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	<title>Luiz Fernando Calaça &#187; Linguagem</title>
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	<description>Gestalt, Arte e Literatura</description>
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		<title>Entre a Poética e a Sociologia: Contribuições de Paul Goodman para a Gestalt-Terapia.</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Aug 2008 14:55:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gestalt]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagem]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
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		<description><![CDATA[Luiz Fernando Calaça Neste momento, em que levanto possíveis temas para a minha monografia da pós-graduação em Gestalt-Terapia, me defronto com várias possibilidades de articulação e pontos ainda pouco explorados. Um ponto que vem chamando a minha atenção em especial é a possível articulação entre Gestalt e Literatura, que iniciei a abordar numa articulação histórica [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;" align="right"><strong><span style="font-family: Arial;">Luiz Fernando Calaça </span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Neste momento, em que levanto possíveis temas para a minha monografia da pós-graduação em Gestalt-Terapia, me defronto com várias possibilidades de articulação e pontos ainda pouco explorados. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Um ponto que vem chamando a minha atenção em especial é a possível articulação entre <strong>Gestalt e Literatura</strong>, que iniciei a abordar numa articulação histórica entre as origens da GT, na vida de Perls, e o contexto histórico cultural da Alemanhã pós-1ª Guerra Mundial e nos Estados Unidos da Guerra Fria, com o movimento de Contracultura.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Tenho, desde 2007, tentado refletir sobre a literatura, em especial a escrita autobiográfica, como recurso terapeutico. Nessa busca, tento encontrar alguns atores que abordaram o tema, mesmo que brevemente, em suas obras. Entre eles, encontrei algumas referências <strong>traduzidas para a lingua portuguesa </strong>que merecem nota e que se agrupam em algumas categorias possíveis:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: Arial;">1) A escrita como recurso terapeutico:</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- a passagens no livro <a title="Gestalt Terapia Integrada" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=177197&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong>Gestalt Terapia Integrada</strong></a>, dos Polsters, em que é relatado o momento em que um cliente produz um poema após uma vivência no setting terapeutico, </span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: Arial;">2) A questão da linguagem e a dimensão poética:</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- o capítulo &#8220;Verbalização e Poesia&#8221;, contido no livro de fundação da abordagem gestáltica, o <strong><a title="Gestalt Therapy " href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=31286&amp;ST=SE&amp;FRANQ=268893"><span>Gestalt Therapia</span> </a></strong>do Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman, em que Paul  Goodman se atém à questão da linguagem,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- os capítulos &#8220;A questão da linguagem&#8221; e &#8220;A poética terapeutica&#8221;, do livro <strong><span>A Cara e o rosto: ensaio sobre Gestalt Terapia</span></strong>, da Ana Maria Loffredo, em que ela retoma as reflexões do Paul Goodman e faz articulação com o ensaísta e crítico literário Octávio Paz;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: Arial;">3) O papel do terapeuta como tecelão de histórias:</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- considerações contidas no livro <a title="A arte de restauras histórias" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=176727&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong><span>A arte de restauras histórias</span></strong></a>, da Jean Clark Juliano, em que ela traz o papel do terapeuta como aquele que irá tecer, junto com o cliente, uma colcha a partir de seus fragmentos/retalhos de vida;</span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: Arial;">4) Gestaltistas que escrevem poesia:</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- os poemas e contos presentes nos livros do Paulo Barros, <a title="Narciso e a bruxa e outras histórias psi " href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=177344&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong><span>Narciso e a bruxa e outras histórias psi </span></strong></a>(1994) e <a title="Amor e ética " href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=1706126&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong><span>Amor e ética</span> </strong></a>(2006); </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- os livros de poemas <strong><span>Gestando poesias</span></strong><em><strong>,</strong></em> de Márcia Lilla, e <strong><span>Janelas da Alma</span></strong>, de Silvério Lucio Karwowski </span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong><span style="font-family: Arial;">5) A poesia e as narrativas autobiográficas como forma possível de transmitir a Gestalt:</span></strong></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- o relato em forma de poesia do caso clínico de atendimento com crianças em arte-terapia gestaltica “<span>A cólera e a cadeira de balanço”</span>, de J. Lederman, contido no livro <strong>Gestalt Terapia: teoria, técnicas e aplicações</strong>, de Fagan e Shepherd (1980)<span style="color: black;">;</span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- passagens contidas nas teorizações do Jorge Ponciano Ribeiro, em especial, seu livro <a title="Ruidos: Contato, luz e liberdade: um jeito gestaltista de falar do espaço e do tempo vividos" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=1695728&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong><span>Ruidos: Contato, luz e liberdade: um jeito gestaltista de falar do espaço e do tempo vividos</span></strong></a><em> </em>(2006);</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- a autobiografia do Fritz Perls, <a title="Escarafuchando Fritz, dentro e fora da lata de lixo " href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=26057&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong><span>Escarafuchando Fritz, dentro e fora da lata de lixo</span> </strong></a>(1969/1979);</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- o relato autobiográfico da Barry Stevens sobre sua experiência no kibutz gestaltico do Fritz, <strong><a title="Não Apresse o rio, ele corre sozinho" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=45713&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><span>Não Apresse o rio, ele corre sozinho</span></a> </strong>(1970/1979).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">- relatos de experiência e da história da Gestalt Terapia no Brasil, contidos no livro <strong><span>A arte de restaurar histórias</span></strong> e no artigo <span><!--[if gte mso 9]><xml> <u1 :WordDocument> </u1><u1 :View>Normal</u1> <u1 :Zoom>0</u1> <u1 :HyphenationZone>21</u1> <u1 :PunctuationKerning /> <u1 :ValidateAgainstSchemas /> <u1 :SaveIfXMLInvalid>false</u1> <u1 :IgnoreMixedContent>false</u1> <u1 :AlwaysShowPlaceholderText>false</u1> <u1 :Compatibility> <u1 :BreakWrappedTables /> <u1 :SnapToGridInCell /> <u1 :WrapTextWithPunct /> <u1 :UseAsianBreakRules /> <u1 :DontGrowAutofit /> </u1> <u1 :BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4</u1> </xml>< ![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml> <u2 :LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156"> </u2> </xml>< ![endif]-->&#8220;Gestalt-terapia: revisitando as nossas histórias&#8221;</span>, publicado na revista eletrônica IGT na Rede, de <span style="color: black;"> </span>Jean Clark Juliano.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Essas referências, embora sejam valiosas para esboçar um panorana, me parecem insuficientes para se fazr uma articulação teórica entre Gestalt e Literatura. A única obra que conheço que faz essa articulação é o livro <strong><a title="Psicologia e Literatura" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=197423&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><span>Psicologia e Literatura</span></a> </strong>(1962), de Dante Moreira Leite. A articulação feita por ele, no entanto,   se refere não é a Gestalt Terapia, mas sim à <strong>Psicologia da Gestalt</strong>, de Koffka, Kohler e Wertheimer. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Diante dessa carência de teorização, atualmente tenho buscado na literatura em lingua inglêsa essas referências. </span><span style="font-family: Arial;">Dentre esses livros, encontrei o<strong> <span>Every Person&#8217;s life is worh a novel</span></strong> (1987), do Erving Poster, e os livros <strong><span>Speaking and Language: defence of Poetry</span></strong> (1972), <strong><span>Nature Heals: Psychological Essays</span> </strong>(1977) e <strong><span>Creator spirit come: the literary essays of Paul Goodman</span> </strong>(1979) do Paul Goodman. </span><span style="font-family: Arial;">Essas obras infelizmente não tem tradução para o português. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">O livro do Polster é interessante por, além de trazer relatos de casos clínicos, à <a title="Yalon" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=402362&amp;ST=SE&amp;franq=268893">Yallon</a>, traz a perspectiva da narrativa autobiográfica, de considerar o contexto terapeutico como um espaço narrativo, e a natureza historiada da experiência do vivido.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Já os livros do Paul Goodman vão para além do campo psicoterapeutico e articula campos do saber como a Linguistica, a Sociologia e a Crítica Literária.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Sua contribuição para a Gestalt-Terapia, infelizmente,  tende a ser considerada muito mais como marco histórico &#8211; por constituir o grupo dos 7 -, não sendo, a meu ver, devidamente valorizado e estudado aqui no Brasil. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Paul Goodman sofre críticas em relação ao  aparente &#8220;hermetismo&#8221; da sua escrita da parte teórica do Gestalt Therapy. Eu compreendo  essa questão principalmente no que tange o desejo de a Gestalt nascente estar buscando uma <strong>aceitação científica</strong> entre os psicólogos americanos e estar <strong>preocupada em romper com a Psicanálise</strong>,  o que faz com que suas teorizações se utilizem de uma linguagem que, em muitos aspectos, é formal e rebuscada, se utilizando de modelos explicativos  ainda atrelado a conceitos psicanalíticos.  Essa crítica ao <strong>Gestalt Therapy </strong>está também muito influenciada pela tradução da obra para a lingua portuguesa, e que pode, por isso, trazer problemas de entendimento que talvez não exista na obra em inglês.