Indivíduo e Sociedade?

Uma tentativa de síntese.*

Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior

Estar diante do outro, um estranho, é defrontar-me com a sensação de fragilidade. O outro me aprisiona com o olhar. Como diria Sartre: “O inferno são os outros”. Diante do outro, estranho, não consigo deixar de ser eu mesmo, em minha dança encenada de papéis, sempre tropeçando, sempre gaguejando, sempre fingindo uma segurança ou uma meninice que não tenho verdadeiramente. O estranho é o que melhor e mais apto está para me julgar de forma incondicional, sem pestanejar, aprisionando meu presente, cristalizando minha existência num olhar, num adjetivo, num conceito, numa crença concebida na superfície que demonstro ser, como lago. Diante do outro, conhecido, quando creio mininamente conhece-lo, tento ser eu memso. Mas caio na dúvida se o que sou ou creio ser realmente condiz com a imagem que faço de minha figura. Diante do outro conhecido tento ser o que para mim e mais fácil ser, diante do outro, na experiência que dele tenho a partir dos encontros travados anteriormente. Sempre me será um estranho, assim como eu a ele. Mesmo na cotidianeidade, nos dias partilhados em intinmidade, sempre serei um pouco desconhecido – para ele e para mim mesmo – e cada nova revelação será um choque. O estranho se revela a mim, como eu a ele, na parcialidade de um ângulo, de um momento passageiro, num instante de lapso, e cada novo encontro vai deixando indícios, sinais, que confirmam ou negam a primeira impressão. Mesmo assim o olhar do outro me congela em meu movimento em direção ao próximo segundo.

Não tentarei ser comportado. Admito, desde o início, que não segui os passos indicados. Não fui sistemático e rigoroso, não fiz resenhas de capítulos, não li tudo o que devia(?) ter lido. Partirei de minhas impressões gerais, agora, após finalizado o percurso de um semestre, de forma corajosa ou suicida.

Comecei o disciplina descrente na possibilidade de eu vir a “aceitar” uma perspectiva sociológica do humano. Não vim com muitas esperanças e tinha medo do previsível. Vim cheio de preconceitos, e não sei, admito, se eles foram desfeitos. Há algo ainda em suspensão, uma tentativa de formular um opinião, o receio de expressá-la.

As aulas consistiram para mim como exposições de teses para as quais eu já vinha com todas as minhas antíteses, de corpo fechado. O único movimento que tive foi o inicial estranhamento manifestado na leitura do primeiro texto, o qual fui expositor, que questionava a relação de intimidade típica da organização familiar, em contraposição à vida errante e democrática, da sociabilidade e dos jogos de papéis vivido nas cidade, no “mundo real” da polis. Desde este princípio me coloquei como estrangeiro, lembrei-me de minha viagem a São Paulo no início do ano e do meu desagrado narcísico diante do que não era meu próprio espelho.

As outras aulas mantive um posição de ouvinte (des)interessado. Tentei prestar atenção no que emergia, as falas que surgiam das leituras, os colegas – até hoje desconhecidos – que emitiam suas opiniões. Todos emitindo seus pontos de vista, para uma questão que acho sem solução. Indivíduo e sociedade? Indivíduo ou sociedade? Indivíduo-sociedade?

Papéis, herança, identidade. Somos nossa casa, nossa família, nossa cultura local e provinciana? Ou somos a polis, as identidades múltiplas, fluidas, negociáveis na pólis. O exercício da teatralidade de papéis assumidos e dissolvidos a cada momento, a cada devis, em que manipulamos o mundo em que somos manipuláveis, como fantoches ou ventrílocos. Não sei. Nessa abertura para o mundo, nos dissolvemos, perdemos a condição de pessoa, nos tornamos anônimos e invisíveis. Quinze minutos de fama, como diria Andy Warhol. Apenas 15 minutos. De resto, somos como os ratos, numa massa que corre em busca da própria sobrevivência, como em Josefina, conto de Franz Kafka.

E as cidades? Haverão realmente espaços para negociações – o grande mercado mundial de homens especialistas -, ou os papéis estão dados e legitimados por nós mesmos. Associações entre o burguês e o proletário, numa relação mutualista, cada qual se apropriando do que lhe é bem pra uso e abuso. Os trabalhadores em equipes que surgem e se desfazem após a realização de uma tarefa, sem que se espere mais nada, sem que se conheça sequer algo do outro. Lembro-me das minhas andanças pela cidade, a pé e de ônibus, desconhecidos que sentam-se um ao lado dos outro ou se esbarram, evitando o olhar constrangedor.

As palavras agora são pronunciadas de forma encenada, na política midiatizada, em que se finge santidade e competência, bastando apenas parecer o que não se é. O tempo das cirurgias plásticas, do clareamento dental, da moda sempre em mutação, dos escândalos que se tornam espetáculo de contemplação e êxtase, melodramas mexicanos, tango. Ninguém é o que realmente aparenta ser. E todos escondem algo por traz do sorriso.

E nas relações em grupo repetimos esses mesmos falseamentos de realidade. Criamos ficção de um mundo improvável, criamos crenças e dogmas em que possamos nos segurar, utopias e “ismos” para remediar o mal estar que a civilização instaura na impossibilidade de saciedade do desejo, na perda do verdadeiro desejo, sublimado ou transformado em sintoma e compulsão. Nesse ponto, só consigo ver a arte como salvação, na minha crença herética de que minha voz solitária me basta. Mas esse mundo não é o mundo dos poetas. É o mundo das caixas registradoras, e precisamos conquistar o pão com o suor do próprio rosto.

