Vivências e divergências na homossexualidade
Nos últimos dias estive pensando sobre a questão da homossexualidade, não de forma abstrata e distanciada, mas implicado neste processo, por ter presenciado um dia de discussões do grupo de estudos UNISEX e por esta fazer parte da minha existência em diversas dimensões e contextos. Na oportunidade, quando nos voltamos para a discussão do livro “O que é homossexualidade” de Peter Fry, alguns temas sucitaram debates tais como a questão dos papéis sociais e sexuais, o masculino e feminino, ativo e passivo, os tabus e convenções culturais de povos indigenas e da sociedade ocidental até a década de 80, com implicações e atualizações para os dias atuais.
Na ocasião fiquei mobilizado com um ponto em questão: as diversas vivências e rótulos popularmente criados e associados a elas, que, embora não seja canônicamente encontrados nas leituras científicas, figuram no dia-a-dia, entre leigos e “esclarecidos”, seja entre heteros ou homossexuais. Tais vivências envolveriam tanto os vários tipos de “homossexuais” masculinos e femininos, quanto os “bissexuais”, “transexuais”, “travestis” e “intersexuais” - abrangendo as diversas variações no prisma multicolorido da sexualidade humana.
Assim, além desses termos comumente empregados, encontrariamos:
- os gays, bichas, bichinhas pão com ovo, bibas, monas, bofes, pitboys;
- as lésbicas, sapatões/sapatonas, ladies, melissinhas, góbis, bofões, bolachões;
- os bissexuais, “curiosos”, HxH, MxM;
- as drags, transformistas, “transdresseds”;
- as/os trangêneros, e
- intersexuais.
Todas essas e muitas outras expressões existem, são utilizadas no nosso cotidiano, muitas vezes de forma pejorativa, inclusive dentro da própria “comunidade” GLSBTTI. Alguns termos e vivências não dizem respeito necessariamente à homossexualidade - enquanto comportamento e papéis social e sexual -, mas está incutida no imaginário gay, como a questão das “drags” e “travestis”. Outros estão ainda restrito ao campo médico, sendo ainda “obscura” ou velada a sua manifestação social, como no caso dos intersexuais, sendo ainda um campo a ser desbravado na psicologia.
Em todo o caso, tamanha diversidade de expressões denotam bem que há um polimorfismo de manifestações da sexualidade, que vai muito além do tema da homossexualidade, mas que está intimamente vinculado a ele, tanto no imaginário coletivo, como nas buscas e tentativas de se configurar uma suposta e tão distante identidade gay, ou de “comunidade gay”.
Também o que observo, dentro deste movimento, oras coletivo, oras individual, de afirmação e firmação, é que não existe consenso nem comunicação efetiva. Nem todos comungam dos mesmos valores, dos mesmos signos, das mesmas experiências de construção e descoberta de si enquanto gay, lésbica, bi, etc etc. O gay não é o mesmo HxH, nem a bicha é o bofe, e não há uma identificação entre eles que não tragam consigo a marca da diferença e ruídos, fronteiras e conflitos. Nem sempre gay e lésbicas convivem harmoniosamente uns com os outros, e estranham, e “brincam” de maneira às vezes chistosa da sua “diferença”.
E, o que considero ainda mais sutil e passível de reflexão e crítica é, muitas vezes, a formação de uma pseudo identidade gay para se contrapor com a hegemonica heterossexualidade, sob a bandeira do combate à homofobia e a intolerância. Mas, de fato, será que dentro de nós mesmos não há essa mesma semente do preconceito dirigido ao outro “igual a nós”?
O que trago nesse ponto não é a negação da existencia da homofobia ou do preconceito de heterossexuais sobre homossexuais, mas a sim a relativização desta idéia, desta crença, ao levarmos em conta que nem todos são iguais e nem todos pensam da mesma forma. Até entre os heterossexuais há diferentes vivencias e formas de ver o mundo: o pai de familia, o padre, o putão, o galinha, a dona de casa, a estudante, a piriguete, a puta, a beata…
No final, todos eles não passam de tipos. Papéis incorporados, passíveis de crítica, de reflexão, de ressignificação. Cristalizações de valores, crenças, modos de viver e existir norteados por perspectivas diversas de ver e experimentar o mundo.
Dessa forma, tanto heterossexuais como homossexuais, trazem dentro de si, como categorias que são, diversas formas e manifestações de existir, que não necessariamente são coerentes e comungam de uma mesma realidade, de uma mesma visão de mundo, de homem, nem são vividas da mesma forma em sociedade. Estabelecer fronteiras entre estas duas categorias, também, abacam por delimitar, artificialmente, limites nem sempre vividos com separação, oposição e tensão de forças antagonicas ou discordantes.