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Historicamente, a Gestalt Terapia brasileira veio muito influenciada pelo modelo adotado pelo Fritz Perls, baseado nos workshops e trabalhos vivenciais, na década de 70. O que pouco se discute, exceto por alguns poucos autores, é que <strong>a Gestalt Terapia se desenvolveu inicialmente em</strong> <strong>duas vertentes</strong>, uma &#8220;californiana&#8221; &#8211; a do Perls, desenvolvida em Esalen &#8211; e outra &#8220;novaiorquina&#8221;, pela Laura Perls e pelo Paul Goodman, desenvolvida pelo Instituto de Gestalt Terapia de Nova Yok. Essa segunda vertente se preocupava muito mais numa sistematização teórica e conceitual, e não tanto nas vivências. Infelizmente, tanto a Laura quanto o Paul Goodman, escreveram pouco em Gestalt Terapia, e o que foi escrito por eles não foi traduzido para o português, havendo pouquíssimas referências a seus trabalhos. Diferentemente da realidade brasileira, nos Estados Unidos há extensa publicações do Paul Goodman e sobre ele, organizada por Taylor Stoehr. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">A obra de Paul Goodman traz consigo um caráter multiteórico e transdisciplinar &#8211; tão valorizado hoje nso meios universitários, porém tão pouco posto em prática &#8211; articulando diversos campos de conhecimento e temáticas. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">A formação do Paul Goodman, em especial o seu <strong>doutorado em Humanidades</strong>, faz dele um intelectual eclético, que articula Filosofia, Linguística, Literatura, Psicologia, Arquitetura, Sociologia e Política. Suas obras articulam conceitos e pontos de vistas de autores como Witgenstein, Chomski, Freud, Reich, Buber, Kant, Hume, etc, demosntrando vasto conhecimento e erudição.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Sua formação anarquista e sua militância política dentro do movimento da Caontracultura, fez dele um intelectual que pensava sua realidade, panfletário e crítico ao capitalismo armamentista, opondo-se ao movimento da <strong>Guerra Fria</strong> e à Guerra do Vietnã, e dando visibilidade a questões sociais de políticas identitárias como o <strong>movimento negro</strong> americano e a questão da homossexualidade, sendo, neste último, um dos iniciadores da <a title="Teoria Queer" href="http://www.submarino.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&amp;ProdTypeId=1&amp;ProdId=245868&amp;ST=SE&amp;franq=268893"><strong>Teoria Queer</strong></a>. Ao minifestar sua bissexualidade como forma de estar no mundo, Paul Goodman expressa o ideal libertário de relativismo e transvaloração dos papéis sexuais e valores sociais, primando pela liberdade de ser o que se é.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Tal amplitude de sua ação política e de seus focos de reflexão intelectual, aponta, dentro da Gestalt Terapia, para uma contribuição maior e mais ampla que a meramente histórica. As discussões e militâncias dele, e seu engajamento nas origens da Gestalt Terapia, estão diretamente vinculadas à dimensão transgressiva e libertária desta abordagem, como uma vertente em psicoterapia que busca a valorização do humano e confirmação de sua forma de ser no mundo, lutando no caminho da autenticidade, da liberdade e responsabilidade existencial, dirigida a um mundo menos &#8220;neurótico&#8221; e mais comunitário. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;">Creio que, na mesma proporção em que a Gestalt Terapia herda seus fundamentos filosóficos da Fenomenologia do Brentano e do Husserl, da Ontologia de Heidegger, do Existencialismo de Sartre, da dialética da Indiferenca Criativa do Friedlaender, do Existencialismo dialógico de Martin Buber, do Zen-Budismo, e suas bases teóricas da Psicologia da Gestalt do Koffka, Kohler e Wertheimer,  da Teoria de Campo do Kurt Lewin e da Teoria Organísmica do Kurt Goldstein, ela também deve a Paul Goodman sua &#8220;<strong>Sociologia Utópica</strong>&#8220;, como ele mesmo qualifica seu pensamento, ou, simplesmente, a suas aspirações libertárias e de emancipação do homem e da sociedade. Sem deixar, é claro, de levar em conta o seu olhar para a <strong>dimensão poética</strong>, daquele que age e atua, é autor e tradutor do mundo em que vive.</span></p>
<p style="text-align: justify;">
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<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style="font-family: Arial;"> </span></p>
<p></mce></p>
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		<title>Roberto Piva: Literatura e (homo)sexualidade como transgressão, mística e resistência</title>
		<link>http://lfcalaca.com/literatura/roberto-piva-literatura-e-homosexualidade-como-transgressao-mistica-e-resistencia.html</link>
