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	<title>Luiz Fernando Calaça &#187; Cotidiano</title>
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	<description>Gestalt, Arte e Literatura</description>
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		<title>Roberto Piva: Literatura e (homo)sexualidade como transgressão, mística e resistência</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Apr 2008 01:53:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagem]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Numa madrugada de 2004, sapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa madrugada de 2004,<strong> </strong>sapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte.<span> </span>Fiquei esperando e assisti ao documentário <em>Assombrações Urbanas com Roberto Piva</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><span> </span>Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a &#8220;catar&#8221; edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: <strong><em>O Estrangeira na Legião</em></strong> (2006), <strong><em>Malas na mão &amp; asas pretas</em></strong> (2007) e o livro recém saído do prelo, <strong><em>Estranhos sinais de saturno</em></strong> (2008).</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?</p>
<p><script type="text/javascript"><!--
&lt;! 
D(["mb","\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003ePrimeiro: sua\nescrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho\nautobiográfico.\u003cspan\u003e  \u003c/span\u003eEscrita delirante, em\nfluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu\ntateava em meus momentos de criação poética adolescente.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eSegundo: Sua\ntemática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e\ncontestatária, anárquica e \u003cb\u003ejovem\u003c/b\u003e. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eTerceiro: Seu\nsincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica,\natravés de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e\nmarginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eNo\ndocumentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que\nviveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância\nenquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão\nda sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração\n- de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto\nvivência e construção identitária. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eSua escrita,\nno entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia\nde \u0026quot;se assumir\u0026quot; gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de\nsociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada\num deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia\ndo sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da\nliberdade sobre formas repressoras de controle social.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eEm seu livro \u003cb\u003e\u003ci\u003eCoxas\u003c/i\u003e\u003c/b\u003e\n(1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma\nde desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão\nplena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens\ngarotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo\nvalores de \u0026quot;comunidade\u0026quot;. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e\nalucinações em grupo, em comunhão quase religiosa. ",1]
);</p>
<p>// &gt;
// --></script></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico.<span> </span>Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e <strong>jovem</strong>.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração &#8211; de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de &#8220;se assumir&#8221; gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Em seu livro <strong><em>Coxas</em></strong> (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de &#8220;comunidade&#8221;. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa. <script type="text/javascript"><!--
&lt;! 
D(["mb","\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eAo longo de\nsua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência\nmística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de\nretorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão\nespiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens\nincorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e\ninstintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em \u003cb\u003e\u003ci\u003eCiclones\n\u003c/i\u003e\u003c/b\u003e(1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao\nmístico e as experiências xamânicas.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eEssa relação\ncom o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida\npor Peter Fry, em seu livro \u003ci\u003eO que é\nhomossexualidade\u003c/i\u003e, quando se refere à figura do \u003ci style\u003d\"color:rgb(0, 0, 0);font-weight:bold\"\u003eberdache\u003c/i\u003e\u003cspan style\u003d\"color:red\"\u003e \u003c/span\u003e– \u0026quot;homem-mulher\u0026quot; ou\n\u0026quot;mulher-homem\u0026quot; que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no \u0026quot;não lugar\u0026quot;\nentre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado\na figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no\ncandomblé, como em outras práticas religiosas. \u003cspan\u003e \u003c/span\u003eEsse lugar, de certa forma é muitas vezes\nassociado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que\nsão geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e\nrepresentantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa,\nem parte, de ter um quê de verdade. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003ePiva, não só\nem sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um\nintelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por\nser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade\nenquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante,\ntanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na\nvivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição\nao moralismo hipócrito e",1]
);</p>
<p>// &gt;
// --></script>
</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em <strong><em>Ciclones </em></strong>(1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro <em>O que é homossexualidade</em>, quando se refere à figura do <em style="color: #000000; font-weight: bold;">berdache</em><span style="color: red;"> </span>– &#8220;homem-mulher&#8221; ou &#8220;mulher-homem&#8221; que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no &#8220;não lugar&#8221; entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. <span> </span>Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e<script type="text/javascript"><!--
&lt;! 
