Um caminhar dentro-fora da Gestalt
Luiz Fernando Calaça
Desde 2005 eu me dedico ao estudo da Gestalt Terapia. Desde o segundo semestre da graduação em Psicologia na UFBa, me envolvi em grupos de estudo sobre Gestalt Terapia e Fenomenologia, buscando me aprofundar na abordagem que, para mim, respondia e responde a meus questionamentos, apontando alternativas para uma prática e vivência profissional ética e humana. Sempre fui muito interessado em história, e, como não poderia deixar de ser, à história da Psicologia da Gestalt, da Gestalt Terapia e das bases filosóficas e teóricas humanista-fenomenológico-existenciais.
Quando fui apresentado à GT, por Lika Queiroz, com quem fiz meu curso de formação, a perspectiva que ela nos dava era de que havia ainda pouca produção teórica na abordagem aqui no Brasil. Isso era em 2005. Freqüentei os dois últimos congressos nacionais de Gestalt Terapia, e já em 2007 já me deparava com uma oferta muito grande de obras de gestalt terapeutas brasileiros, sendo quase impossível ter uma biblioteca completa com as obras de GT. Comprador compulsivo de livros e freqüentador de sebos físicos e virtuais, fico louco quando vejo a imensidade de títulos que surgem a cada ano, tanto em português como em espanhol e inglês. E estou certo que o Brasil é, provavelmente um dos paises em que a abordagem mais cresce e se desenvolve em produções acadêmicas e, consequentemente, em obras publicadas.
Uma coisa me preocupa, no entanto: se essa produção toda mantêm-se fiel aos princípios da Gestalt Terapia, tal como concebido em suas origens, ou se tem se transformado. Creio que as transformações, ao longo 60 anos de abordagem e cerca de 40 no Brasil, sejam inevitáveis. Muito se avançou principalmente no sentido de uma maior fundamentação teórico-filosófica da abordagem, repensou-se a questão do uso das técnicas, e se ampliou a atuação para outros campos além da clínica clássica, como a psicoterapia de crianças, o contexto hospitalar e educacional, a área sócio-comunitária, etc.
Quando me pergunto sobre se a Gestalt Terapia mantêm-se fiel aos seus princípios, questiono se, nessa tentativa de dar legitimidade à abordagem, não se perdeu muito de seu espírito originário, contracultural e revolucionário que vigorou nos anos 50 a 70, nos primeiros institutos de Gestalt Terapia nos EUA, em Nova York, Cleveland e Esalen. E, principalmente, me pergunto se os gestalt terapeutas realmente tem se apropriado da Gestalt Terapia a partir de seus fundadores, da leitura minunciosa dos livros do Fritz Perls, e os artigos diversos contidos nos primeiros livros de Gestalt Terapia.
Essas obras, a meu ver, embora escritas de forma fluida e muitas vezes impessoal, pouco preocupada com uma forma acadêmica e com uma aparente consistência teórica, trazem os fundamentos da Gestalt Terapia tal como ela era vivida. Ao meu ver a GT, antes de uma abordagem psicoterapeutica é uma ética, uma filosofia de vida, uma visão de mundo e de homem voltada para a construção prática de uma utopia, de um mundo melhor, em que cada pessoa é responsável e implicado em sua existência individual, social e planetária.
Sinto-me muitas vezes saudosista, por não ter vivido os “anos de ouro” da Gestalt, do espírito comunitário, do processo de construção coletiva que respeitava a individualidade, valorizando o potencial de cada um, sem preconceitos. Hoje me preocupa a sensação meio explicita e meio velada de uma fragmentação da Gestalt Terapia em diferentes abordagens gestálticas, em que diferentes focos adotados por diferentes teóricos ou terapeutas são vistos, por um lado, como “esotéricos”, e por outro como uma “Gestalt Terapia embasada cientificamente”.
Fico me perguntando o quanto realmente conhecemos e vivenciamos praticamente a Gestalt Terapia em suas raízes, em seus fundamentos. O quanto se mantém vivo o pensamento e o espírito transgressor do velho Fritz, ou o quanto estamos nos ajustando ao status quo, em busca de atingir uma demanda do mercado das psicoterapias, ainda dominado pela psicanálise, e em crescente expansão das terapias cognitivo-comportamentais, que se mantém em acordo com o modelo médico e psiquiátrico. Se lermos com atenção para os escritos do Perls, nos defrontaremos justamente com uma proposta que rema contra essa maré, que se opõe – ou pelo menos busca ser uma alternativa divergente – a esse modelo medico-científico.
