O Enamoramento pelo analista
O ENAMORAMENTO PELO ANALISTA:
Considerações freudianas sobre os dilemas vividos pelo jovem analista diante de uma paciente histérica apaixonada, …e algumas considerações pessoais.
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Em seu texto Observações sobre o amor transferencial, de 1915, Freud dirigi-se ao jovem analista, buscando esclarecer pontos da teoria psicanalítica no que diz respeito da ética profissional do analista, ao fenômeno do amor de transferência e a suas formas de manejá-lo, em especial no caso das mulheres histéricas. Trata-se de um artigo escrito já tendo a psicanálise mais de 20 anos de existência, que traz elementos técnicos importantes, advindos da experiência de Freud no tratamento das histéricas, e nas trocas estabelecidas com outros analistas que se deparavam com esses fenômenos nas análises por eles empreendidas.
Inicialmente, Freud contrapõe as dificuldades de um analista iniciante em interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimito, à dificuldade no manejo da transferência, em especial quando a paciente se enamora pelo analista, considerando esse último fenômeno de maior relevância. Freud salienta que o amor de transferência traz situações que apresentam aspectos aflitivos, cômicos e sérios, determinados por fatores inúmeros e complicados, às vezes de difícil esclarecimento, mas que demandam maiores esclarecimentos relativos às questões da técnica psicanalítica.
Um dos pontos ressaltados por Freud desde o início do artigo é a exigência social da discrição profissional, que considera, no entanto, inútil na psicanálise, tendo em vista a circulação livre das publicações psicanalíticas na Viena do início do século XX. Essa afirmação pode ser melhor compreendida se considerarmos que a maior parte dos que se valiam da análise eram membros da elite vienense, e de, apesar de ser uma metrópole, tinha ainda uma vida social que poderia ser vista como provinciana.
Freud salienta que a situação transferencial retardou o desenvolvimento da terapia psicanalítica durante sua primeira década, se referindo provavelmente a situações de transferência amorosa do caso Ana O. de Breuer, ou da transferência que levou ao abandono de sua paciente Dora, que posteriormente ele viria a considerar, em notas de rodapé, como decorrente da resistência à análise, não tendo ele manejado adequadamente a transferência.
Levantando o tema do amor, Freud traz que, para um leigo instruído, os comportamentos relacionados ao amor seriam entendidas como “incomensuráveis”, tratando-se de uma situação atípica, que não seria tolerada se não no contexto do apaixonamento. Afirma que para esse mesmo leigo, o enamoramento de uma paciente pelo médico (analista) pareceria ter apenas dois desfechos: o casamento ou a separação, com o abandono do trabalho. Aponta também para um terceiro desfecho que talvez favorecesse a continuação do tratamento, que seria o de iniciar um relacionamento amoroso ilícito, sabendo-se que não teria longa duração. Esse terceiro caminho, no entanto, encontraria como obstáculo a “moralidade convencional e os padrões profissionais” da época.
Freud afirma que, abandonando o tratamento com o terapeuta, em função do enamoramento da paciente por ele, esta seria obrigada a retomar o tratamento com outro analista, repetindo-se novamente o apaixonamento pelo analista, criando assim uma cadeia interminável de rupturas e recomeços. A compreensão desse fenômeno faria parte dos fundamentos da teoria psicanalítica, devendo este ser considerado sob dois pontos de vista: o do analista e o do cliente.
Para o analista, a compreensão do amor de transferência ajudaria a evitar a contratransferência, que pode acontecer no analista, devendo ele ter a lucidez de que o amor se trata de algo que não deriva de seus encantos pessoais, mas sim da própria situação analítica.
Para a paciente, haveria duas alternativas: abandonar o tratamento psicanalítico ou aceitar o inevitável enamoramento pelo analista. Diante desse impasse, paciente e familiares optariam pelo abandono da análise, mas Freud enfatiza que o analista deve sustentar a permanência da paciente em análise, não devendo permitir que a decisão fique aos cuidados dos parentes, considerando que apenas o bem estar da paciente deveria ser a pedra de toque dessa decisão. Tal posição se justificaria pelo fato de que a interrupção do tratamento manteria a neurose e impediria o desenvolvimento de outras formas de amar mais funcionais.