D(["mb","\u003cspan\u003e  \u003c/span\u003eopressão e\nrepressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eCreio que\nhoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua\natual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de\ndireito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando\nainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas,\nadoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o \u003cb\u003eJoão Silvério Trevisan\u003c/b\u003e, o Roberto Piva\njá era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda\nnão se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua\nidentidade. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003e \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eAbaixo, segue\nalguns poemas do poeta Roberto Piva:\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003e \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003eLIBELO\u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e  \u003cbr\u003e\n \u003cbr\u003e\nNão mais trarei justificações  \u003cbr\u003e\nAos olhos do mundo.  \u003cbr\u003e\nSerei incluído  \u003cbr\u003e\n\u0026quot; Pormenor Esboçado \u0026quot;  \u003cbr\u003e\nNa grande bruma.  \u003cbr\u003e\nNão serei batizado,  \u003cbr\u003e\nNão serei crismado,  \u003cbr\u003e\nNão estarei doutorado,  \u003cbr\u003e\nNão serei domesticado  \u003cbr\u003e\nPelos rebanhos  \u003cbr\u003e\nDa terra.  \u003cbr\u003e\nMorrerei inocente  \u003cbr\u003e\nSem nunca ter  \u003cbr\u003e\nDescoberto  \u003cbr\u003e\nO que há de bem e mal  \u003cbr\u003e\nDe falso ou certo  \u003cbr\u003e\nNo que vi.\u003c/span\u003e \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e(in:\n\u003ci\u003eAntologia dos Novíssimos\u003c/i\u003e, 1961)\u003c/span\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e",1]
);</p>
<p>// &gt;
// --></script><span> </span>opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.
</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o <strong>João Silvério Trevisan</strong>, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.</p>
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		<title>Meu primeiro ano de faculdade</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Apr 2008 14:55:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
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<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Quando eu entrei no curso de Psicologia da UFBa já havia se passado cerca de 5 meses de quando saiu o resultado. Eu fui aprovado para o 1º semestre do ano de 2004, mas devido ao atraso do calendário, em função do acumulo de greves, as aulas só começaram em maio. Em junho, quando já estávamos “pegando o pique”, houve uma greve que durou 4 meses. Foi uma greve sem sentido, ao meu ver. Reivindicavam coisas diversas, uns alegavam que era por causa da Reforma Universitária, outros reivindicavam melhores condições físicas dos prédios, outros queriam a abertura do restaurante universitário e de um ônibus inter-campi. De tudo isso, só o ônibus saiu do plano das idéias e, mesmo isso, só durou por pouco tempo, por “falta de passageiros”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Lembro-me da primeira semana na faculdade, na recepção dos calouros. Assisti algumas palestras, sobre a história da psicologia no Brasil, sobre luta anti-manicomial e reformulação do currículo do curso de Psicóloga, para melhor se adequar às diretrizes do MEC. Lembro que me empolguei um bocado com a idéia de participar de projeto de pesquisa, muito influenciado por minha irmã, que era bolsista na faculdade de Letras, e via na carreira acadêmica uma possibilidade de continuar estudando e de trabalho. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">(<span style="text-decoration: underline;">Parêntese</span>: Na ocasião da palestra sobre luta anti-manicomial eu travei uma discussão com o aluno que trouxe uma visão bem radical da coisa. Até hoje esse tema não desce bem por minha garganta. Não acho que é possível acabar de vez com todo um processo que se construiu e funcionou – bem ou mal – de uma hora para a outra. Sei que a luta é antiga, mas são muitos os fatores relacionados à questão da doença mental. Família, comunidade, políticas de saúde. Não dá pra simplificar e dizer que fechando os hospitais e criando CAPs vai resolver o problema. Os CAPs também apresentam problemas!)</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Em setembro eu entrei numa pesquisa extra-faculdade, com uma socióloga aposentada. O trabalho era basicamente de arquivista. Ficava horas mexendo em jornais velhos, separando por temas. Muita coisa interessante eu via naquele material. Era um arquivo pessoal que tinha material coletado desde fins do século XIX até 2004. Material sobre a família e a profissão do dono do arquivo, com temas ligados a relações raciais, evasão de talentos, religião e cotidiano. Lembro que eu me divertia lendo alguns artigos. Fiquei nessa pesquisa por um ano de dois meses. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Eu recebia bolsa e com esse dinheiro eu comprava livros, roupas e ia ao cinema. Na ocasião eu tinha entre 18 e 19 anos. Me sentia mais independente por poder custear minhas próprias compras. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Sou de classe média, filho de funcionários públicos, mas sei que as coisas não estão fáceis. Entrar na UFBa foi uma conquista. Não suei tanto, pois sempre fui bom aluno, mas reconheço que é um alívio. Sei que se não tivesse passado numa faculdade pública minha mãe não teria como me manter numa privada. Em fevereiro cheguei a cursar 4 dias de Rui Barbosa, me sentia numa prisão com aqueles corredores revestidos de azulejo. Saiu o resultado da UFBa e eu fiquei feliz, pois não tive que me submeter a uma semana de trote que estava programada para a semana seguinte.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Quando passei na UFBa fui logo visitar São Lázaro. Minha mãe me dizia que era uma decadência só. Eu, na minha cabeça, pensei que seria algo semelhante à Ladeira da Montanha ou o Taboão, com prédios sem janelas, paredes caindo, limo… Besteria! Gostei. Parecia uma “fazenda” – como disse uma professora que me recepcionou. Na época eu queria que construíssem um prédio para o Instituto de Psicologia, em Ondina, perto de Letras. Hoje acho que está bem. São Lázaro é um lugar sossegado, tem verde, as pessoas conversam nos caminhos que vão de um prédio a outro de forma descontraída – a tal disciplina optativa de “Patiologia”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Aprendi muito em conversas informais no corredor. Conheci bons amigos que já se formaram. Me informei e me formei, em parte, nesse “espaço alternativo” da universidade. Mas não gosto da idéia do Fumódromo, das drogas, do pessoal que parece que não toma banho e que pensa que é hippie dos anos 70. Acho muito caricato. Tem gente que eu entrei e já devia estar formado, mas se arrasta no movimento estudantil, como se pudessem mudar o mundo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Não gosto do movimento estudantil. Me irritei terrivelmente no início do curso, com a greve de 4 meses. Já tínhamos perdido 5 meses devido ao atraso do calendário. Acabamos perdendo um semestre. Nada se resolveu. O prédio do “Iguatemi”, condenado pela CODESAL, foi “reformado” em um mês, por 2 funcionários que martelaram e cobriram as rachaduras expostas e caiaram com tinta barata. Fizeram um enxame, arrastaram mais 2 semanas sem aula por causa desse prédio e ficou por isso mesmo. Se esqueceu Reforma Universitária, se esqueceu restaurante universitário, se esqueceu segurança… Muito barulho por nada! Resolvi escolher pela alienação política e investir um pouco mais em minha formação pessoal. Se eu posso “atuar” de alguma forma na sociedade, será pelo meu trabalho e por uma boa formação profissional, não por militância “porra louca”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Fiz isso! Investi na minha formação profissional! No segundo semestre eu me interessei por Gestalt-Terapia, ao assistir as aulas de Lika. No semestre anterior o professor de Sociologia havia dado uma formação básica de “quebra de paradigmas”. Hoje sei que ele tem formação humanista, educador numa linha rogeriana bem não diretiva. Fiz um curso de Abordagem Centrada na Pessoa, já no 5º semestre, e vi que ele se enquadrava no perfil Carl Rogers. Abandonei o curso da ACP porque achei “não diretivo” demais pro meu gosto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Ao final da disciplina de Gestalt, montei meu primeiro grupo de estudos. Me tornei adepto dessa forma alternativa de estudo e tentei montar mais uns 2 ou 3 depois. Li textos de Gestalt-terapia, de Existencialismo e no 4º semestre iniciei meu curso formação – adiantado em relação às outras pessoas, já que se priorizava alunos a partir do 6º semestre. Não me arrependo. Acho que já me encontrei no que gosto, mas mantenho o olhar aberto a várias possibilidades. Não me considero um fanático, mas não nego que tenho uma preferência por visões e abordagens “marginais” dentro da Psicologia. Acho que tenho posições pouco convencionais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Acho que a graduação é um espaço de passagem, nem mais nem menos importante que outros espaços de formação. A universidade não é tudo. Existem outros espaços de