Discutimos muito sobre psicodiagnóstico, e sobre a necessidade ou não se seguir os CIDs e DSMs, para mantermos um diálogo com outros profissionais de saúde, ou para embasarmos melhor nosso diagnóstico processual. Esse ponto, sempre polêmico, levanta posicionamentos diversos, e alimenta discussões acaloradas. Como isso se configura nas obras originais? Certamente que, lendo atentamente as obras do Fritz encontramos ora passagens que apontam para estruturas, ora para processos, na compreensão do funcionamento do self, como id, ego e personalidade. Lacunas que foram deixadas em aberto e que tentamos preencher e fechar, com o risco, a meu ver, de deformar e perder o dinamismo e o devir, o fundamento do homem como processo de contato organismo-meio, pessoa-pessoa e pessoa-mundo.
Talvez não devamos buscar preencher as lacunas, mas deixa-las abertas, para que possa circular ar e energia, para que possa se expandir, e não se condensar, se cristalizar numa esfera compacta. Gestalt é uma qualidade de configuração dinâmica, e não uma estrutura rígida. Seu movimento é orgânico, e, ao menos para mim, não sistemático, mecânico, encapsulado.
Olho para mim mesmo e me vejo ainda engatinhando nesse campo fértil e grávido de possibilidades. Vejo na Gestalt Terapia uma abordagem aberta, que acolhe várias possibilidades de pensar e atuar sobre o mundo, construindo e ressignificando realidades. Podemos trabalhar de forma artística, corporal, transpessoal, educacional. Podemos olhar o olhem em suas múltiplas dimensões, sem se restringir a uma apenas, podendo transitar pelas diversas possibilidades que o humano nos traz. Somos ricos de possibilidades, e cada possibilidade pode ser acessada, intensionalizada, atentada, abrindo-se sempre novos campos de possibilidade de construção e criação. Nossa visão é expandida, ampliada, múltipla, pois nossos fundamentos não são pilares sólidos, mas raízes que enveredam por vários campos e solos, buscando nutrientes para nosso fazer terapêutico poético.
Podemos transitar por outras abordagens, flertar com elas, sem nos perder, pois somos flexíveis e podemos fazer sempre novos arranjos e combinações, sempre mantendo nossa visão de homem e de mundo, nossa ética do cuidado, nosso fazer preocupado com o outro e com a relação que construímos no processo. Somos ecléticos pois sabemos que nenhuma teoria é completa, mas todo conhecimento é valioso, quando disposto de maneira consciente, voltada para o bem da humanidade.
Fico pensando no quando ainda sou um gurí na família gestáltica, no quanto ainda tenho que aprender, e no quando já aprendi, vivi, construí, refleti, experimentei. Sonho em poder contribuir em muito para essa abordagem que para mim é uma fé, uma confiança no potencial humano de reescrever a si e a sua história, de forma criativa e transformadora. Cada encontro pessoa-pessoa é um encontro comigo mesmo, e cada reflexão é uma partilha, um aprendizado, uma descoberta do extraordinário que somos todos nós, humanos.
Penso no quanto precisamos voltar a nossas origens para chegar mais próximo do chão que nos sustenta, de onde retiramos os nutrientes de nossas práticas e somos acolhidos. Eu acredito imensamente na importância do estudo, nas leituras e na reflexão, não tendo como foco a consistência de um conceito ou a eficácia de uma técnica, mas na riqueza potencial de uma idéia, de um pensamento, de um fragmento que pode abrir portas para um modo novo de pensar nossa própria existência, e nos fazer acordar para formas de existir mais autenticas e conscientes. Devemos entrar e sair da Gestalt, fazer um movimento de mergulho e emersão, ir nas profundezas e respirar o ar da superfície, do textos, de nós, das que nos procuram e se entregam para uma viagem sem caminho pré-estabelecido, mas com múltiplas possibilidades de caminhar.
Luiz Fernando, boas!
Gostei do que li, em mtos ptos pensamos parecido, obgado, abel
Transformar a gestalt-terapia, fazê-la reconfigurar-se faz parte de sua própria definição. Contudo, tenho a mesma preocupação que você: para onde vamos, se não sabemos de onde viemos? O todo GT é dinâmico, mas precisamos ter compromisso, ética. A nossa abordagem tem história, tem filosofia, tem percurso, tem ética, tem limites – fazer qualquer coisa não é fazer gestalt-terapia.
Compartilho uma experiência recente: ao ser convidada para dar aula em uma universidade a alunos do 8º período em psicologia, deparei-me com uma turma que nunca ouvira falar em Perls, em Heidegger, em Ponciano… Saí perplexa, decepcionada e preocupada.