Freud considera um equívoco a mudança na forma de tratamento para uma outra não-analítica, considerando que isso não evitaria o enamoramento da paciente pelo médico. A insistência na análise e a compreensão desse amor de transferência no próprio contexto analítico é que favoreceria o reestabelecimento da paciente.
Freud critica também a postura de certos analistas que antecipariam as pacientes sobre o possível surgimento da transferência erótica ou que as insistam a ir em frente no enamorar-se pelo analista, tendo em vista o prosseguimento da análise, considerando tal procedimento insensato por retirar-lhe o elemento da espontaneidade, criando para si obstáculos futuros.
Quando Freud refere-se a esses “obstáculos futuros” não deixa claro seu sentido, se ligado estritamente ao manejo técnico da transferência ou se indicando riscos para a imagem pública do analista no que diz respeito à sua conduta ética, que poderia denegrir a sua imagem perante a sociedade.
Freud aponta para o fato de que o enamoramento na transferência não pareceria ser, num primeiro momento, algo que pudesse ser vantajoso para o tratamento, pois faria com que a paciente perdesse a compreensão e o interesse pelo tratamento, deslocando o foco para a questão do amor, abandonando os sintomas ou não dando atenção a eles, declarando-se curada. Freud afirma que com o amor haveria uma interrupção do “fingimento histérico”, para a irrupção da realidade. Tal remissão dos sintomas poderia levar um analista inexperiente a perder o controle sob a situação do tratamento analítico.
Segundo Freud, a emergência do amor de transferência seria uma forma de expressão da resistência, por interferir na continuidade do tratamento. Uma paciente que faz uma transferência afetuosa com o analista, e que num primeiro momento mostrava-se dócil, aceitando as explicações analíticas e manifestando compreensão e inteligência elevados, com o apaixonamento, perde inteiramente a capacidade de ter insights, estando completamente absorvida pelo amor. Esta resistência estaria ligada também ao momento em que o analista estaria tentando leva-la a admitir ou recordar algum fragmento aflitivo e reprimido de sua história. O amor pelo terapeuta antes latente, se manifestaria para sabotar o tratamento.
(É interessante salientar que nesse momento da teoria psicanalítica desenvolvida por Freud, a postura adotada pelo analista era iminentemente interpretativa – como ele mesmo enuncia no início do artigo, ao referir-se “dificuldades de um analista iniciante em interpretar as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimito” -, adotando ma com a atuação ativa do analista buscando trazer significados às fantasias e processos inconscientes das pacientes. Esse próprio processo de interpretação pelo analista, em si, poderia já fazer emergir o processo da resistência, quando não levasse em consideração a realidade tal como significada pelo próprio sujeito.)
Freud associa o amor de transferência a diversos fatores, sendo alguns associados ao próprio enamoramento e à resistência. O primeiro seria o esforço da paciente em provar sua irresistibilidade, buscando destruir a autoridade do analista, rebaixando-o ao nível de amante. Referente à resistência, seria a tentativa de colocar à prova a severidade do analista, de modo a faze-lo demonstrar sinais de complacência e ser repreendido por ela. Ainda sobre a resistência, Freud afirma que ela agiria como uma agente provocador , que intensificaria i estado de apaixonamento, com exagero nas manifestações sexuais da paciente, apontando para os perigos da “licenciosidade”. Freud afirma que esses motivos não são presentes em todos os casos, mas que foram registrados por Adler.
Diante dessa fenomenologia do amor de transferência, Freud levanta possíveis formas de manejo. Ele rejeita a adoção de uma postura moralista de rejeitar os afetos da paciente ou de exigir que esta se comporte segundo a moralidade social, renunciando aos desejos e dominando os instintos. Nesse ponto do artigo ele afirma recomendações são de base técnica, não dirigidas às pacientes, mas para os médicos que não sabem lidar com a situação do amor de transferência.
Ele afirma que o analista não deve instigar a paciente a suprimir a pulsão no momento em que ela emerge e admite a transferência erótica, pois isso seria o mesmo que mandar de volta às profundezas o que se buscou trazer do inconsciente, reprimindo novamente o reprimido. Afirma que diante disso, a paciente sentiria uma grande humilhação e o afeto se converteria em desejo de vingar-se.