aprendizado, existem outras formas de conhecimento a serem descobertos. É importante flertar! Se aventurar, tentar conhecer um bocadinho de tudo, para depois ir fazendo escolhas que tem mais a ver consigo. A universidade não oferece tudo. Existe uma Psicologia que é feita fora da academia, numa vivência “aparentemente” sem regras ou metodologias bem específicas e enquadradas. Sem script, ou com um script mais flexível. Não acho isso ruim. Acho que dá espaço maior para a criação do novo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Entrei no curso de Psicologia porque eu gostava, e ainda gosto, de literatura. Minha irmã fez graduação em Letras, me dava aula de Teoria da Literatura quando eu ainda era estudante secundarista. No quarto semestre eu fiz uma disciplina em Letras. Fechei com 10, e a professora ainda disse que eu escrevia como aluno de pós-graduação. Eu fazia uma miscelânea. Joguei Freud no meio da prova e dei asas a minha imaginação. Sem querer me gabar, acho que eu sou muito cara de pau às vezes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">No segundo semestre fui para meu primeiro evento científico. Foi uma jornada de Psicologia organizada pelos alunos da UNIFACS. No mesmo período estava tento um Encontro Nacional de Psicologia. Optei pelo da UNIFACS. Depois me senti um besta, pois o valor da inscrição do Nacional foi “razoavelmente” em conta (R$ 120,00!!!) Não me arrependo! Assisti palestras sobre literatura, filosofia, música e fiz um workshop sobre arte-terapia gestáltica. Me encontrei, definitivamente. Era isso o que eu queria. Uma articulação entre psicologia e arte. Assisti também uma palestra de um gestaltista que veio para o Nacional e falou sobre as “Atualidade da Gestalt Terapia”. Ele falou de Nietzsche e da influencia do Expressionismo alemão sobre a Gestalt. Anos mais tarde, em 2007, eu fiz um trabalho e apresentei no Rio de Janeiro, sobre a articulação entre Gestalt e Literatura. O expressionismo estava no meio. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"><span style="font-family: Arial;">Acho que esse primeiro ano foi apenas o início de várias descobertas. Me estimulei a pesquisar por conta própria temas que, para mim, fazem sentido, me traduzem. Acho que pra ser um bom profissional tem que ser um apaixonado. Acho que me apaixonei e continuo enamorado, às vezes com crises e brigas. (Não conheço estudante de psicologia que não tenha ou viva em crises!). Mas sempre renovando meu interesse, à medida que descubro novas possibilidades.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: right; text-indent: 35.4pt;" align="right"><span style="font-family: Arial;">Salvador, 9 de abril de 2008.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%; text-align: justify;"><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-indent: 35.4pt; line-height: 150%; text-align: justify;"><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p></mce></p>
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		<title>Vivências e divergências na homossexualidade</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jan 2008 17:52:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[homossexual]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos dias estive pensando sobre a questão da homossexualidade, <strong>não de forma</strong> <strong>abstrata</strong> <strong>e distanciada</strong>, mas implicado neste processo, por ter presenciado um dia de discussões do grupo de estudos UNISEX e por esta fazer parte da minha existência em diversas dimensões e contextos. Na oportunidade, quando nos voltamos para a discussão do livro &#8220;O que é homossexualidade&#8221; de Peter Fry, alguns temas sucitaram debates tais como a questão dos papéis sociais e sexuais, o masculino e feminino, ativo e passivo, os tabus e convenções culturais de povos indigenas e da sociedade ocidental até a década de 80, com implicações e atualizações para os dias atuais.</p>
<p>Na ocasião fiquei mobilizado com um ponto em questão: as diversas vivências e rótulos popularmente criados e associados a elas, que, embora não seja canônicamente encontrados nas leituras científicas, figuram no dia-a-dia, entre leigos e &#8220;esclarecidos&#8221;, seja entre heteros ou homossexuais. Tais vivências envolveriam tanto os vários <strong>tipos</strong> de &#8220;homossexuais&#8221; masculinos e femininos, quanto os &#8220;bissexuais&#8221;, &#8220;transexuais&#8221;, &#8220;travestis&#8221; e &#8220;intersexuais&#8221; &#8211; abrangendo as diversas variações no prisma multicolorido da sexualidade humana.</p>
<p>Assim, além desses termos comumente empregados, encontrariamos:</p>
<p>- os gays, bichas, bichinhas pão com ovo, bibas, monas, bofes, pitboys;</p>