Creio que é, nas relações interpessoais, no campo da vivência real entre pessoa e pessoa, que as diferenças verdadeiramente se manifestam e tem seus valores e sentidos negociados. As fronteiras são demarcadas no embate diário com nós mesmos e entre o “eu” e o “outro”, sejam os protagonistas desse encontro gay, lesbica, hetero, trans, bi, …
Assim, creio que a diferença não antecede o sujeito, mas se manifesta nele na sua forma de se relacionar com o outro, contextualmente implicado, atuando e interagindo. Ser homossexual, então, se esvazia, ao meu ver, assim como ser heterossexual, enquanto categoria abstrata, se desvinculada da vivência real de cada pessoa no mundo, no contato com os outros, construindo e re-construindo a si e ao outro, com plena liberdade de ser e estar a cada momento como único em sua experiência.
Palavras-chave: homossexual, homossexualidade, homossexualismo
Tags: homossexual, homossexualidade, homossexualismo, Psicologia, Sexualidade
[...] Luiz Fernando Calaça fez um artigo em seu site sobre Vivências e divergências na homossexualidade inspirado no debate que se seguiu a publicação do artigo, vale dar uma passada lá e [...]
Sua visão da fragmentação das diversas possíveis identidades homossexuais e afins me parece bastante coerente. Sim, é difícil comportá-los em uma única “comunidade”.
O problema que vejo é que este discurso só é lembrado nos momentos em que há afirmação de uma (ou alguma) identidade não hetero-normativa: alguém vêm e grita: “não existem homossexuais enquanto comunidade!” ou “A homossexualidade é uma invenção social”. Sim, claro, certíssimo! Mas esta lembrança não ocorre em coletividades heterossexuais embora fosse igualmente verdadeiro, soaria asburdo (porque o é) questionar um fato social apenas por compreender suas limitações contextuais e temporais. No entanto vejo artigos confortavelmente questionando a relatividade de existir uma “comunidade gay” para falar de um evento como a parada LGBT que aglutina milhões de pessoas, por exemplo. A quem serve este discurso? Por que ele não soa tão estranho como alguém precisar lembrar que heterossexualidade não existe ao falar da dinâmica da paquera em um baile funk? Minha impressão é que o discurso hetero-normativo esta internalizado no olhar daqueles que se propõem a analisar os fenômenos homossexuais e transgêneros. E isto sim, acaba por repetir modelos e impossibilitar as manifestações das múltiplas identidades.
Ademais, se formos pensar em identidades “abstratas” seria este adjetivo talvez mais pertinentes ao heterossexual que aos GLBTTI já que o segundo grupo ao menos compartilha da marginalidade de direitos que circunscreve socialmente a todos que não partilham da hetero-normatividade.
Bem… deixe-me pensar.
Primeiro, não concordo com a idéia de que “A homossexualidade é uma invenção social”. Ela é uma das muitas manifestação do humano, social, sexual, envolvendo aspectos ligados à construção da subjetividade individual e construções culturais. Mas, considerando a idéia de “comunidade” em si mesma um ideal, por pressupor um compartilhamento de crenças e hábitos, uma “linguagem comum” que são preservados e cultivados dentro de um grupo, creio sim, que não existe uma comunidade gay, como n existe uma comunidade heterossexual, ou qualquer outra comunidade em si, que sobreviva de forma homogênea e coerente com valores definidos.
Segundo, acho dificil enquadrar um movimento coletivo diretamente à uma dimensão social. Juntar pessoas num mesmo lugar não garante a socialidade entre elas. Como grupo, deveria-se haver um compartilhamento, se não de valores, de objetivos. Sejam em paradas ou em eventos de qualquer forma, tais manifestações voletivas se dão através não de um movimento comum, de ideais comuns, mas de posturas fragmentadas e “dirigidas” muitas vezes politicamente, para afirmar um lugar que, no final das contas, creio eu, existe no nível das relações interpessoais e são negociados. Negociações que nem sempre são amistosas, envolvem conflitos e oposições, como em qualquer outro espaço onde visões de mundo são confrontadas.
Creio que apontar para uma visão “hetero-normativa” como paradigma dominante, e dicotomizá-lo em oposição às outras formas de vivencia da sexualidade e de papeis sociais é perigoso. Recai, creio eu, num dualismo maniqueista, que reduz a complexidade do fenêmeno e pode, sim, levar a uma visão enviezada, “homo-normativa”. Não concordo com dicotomias, e com manifestações que, socialmente, alimentam tais posicionamentos. Creio na diversidade sem ponto de referencia, descentrada, onde é possível vislumbrar o multiplo sem ter, necessariamente, de cair em polarizações.
Sobre a condição de marginalidade dos GLBTTI, creio que isso por si só não sustenta uma integração, uma coesão que justivique esse rótulo grupal. Até compreendo que para adquirir certa voz e visibilidade tenha sido necessário se diferenciar do cânone, dos valores morais patriarcais, machistas, heterocêntricos. Porém, manter essa oposição, considerar as manifestações GLBTTI como pertencentes a uma mesma realidade, uma mesma categoria, um mesmo modo de estar no mundo, é por demais limitante quanto às possibilidade de singularização de cada uma dessas múltiplas possivilidades, desconsiderando as incoerencias, incongruências e divergências entre cada “letra” dessa sigla. nem todos se aceitam, nem todos se respeitam, mas podem se suportar - tolerar visando dar e receber suporte num movimento de afirmação política do minoritário.
