Quando um relacionamento chega ao fim

Luiz Fernando Calaça

O fim de um relacionamento, em geral, não é uma coisa fácil. Creio que é importante compreender o processo enquanto processo, considerando os fatores diversos que levaram a esse desfecho. Quando vemos um casal se separar, ficamos constrangidos, surpresos, desorientados, não nos dando conta de que este talvez seja a melhor maneira de se recomeçar uma nova história e seguir em frente aberto a novas possibilidades de ser feliz.

Ao longo de minha não muito longa experiência clínica, me deparo com a predominância de pessoas que vêm para a psicoterapia em função de conflitos no relacionamento. A postura adotada por elas, em geral, é de queixa em relação ao outro e pouca percepção de si, como co-responsável pelo bem estar da relação. O outro está sempre errado e eu sou sempre a vítima. Eu deixei de fazer coisas por ele ou ela, e não sou reconhecido. Eu me anulei por ele/ela.

Há conflitos ainda na fase de namoro, quando se percebe uma “incompatibilidade” de gostos, e uma dificuldade de aceitar que o outro é diferente e não corresponde a nossas expectativas, de que, na verdade, ele ou ela não me completa. Esperar que o outro me complete é a pior miséria que pode acontecer numa relação. Eu sou eu e o outro é o outro. Somos diferentes, e que bom que somos diferentes, pois assim descobrimos o novo.

Pessoas perfeccionistas se irritam com a bagunça do outro. Pessoas comunicativas se incomodam com o silencio e a pouca comunicação do outro. Pessoas monogâmicas se incomodam com a poligamia do outro. Sempre nos incomodamos com o que o outro nos trás de diferente daquilo que consideramos como nossas qualidades, não nos dando conta de que, aquilo que no outro apontamos como defeito, é justamente o que nos falta, a polaridade que não percebemos como constituinte de nós mesmos, nossa sombra, nosso eu alienado.

O outro nos mostra o que não queremos ver em nós mesmos, nossos pontos cegos. E, por não ver, nós nos batemos, entramos em conflito, nos desgastamos no atrito da tentativa de concertar o outro e transforma-lo em um alguém mais parecido com nós mesmos. Puro narcisismo!

Creio que, em geral, esse é o principal fator que leva a separação: a tentativa de transformar o outro em algo que ele não é, ou a tentativa de nos transformarmos em algo que acreditamos que o outro queira que sejamos. A existência autentica de nós mesmos e do outro, e as expectativas frustradas, por na podermos ser quem somos nem deixar o outro ser quem é.

Quanto ao próprio processo de separação, já acompanhei diversas fases desse processo, desde 1) as brigas preliminares, que envolvem a tentativa de adequação um do outro, às vezes perdendo a medida e indo para ofensas mutuas, cada um apontando o defeito do outro, uma coisa horrorosa que envolve muita mágoa e agressão; 2) as separações de corpos, em que o casal se separa e deixa de manter vínculos sexuais, podendo permanecer coabitando, tentando não se envolver diretamente um na vida do outro – o que quase nunca acontece, e sempre há algum tipo de desconforto, principalmente quando há a possibilidade de estabelecimento de novos relacionamentos; 3) a separação legal, quando há os conflitos com a partilha de bens, guarda de filhos, etc. Essas três fases – creio que talvez hajam mais – se enquadram principalmente no caso de relacionamentos no formato de casamento, em que se constrói um patrimônio, em que se divide uma vida a dois.

Tanto nos namoros como nos casamentos, há uma esperança última de se manter a relação até às ultimas conseqüências. Às vezes pelo simples desejo que permanecer numa relação, mesmo que insatisfatória, às vezes por ciúme e possessão, por não querer ver o outro livre e preferir viver um inferno a dois.

Às vezes, quando há filhos envolvidos, ou quando um dos parceiros depende financeiramente do outro, há uma tendência a se conformar com a relação insatisfatória, tendo em vista certos ganhos secundários, como a manutenção do padrão de vida, a presença dos pais na vida dos filhos e medo de os filhos ficarem “traumatizados”, etc. Assim a relação fica estagnada, numa dinâmica de prazer-desprazer, conforto-desconforto, em que algumas necessidades são satisfeitas e outras negligenciadas. O crescimento de um ou dois dos membros do casal é prejudicado, levando a um estado de infelicidade que pode durar décadas.

Qual a solução para essa situação? Às vezes é a separação. Toda separação envolve perdas e ganhos, compreende uma fase de ruptura e crise, mas se abre como uma oportunidade de abertura para novas possibilidades de auto-realização, de recomeço e de busca por ser feliz. Nem sempre – pra não dizer nunca – se sai ileso do processo, mas é importante ter a clareza do aprendizado que advém da experiência.

Se pode aprender sobre o viver e conviver com a diferença, com as expectativas que criamos acerca de uma relação e do outro, que nem sempre serão satisfeitas, das possibilidades de se aprender a negociar espaços de partilha e individualidade, de construção e co-construção de projetos. O importante, em todo o caso se separação. A meu ver, é tentar aprender a olhar os dois lados da moeda, as perspectivas das duas pessoas envolvidas na relação, a responsabilidade compartilhada por ambos nos rumos da relação e, principalmente, o respeito.

(…)

Olhando em perspectiva, não vejo o processo de separação nem como positivo, nem negativo, mas como necessário. Quando já não há mais possibilidades de se encontrar um estado de harmonia mínima na relação, que permita o crescimento dos pares e da família, em suas individualidades e inter-subjetividades, creio que a separação é o caminho do recomeço, do voltar a respirar e do apropriar-se de suas responsabilidades para com a própria vida.