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		<pubDate>Tue, 15 Apr 2008 01:53:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagem]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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		<description><![CDATA[Numa madrugada de 2004, sapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa madrugada de 2004,<strong> </strong>sapeando os canais de televisão, vi o anúncio de um documentário sobre o poeta paulista Roberto Piva, que seria exibido logo depois na TV Cultura. Desde os 11 anos eu passei a me interessar por literatura, comecei a escrever poemas em 2001 e sempre que possível eu assistia programas na TV sobre a vida de escritores ou sobre arte.<span> </span>Fiquei esperando e assisti ao documentário <em>Assombrações Urbanas com Roberto Piva</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><span> </span>Tratava-se de um documentário feito sobre a visão da cidade de São Paulo a luz da poesia deste poeta. Nunca antes eu havia ouvido falar dele. Ao assisti, me apaixonei, tornando-me leitor e admirador de sua poesia, chegando a &#8220;catar&#8221; edições esgotadas de sua obra em sebos e dando pulos de alegria quando vi ser lançada os três volumes de sua Obra Reunida, pela Editora Globo: <strong><em>O Estrangeira na Legião</em></strong> (2006), <strong><em>Malas na mão &amp; asas pretas</em></strong> (2007) e o livro recém saído do prelo, <strong><em>Estranhos sinais de saturno</em></strong> (2008).</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">O que havia em sua escrita que me causou tanto interesse?</p>
<p><script type="text/javascript"><!--
&lt;! 
D(["mb","\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003ePrimeiro: sua\nescrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho\nautobiográfico.\u003cspan\u003e  \u003c/span\u003eEscrita delirante, em\nfluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu\ntateava em meus momentos de criação poética adolescente.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eSegundo: Sua\ntemática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e\ncontestatária, anárquica e \u003cb\u003ejovem\u003c/b\u003e. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eTerceiro: Seu\nsincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica,\natravés de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e\nmarginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eNo\ndocumentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que\nviveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância\nenquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão\nda sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração\n- de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto\nvivência e construção identitária. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eSua escrita,\nno entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia\nde \u0026quot;se assumir\u0026quot; gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de\nsociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada\num deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia\ndo sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da\nliberdade sobre formas repressoras de controle social.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eEm seu livro \u003cb\u003e\u003ci\u003eCoxas\u003c/i\u003e\u003c/b\u003e\n(1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma\nde desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão\nplena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens\ngarotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo\nvalores de \u0026quot;comunidade\u0026quot;. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e\nalucinações em grupo, em comunhão quase religiosa. ",1]
);</p>
<p>// &gt;
// --></script></p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Primeiro: sua escrita, de explícita influência surrealista, tem forte cunho autobiográfico.<span> </span>Escrita delirante, em fluxo de consciência, pulsante e alucinada, de forma semelhante à que eu tateava em meus momentos de criação poética adolescente.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Segundo: Sua temática homoerótica, sexual e transgressiva, sem falsos moralismos e contestatária, anárquica e <strong>jovem</strong>.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Terceiro: Seu sincretismo religioso e estético e erudição. Sua escrita que ressignifica, através de uma apropriação pessoal, referências mil da literatura clássica e marginal, da filosofia existencialista, do cinema de vanguarda, das artes.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">No documentário Assombrações Urbanas há vários depoimentos de intelectuais que viveram o contesto de produção da obra de Piva e reconhecem sua importância enquanto representante e ícone na literatura brasileira da temática e da expressão da sexualidade e do homoerotismo como forma de transgressão – ou transvaloração &#8211; de valores burgueses e da livre expressão da homossexualidade enquanto vivência e construção identitária.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Sua escrita, no entanto, não é militante, mas crítica. Segundo o próprio poeta, essa idéia de &#8220;se assumir&#8221; gay, lésbica é uma reprodução de um modelo bancário de sociedade, que tenta dividir as coisas, rotular para controlar. Dizer como cada um deve ser e se comportar. Sua afirmação da homossexualidade se dá pela primazia do sexo como manifestação e afirmação da potência de vida, exercício da liberdade sobre formas repressoras de controle social.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Em seu livro <strong><em>Coxas</em></strong> (1979) fica explícita essa apologia à vivencia plena da sexualidade como forma de desconstrução e afirmação de valores de liberdade, vitalidade e expressão plena da condição humana. O sexo, na maioria das vezes realizado entre jovens garotos, se dá de forma coletiva, em orgias, que na realidade traz consigo valores de &#8220;comunidade&#8221;. Jovens pederastas que vivenciam o sexo, os delírios e alucinações em grupo, em comunhão quase religiosa. <script type="text/javascript"><!--
&lt;! 