Freud também não concorda com um caminho intermediário de retribuir os sentimentos amorosos pela paciente, sem qualquer complementação física de afeição, afirmando que o tratamento analítico baseia-se na sinceridade, de modo que discorda do uso de mentiras ou fingimentos. Considera que se exigimos sinceridade dos pacientes, não dizer a verdade seria por em risco a autoridade do analista. Afirma também sobre risco de deixar-se levar por sentimentos ternos pelas paciente, aconselhando que não se abandone a neutralidade com o paciente, adquirida com o controle da contratransferência.
Freud reafirma, então, que a técnica do analista recomenda ao analista a negação, à paciente, da satisfação do amor que ela lhe exige, devendo o tratamento analítico ser conduzido em abstinência. Assim, o manejo do amor de transferência seria o de manter a necessidade e anseio da paciente a fim de alimentar as forças de mudança, apaziguando as forças do amor por meio de substitutos, tendo em vista a sua incapacidade de alcançar a satisfação real.
Freud também pondera sobre a impossibilidade de se sustentar uma relação analítica em completa abstinência, refletindo sobre o que aconteceria se retribuísse o amor da paciente e acalmasse sua necessidade de afeição. Afirma tratar-se tal atitude de uma crença de que alimentar o amor transferencial aumenta o domínio sobre a paciente, influenciando-a a realizar tarefas exigidas e liberando-a da neurose. Sustentando essa crença, o analista teria fracassado e a paciente teria alcançado seu objetivo, posto que a retribuição do amor pelo analista significaria a derrota para o tratamento, posto que o que se realizaria seria o acting out, a atuação, a repetição do material psíquico, a expressão de inibições e reações patológicas da vida erótica da paciente.
A relação amorosa entre analista e paciente destruiria a susceptibilidade da paciente à influencia do tratamento analítico, restando-lhe apenas o remorso, sendo fortalecido o processo da repressão. O manejo adequado seria o de não aceitar e não suprimir o anseio da paciente por amor, tomando cuidado para não se afastar do amor transferencial, repelindo-o ou criando na paciente um sentimento de desagrado, porém mantendo a postura de recusa a qualquer forma de retribuição. Assim, o analista deveria manter o domínio do amor transferencial, tratando-o, no entanto, como irreal.
Essa situação deveria ser atravessada no tratamento, buscando-se remontar às origens inconscientes, visando ajudar a trazer o conteúdo oculto na vida erótica da paciente. Essa paciente, cuja repressão sexual não foi removida, se permitiria a vivenciar o amor, as fantasias e desejos sexuais a partir de sua emergência na relação terapêutica, abrindo o caminho para as raízes infantis do seu amor.
Haveria no entanto, aquelas pacientes, que ele descreve como “uma mulher desesperada” que não aceitaria a vivência psíquica no lugar do material, da concretização do amor com o terapeuta, convertendo o amor em inimizado por ele. Nessa situação, segundo Freud, não há como salvaguardar os interesses do tratamento, e a alternativa é abandonar o tratamento, cabendo ao analista refletir sobre a ligação entre a neurose e o amor.
Contrapondo-se à crença do analista jovem no amor genuíno e de que a mulher enamorada por ele se tornaria dócil e entraria na conclusão do tratamento, preparando-se para a vida real, dirigindo para um lugar adequado o sentimento de amor, Freud contrapõe o espírito teimoso e rebelde da mulher histérica, que abandonaria seu interesse pelo tratamento e perderia o respeito pelo analista, o que evidencia a dimensão da resistência disfarçada pelo enamoramento. Diante da recusa do amor pelo analista, essa mulher encarnaria o papel da mulher desesperada e se afastaria dos esforços terapêuticos por vingança e ressentimento.
Outro argumento trazido por Freud contrário à idéia do amor genuíno, é a de que o amor transferencial não se origina de uma situação nova e atual, mas é constituído de repetições e cópias de reações anteriores, infantis, que emergem a partir de análise detalhada do comportamento amoroso da paciente. Havendo a possibilidade de dar continuidade ao trabalho analítico, seria possível desvendar a escolha objetal infantil da paciente e as fantasias a ela ligadas.
Examinando os argumentos por ele mesmo levantados, Freud pondera sobre a veracidade ou não do enamoramento no tratamento analítico, e se ao apresentar a questão à paciente, não se estaria jogando com ocultamentos e distorções do fenômeno. Freud afirma que o analista diz a verdade à paciente, porém não totalmente, por considerar inquestionável o papel desempenhado pela resistência sob o processo, embora pondere que a resistência em si não é a causa do amor, mas se utiliza dele agravando suas manifestações.
