Roberto Piva: Literatura e (homo)sexualidade como transgressão, mística e resistência
Numa madrugada de 2004, sapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte. Fiquei esperando e assisti ao documentário Assombrações Urbanas com Roberto Piva.
Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a “catar” edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: O Estrangeira na Legião (2006), Malas na mão & asas pretas (2007) e o livro recém saído do prelo, Estranhos sinais de saturno (2008).
O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?
Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico. Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.
Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e jovem.
Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.
No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração - de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.
Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de “se assumir” gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.
Em seu livro Coxas (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de “comunidade”. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa.
Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em Ciclones (1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.
Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro O que é homossexualidade, quando se refere à figura do berdache – “homem-mulher” ou “mulher-homem” que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no “não lugar” entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.
Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.
Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o João Silvério Trevisan, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.
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