D(["mb","\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eAo longo de\nsua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência\nmística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de\nretorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão\nespiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens\nincorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e\ninstintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em \u003cb\u003e\u003ci\u003eCiclones\n\u003c/i\u003e\u003c/b\u003e(1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao\nmístico e as experiências xamânicas.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eEssa relação\ncom o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida\npor Peter Fry, em seu livro \u003ci\u003eO que é\nhomossexualidade\u003c/i\u003e, quando se refere à figura do \u003ci style\u003d\"color:rgb(0, 0, 0);font-weight:bold\"\u003eberdache\u003c/i\u003e\u003cspan style\u003d\"color:red\"\u003e \u003c/span\u003e– \u0026quot;homem-mulher\u0026quot; ou\n\u0026quot;mulher-homem\u0026quot; que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no \u0026quot;não lugar\u0026quot;\nentre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado\na figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no\ncandomblé, como em outras práticas religiosas. \u003cspan\u003e \u003c/span\u003eEsse lugar, de certa forma é muitas vezes\nassociado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que\nsão geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e\nrepresentantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa,\nem parte, de ter um quê de verdade. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003ePiva, não só\nem sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um\nintelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por\nser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade\nenquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante,\ntanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na\nvivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição\nao moralismo hipócrito e",1]
);</p>
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</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Ao longo de sua obra, Piva aborda a sexualidade de forma tal que se aproxima da experiência mística e religiosa. A religião, nesse sentido, remete a um sentido radical, de retorno às raízes ancestrais indígenas, aos rituais xamânicos e de conversão espiritual, possessão das formas da natureza, animalista. Assim, os jovens incorporam nomes de animais selvagens e seu sexo é expressão das forças e instintos da natureza. Tanto na obra Coxas (1979) quando em <strong><em>Ciclones </em></strong>(1997), quando seus poemas ganham formas mais solenes de reverência ao místico e as experiências xamânicas.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Essa relação com o mundo místico e religioso, agora, me faz lembrar da compreensão trazida por Peter Fry, em seu livro <em>O que é homossexualidade</em>, quando se refere à figura do <em style="color: #000000; font-weight: bold;">berdache</em><span style="color: red;"> </span>– &#8220;homem-mulher&#8221; ou &#8220;mulher-homem&#8221; que ocupa um lugar de transgressão, por se situar no &#8220;não lugar&#8221; entre os papéis sociais e sexuais do masculino e feminino, geralmente associado a figuras de poder social ligado ao sagrado, como líderes espirituais, tanto no candomblé, como em outras práticas religiosas. <span> </span>Esse lugar, de certa forma é muitas vezes associado ao homossexual, quando se reproduz a crença e o esteriótipo de que são geralmente pessoas mais cultas, com sensibilidade artística e representantes da intelectualidade acadêmica ou religiosos – o que não deixa, em parte, de ter um quê de verdade.</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Piva, não só em sua poesia, como em sua vida, incorpora esse lugar, tanto por ser um intelectual e erudito, conhecedor de arte, literatura e filosofia, quando por ser xamã, praticando rituais de cura. Mas, principalmente sua notoriedade enquanto representante dessa voz transgressiva e crítica é que se faz marcante, tanto em sua poesia, ao longo de 40 anos de produção marginal, quando na vivência e afirmação da homossexualidade, como forma de resistência e oposição ao moralismo hipócrito e<script type="text/javascript"><!--
&lt;! 
