Qual é o momento para se começar a terapia?*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

É curioso. Todos os gestaltistas que ouvi defendem a terapia para terapeutas. Os psicanalistas também. Eu acho importante. Fundamental. Mas sempre me pergunto: Qual é o momento para se começar a terapia?

Penso algumas outras coisas também:

- A função da terapia é fazer com que a pessoa possa lidar de forma mais autônoma com sua própria vida. Quem já faz isso, precisa de terapia?

- A terapia é indicada pra quem sobre de angústias – o “sofrimento psíquico” dos psicanalistas. As angústias existenciais, no entanto, não serão dissolvidas na terapia. Aprendemos nela a lidar melhor com as angustias, e saber nos posicionar de forma ativa, ou da melhor maneira possível, diante delas.

- A terapia deve ser um lugar de acolhimento, em que a pessoa se sinta a vontade para se abrir no encontro com o outro. É um chamado para um encontro. E se a pessoa não se sentir assim, confortável? Lidar com o desconforto, trabalhar esse desconforto, se torna tema. Isso pode servir para expandir a percepção do cliente para outros momentos em que se depara com desconfortos, mas pode também virar uma tática de convencimento do terapeuta da importância de se fazer terapia. Às vezes essa figura pode ser artificial, produto do próprio contexto artificial da terapia. Talvez seja preciso se pensar se aquele é o momento certo.

- “A psicoterapia se alimenta dos psicólogos, autofagicamente”. (Isso foi uma sacada que me foi mostrada por dois professores meus). Psicoterapeutas TÊM DE passar por psicoterapia. Um imperativo da profissão. Nisso vejo alguns lados da moeda, polaridades:

1) Experimentar a posição de cliente para poder compreender melhor esse lugar, e saber lidar com as angústia daquele que, no futuro, virá te procurar – eu gosto e concordo com esse argumento;

2) Um caminho complementar para o aprendizado do modo de ser terapeuta – concordo parcialmente com esse aspecto, pois é possível que aprendamos e reproduzamos alguns “maus hábitos”, por pura reprodução, quando não se tem senso crítico, impedindo a emergência de um estilo próprio – defendido tanto pela Laura Perls;

3) Uma forma de se preservar a prática da clínica indiviual, por questão de mercado e campo de atuação profissional, para que todos tenha a possibilidade de exercer a clínica – descordo completamente, vendo nisso uma posição mesquinha e anti-ética.

Minha crítica é em parte resistência (por que não? também sou humano e filho de Deus. Terapia é cara pra chuchu e nem sempre é possível escolher o terapeuta com quem se acha mais confortável em função disso) e luta pela minha liberdade de escolha (meu eu sartreano se revoltando!).

Sei que essas observações parecem “racionalizações” minhas. Mas também são meus insights e reflexões críticas sobre a questão. Não consigo aceitar passivamente um imperativo que remete aos tempos de Freud. Acredito veementemente em outras formas, talvez até mais criativas, de estar consigo mesmo, ampliar a awarness, posicionar-se sobre o mundo e ir em busca de saúde.

A poesia, a música, a arte, a natureza, amigos, namoro, amar, fazer sexo… Todos são ou podem ser extremamente terapêuticos. A psicoterapia não é a única, nem a melhor. É algo que nem medicina halopática e homeopática, acumpuntura, massagens curativas, rituais xamânicos, candomblé, etc etc. Existe a técnica, existe o saber teórico por traz da técnica, mas os resultados são alcançados diferentemente para cada um, em seu processo individual, segundo os significados e crenças que cada um traz em sua vida. É isso!

Defendo a psicoterapia. Escolhi AGORA, começar uma. Já tinha me dado conta antes, em alguns momentos de sua necessidade, mas não serei escravo dela. Preso por minha liberdade, até mesmo pela liberdade de escolher estar preso, imobilizado, em minhas angústias. Só assim creio que poderei de fato aprender a dar meus passos e escolher meus caminhos, ou abrir outros no meio da mata cerrada.

Não sei… Me tornei indisciplinado e questionador. Não sei se isso é bom ou ruim.

Se um dia eu vier a ser professor direi tudo isso a meus alunos. Defenderei o direito deles de escolher o momento certo, ou escolher outros caminhos. Se não fizer isso, acho que estarei sendo incoerente comigo mesmo e com o que eu acredito ser o que me move na Gestalt.

___________

* Texto desenvolvido a partir de e-mail encaminhado por mim a Luciana Aguiar, quando trocamos impressões sobre o tema, em 28 de dezembro de 2007.

5 comentários:

  1. Adriana Montini, 22 de novembro de 2008, 8:36

    Achei muito boa suas observações. Estou montando um questionário na faculdade sobre esse tema .

     
  2. Andréa Fadul Pinto, 22 de dezembro de 2008, 23:29

    Calaça,
    Meu nome é Andréa, sou estudante de Psicologia e este semestre tive a disciplina Teoria da Gestalt e Gestat-terapia, bem confesso que me falou fundo ao coraçao…eu não a escolhi, ela me escolheu. Sempre escutei da necessidade de fazer terapia…bem, eu faço, tenho uns grilos meios escondidos até de mim mesma, mas minha defesas são tantas e fortes que as vezes me pergunto…Para que???
    Concordei plenamente com sua revolta sartreana e com a AWARENESS por outros meios, tão eficientes quanto, até escolhi teu artigo para pauta da próxima sessão…bem, não sei se será assim de fato. Mas terminando, você acaba de ganhar uma fã.
    Cordialmente

     
  3. gabriela sampaio, 10 de maio de 2010, 11:56

    Luís…
    Essas mesmas reflexões tenho eu!
    Também,depois da UFBA,me tornei indisciplinada e questionadora…
    Agora me encontro no mercado de trabalho…
    Não sei se é bom ou ruim ter tornado dessa forma,pois os gestores não gostam muito,por outro lado,cada dia me convenço que quem me procura precisa dessa profissional questionadora e indisciplinada!
    Um abração da sua ex-colega de facul e colega de profissão e abordagem!

     
  4. Severino Pereira da Silva, 9 de dezembro de 2011, 12:17

    O toque físico faz parte da abordagem em gestalterapia? Solta o verbo aì, povo da psicologia!
    Obrigado

     
  5. Luiz Fernando Calaça, 9 de dezembro de 2011, 15:03

    Olá Severino.

    O toque faz parte sim da abordagem gestáltica. O abraço, o aperto de mão, o acolhimento ao sentimento do outro faz parte do processo terapeutico a da relação pessoa-pessoa da Gestalt. Mas mantemos uma atitude principalmente de respeito ao corpo do outro, à abertura ao contato e às chamadas fronteira do corpo, às fronteiras de contato.

     

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