E, antes de tudo, é importante leva em conta as micro-relações, para evitar incorrer no risco de esquecer a vivencia pessoal de cada sujeito em sua construção. A realidade vivda não condiz em nada ao ideal que uma categorial social macro pretende abarcar. E a homossexualidade, ou as multiplas manifestações possíveis da sexualidade, em si não abrange todas as dimensões existenciais possíveis, nem é a mais significativa. Junto a ela se associa outros papéis (cor da pele, classe social, religião, gênero, sexo, localização espaço-temporal), e, tais dimensões estão sim circunscritas em contextos que definem formas diferentes de viver e significar a experiência de ser pessoa.
Um gay brasileiro de periferia, negro ou evagélico não é igual a um pardo de classe média urbana. E, muitas vezes, a possibilidade de contato entre eles pode ser praticamente impossível, ou realizada com ruidos e matizes de perconceito r intolerancia que talvez não se manifeste da mesma maneira em contextos mais proximos desses sujeitos.
Compreender um fenômeno social não justifica o esvaziamento do idiossincrático. O singular é mais real e mais próximo da verdadeira vivencia que o coletivo “agregador de diferenças”. Ao agregar tudo, se perde a diversidade e as multiplas vozes, que se tornam mudas e ignoradas.
Um discurso como o que eu apoio, o qustonamento que eu lanço, vem, antes de tudo, não no sentido de anular o significado histórico do movimento de construção de um mito necessário para a construção cultural do sentido de homossexualidade, mas sim voltado para demarcar as contradições e o espaço do vivido, em respeio ás multiplas possibilidades de ser e escolher viver a sexualidade, singularmente, individualmente, como pessoa.
Quando eu falo da existência dos homossexuais como grupo é enquanto fenômeno social: neste aspecto pouco importa se cada homossexual detestasse a companhia do outro, por exemplo, ainda existiria o grupo pois são vistos e tratados de forma diferenciada dos demais em um aspecto comum. É neste sentido e não no de movimento homossexual que falo desta “comunidade”.
Reconhecer a visão hetero-normativa não significa validá-la, nem encorajar a dicotomia, mas entender como se configuram as disposições de papéis como se apresentam hoje. Tampouco compreender um fenômeno em seu nível macro é negar as ações inter-subjetivas que acontecem e inclusive as vezes contrariam-no. É preciso estar atento a escala que usamos para observar pois se “Compreender um fenômeno social não justifica o esvaziamento do idiossincrático.” o inverso é igualmente verdadeiro.
Acho lúcida sua posição e concordo com a maior parte do que diz. O que me preocupa não são os conceitos aqui apresentados mas o uso seletivo deste discurso que muitos vezes acontece.
Concordo com você sobre a questão do uso seletivo do discurso, e do viés que trago no meu texto. Quando apresento minha descrença sobre a existência de uma comunidade gay unificada - esse próprio “unificado” seria redundante quando referente a uma com-unidade” - não é no sentido de negar a existencia de um movimento - no sentido de algo que se move - social por parte dos gays, lésbicas, etc etc, mas sim para a sua condição artificial, construida de fora pra dentro, de cima pra baixo, circunscrita por líderes que agregam outras pessoas em um movimento coletivo. Nesse movimento, no entanto, nem todos tem voz, de fato, como teria numa comunidade, e nem sempre são representados de fato, pois se misturam, sem que cada voz seja de fato ouvida. É claro que isso também não acontece entre os heteros. Nem todos são livres para se expressar publicamente e podem ser presos, por exemplo, se se manifestam e se posicionam politicamente, publicamente. Agrupar-se dá uma certa proteção e fortalece as possibilidades de se manifestar e se posicionar, exigir por direitos, mas, mesmo assim, existirão sempre aqueles que ficaram a margem desse processo e continuaram segregados, mesmo dentro do grupo organizado.
Mas quando trago isso trago um incomodo que é meu e trago minha perspoectiva pessoal do fenômeno, minha posição política talvez cética demais e pessimista, minha descrença nos movimentos sociais e na política em geral. E, principalmente, na ciência que se ocupa da construção e no estabelecimento de discursos. Prefiro sempre me balizar por uma perspectiva microgenética, do singular, das construções cotidianas, da vivência real da experiência, por isso sou mais simpático da perspectiva clínica que da social, na Psicologia. Isso não significa dizer que eu deixo de olhar o social, mas o vejo na realidade do sujeito em sua individualidade. Quando trago todos esses “tipos” e mostro as divergências e contradições existentes nas relações interpessoais é justamente no sentido de evidenciar essa dimensão micro que é mutas vezes desconsiderada dos estudos das ciências sociais que, quando não reduzem o sujeito a dados numéricos estatísticos, o abstrai, integrando-o a categorias conceituais macro, que desconsideram completamente o idiossincrático, o singular. E, para mim, o singular é a regra e não a exceção. A vivência vem antes da teoria. O censo comum vem antes da ciência. E desconsiderar isso é negar a vida como ela de fato se apresenta.