D(["mb","\u003cspan\u003e  \u003c/span\u003eopressão e\nrepressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eCreio que\nhoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua\natual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de\ndireito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando\nainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas,\nadoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o \u003cb\u003eJoão Silvério Trevisan\u003c/b\u003e, o Roberto Piva\njá era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda\nnão se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua\nidentidade. \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003e \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003eAbaixo, segue\nalguns poemas do poeta Roberto Piva:\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"text-align:justify;text-indent:35.4pt\"\u003e \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003eLIBELO\u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e  \u003cbr\u003e\n \u003cbr\u003e\nNão mais trarei justificações  \u003cbr\u003e\nAos olhos do mundo.  \u003cbr\u003e\nSerei incluído  \u003cbr\u003e\n\u0026quot; Pormenor Esboçado \u0026quot;  \u003cbr\u003e\nNa grande bruma.  \u003cbr\u003e\nNão serei batizado,  \u003cbr\u003e\nNão serei crismado,  \u003cbr\u003e\nNão estarei doutorado,  \u003cbr\u003e\nNão serei domesticado  \u003cbr\u003e\nPelos rebanhos  \u003cbr\u003e\nDa terra.  \u003cbr\u003e\nMorrerei inocente  \u003cbr\u003e\nSem nunca ter  \u003cbr\u003e\nDescoberto  \u003cbr\u003e\nO que há de bem e mal  \u003cbr\u003e\nDe falso ou certo  \u003cbr\u003e\nNo que vi.\u003c/span\u003e \u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e(in:\n\u003ci\u003eAntologia dos Novíssimos\u003c/i\u003e, 1961)\u003c/span\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e\u003cb\u003e\u003cspan style\u003d\"font-size:10pt\"\u003e \u003c/span\u003e\u003c/b\u003e\u003c/p\u003e\n\n\u003cp style\u003d\"margin:0cm 0cm 0.0001pt 108pt\"\u003e",1]
);</p>
<p>// &gt;
// --></script><span> </span>opressão e repressão à livre vivência da sexualidade e dos direitos humanos.
</p>
<p style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;">Creio que hoje, mais de 40 anos depois da início de sua produção literária, Piva continua atual, num contexto social e político que ainda está muito aquém dos ideais de direito a igualdade e liberdade social do exercício da sexualidade, quando ainda se luta pelo direito à legalização da união civil entre gays e lésbicas, adoção e da presença da homofobia em nosso cotidiano. Como diria o <strong>João Silvério Trevisan</strong>, o Roberto Piva já era referência da livre vivencia da homossexualidade, num tempo em que ainda não se tinha nada em que o jovem pudesse se espelhar para construir sua identidade.</p>
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		<title>Linguagem e a poesia na Psicanálise: transitos entre Lacan e Octávio Paz e um olhar incerto para o futuro.*</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Dec 2007 14:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Fernando Calaça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Linguagem]]></category>
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		<description><![CDATA[Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior O inconsciente é linguagem, na psicanálise. O homem é linguagem, posto que é ser de cultura. Essas duas sentenças, em certa medida, traduzem o pensamento psicanalítico sobre a questão da linguagem, pensada por Lacan, que, ao fazer uma releitura da psicanálise de Freud, em associação a uma perspectiva estruturalista, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior</em></p>
<p>O inconsciente é linguagem, na psicanálise. O homem é linguagem, posto que é ser de cultura. Essas duas sentenças, em certa medida, traduzem o pensamento psicanalítico sobre a questão da linguagem, pensada por Lacan, que, ao fazer uma releitura da psicanálise de Freud, em associação a uma perspectiva estruturalista, sugere essa compreensão do inconsciente.</p>
<p>Sendo o homem um ser de cultura, este se desprende da natureza de forma irreversível. Por estar imerso na linguagem, o homem cultural se diferencia dos outros animais, posto que não mais se limita a imagem e a realidade aparente, mas transcende essas duas dimensões, que passam a ser cortada pelo simbólico. Na esfera do simbólico o homem transcende a realidade e é capaz de recriá-la através da imaginação, da fantasia, erotisando o sexo, erotisando o universo, que deixa de ser um dado factual para ser um sentido.</p>