<p>- as lésbicas, sapatões/sapatonas, ladies, melissinhas, góbis, bofões, bolachões;</p>
<p>- os bissexuais, &#8220;curiosos&#8221;, HxH, MxM;</p>
<p>- as drags, transformistas, &#8220;transdresseds&#8221;;</p>
<p>- as/os trangêneros, e</p>
<p>- intersexuais.</p>
<p>Todas essas e muitas outras expressões existem, são utilizadas no nosso cotidiano, muitas vezes de forma pejorativa, inclusive dentro da própria &#8220;comunidade&#8221; GLSBTTI. Alguns termos e vivências não dizem respeito necessariamente à homossexualidade &#8211; enquanto comportamento e papéis social e sexual -, mas está incutida no imaginário gay, como a questão das &#8220;drags&#8221; e &#8220;travestis&#8221;. Outros estão ainda restrito ao campo médico, sendo ainda &#8220;obscura&#8221; ou velada a sua manifestação social, como no caso dos intersexuais, sendo ainda um campo a ser desbravado na psicologia.</p>
<p>Em todo o caso, tamanha diversidade de expressões denotam bem que há um polimorfismo de manifestações da sexualidade, que vai muito além do tema da homossexualidade, mas que está intimamente vinculado a ele, tanto no imaginário coletivo, como nas buscas e tentativas de se configurar uma suposta e tão distante identidade gay, ou de &#8220;comunidade gay&#8221;.</p>
<p>Também o que observo, dentro deste movimento, oras coletivo, oras individual, de afirmação e firmação, é que não existe consenso nem comunicação efetiva. Nem todos comungam dos mesmos valores, dos mesmos signos, das mesmas experiências de construção e descoberta de si enquanto gay, lésbica, bi, etc etc. O gay não é o mesmo HxH, nem a bicha é o bofe, e não há uma identificação entre eles que não tragam consigo a marca da diferença e ruídos, fronteiras e conflitos. Nem sempre gay e lésbicas convivem harmoniosamente uns com os outros, e estranham, e &#8220;brincam&#8221; de maneira às vezes chistosa da sua &#8220;diferença&#8221;.</p>
<p>E, o que considero ainda mais sutil e passível de reflexão e crítica é, muitas vezes, a formação de uma pseudo identidade gay para se contrapor com a hegemonica heterossexualidade, sob a bandeira do combate à homofobia e a intolerância. Mas, de fato, será que dentro de nós mesmos não há essa mesma semente do preconceito dirigido ao outro &#8220;igual a nós&#8221;?</p>
<p>O que trago nesse ponto não é a negação da existencia da homofobia ou do preconceito de heterossexuais sobre homossexuais, mas a sim a relativização desta idéia, desta crença, ao levarmos em conta que nem todos são iguais e nem todos pensam da mesma forma. Até entre os heterossexuais há diferentes vivencias e formas de ver o mundo: o pai de familia, o padre, o putão, o galinha, a dona de casa, a estudante, a piriguete, a puta, a beata&#8230;</p>
<p>No final, todos eles não passam de <strong>tipos</strong>. Papéis incorporados, passíveis de crítica, de reflexão, de ressignificação. Cristalizações de valores, crenças, modos de viver e existir norteados por perspectivas diversas de ver e experimentar o mundo.</p>
<p>Dessa forma, tanto heterossexuais como homossexuais, trazem dentro de si, como <strong>categorias</strong> que são, diversas formas e manifestações de existir, que não necessariamente são coerentes e comungam de uma mesma realidade, de uma mesma visão de mundo, de homem, nem são vividas da mesma forma em sociedade. Estabelecer fronteiras entre estas duas categorias, também, abacam por delimitar, artificialmente, limites nem sempre vividos com separação, oposição e tensão de forças antagonicas ou discordantes.</p>
<p>Creio que é, nas <strong>relações interpessoais</strong>, no campo da vivência real entre pessoa e pessoa, que as diferenças verdadeiramente se manifestam e tem seus valores e sentidos negociados. As fronteiras são demarcadas no embate diário com nós mesmos e entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;, sejam os protagonistas desse encontro gay, lesbica, hetero, trans, bi, &#8230;</p>
<p>Assim, creio que a diferença não antecede o sujeito, mas se manifesta nele na sua forma de se relacionar com o outro, contextualmente implicado, atuando e interagindo. <strong>Ser homossexual</strong>, então, se esvazia, ao meu ver, assim como <strong>ser heterossexual</strong>, enquanto <strong>categoria abstrata</strong>, se desvinculada da vivência real de cada pessoa no mundo, no contato com os outros, construindo e re-construindo a si e ao outro, com plena liberdade de ser e estar a cada momento como único em sua experiência.</p>
<p style="font-size: 10px">Palavras-chave: homossexual, homossexualidade, <a href="http://nucleounisex.org/homossexulismo">homossexualismo</a></p>
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