Freud associa as causas do amor transferencial às adições de antigas características e repetições de reações infantis, sendo esse estado amoroso reprodução de protótipos da infância, por seu caráter compulsivo que beira ao patológico. Essa dependência do padrão infantil torna o amor menos adaptável e capaz de modificação, sendo por isso o amor transferencial menos livre que o amor comum.
Freud questiona o critério de genuinidade do amor, considerando o amor de transferência como um amor genuíno, pois não ficaria devendo em nada aos outros tipos de amor, no que diz respeito ao objetivo de alcançar seu objeto de satisfação. O enamoramento, em si, na vida comum, Freud associa mais ais fenômenos mentais anormais que aos normais. O que distinguiria o amor transferencial do amor comum seria apenas o fato de ser provocado pela situação analítica, de ser intensificado pela resistência, e pela falta de consideração com a realidade, pela insensatez, inconseqüência e por haver mais ego em sua avaliação da pessoa amada, e conclui que é justamente o afastamento da norma o que caracteriza o enamoramento.
Retomando o papel do analista, Freud afirma que o analista evoca o amor a fim de instituir o tratamento para curar a neurose, mas com isso não deve tirar nenhuma vantagem pessoal disso. A paciente não teria se preparado com nenhum outro mecanismo de cura, tendo apenas a fantasia antecipatória de que, se se comportasse bem, seria recompensada com a afeição do analista.
Freud enfatiza a associação entre motivos éticos e técnicos que barram o amor do analista à paciente, apontando para o risco de perder de vista o processo terapêutico, o que não significa dizer que para o analista seja fácil permanecer dentro dos limites estabelecidos pela técnica.
Sobre o amor sexual, Freud afirma tratar-se de uma das principais coisas da vida, e que só a ciência não admiti sua importância, por considerar-se refinada demais. Nesse ponto Freud inicia uma crítica à ciência, em seu paradigma médico biologicista, que desconsidera a influencia da dimensão sexual sobre o psíquico, e critica a psicanálise.
Ele afirma a dificuldade de um analista rejeitar e recusar o amor de uma mulher de princípios elevados, constituindo-se uma verdadeira tentação para o analista, porém afirma ser impossível ao analista ceder, posto que sua tarefa é de ajudar a paciente a passar por esse estágio de sua vida, superar o princípio de prazer e voltar-se para a realidade, adquirindo a liberdade de discernimento entre a atividade mental consciente da inconsciente.
Assim, caberia ao analista enfrentar uma tripla batalha: enfrentar as forças da resistência que procuram arrastá-lo para abaixo do nível analítico; opor-se aos cientistas que são constrários ao uso das forças pulsionais na técnica psicanalítica e ir de encontro às pacientes, que valorizam a vida sexual em sua materialização.
Freud finaliza o artigo lançando uma crítica aos leigos e aos cientistas contrários à psicanálise, que consideram o amor de transferência como um risco da técnica psicanalítica. Freud afirma que o analista trabalha com formas altamente explosivas, a pulsão. Considerando a psicanálise uma atividade médica que deve buscar para si a liberdade de atuação. Ele critica o uso de remédios inócuos, que subestimam os distúrbios quanto à origem e importância prática, limitando os tratamentos ao uso de remédios. Considerando que a psicanálise exercida com força, não temeria em manejar os impulsos mentais, buscando estabelecer sobre eles o domínio, em benefício do paciente.
…
Aqui finalizo as considerações sobre o texto freudiano.
…
Aqui começo minhas extrapolações:
Tomando o artigo Observações sobre o amor transferencial em perspectiva, é possível compreender sua importância técnica tanto para a psicanálise quanto para outras abordagens psicoterapêuticas, tendo em vista que o fenômeno da transferência faz-se presente em toda psicoterapia, seja como atualização de fantasias infantis, seja nas projeções e expectativas sobre o terapeuta. É importante, no entanto, sempre levar em consideração o contexto sócio-histórico-cultural no qual a psicanálise emergiu, o modo de vida da mulher vienense, a predominância, na clínica freudiana, de casos de histeria e os fracassos do próprio Freud no manejo de seus casos clínicos. O texto freudiano mostra uma preocupação grande em orientar o analista a “manter sob controle” a condução da análise, seja por sua postura interpretativa, seja por sua crença, que traz consigo uma fantasia de onipotência, de que seria o analista aquele que poderia curar a paciente de sua neurose.
