Conceitualização e problematização do Psicodiagnóstico

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Em seu livro Psicodiagóstico V, Jurema Cunha (2004) define psicodiagnóstico como “uma avaliação psicológica, feita com propósitos clínicos e portanto não abrangendo todos os modelos de avaliação psicológica de diferenças individuais. É um processo que visa identificar forças e fraquezas no funcionamento psicológico, com um foco na existência ou não de psicopatologia.” (p. 23)

 

Ao trazer essa conceituação, Cunha circunscreve o psicodiagnóstico ao contexto clínico, restringindo-se a uma das muitas práticas possíveis de avaliação psicológica, e tendo como um dos possíveis objetivos a identificação de psicopatologias existentes no indivíduo. Nesse ponto, tem-se uma perspectiva de estudar o sujeito a partir de possíveis sinais e sintomas – forças e fraquezas – por ele apresentados, que compreendidos em conjunto, levariam à identificação de um quadro de morbidade ou sofrimento psíquico.

 

Segundo Cunha, as origens da avaliação psicológica e do psicodiagnóstico se deram sob uma tradição médica e da psicologia acadêmica, de orientações comportamentalistas ou psicanalistas, predominantemente, que seguiam estratégias de avaliação comportamental – com identificação de comportamentos-alvo -, ou por uma orientação conceitual circunscritas em um corpo teórico e numa visão de homem específica, segundo as diretrizes de uma comunidade acadêmica. Tais perspectivas justificariam a ênfase dada ao aspecto do sujeito em sofrimento, disfuncional ou em desajuste com um ideal de saúde e normalidade.

 

As origens da avaliação psicológica seria perpassada também por uma tradição psicométrica, que tinha como métodos principais a aplicação de testes psicológicos estruturados ou de testes projetivos. Um outro recurso adotado também seria o uso de entrevistas psicológicas, herdada pela psiquiatria, que variaria desde um modelo mais estruturado, o que trazia como deficiência a questão a falta do rapport, a dimensão idiográfica da experiência do sujeito e a flexibilidade de discurso. Assim, tanto o uso de testes quanto o de entrevistas dirigidas para a identificação de sinais e sintomas seriam enfatizados, em detrimento, muitas vezes, dos aspectos do sujeito que expressassem uma tentativa de adaptação, a melhor maneira possível, voltada para uma perspectiva de saúde dissociada da doença ou do psicopatológico.

 

O uso de testes projetivos, principalmente de base psicanalítica, teria vigorado por muito tempo por servir como recurso de identificação do processo dinâmico da personalidade, porém vem caído em desuso por tratar-se de um método muitas vezes de interpretação intuitiva, e por sofrer crítica de psicólogos com orientação comportamental e biológica. (p. 25)

 

Uma outra definição de psicodiagnóstico trazida por Cunha é a de “um processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes psicodiagnósticos (input), em nível individual ou não, seja para atender problemas a luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos, seja por classificar o caso e prever seu curso possível, comunicando os resultados (output), na base dos quais são propostas soluções”. (p. 26)

 

Segundo essa outra definição, além do uso de testes e da vinculação a uma perspectiva teórica, outros aspectos sobre o psicodiagnóstico são apresentados: a limitação temporal, o foco na classificação e a vinculação dos resultados a um contexto externo requerente, aspectos que podem ser problematizados.

 

A limitação temporal que envolve desde a realização do contrato entre o sujeito investigado, o requerente e o psicólogo até a devolução dos resultados, por ser restrito, em geral, a poucas sessões, traz consigo restrições quanto às possibilidades de compreensão do sujeito em sua complexidade, nos mais diversos contextos de sua vida, tratando-se de um recorte, numa redução do fenômeno a um modelo científico incompleto e passíveis de equívocos.

 

A investigação psicodiagnóstica, conforma aponta Cunha, se baseia num plano de avaliação que é baseado em perguntas e hipóteses iniciais levantadas a priori. A linha de investigação adotada acaba, pois, a seguir um caminho predeterminado, a partir do que é apresentado como queixa ou dos desdobramentos das entrevistas iniciais, não dando conta, muitas vezes, da variabilidade de questões existentes na vida do sujeito como um todo, que por ventura possa estar atuando sobre o seu campo existencial.

 

A definição de instrumentos de investigação com base nessas hipóteses iniciais podem, a depender do seu caráter e dos objetivos a que se propõe, também limitar as possibilidades de compreensão dinâmica do sujeito, circunscrevendo a um repertório específico de respostas que podem estar aquém das reais necessidades do sujeito objeto de investigação.