<p>O homem é um ser pulsional. A pulsão, por sua vez, é marcada pela linguagem, pela cultura, pelos sentidos que se criam pelo homem, no mundo que passa a ser objeto de desejo. O desejo dá sentido à existência humana. O mundo desejado, o corpo desejado, o “eu” desejado. O homem, e o mundo, são os sentidos criados e recriados pela cultura, que deixa seus registros desde os primeiros momentos da vida infantil, através do processo de socialização, da amamentação ao banho, dos primeiros passos ás primeiras palavras. Na fala o homem, então, se constitui definitivamente, único e singular, despregado da natureza.</p>
<p>Também Paz, em seu livro de ensaios “O Arco e a Lira”, traz essa dimensão lingüística constitutiva do homem, concebendo-o como um ser histórico. A linguagem teria sua origem num determinado momento da história da humanidade que o definiu e o diferenciou dos outros animais, sendo esse retorno a natureza impossível, pois implicaria na perda da função da linguagem, enquanto recurso de representação e abstração da realidade que, foi fundamental para o desenvolvimento das sociedades, das leis, da cultura.</p>
<p>Haveria nos outros animais formas de comunicação, sendo a linguagem humana diferente das outras formas de comunicação diferente em termos de nível de complexidade. Essa diferença, no entanto, é definitiva e definidora. A linguagem humana não traz apenas sinais que remetem a estados emocionais que sinalizam perigo, fuga, presença de alimento ou corte, como nos outros animais. A linguagem humana não apenas reproduz a realidade, mas a cria e recria, reconfigura através dos múltiplos sentidos e significados que emergem da palavra viva.</p>
<p>A dinâmica da linguagem do inconsciente se dá, na psicanálise, através dos mecanismos de metáfora e metonímia, na cadeia associativa de significantes que envolve o deslocamento da pulsão, do objeto de desejo primeiro pela mãe, a outros objetos, no mundo. Da mesma forma funcionaria o sintoma, que se utiliza do recurso da metáfora substitutiva do trauma ou do objeto recalcado por outros conteúdos secundários. A emergência desse conteúdo latente, dotado de energia pulsional, poderia se dar através de manifestações como os sonhos, os chistes, atos falhos, manifestações corporais que, como linguagem, são dotados de sentidos e serem apreendidos pelo sujeito significante.</p>
<p>O próprio homem é o significante da linguagem, na psicanálise, aquele que traz o sentido à fala, não sendo esta atrelada ao significado, a uma representação direta da realidade. A realidade para a psicanálise é a realidade psíquica, e não a realidade factual. A linguagem, para a psicanálise, não é protótipo do mundo, mas um novo mundo, inconsciente, subjetivo, do próprio homem, simbólico.</p>
<p>Em Octávio Paz, essa compreensão se aplica à palavra poética. A linguagem, na poesia, rompe a sua qualidade comunicativa, deixando de servir apenas ao objetivo de representar a realidade, para expandi-la, tranfigurá-la, trangredí-la. A palavra é impossível de ser aprisionada pelos significados definidos, por um único objeto referente. A palavra é múltipla, e múltiplo o homem, que a pronuncia, é inscrito por ela. A palavra poética define o homem em sua condição simbólica, e sua existência é imprecisão. O homem é poeta, e na poesia é servo da linguagem, é veículo na qual ela se manifesta, incorpora, torna-se realidade.</p>
<p>O poema constrói o povo e revela quem somos. Através da palavra poética se criam sentidos, se funda a cultura, a humanidade deixa suas marcas definidoras, sempre reelaboradas. Partindo dessa perspectiva, Paz discute o caráter social da poesia e pensa sua função como criadora de subjetividade partilhada e pessoal. O poeta escreve o poema na linguagem comum aos homens, mas o acesso dos homens aos seus significados revelados, variam a cada época. A poesia emerge tanto em momentos de crise quanto de plenitude social. Na ordem, a poesia é patrimônio de todos, comunica à comunidade ideais comuns, guia a civilização por um caminho. Na crise, a poesia se torna hermética, individualizada, voltada para uma busca incerta de nortes, de sentidos perdidos no caos. Nesses tempos, os mesmos tempos que hoje vivemos, a poesia é revelação da decadência, é alerta, é grito que se faz inaudível no meio da multidão.</p>