E me pergunto, de que serve tantas discussões teóricas? De que serve a universidade que nos prende nas utopias de um mundo possível de salvação. Unindo forças por uma coletividade que é tão abstrata quanto a geometria das formas platônicas. O mundo inteligível das idéias. A sociedade formada de homens, caminhando movida por uma mão abstrata, maquinaria pesada ou tecnologia digital, irrealidade e virtualidade, digitalizando-nos, transformando-nos em porcentagens e estatísticas.

Mas todo um discurso de contrariedade e tudo isso é, também, um ensaio de intelectualismo que vai do nada ao nada. Ainda assim somos humanos, vivemos em agrupamentos, trabalhamos e funcionamos, construímos vidas e vias, traçamos rumos que desejamos trilhar, planejamos e nos projetamos existencialmente, ou simplesmente nos deixamos levar pela correnteza. Despertar para a visão disso tudo é necessário. Uma saída ensaiada da caverna, mas será que realmente saímos do estado de cegueira e entorpecimento? Ou cairemos novamente numa outra cegueira de luminosidade ofuscante onde os contornos das formas são as mesmas sombras projetadas?

Quando digo isso tento pensar no que lemos e discutimos. Tantos pontos de vista, tantos sinais de fumaça sinalizando conceitos, situações, e, todos eles defendendo vieses. Também eu tenho meus vieses, e será que realmente preciso lapidá-los, ou incorporar novas formas, para ser eu mesmo, para ser um outro em auteridade? Será que há essa auteridade ou nos suportamos? A diferença ideológica às vezes é tão mais marcante e conflitiva que as aparentes. Todos nós temos nossas ideologias, nossa forma “melhor” de ver o mundo, nossas verdades, e defendemos como se fossem reais.

Tolerar ou não tolerar? Será que esse meu falatório tem sentido, ou é uma grande confusão? Não sei. Desde o início apontei para minha descompostura intencional. E a tentativa de síntese é falsa. Estou apenas sumariando. Citando. Discorrendo livremente, na liberdade que acredito ter nesse espaço aberto à reflexão. Mas bem posso estar enganado, e o previsível seja o que se espera. Estou tentando me arriscar. Nada tenho a perder. Isso até parece uma provocação ou uma pirraça.

O que mais me resta? Posso tentar fazer mais algumas correlações com o que eu já trazia como idéia. Posso emitir opinião sobre a vivência do grupo. Posso omitir meus sentimentos e acreditar que tudo transcorreu conforme o previsível. Mentira! Trago incômodos.

Entre nós há, e se reproduz, o desconforto. Situação atípica. Uma presença. Algo que destoa do resto do grupo. Ela estava lá, fazendo comentários e perguntas incômodas, aparentemente sem nenhuma conexão com o que ela trabalhado. Às vezes ingênua, outras vezes confrontando a figura central de facilitadora. Senti prazer em ver essa situação se instaurar, pois mostrou o quanto estamos conformados com os papéis dados, e domesticados, e que o imprevisível é desconcertante. Acho que é o lugar da loucura no mundo. É motivo de risos e desconforto, quando não censurado e reprimido. Nada se fala, fica a situação velada, mas eis que emerge e se cristaliza o “bode espiatório”.

E também temos aquela que na risada de deboche abre espaço para as opiniões bem fundamentadas, para as referências à filosofia alemã, o discurso sobre o desejo, o mais forte que submete o outro por prazer de gozar, o relativismo dos valores como verdade afirmada. Senti-me contente. Momentos inesquecíveis nesse período.

Como saio afinal? Não sei. Algo se moveu, mas não mudei meus pontos de vista. Quero sedimentá-los um pouco, teimar na minha ignorância e resistir à psicanálise, ao marxismo, à sociologia, à antropologia, às fenomenologias do outro homem. Mas sei-me em mutação. Já não estou mais no início do percurso. Já estou um tanto cansado das discussões que não levam a lugar nenhum, posto que dissociada da vivência real com o outro. Saio de uma turma de desconhecidos. Se exercitei meu papel nas arenas da polis acadêmica, foi por minha escolha pela omissão consentida. Nada me pereceu tão novo que não seja velho. Como exercitar a própria existência é o que me pergunto.

Não sei se isso é o bastante. Não sei se tenho mais nada a falar. Acho que é tudo o que posso emitir enquanto registro de minhas idéias e síntese de minha participação desse círculo de pessoas. O espaço, eu sei, é importante. Janelas se abrem para que articulações possam ser feitas no futuro. Eu guardei coisas em mim, que não foram ainda assimiladas. Jogo na lata de lixo de minha cachola, para depois ruminar. Sinto muito, pois tentei ser poeta, e sofista, contra a ciência dos conceitos e da busca pela verdade, defendendo o absurdo.

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*Relatório das aulas da disciplina Indivíduo e Sociedade, ministrada pela profa. Sônia Bahia, no semestre de 2007.2.

1 comentário:

  1. Mônica, 17 de fevereiro de 2008, 16:42

    Maravilhoso! Parabens!!!

     

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