 

Ao ser solicitado por sujeitos outros que não o próprio investigando, essa dimensão externa ao contexto de investigação, acaba por impor um objetivo que pode ir de encontro à liberdade de posicionamento daquele que se torna objeto do psicodiagnóstico. Assim, o psicólogo que realiza o psicodiagnóstico, por mais conhecedor que seja dos métodos a serem empregados, não deve deixar de levar em consideração a pessoa do examinando, bem como ponderar sobre a sua real implicação sobre sua vida, sabendo identificar como e quando é necessário, de fato, submeter o sujeito a uma investigação – muitas vezes invasiva e de repercussões imprevisíveis ou definidoras da vida recente ou futura do sujeito examinado.

 

Cunha aponta para alguns possíveis usos do psicodiagnóstico. A depender das instituições requerentes e dos objetivos a serem alcançados, as avaliações psicológicas podem ser classificados como : 1) de classificação simples, comparando o sujeito à médias levantadas a partir de outros sujeitos da população; 2) de descrição, que tem um valor mais interpretativo acerca dos escores levantados em testes, buscando identificar as forças e fraquezas e o desempenho do sujeito; 3) de classificação nosológica, que tem fins diagnósticos, visando a tietagem de hipóteses, 4) de diagnóstico diferencial, voltada para identificar variações nos quadros sintomáticos e níveis de funcionamento patológico; 5) de avaliação compreensiva, responsável por determinar o funcionamento da personalidade, funções do ego, insight e sistemas de defesa, voltados para intervenção terapêutica; 6) de entendimento dinâmico, que associaria as dimensões investigadas na avaliação compreensiva a uma perspectiva teórica, buscando inferir possíveis dificuldades futuras e focos terapêuticos para além do material levantado nas entrevistas; 7) de prevenção, voltada para a identificação de problema precocemente, buscando detectar fraquezas e forças do ego, e respostas a situações novas; 8) de prognóstico, tentando determinar o curso provável do caso clínico e, 9) de perícia forense, voltado para identificar insanidades, incapacidades e patologias que possam estar associadas a infrações da lei e afetem o exercício da cidadania.

 

Em todos esses possíveis usos do psicodiagnóstico se supõe que, através de uma metodologia científica seja possível compreender, predizer e, em alguns casos, controlar o desenvolvimento do sujeito, sua personalidade e seu funcionamento nos diversos contextos, prevendo possíveis ocorrências no futuro e determinando intervenções. Deixa-se, no entanto, de se levar em consideração a imprevisibilidade do humano e sua interação em contextos reais de sua vida, reduzindo-se as informações colhidas, muitas vezes, ao relato verbal do sujeito e a respostas levantadas através dos recursos técnicos de avaliação. Tal procedimento pode vir a ter repercussões imprevisíveis, por exemplo, quando se trata de se definir um psicodiagnóstico em criança, levando-se em consideração o fato de tratar-se de uma fase de transformações, em que várias dimensões relacionais e contextuais (família, escola, etc), atuam sobre e com o sujeito.

 

É importante, no processo psicodiagnóstico, levar em consideração o sujeito como algo mutável e dinâmico, circunscrito num mundo maior que o da consulta psicológica, sendo multideterminado e atuando ativamente sobre sua realidade. Assim, também é imprescindível levar em consideração o próprio sujeito do avaliador, qual a perspectiva teórica que norteia sua prática, qual a sua disposição para com o sujeito investigado, seus a prioris, seus preconceitos e limitações, posto que o processo psicodiagnóstico não se dá sem ruídos, de forma objetiva e sem deformações. A leitura dos dados se submete ao crivo do investigador, e a seleção de aspectos mais ou menos relevantes a serem levados em consideração é definido pelo olhar daquele a quem se dirige o objeto de apreciação.

 

Dessa forma, mais do que compreender o processo psicodiagnóstico em sua dimensão operacional, na definição do objeto a ser investigado, na metodologia a ser seguida e nos possíveis sujeitos a quem se dirige sua aplicação, é necessário se ter uma preocupação ética para com a pessoa que se submete ao exame, e ao próprio investigador, seus limites e possibilidades de relação, posto que, também ele, na interação que estabelece com o outro, transforma e é transformado ao longo deste processo.

Bibliografia:

CUNHA, J.A. Psicodiagnóstico – V. Porto Alegre: ARTMED, 2004.

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2 comentários:

  1. mônica, 10 de abril de 2008, 21:43

    vc vai longe garoto! adorei seu perfil ,vc ao que td indica está no curso certo. Quanto ao que diz respeito aos capítulos de Jurema Cunha ,serviu à minha pesquisa acadêmica,ao contrário de vc, tenho uma certa dificuldade em extair as essências dos textos ,mas com fé eu chego lá ! abraços de Aracaju-Se.

     
  2. Daniel Raimundo Savihemba, 30 de abril de 2008, 10:03

    É verdade que estudar e pesquisar são tarefas muito dificeis, porém tendo força, vontade e dedicação é sempre possivel conseguir.

    Portanto, este artigo ajudou-me na compreenção da matéria ligada ao psicodignóstico.
    Obrigado e continue assim

     

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