Atualmente, dentro e fora da psicanálise, se valoriza a verdade do sujeito, sua significação dos fenômenos e construção de sentido de suas experiências. O analista deixa de ocupar um lugar ativo interpretativo, e ocupa a posição de escuta paciente, aberta e atenta. As histéricas de ontem, surgem hoje com outros sintomas, embora o amor continue a emergir, seja com conteúdos eróticos, seja na forma de admiração, seja por carência, diante da ausência de amor em outros contextos de sua vida. Nesses casos, a função de suplência, de encontrar substitutos desse amor, continua sendo o caminho, para que o amor restrito ao setting terapêutico, possa ser vivido na vida cotidiana.
As pontuações éticas trazidas por Freud sobre o manejo do amor de transferência permanecem vivas e são valiosas. Ele problematiza a questão da concretização do ato sexual entre analista e paciente, mas podemos transpor e expandir essa preocupação ética, tendo em vista outras formas de exploração possíveis de serem empreendidas sob uma pessoa carente e demandante de amor. Assim, não basta a ética exigida pela técnica, mas é de importância maior que o analista preste atenção a suas próprias demandas de afeto, de reconhecimento, suas necessidades ou caprichos narcísicos, para que os clientes não sejam meros objetos de satisfação de suas fantasias de onipotência.
A contratranferência – que Freud o tempo inteiro aponta como algo que deve ser evitado, utilizando-se do recurso da neutralidade analítica – pode ser um recurso, e não apenas um obstáculo no processo analítico. Da mesma forma que o amor de transferência, a contratransferência não surge da pura e simplesmente resistência, ou por ela é justificada. Transferência e contratransferência são fenômenos que se dão na relação terapêutica, das projeções e pré-julgamentos, que às vezes podem ser mascarados por racionalizações, ou podem ser enclausuradores dos sujeitos, reduzindo-o à condição de objeto. Podem ter bases em fantasias infantis, mas também tem elementos do encontro real e atual entre pessoas. Ao analista talvez seja preciso a humildade de ver-se realmente como apenas “suposto saber”, como um “douto saber”, que nada sabe, no entanto, do outro, que vem ao consultório revelar-se.
Quando Freud escreveu esse artigo, ele buscava afirmar a psicanálise dentre as práticas médicas e científicas, pleiteando a independência de objeto, autonomia e eficácia técnica. Hoje, a psicanálise se expandiu por todo o mundo, já não é mais uma, mas múltiplas, e divide o espaço das práticas psicoterapêuticas com centenas de outras abordagens, derivadas ou divergentes dela. Já não tem mais o lugar de uma macroteoria, embora, ainda viva seu status, misturando-se com os múltiplos discursos da cultura. Permanece, no entanto, sempre precisando ser atualizada e refletida em seu saber, e para isso precisa estar sensível ao do seu tempo, para integrar e integrar-se, dialogar com outras abordagens e outras ciências, para não se perder no dogmatismo que o próprio Freud criticava, ao defrontar-se com a ciência de sua época.
Olhando do fora, como um “não” aspirante a psicanalista, sinto uma relação ambígua e ambivalente em relação à psicanálise, sem saber definir ao certo o que me fascina e o que me causa aversão. No entanto, a lucidez de Freud em seu exercício cientifico de reflexão e busca por um rigor técnico é sem duvida algo digno de admiração.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Freud, Sigmund (1915). Observações sobre o amor transferencial (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III) . In: Freud, Sigmund. Edição eletrônica das Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
Sou estudante de psicologia , estou passando por isso tudo , na vida real , estudando e passando por analise , muito boa a sua postagem
abraço
Isso faz parte do processo, Luciana. A transferencia, as projeções e introjeções, as identificações, o amor… É saber, com o tempo, filtrar com senso crítico tudo isso e ver o que é real e o que é fantasia. Não sei se é esse o manejo da psicanálise, mas é o manejo que adoto na minha vida como terapeuta e estudante.