<p>A psicanálise, em sua origem nos fins do século XIX, surge como manifestação da cultura revelando o homem moderno em suas neuroses. A Psicanálise é filha da decadência do mundo moderno, e se apresenta furando o campo das ciências exatas e naturais como uma nova forma de pensar o homem, na sua subjetividade, nos seus aspectos ocultos e velados. Assim, em muitos aspectos, ela se aproxima muito mais do fazer poético, do trabalho do artista.</p>
<p>A linguagem para a psicanálise não segue a linha da comunicação, em sua horizontalidade, na seqüência de significados encadeados que remetem a uma realidade factual. Os traumas tratados nem sempre tem um representante no vivido, mas fantasmático, inscrito na cadeia associativa inconsciente, desejo e castração. No método criado pela psicanálise, na associação livre, as palavras emergem como na poesia, rompendo o real, pulsionalizadas, vibrando. E o psicanalista, como o poeta, é servo de seu ofício, instrumento da linguagem, xamã que inicia o cliente, o sujeito, nas artimanhas da linguagem inconsciente. O mundo é lido na psicanálise através de uma forma própria, numa linguagem para iniciados, a linguagem inconsciente.</p>
<p>O lugar almejado pela psicanálise, em muitos momentos, é o de reveladora, permitindo ao próprio sujeito significante da análise a possibilidade de descobrir-se, aperceber-se de um conhecimento que ele mesmo traz em sua vida. Como o poeta, o artista, o analista seria aquele que facilitaria à humanidade ver além de sua realidade cotidiana, expandindo sua visão para além dos significados corriqueiros, dos condicionamentos, dos aprisionamentos. A poesia é a palavra sem fins utilitários. A psicanálise é a revelação da loucura de todos, de cada um de nós. Mas será mesmo?</p>
<p>Paz aponta para o perigo do poeta se transformar em propagandista, ser manipulador das massas, num tempo atual, em que as comunidades de desfizeram e a coletividade está padronizada. Também o psicanalista, ao utilizar-se da teoria psicanalítica, pode incorrer nesse perigoso caminho. Mas serão esses poetas e analistas verdadeiramente poetas e analistas? Ou o lugar da poesia e da psicanálise é, justamente, a margem. O poeta é marginal quando traz uma nova linguagem, quando perverte os sentidos, quando cria o novo. Também o analista deveria assim proceder, no exercício da psicanálise enquanto arte de revelação. Mas será que a psicanálise realmente nos revela os caminhos incosncientes de nossa própria existência, ou nos aprisiona no Édipo, no desejo incestuoso da mãe, no medo da castração, nas estruturas de personalidade, na neurose, psicose e perversão? De que psicanálise se fala e se pratica. Que poesia estamos vendo surgir hoje?</p>
<p>Se estamos vivenciando uma crise dos tempos, a mesma crise de a cem anos, no caminho da decadência da Modernidade, vemos emergir como costumes o individualismo exacerbado e a cegueira de massa, do consumo, do utilitarismo. Mais se escreve autobiografias, mais se lê livros de auto-ajuda e revistas tablóides. Se consome a vida alheia e se viva a própria vida amarrada às aparências, às tiranias da imagem padronizada, tiranizada pela mídia, pela moda. A poesia se torna silenciosa, como a voz dos intelectuais, e a psicanálise corre o risco de se tornar mais um objeto de consumo, um produto fetichizado de consumo, eliciando pequenas revelações que não necessariamente transformam o sujeito em ator de sua própria vida, mas mantêm no ciclo repetitivo. Esse risco não é apenas o da psicanálise, mas de todas as abordagens psicoterapeuticas.</p>
<p>Mesmo assim, ainda se tem a crença e a esperança de que é possível romper a lógica convencional, instaurando uma nova lógica, através da palavra poética, que transgride os significados dicionarizados e cambiando novas dimensões de sensibilidade. Para isso, é necessário que a poesia seja acessível a todos, que haja um compartilhamento da poesia, que novas linguagens ascendam do ordinário e novos sejam os iniciados, os profetas, os loucos.</p>
<p>____________________</p>
<p>*Texto escrito para a disciplina Tópicos Especiais de Psicanálise IV, ministrado pela Profa. Clarice Bacelar. UFBA, nov. 2007.</p>
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