, mas a dicotomia e a diferença que nos separa do mundo e das coisas, que nos apreende em conceitos e categorias. Esse modo de pensar congela e retrai o vigor e o brilho do pensamento originário, que nos fala através de palavras fundamentais, que longe de se configurarem como definições e conceitos, são aberturas para o pensar que pensar em conjunto, em conexão, que agrega e congrega, que fala da comunidade do homem com a terra, os astros e as divindades. Cada palavra fundamental traz conexões que dizem da essência do ser. Esquecidos desse modo de pensar, essas palavras, frases e fragmentos, nos chegam na obscuridade do que, sendo brilho luminoso, se retraiu, na cegueira de nosso tempo, que não vislumbra o extraordinário no ordinário, que sempre anseia pelo novo, para o interessante que é descartável, que não perdura, que é fugidio.
O mundo da técnica segue o ritmo dos relógios, das auto-estradas, da moda, do efêmero. Seu ritmo faz do homem um coração-máquina, que pulsa sob o ritmo da racionalidade mecânica, que tudo enquadra na conjuntura de um modo de compreender as coisas através de conexões causais lineares. O mundo da técnica converte o homem em um autômato, que não pensa, calcula, que não sonha, esquematiza, que não sente a vida em sua vitalidade e mistério, mergulhando no tédio do previsível.
O pensamento dos primeiros pensadores, nos faz pensar nossa própria conjuntura e o modo de ser do homem atual que vive o mundo na era da técnica. Pensar com os pensadores originários é entrar em diálogo com um modo de pensar que nos dá a pensar, embora esse pensar se manifeste como uma questão em si mesma. Pensar o pensamento nos mostra o caminho de nossa história enquanto civilização, chegando até o modo de ser do homem atual que ainda não pensa. O modo de ser do homem atual, regido pela vigência da metafísica, da técnica, não pensa o pensamento. O homem desaprendeu a pensar, por ter abortado o pensamento em seu princípio, por ter se esquecido dos princípios do pensamento originário, que se dá na escuta e correspondência com o Logos, na proximidade com as coisas, na atitude de interesse que reúne e acolhe o vigente em sua vigencia.
Educado numa forma de relação marcada pela distância das coisas, num modo de pensar que pensa através de dicotomias, que separado o homem do mundo, colocando-o como sujeito diante de um mundo objetivado, convertido em objeto, a fim de dele se apoderar, controlar e destruir, o homem não pensa. Sua relação não é mais a de correspondência, mas de diferenciação que busca se afastar da Terra, reduzindo-a a matéria-prima, substrato sobre a qual exerce controle e busca assegurar e assenhorar-se. Esse modo de pensar se dirige para o controle, para a exploração, para a transformação predatória do mundo, visando retirar o máximo de seu potencial, que visa acumular excedente, e nesse sentido é um pensar que não pensa, que se volta para a repetição e reprodução compulsiva. Nesse modo de vigorar, o homem moderno não se move pela necessidade, mas pelo excesso, pelo acúmulo, pela desmesura, na hybris. O que antes era visto pelo homem grego como algo a se pensar e cultivar, a justa medida, a constância, tendo como medida a sua relação com céu, terra e imortais, hoje encontra-se eclipsado pela cegueira do homem que vê a si como medida das coisas e perde a noção de seus limites. Esse modo de ser fala do vigorar de nosso tempo atual, e aponta para o destino do homem.
Esse homem que tudo quer e controla, que segue segundo uma racionalidade objetivante, na ânsia de asseguramente, perde o enquadre de sua própria identidade. Submete a si mesmo, ao próprio homem à medida da obsjetividade objetivadora, perdendo o próprio movimento de vir a ser, negando sua mortalidade, tentando se eternizar em suas realizações. Busca a imortalidade dos deuses, não vive a vida com vitalidade. O homem se vê escravo de sua própria racionalidade, alheio a si e ao mundo que constrói, convertido em mais um objeto. O pensamento originário, ao pensar de modo integrador, resguarda o lugar do homem, como parte do todo e como totalidade. Resguarda a humanidade do homem ao resguardar a vigência de cada vigente e sua identidade na diferença. Resguarda a incerteza, e com ela a liberdade de toda possibilidade.
É importante compreender que a atual conjuntura, regida pela técnica e pela ciência, regida pela tradição metafísica, não anula a dimensão originária do pensamento dos primeiros pensadores. Ambos coexistem em um processo de velamento-desvelamento, de encobrimento que descobre, de descobrimento que enconbre. Nesse movimento, o pensamento originário se faz presente enquanto mensagem e abertura para o emergir do um modo essencial de pensar o ser no mundo. Ao se por a caminho do o pensamento originário, hoje, no vigor da era da técnica, é possível resgatar, senão o sentido original da mensagem, ao menos um modo que nos faz pensar o ontem, o hoje e o amanhã. Olhando para a tradição e para o destino do homem desde os gregos, partindo de um vigorar mais próximo do vigor essencial, podemos intuir nossa própria época e nosso destino. Vislumbrando o destino de tempo, do vigor da metafísica e da técnica, podemos, nos pondo a caminho do pensamento, desvelar outras possibilidades de ser homem no mundo. Partindo do desvelamento do velado, podemos zelar pelo que perdura, acolher o que se oferece, e cuidar.