Separar é, muitas vezes, o desfecho necessário, de formas simbióticas, confluentes e, às vezes, psicóticas, de relacionamento, que embotam o potencial individual, em favor de uma ilusão de felicidade que aliena o desejo, os projetos e a humanidade do outro.

Namorar, casar e conviver ainda são, no entanto, formas saudáveis de conhecer a si e ao outro, de construir e criar, de realizar-se com um outro como parceiro de viagem na vida. Aprender a fazer isso só é possível fazendo no viver. Aprendendo com os erros, errando e buscando soluções criativas para questões cotidianas. Experimentar amar é sempre uma aventura.

8 comentários:

  1. danga, 12 de novembro de 2009, 9:55

    Muito interessante esse texto, posso dizer que estou vivendo essa realidade nesse momento de minha vida. Que o texto como um todo traduz fielmente o fim de meu relacionamento de 6 anos.

    Minha ex-namorada é psicologa e acabei indentificado muitos trechos, como se ela mesma estivesse falando.

    Ainda não recuperei-me da separação, ambos possuimos sentimentos fortes um pelo outro, mas o fim (a morte), dessa relação foi necessária nesse momento.

     
  2. zilda, 5 de janeiro de 2010, 23:02

    Super interessante o seu ponto de vista, mostra claramente oque ocorre nos relacionamentos, incrivel como a dependência a pessoa amada e a insegurança de tentar outra vez trás transtornos emocianais, mesmo todos nós sabedo que ninquem e perfeito e que a perfeição e algo que criamos e tentamos colocar ela em pratica na vida pessoal e na amorosa.Certamente só percebemos isso com claresa quando vivenciamos de perto ou no proprio relacionamento amoroso.

     
  3. Elen, 5 de março de 2010, 11:15

    Lindo texto. Você conseguiu de forma simples e prática relatar o que de fato acontece nas muitas relações e nas muitas histórias trazidas ao consultório psicológico.

     
  4. Lêda Aparecida de Oliveira, 6 de junho de 2010, 12:19

    Perfeita essa descrição, infelismente tanto as mulheres quanto os homens(não são todos, é logico), ainda não aprendedram que: O que envolve um casal, são as diferenças; namorar define simplesmente como: conhecer o outro dentro da sua historia edificada se encaixa nos seus modelos e se busacam os mesmos objetivos; nao existe como mudar os comportamentos e maneiras de pensar do outro, pois, para isso, é necessário que se mude toda sua estrutrura. Portanto, é necessario que aprendamos a conhecê-los, e entender que se as suas atitudes formas de pensar, não da certo, então é porque esse nao é modelo de pessoa que precisamos para nos completar, se mudar o outro fosse tão simples assim, então, porque nao mudarmos nós mesmos e nos permitirmos ser feliz dentro do outro nos apresenta? é preciso que as pessoas aprendam a identificar o que precisam para serem felizes quais são os modelos reais( deixar de idealizar o outro), e perceberem se o que elas têm, se encaixa no que as completam.

     
  5. luciana lima, 24 de outubro de 2010, 21:07

    Adorei o texto vc resumiu a minha vida em pouca palavras, tava precisando disso , porque vivo esse drama dez anos e ate agora nao tive coragem de ir. Muitas vezes me perguntando o que estou fazendo comigo mesmo ou gosto de sofrer.Desculpas sempre pensando no filho ou se irei conseguir o mesmo padrão . Estou alienada meu sprofesor filosofia sempre me diz liberte-se que vc criara força .Acho que agora entendi melhor .

     
  6. Rafael, 11 de abril de 2011, 17:27

    “Amar é descobrir no outro o que se esconde da gente”. Muito interessante essa proposta de texto. Realmente o maior erro do ser humano,é querer projetar n outro aquilo que ele queria ser e não é. Querer inventar o outro,é tirar dele o direito de ser ele mesmo.
    O mais interessante num realcionamento,é conseguir conciliar o ser que sou,com o ser q o outro é,e junto formamarmos o que chamos de nós,uma nova identidade,provida de dois seres distintos,sem perder a essência de suas particularidades.

    (Rafael Alves)

     
  7. Maria das Dores, 18 de junho de 2011, 22:53

    Nossa,sua análise foi perfeita,sofro há oito anos de uma separaçao que não se concretizou,ainda nos encontramos,ainda nos vemos,ainda rola tudo,mas não estamos juntos,é muito complicado na minha cabeça ,eu que fiz tudo para ter meu ex noivo perto de mim>Hj ele vive com outra,mas não me deixa,fico perplexa,não consigo entender os homens,nem os sentimentos(alguns têm sentimento?) me sinto perdida,crazy,crazy,sem poder fazer nada,pois nunca deixei de amá-lo e acho que o que ele sente por mim é só amizade e porque tem certeza que nunca vou deixa´-lo em nenhuma circunstância da vida.

     
  8. Fernanda Gouveia, 26 de junho de 2011, 0:12

    Muito legal! o q foi relatado acontece cmg .. eh mto ruim qrermos q a pessoa q agent ama .. seja akela q agente qr q seja .. e n o q ela eh de verdade ..
    Eu to a um ano com uma pessoa .. q eu ainda gosto mto .. mais nosso relacionamento eh complicado .. estamos distante … mais pra ficar assim .. n da .. terminei e to sofrendo mto! Mais vai passar!

     

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