Transdisciplinaridade e práxis psicológica
Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior
Atualmente tenho pensado um bocado sobre a questão da transdisciplinaridade, no que diz respeito à atuação do psicólogo nos diversos contextos de atuação profissional. Na minha experiência de estágio em um hospital, e em contato com colegas que atuam nos diversos campos de inserção da Psicologia enquanto profissão, tenho me deparado com um aspecto em comum: NOSSA TENDÊNCIA A ACREDITAR QUE HÁ ASPECTOS QUE SÃO EXCLUSIVOS DA PRÀTICA DO PSICÓLOGO. Coloco em letras grandes esse ponto, central nessa minha reflexão, e em especial no termo “exclusivo”. Considerar isso uma “verdade” me parece ser um retrocesso no que se considera hoje como uma tendência atual: a transdisciplinaridade.
Durante muito tempo considerei a transdisciplinaridade uma utopia, devido à impossibilidade de um trânsito em diversas áreas de conhecimento, com suas diversas linguagens e técnicas, com diferentes cosmo visões. Com o tempo, no entanto, lendo alguns autores da Psicologia e vendo suas trajetórias, percebi que isso era uma realidade que sempre existiu e que foi sendo perdida ao longo do século XX, principalmente com a tendência contemporânea de “especialização”. (Para qualquer trabalho, público ou privado, se valoriza as pós-graduações, e, principalmente, as especializações, que vão desde os cursos até experiência profissional de “X anos” na referida área).
A grande maioria dos teóricos clássicos a que temos acesso na Psicologia não eram psicólogos de formação de base. Eram médicos, físicos, matemáticos, sociólogos, homens das letras. E, em sua grande maioria, conseguiram transitar pelos mais diversos campos de conhecimento, das ciências naturais às sociais, nas artes e na literatura. Ao observar suas carreiras também percebemos percursos que vão desde a pesquisa acadêmica, à prática clínica, a intervenção na saúde mental e/ou em organizações. O olhar e a prática do psicólogo era ampla e, principalmente, eles tinham interlocutores dos mais diversos campos de saber.
Voltando ao ponto de partida, ao meu incômodo, tenho percebido críticas feitas por psicólogas colegas minhas, a assistentes sociais, enfermeiras, médicos e pedagogos que usam o conhecimento psicológico – ou o vago conhecimento que tem sobre a psicologia – em suas práticas profissionais. Assistentes sociais que atendem pacientes e realizam “acolhimento”, enfermeiras que realizam grupos de família e pacientes e que estão interessadas nos seus “aspectos subjetivos” ligados ao adoecimento, médicos que dão diagnósticos de “síndrome masoquista” em uma paciente queixosa, pedagogos que diagnosticam uma criança como “hiperativa”, etc. Tais situações são vistas com certo desdém por parte de algumas colegas, que acreditam que esses profissionais estão querendo INVADIR O CAMPO QUE É DO PSICÓLOGO. Essa reação me preocupa, pois mostra tanto uma certa agressividade exagerada para com os profissionais de outras “especialidades”, como traz de forma subliminar a crença de que há algo QUE É DO PSICOLOGO.
A subjetividade não é algo que é exclusivo do psicólogo. Todos os profissionais que trabalham diretamente com pessoas, estão lidando inevitavelmente com subjetividades. Uma postura de acolhimento também não é algo que deve ser exclusivo desse profissional, pelo contrário, é algo que deveria fazer parte da postura de todo profissional que pretende trabalhar com saúde numa proposta de humanização do atendimento – fora que deveria ser algo anterior, um “valor” que deveria vir como pré-requisito, da educação doméstica! Já os diagnósticos precipitados mostram a dificuldade de alguns profissionais, por falta de conhecimento ou pela popularização do jargão “psi”, a se utilizar desses termos para lidar com fenômenos difíceis de serem encarados, a primeira vista. Esse “lidar” pode ser tanto buscando soluções, como fugindo do conflito, protegendo-se através de um rótulo.
Em todo o caso, tais situações mostram a importância de o psicólogo estar inserido nos mais diversos contextos e SABER PARTILHAR O SEU CONHECIMENTO. Em geral os psicólogos tem uma formação que parece valorizar o privado, o individual, e, por vezes, isso faz dele um profissional com egoísta. Primeiro ele se considera um “especialista conhecedor da subjetividade” e, nesta posição, adota para si um monopólio desse saber, considerando-se o único apto a trabalhar com os sentimentos, emoções, vontades, desejos, fantasias, comportamentos…
Cada dia, no entanto, vemos mais profissionais com outras profissões – incluído jornalistas, engenheiros, administradores, etc, etc – que se enveredam por práticas terapêuticas não exclusivas aos psicólogos que desempenham trabalhos importantes como cuidadores e curadores – como TERAPEUTAS, no sentido radical da palavra. Esses mesmos enveredam pelo campo da educação e do trabalho comunitário, dialogam com as pessoas em seus contextos reais de vida, e constroem conhecimentos partilhados. Enquanto isso, o psicólogo se morde todo, se roendo, por perder aos poucos o seu espaço “exclusivo” de senhor das subjetividades.
Às vezes é cansativo ouvir as críticas de psicólogos ao ato médico e ao sentimento de onipotência do médico sobre o paciente. Eu, particularmente, me canso, ao ouvir colegas meus – formados ou em vias de formar-se psicólogos – ocupar esse lugar, adotar uma postura de “suposto saber” e se auto intitular-se como um especialista das subjetividades. Atitudes como essas me entristecem bastante, pois vejo que é um indício de grande imaturidade por parte dessas pessoas, que se fecham, na sua vaidade, para as maravilhas e os mistérios que é a PESSOA. Profissionais como esses se envaidecem quando submetem o outro a seu conhecimento, a sua técnica, a seu controle, e esquecem que esse outro (ou outros) é um ser muito maior, que sofre, que ama, que chora, que sorri, que fala, que silencia, que pede, que dá.
Não sou um amante da Psicologia. Sou um amador, um eterno aprendiz, um aspirante, um sonhador. Amor as pessoas no que elas são, e no que podem ser, em sua potencialidade e em sua capacidade de realização como projeto existencial. O conhecimento, a ciência, é fundo, a tinta, a tela e o pincel. A arte é sempre feita em parceria. E, quanto mais pessoas se envolvem nesse projeto, mais belo pode se tornar a obra final.
Salvador, 22/02/2009
Concordo contigo Luiz, porem com resalvas. Na prática percebo que é uma via de duas mãos os psicólogos queixosos exageradamente paranóicos e outros profissionais, principalmente médicos não reconhecendo o psícologo como profissional capacitado, por outro lado sentem-se bastante confortaveis com seus diagnósticos genéricos de depressão a rodo junto a prescrição indiscriminada de antidespressivos. É claro que os psicólogos não tem o direito de achar que são donos da subjetividade humana assim como qualquer profissional tem que ser ético e respeitar a praxis de outros profissionais. Por último, penso que a insegurança de muitos psicólogos se deve a fluidez do objeto da prática psicólogica, que eu contrario de muitas profissões não é bem delimitado, não nos moldes que a nossa sociedade capitalista e materialista valoriza tanto.
O assunto da pano pra manga.
Parabéns pelo ótimo nivel dos artigos
Abraço
Gostei muito de algumas passagens – especialmente a que questiona se há algo que “é” do psicólogo (ou se há algo do qual o psicólogo se apropria!?) – e gostei do texto em geral, por isso resolvi comentar.
^^