Ao olhar e ouvir o vigor do pensamento dos gregos, auscultando a mensagem do Logos, podemos nos encontrar no Universal. Esse encontro pode nos ajudar a pensar nossa época e nosso ser, despertando para o estranhamento do que nos parece banal e cotiadiano, nos levando a pensar o momento atual e visar uma nova compreensão do homem e do mundo, a partir de uma perspectiva que resguarda a identidade na diferença. É a tensão hermenêutica que torna possível ver a atualidade do pensamento originário, em seu vigor, ainda vigorando, e que nos conecta, em nosso modo de vigência atual, à tradição. Assim, o que estava esquecido e encoberto, posto a margem da história, nos escritos dos primeiros pensandores, que nos chegam como mensagem oracular, nos pode falar com intimidade, por des-velar nosso destino, nos reconectando ao tempo e à história, que não é constituída apenas por fatos, mas pelo destino de um pensamento des-encobridor.
No pôr-se a caminho do pensamento, sem leis e sem objetivos traçados a priori, nos abrimos para o caminho do essencial que nos envolve e nos direciona o destino. Heidegger nos fala do caminho do campo que se abre em trilhas pela mata. Seu pensar a partir do pensamento do pensadores originários já é, em si mesmo, um caminho a se pensar, um caminho de pensamento. O pensamento como esse, é caminho que se dá envolvido pelo vigor do Logos, da unidade do tudo, atento, paciente, silencioso. Nos caminhos desse pensar, é possível encontrar o homem que somos, e pensar caminho, sendo nós mesmos um caminho e um destino a se realizar. Esse caminho do pensamento é um destinar-se, e se abre no exercício cotidiano do pensamento, no voltar-se para as coisas com atenção, deixando que elas vigorem em seu acontecer, permitindo que a vida seja acontecimento no experienciar. É caminhar deixando o caminho se fazer no caminhar.
Voltando-se ao pensamento originário, é possível olhar com maior lucidez para o momento presente, para nossa época, para o modo de viver do homem, para nossa conexão com o mundo. Nessa lucidez, podemos perder as esperanças ao nos defrontarmos com uma história da humanidade que aparentemente se deu na desconexão do homem com o mundo, num movimento de destruição e reificação de tudo e todos. É possível, no entanto, compreender que esse destino foi o caminho possível que se realizou, nas realizações do homem em sua forma de relacionar-se com o mundo, na sua forma possível de correspondência com seu destino.
Diante da luz da lua, em sua luminescência, o homem se pôs a desejar as alturas, a ansiar por outros mundos, projetou-se para fora de si, cobrindo o real com seus projetos, realizando seu salto no espaço. Contemplando uma paisagem, pôde planejar e construir cidades, utilizando-se da ciência, dos cálculos, das medidas, construindo o modo de viver em comunidade, criando cultura, transmitindo a tradição e transformando a physis através da técnica. Esse servir-se da terra, em seu modo de vigorar, foi um cultivo, uma construção, uma criação, um habitar. Através da metafísica o homem pode sair de si e projetar-se, imortalizar-se em suas obras. Através dos instrumentos da técnica o homem construiu seus projetos e realizou-se nas obras. Com o pensamento, o homem traça os caminhos do destinar-se, integrando céu e terra, mortais e imortais, passado-presente-futuro. A metafísica, a técnica e o pensamento não são, em si, deliberação do homem, mas destino da humanidade e o pensamento originário traz o gérmen desse destino, seja como mensagem orácular, seja presságio, seja como apercepção do óbvio que ninguém se põe a observar.
Heidegger, ao pensar o pensamento originário, a tradição e a modernidade, integra, em seu caminhar que reflete, um olhar e uma escuta conectando esses três elementos como destino da humanidade. Humanidade pensada de forma essencial, vige no não pensar, embora atravessada pelo ser-sendo em sua vigência. A História da humanidade traz a história do esquecimento da questão do ser, mas o ser continua a se dar nas realizações, no acontecer, que segue seu caminho mesmo na cegueira, nas sombras, no encobrimento. Heidegger põe o esquecimento do ser como questão, que é a própria questão do ser do homem, um ser-sendo que se realiza nas realizações, no trabalho, no construir e habitar, como ente entre os entes, como ser a caminho. Sua posição como pensador que pensa a essência é a de um pensamento que integra presente-passado-futuro, o homem atual e o homem grego, no que lhes há de comum – o destino do ser da humanidade. Heidegger se mantem fiel à questão do ser, desdobrando seu pensamento em suas múltiplas possibilidades de compreensão, abrindo trilhas que se interconectam, não sendo possível dissociar um texto do outro, o que permite ao leitor adentrar cada vez mais no caminho de seu pensar, que tende à abertura e à ampliação da clareira do pensamento.
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